segunda-feira, 5 de março de 2007

Funk também é cultura e o tio gosta

Foi o que você leu: o tio Xavier gosta de funk. Já falei isso milhares de vezes. Só que, mais uma vez again, volto a explicar aqui que gosto da Original Funk Music. Encontrei um texto no Orkut escrito por ESTE CIDADÃO e achei-o genial, digno de ir para a Wikipedia. Resolvi adicioná-lo neste blog como mais um esforço em minha busca insólita, pela purificação semântica da palavra funk. Isso tudo porque a maioria já sabe que eu odeio pancadão, proibidão e todos os derivados putrefatos, incultos, anti-líricos e analfabetos da batida de Miami, que se disseminaram nos morros cariocas. Na verdade meus instintos me fazem cogitar ações de homem-bomba nesse barracões. Farei-o assim que encontrar voluntários para a empreitada. Para se inscrever, deixe um comentário. Segue o texto do senhor Ricardo, com algumas observações e inserções de minha parte.


Os músicos negros norte-americanos primeiramente chamavam de funk à música com um ritmo mais suave. Posteriormente passaram a denominar assim aquelas com um ritmo mais intenso, agitado, por causa da associação da palavra funk com as relações sexuais (a palavra também era relacionada ao odor do corpo durante as relações sexuais). Essa forma inicial de música estabeleceu o padrão para músicos posteriores: uma música com um ritmo mais lento, sexy, solto, orientado para frases musicais repetidas - riffs - e principalmente dançante. Funky era um adjetivo típico da língua inglesa para descrever essas características. Nas jam sessions, os músicos costumavam encorajar outros a "apimentar" mais as músicas, dizendo: “Now, put some stank (ou stink/funk) on it!". Algo como: "Coloque mais funk nisso!". Em um jazz de
Mezz Mezzrow dos anos 30, Funky Butt, a palavra já aparecia.

Devido à conotação sexual original, a palavra funk era normalmente considerada indecente. Até o fim dos anos 50 e início dos 60, quando funk e funky eram cada vez mais usadas no contexto da soul music, as palavras ainda eram consideradas indelicadas e inapropriadas para uso em conversas educadas. Não é difícil associar esse preconceito com a origem étnica do têrmo, pois estamos falando de um país regido por leis brancas.

A essência da expressão musical negra norte-americana tem suas raízes nos spirituals, nas canções de trabalho, nos gritos de louvor, no gospel e no blues. Na música mais contemporânea, o gospel, o blues e suas variantes tendem a fundir-se. O funk se tornou assim um amálgama do soul, do jazz e do funk dos anos 70 até os dias atuais. Nos anos 70, George Clinton, com suas bandas Parliament e posteriormente a Funkadelic, desenvolveu um tipo de funk mais denso, influenciado pela psicodelia. As duas bandas tinham músicos em comum, o que as tornou conhecidas como Parliament-Funkadelic. O surgimento do Parliament-Funkadelic deu origem ao chamado P-Funk, que se referia tanto à banda quanto ao subgênero que desenvolveu.

Outros grupos de funk que surgiram nos anos 70 e incluem: B.T. Express, Commodores, Earth Wind & Fire, War, Lakeside, Brass Construction, Kool & The Gang, Chic, Fatback Band, The Gap Band, Zapp, Instant Funk, The Brothers Johnson, Skyy, e músicos/cantores como Rick James, Chaka Khan, Tom Browne, Kurtis Blow (um dos precursores do rap), e os popstars Michael Jackson e Prince (estes últimos dispensam apresentações e link).

Nos anos 80 o funk tradicional perdeu um pouco da popularidade nos EUA, à medida em que as bandas se tornavam mais comerciais e a música mais eletrônica. Seus derivados, o rap e o hip hop, porém, começaram a se espalhar, com bandas como
Sugarhill Gang e Soul Sonic Force. A partir do final dos anos 80, com a disseminação dos samplers, partes de antigos sucessos de funk (principalmente dos vocais de James Brown) começaram a ser copiados para outras músicas pelo novo fenômeno das pistas de dança, a house music. Foi uma enxurrada de remixes, new versions e raps feitos sobre bases mais antigas e conhecidas. Um clássico que praticamente originou a série foi Rappers Delight da Sugarhill Gang, que usou a base de Good Times, do grupo Chic. Estima-se que Good Times tenha sido de longe a base mais copiada que recebeu edições até do Queen em Another One Bites The Dust e do brazuca Gabriel O Pensador em 2 3 4 5 meia 7 8 entre outras.


Nessa época surgiu também algumas derivações do funk como o Miami Bass (esta famigerada que subiu os morros), Infor, DEF, Funk Melody e o Freestyle que também faziam grande uso de samplers e baterias eletrônicas. Tais ritmos se tornaram combustível para os movimentos Break e Hip Hop. As "crias" da Miami Bass deram origem também a grupos de eletrofunk como Information Society e vários da House Music. Os anos 80 viram também surgir o chamado funk-metal, uma fusão entre guitarras distorcidas de heavy-metal e a batida do funk, em grupos brancos como Red Hot Chili Peppers e Faith No More. O ex-produtor do Sex Pistols, Malcolm McLaren, após sair da banda fez grande sucesso com Buffalo Galls que introduziu o scratch (aquele efeito do disco esfregando) e adotou baixo e guitarra com distorção na música funk, inaugurando o estilo break.

Chega de papo acadêmico. Aí vai um medley-remix exclusivo, produzido pelo tio Xavier. Enjoy it!



domingo, 25 de fevereiro de 2007

Spaghetti au aglio by Xavier™

É domingo, está um calor lascado e mal dá fome. Você não quer passar a manhã toda na cozinha. Ainda mais para preparar aquele frango de novo ou aqueles bifes à milanesa que sujam a cozinha inteira. Na verdade você sonha com um convite para almoçar. Mas ninguém telefonou e você está quase sucumbindo ao restaurante mais próximo. Aí corre o risco de se empanturrar de comida gorda e calórica, inadequada para um dia quente. Muita calma. Leia bem este post, que o Tio Xavier™ vai ajudar você a sair dessa enrascada. A receita de hoje é leve e muito simples de fazer. Até você que é uma nulidade gastronômica conseguirá.

O macarrão é uma das bases culinárias mais versáteis na forma de preparo. Os melhores formatos de macarrão para ela são o tradicional spaghetti nº8 e o penne, nessa ordem. Mas você pode usar esta receita com aquele que mais lhe aprouver. Melhor dizendo, com aquele que tiver disponível.

Por favor: escolha um macarrão de boa marca. Há massas secas deliciosas como a Divella® (importada). Hoje em dia pode-se comprar tranqüilamente boas marcas nacionais, mas sempre com ovos, combinado? Dê preferência às grano duro, que são mais consistentes para obter o ponto al denti. Dito isso, vamos ao que interessa.

Ingredientes

- Um pacote de 500g de macarrão
- Duas cenouras pequenas, limpas e picadas em cubos pequenos
- Meia-dúzia de vagens frescas picadas.
- Uma lata (180g) de atum. O ralado é mais prático.
- Sal refinado.
- Pimenta-do-reino preta.
- Oito dentes de alho frescos e grandes, descascados.
- Uma xícara de salsa fresca picada.
- Azeite de oliva (de preferência o virgem).

Preparo

Cozinhe à parte em uma panela pequena, a cenoura picada com a vagem em rodelas. Coloque meia colher de chá de sal na água para dar gosto. Uma vez cozidos - mas consistentes - escorra a água e reserve.

Fure a lata do atum e escorra o óleo contido. Depois abra a lata coloque o atum em uma tigela, adicione uma pitada de sal, uma pitada de pimenta-do-reino, misture bem e reserve.

Esmague e pique os dentes de alho. Coloque uma pequena frigideira para aquecer com um pouco de óleo vegetal no fundo. Frite o alho em fogo brando, mexendo até dourar tudo de forma homogênea. Retire a frigideira do fogo e esfrie com um generoso despejo de azeite de oliva. Sem dó mesmo. Polvilhe sal a gosto e misture. Reserve. Na hora de despejar sobre o macarrão, você pode aquecer um pouco, na mesma frigideira.

Paralelamente, cozinhe a massa até o ponto al denti (verifique na embalagem o procedimento). Lembre-se de colocar duas colheres de chá de sal na água do macarrão, juntamente com um fio de óleo vegetal. Quando chegar ao ponto, escorra o macarrão e reserve.

Il gran finale

Em uma travessa espaçosa misture bem o macarrão, o alho frito com azeite, a salsa picada, os legumes cozidos e o atum. Espalhe tudo de forma equilibrada com muito cuidado, para não destruir a massa.

Para servir, decore o macarrão na travessa com pequenos ramos de salsa para dar um visual apetitoso.

Está pronta uma refeição simples, saudável e bem adequada para dias de calor. Não precisa de mais nada. Para beber, sugiro um bom vinho branco gelado.

Tempo de preparo: em média 30 minutos.
Rendimento: 4 porções (pessoas normais) ou 1 porção (pedreiros)
Calorias: não calculei, mas você se importa?

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Literatura nunca mais

Você tem problemas quando seus amigos começam a falar sobre literatura clássica? Não sabe o que dizer quando alguém pergunta se você já leu determinado livro? Fica constrangido porque na verdade você gosta de beber, fazer sexo e não tem tempo para essas babaquices?

SEUS PROBLEMAS SE ACABARAM!

É por isso que Tio Xavier está publicando mais um serviço de utilidade pública. O melhor e mais crítico resumo, jamais antes publicado, dos chamados "clássicos da literatura mundial", que na verdade são um pé-no-saco. Agora você brilhará nas reuniões arrasando com essa chatisse pseudo-intelectual dos seus amigos frustrados, que ao invés de transarem gastam as noites lendo. Vamos lá.

Madame Bovary, de Gustave Flaubert. 778 páginas.

Uma dona de casa mete o chifre no marido e transa com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do boteco, o dono da mercearia e um vizinho cheio da grana. Depois entra em depressão, envenena-se e morre. Não gaste tempo com isso. "A dama do lotação" do Nelson Rodrigues dá de dez nisso.

Guerra e Paz, de Leon Tolstoy. 1.200 páginas.

Um rapaz não quer ir à guerra por estar apaixonado enquanto Napoleão invade Moscou (óbvio pois ninguém era besta de querer enfrentar o general Bonaparte). A mocinha casa-se com outro. Sinceramente, mil e duzentas páginas para isso? Paulo Coelho teria feito melhor e mais resumido.

À La recherche du temps perdu, de Marcel Proust. 1600 páginas.

Um rapaz asmático e de modos delicados sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite. No dia seguinte (pule para a página 486 vol. I), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (se mande para página 1344, vol.VI) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito velhinhos. Acredita que tem gente que lê tudo isso? Eu não.

Os Lusíadas, de Luís de Camões. 652 páginas.

Um poeta com insônia decide encher o saco do rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas resolvidos por uma deusa super gente boa, ganham a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas. Isso prova que sempre existiram desocupados, mesmo nos tempos do império, no melhor estilo "Senta que lá vem história". Prefira assistir ao "Castelo Ra-Tim-Bum".


Romeo and Juliet, de William Shakespeare. 336 páginas.

Dois adolescentes rebeldinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro. As duas turmas saem na porrada, uma briga danada, muita gente se machuca. Então, um padre tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era sonífero. Pior impossível. Podiam ao menos se mandar para a Holanda e ficar se drogando em Amsterdan. Ao invés de ler isso, coma queijo com goiabada.

Hamlet, de William Shakespeare. 400 páginas.

Um príncipe com insônia passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que trepa com a mãe dele, cujo homem de confiança é o pai da namorada, que, entretanto se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio, que tinha matado o pai do seu namorado e trepava com sua a mãe. O príncipe mata o tio que trepa com sua mãe, depois de falar com uma caveira. Morre assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que tinha se suicidado. Puta merda! Essa gentalha não sabe trepar na surdina e ficar tudo de bem? Agora me diga, vale à pena percorrer 400 páginas por isso?

Édipo-Rei, de Sófocles. 72 páginas.

O xarope qualquer, não dá ouvidos ao que um ceguinho lhe diz e acaba matando o pai, depois trepa com a própria mãe e furando os olhos. Por conta disso, séculos depois, um tal de Sigmund lê isso e inventa uma nova forma de ganhar grana. Surge a Psicanálise que, enquanto mostra que você vai pelo mesmo caminho, lhe arranca os olhos da cara em cada consulta. Incesto caro esse. Édipo podia ao menos catar a mãe do príncipe Hamlet.

Othelo, de William Shakespeare. 368 páginas.

Vamos combinar que esse tal Shakespeare devia ser um tremendo vagal que além de tudo não trepava com ninguém. Mas eu explico só mais este. Um rei otário, tremendo zé-goela, tem um amigo muito do fdp que só pensa em passar-lhe a perna. O tal "amigo“ não ganha um cargo no governo e resolve se vingar do rei, convencendo-o de que a rainha está dando pra outro. O fato é que zé-mané acredita e mata a rainha. Depois descobre que não era corno, mas apenas muito burro por ter acreditado no traíra. Prende o cara e fica chorando sozinho. Prefira assistir a um filme com o finado Grande Otelo, mil vezes mais divertido.

* * * * *
Graças às informações acima, você economizou a leitura de pelo menos 5.400 páginas e mais R$ 500,00 em livros. Agora vá para a balada ou beber que é muito mais divertido. Quando o papo idiota de literatura começar, esculache com esses títulos, dizendo que são um lixo. Quem sabe nesses ambientes pinte alguém simpatizante a fim de sexo.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

A estrela Dalva

Um baile de Carnaval de matinê, onde idosos, jovens, crianças, deficientes, casais com filhos e toda sorte boas pessoas se divertem, cantam e dançam em meio à intensa chuva de confete e serpentina. Sonho? Nostalgia? Nada disso. Foi o que presenciei hoje no SESC da Vila Mariana em Sampa. Presenciei só não. Claro que entrei na dança, irresistível que era.

Eu havia deixado minhas queridas lá no início da tarde para nadarem um pouco, enquanto eu resolveria umas questões logísticas com uma amiga nas proximidades. Quando voltei para buscá-las, por volta de 16h, achei estranha a demora para o segurança liberar minha entrada ao estacionamento. O jovem, empunhando um "moderno" walkie-talkie de uns doze quilos, veio à minha janela cortês e educamente me explicar que estavam monitorando as vagas por causa da lotação. Esperei por uns dez ou quinze minutos até que fui liberado.

Ao circular pelas alas internas do clube, me deparei com um espaço onde uma porção de gente cantava e dançava ao som das mais originais, puras, ingênuas e agradáveis canções carnavalescas. Nada lembrava a beijação desesperada e nojenta dos micareteiros, nem esfregação de bundas suadas do carnaval em Salvador, nem gente tentando tirar lasquinhas de partes de outrem como em bailes-funk. Nadica de nada. Tudo na mais pura diversão e espontâna alegria em que as pessoas dançavam de mãos dadas e carregavam no pescoço suas crias. Um típico baile familiar.

No palco estava Maria Alcina. Com seus quase sessenta anos mostrava que ainda vai animar bailes por algumas décadas. A tiazona esbanjou um fôlego digno de inveja, já que vozeirão todos sabemos que ela tem. No repertório, as tradicionais marchinhas, intercaladas com sambas-enredo famosos e adaptações carnavalescas de sucessos como Fio Maravilha, de Jorge Benjor. Coisa da melhor qualidade, pra bons ouvintes jamais botarem defeito. Até as marchinhas hilárias do Sílvio Santos tiveram lugar no repértório.

Imediatamente liguei para minha amiga, com quem estou bolando um plano para salvar o mundo. Pedi para ela adiar algumas ações, até que consigamos mapear melhor os locais. Temos que preservar esse monte de gente boa que ainda sabe brincar o Carnaval.

"A estrela Dalva
no céu desponta.
E a lua anda tonta
com tamanho esplendor.
E as pastorinhas
pra consolo da lua,
vão cantando na rua
lindos versos de amor..."
(Braguinha e Noel Rosa)

sábado, 17 de fevereiro de 2007

The year of the pig


Não tenho mais dúvidas. Este será o ano de o tio tirar o pé da lama. Vejam se isso não foi um sinal:

No começo desta noite o tio estava dirigindo pela Rod. José Ermírio de Moraes, mais conhecida como "Castelinho" nas proximidades de Sorocaba. Num lance de farol alto vi algo inusitado, mas em tempo de reduzir a velocidade. Era um porco gigantesco atravessando a estrada, que de tão grande cheguei a achar que era um javali. Na boa que o bicho pesava uns duzentos quilos. Praticamente parei para não atropelar o animal e esperei-o terminar a desengonçada travessia. Era gordo mesmo.

Uma hora e tanto depois, cheguei em casa, liguei a tv e um noticiário danou a mostrar os festejos do ano-novo chinês. Ano do porco, que para os chineses significa ano de fartura, de enriquecimento e prosperidade.

Foi ou não foi um sinal?

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Frases em embalagens

Esse texto já virou uma lenda cibernética. Diz a lenda que as frases abaixo foram encontradas em embalagens de produtos à venda em prateleiras de supermercados em Portugal. Não duvido mesmo que a maioria seja verdadeira.

Num secador de cabelos:
"NÃO USE QUANDO ESTIVER DORMINDO"
(Sei lá, você pode querer ganhar tempo)

Na embalagem do sabonete anti-séptico Dial:
"INDICAÇÕES: UTILIZAR COMO SABONETE NORMAL"
(Boa! Cabe a cada um imaginar pra que serve um sabonete anormal)

Na embalagem do ferro de passar Rowenta de fabricação alemã:
"NÃO ENGOMAR A ROUPA SOBRE O CORPO"
(Gostaria de conhecer a infeliz criatura que não deu ouvidos a este aviso)

Em alguns pacotes de refeições congeladas Swan:
"SUGESTÃO DE APRESENTAÇÃO: DESCONGELAR PRIMEIRO"
(É só sugestão! De repente o pessoal pode estar a fim de chupá-las como picolé)


Numa touca para a ducha:
"VÁLIDO PARA UMA CABEÇA"
(Alguém muito romântico poderia colocar a si e à pessoa amada na mesma touca)

Na sobremesa Tiramisú da marca Tesco, impresso no lado de baixo da caixa:
"NÃO INVERTER A EMBALAGEM"
(Ops!!! Leu o aviso é porque já inverteu!)

No pudim da Marks & Spencer:
"ATENÇÃO: O PUDIM ESTARÁ QUENTE DEPOIS DE AQUECIDO"
(Esse estudo foi feito por físicos da NASA)

Num expectorante pediátrico, da Boots:
"NÃO CONDUZA AUTOMÓVEIS NEM MANEJE MAQUINARIA PESADA, DEPOIS DE TOMAR ESTE MEDICAMENTO"
(Melhor mesmo é manter qualquer criança longe do controle de veículos e escavadeiras)

Nas pastilhas para dormir da Nytol:
"ADVERTÊNCIA: PODE PRODUZIR SONOLÊNCIA"
(Pode? Então pode ser que não produza?)

Numa faca de cozinha:
"IMPORTANTE: MANTER LONGE DAS CRIANÇAS E ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO"
(Tente imaginar um cão empunhando uma faca)

Numa caixa de luzes decoração de Natal:
"USAR APENAS NO INTERIOR OU NO EXTERIOR"
(Haverá outra forma?)

Nos pacotes de amendoim da Sainsbury:
"AVISO: CONTÉM AMENDOINS"
(Ah... estragou a surpresa)

Num saquinho de batatas fritas, cujo fabricante fazia uma promoção:
"VOCÊ PODE SER O VENCEDOR. NÃO É NECESSÁRIO COMPRAR. DETALHES DENTRO".
(Sem comentários)

Numa fantasia infantil de Super-Homem:
"O USO DESSE TRAJE NÃO O TORNA APTO A VOAR".
(Traumatizante como destroem a imaginação das crianças!)

E essa achei a melhor de todas:

Numa serra elétrica da Husqvarna, de fabricação sueca:
"NÃO TENTE DETER A SERRA COM AS MÃOS OU OS GENITAIS"
Alguém já terá tentado?

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Horror, náusea e nojo

Eu prometi a mim mesmo que não escreveria uma linha sequer sobre essa monstruosidade. Há muito que detesto noticiários, jornais em geral e programas mundo-cão. Mas ouvi por acaso a notícia no Transnotícias, programa de rádio protagonizado por três amigos muito queridos, de quem já falei aqui.

Como pai de uma criança na exata idade do pequeno barbarizado, o que senti ao tomar conhecimento foi o mesmo sentimento nauseabundo, ao imaginar o terror e abandono vivido pelo pequeno, nos minutos que o dilaceraram e tiraram sua preciosa vidinha. E penso no coração também dilacerado da mãe, no sentimento de impotência e na cena da absurda tragédia desaparecendo no horizonte, coisas que jamais abandonarão sua alma. Hoje, após lembrar involuntariamente da notícia e não conseguir conter minhas lágrimas decidi republicar a coluna do meu amigo Pelegi. Ele de certo modo conseguiu traduzir parte dos meus sentimentos e quiçá de todos os seres conscientes da vida.
Náusea (Texto de Alexandre Pelegi)

"Vi o noticiário nas primeiras horas desta manhã e fiquei paralisada ao saber do assalto no Rio de Janeiro que culminou na morte violenta de um menino de 6 anos. O espaço que há em mim para alocar barbáries e atrocidades não é o bastante para conter a minha consternação. O choro não ameniza o que sinto quando inevitavelmente se repete na minha imaginação a cena da criança sendo arrastada e esfacelada diante da impotência do público apavorado. Tampouco me conforta quando me coloco no lugar da mãe zelosa que conduzia seus filhos na segurança dos cintos que a maioria ignora e que, pela ação dos assaltantes, é lançada à mais dilacerante das experiências ao alcance de alguém; assistir à dor e agonia de seu filho, impossibilitada de qualquer atitude que possa salvá-lo do sofrimento e morte trágica. Estou em estado de aniquilamento. O que preciso hoje é esquecer que sou da espécie "natureza humana", portadora tanto do que faz bem quanto de monstruosidades como esta."

É minha amiga Maria Balé quem escreve, enojada com o desfecho trágico de mais um assalto nas ruas de nossas cidades. Aconteceu no Rio de Janeiro, mas sabemos que poderia ter acontecido – e poderá acontecer a qualquer instante – em qualquer parte do país. Vi mais tarde, pelos jornais da TV e na internet, que a polícia prendera os assassinos – três rapazes, um deles classificado nessa cada vez mais elástica denominação “menor de idade”.

Os bandidos – não seria mais correto chamá-los monstros? -, com o intuito de roubar um carro, arrastaram uma criança por sete quilômetros, atravessaram quatro bairros, passaram em frente a um quartel do Corpo de Bombeiros, a um Fórum de Justiça e a um quartel do Exército. Não havia polícia, não houve quem os detivesse. Os jornais informam que os jovens assassinos estavam tão certos de que não seriam presos, que estacionaram e trancaram o carro antes da fuga, e saíram calmamente da cena do crime.

Minha amiga descreveu com precisão a revolta que sinto. Nestes dias em que ainda repercutem as notícias de que nosso planeta está à beira do caos ambiental, culpa da ganância e irresponsabilidade de muitos, reforço ainda mais minha certeza de que a natureza apenas reage aos monstros em que nos convertemos. Me assusta o pressentimento de que nossa destruição como raça acontecerá da pior maneira possível – muitos de nós estão se tornando a cada dia mais cruéis, mais insensíveis, mais egoístas.

Que a revolta que sentimos não nos tire o pouco de esperança que ainda resta em um planeta viável. Mas que sirva, ao menos, para aumentar nossa indignação. Por trás de cada crime há várias autoridades omissas, muitos políticos corruptos, quase nenhuma punição. Não basta reclamar penas mais duras contra bandidos conhecidos. É preciso cortar o círculo vicioso que alimenta a violência.
(Texto publicado em "Voz Corrente" no site do programa nesta data)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

A odisséia da cidadania

Dezembro de 2006:

- Bom dia, moça! O tio precisa renovar a habilitação. É aqui?
- O senhor está com a carteira vencida?
- Sim, veja.
- A do senhor é das velhas que nem têm foto - a jovem gorducha faz questão de me jogar a idade na cara - .
- É o que está aí - disse eu visivelmente desagradado - .
- Então o senhor terá que estar fazendo o CFC ou os exames de defensiva e primeiros socorros.
- E onde diabos é isso?
- O senhor pode estar procurando qualquer CFC no seu local mais próximo e estar se informando.

Eu estava em uma das unidades do Poupa-Tempo, ou "gasta-tempo", como insisto em chamar. Para quem não é de SP explico: São gigantescas unidades de serviço burocrático governamental de múltiplas repartições. Em um só local um cidadão pode tratar assuntos de quase todas as áreas documentais e tributárias. Deve haver similares em outros estados, creio eu. Enfim, uma boa idéia. Mas o fato é que eu ainda estava sem habilitação, dirigindo ilegalmente mas foi por expiração de validade. Nunca acumulei pontos de infração que me suspendessem a CNH. Sou um motorista exemplar.

[/intervalo de alguns dias]

Achei um tal CFC autorizado a ministrar os exames. A atendente bem que tentou me vender um cursinho para eu saber o que havia sido alterado no Código de Trânsito e alguma outra coisa que me faria sentar a bunda por três dias na tal escola e deixar um polpudo cheque, mas rejeitei. Depois me deu como alternativa baixar umas tais apostilas de direção defensiva e não sei mais o quê na internet e rachar de estudar, pagando apenas o exame (R$28). Claro que esta era a alternativa mais barata e topei. Melhor ainda: mais tarde lembrei que a tia darling tinha as tais apostilas as tomei emprestadas. Dias depois fui fazer o famigerado teste no computador do CFC e tive a brilhante, sensacional e invejável avaliação de 90% de acertos. Considerando que sequer olhei as malditas apostilas foi muito bom. Tudo bem, eu confesso: as perguntas eram do tipo "se devemos ligar os limpadores de pára-brisa durante a chuva" ou "acender os faróis à noite" e coisas complexas assim. O importante é que já de posse do certificado e recibo de pagamento retornei semanas depois ao Poupa-Tempo.

[/intervalo de mais alguns dias]

- Olá moça, eu trouxe aqui o certificado. Aqui está minha CNH antiga. E meu RG.
- E as fotos, tio?
- Fotos? Vocês não capturam a imagem das pessoas com câmera digital?
- Não mais senhor. Esse sistema foi suspenso e não sabemos quando volta. A gente escaneia (sic) - tome neologismo digital - a foto que o senhor trouxer.
- Escaneia a foto?
- Sim. E o senhor pode estar tirando lá embaixo no fotógrafo do Poupa-Tempo.
Contrariado saí do atendimento e lá fui tirar as malditas fotos. Fotos digitais, diga-se de passagem. E como o tio não é lá muito fotogênico, é fato que as fotos ficaram horríveis. Bom, mas a máquina só reproduz o que focalizou, fazer o quê? Volto ao atendimento com as fotos.
- Olá moça, eu trouxe aqui o certificado. Aqui está minha CNH antiga. E meu RG. E agora as fotos.
- Xi senhor, esse RG é muito velho.
- Mas está legível e inteiro.
- Sim, mas sua foto está muito apagada. Esse documento é de 1.983 - joga mais uma vez na minha cara - e não identifica mais o senhor.
- Cáspita, mas e aí?
- O senhor vai ter que estar indo na SSP e tirando outro, antes de estar vindo fazer a CNH. Mesmo que não estando pronto, o senhor pode estar dando entrada na CNH só com o protocolo do RG.
- E onde eu faço o RG?
- Na ala B. Lá tem a SSP.
- Obrigado.
...

- Olá moça, eu preciso fazer meu RG.
A robótica responde:
- Certidão de nascimento ou de casamento original e uma cópia, foto 3x4. RG antigo o senhor perdeu? E um comprovante de endereço.
- Veja, eu tenho o RG que dizem estar velho. Não pode ser ele, já que vocês têm o cadastro aí na SSP?
- Por que? O senhor não tem certidão de nascimento original?
- Na verdade até tenho. Mas sou divorciado.
- Certidão de casamento averbada.
- Casseta, mas o cartório é no interior de SP.
- Então o senhor pode estar indo na central dos cartórios e estar pedindo uma segunda via.
- Onde é isso?
- Segundo corredor à direita.
- Obrigado.
...

- Olá moça, eu preciso tirar o RG, pra poder renovar minha CNH. Mas preciso de uma segunda via da minha certidão de casamento com a averbação do divórcio.
- O senhor sabe qual cartório?
- De Jacupiranga do Oeste* .
- Um momento - e fica digitando algo no computador - Aqui diz que nessa cidade tem dois cartórios civis, o senhor sabe qual é?
- O primeiro.
- Aqui estão os dados do cartório para o senhor estar entrando em contato. Se quiser podemos estar pedindo por aqui mesmo. Demora cerca de quize dias. Custa trinta reais, mais as despesas de Correio.
- Não tenho remédio. Peça.
- Qual é a data, livro, página e número da certidão?
- Ahn?
- Precisa desses dados para eles estarem achando lá. No mínimo a data do casamento ou do divórcio.
- Essas datas a gente prefere esquecer, moça. Fala sério. Posso chutar?
- Poder pode, senhor, mas se eles não acharem, depois de quinze dias eles vão estar respondendo que não acharam e vão estar demorando mais quinze para estarem devolvendo seu dinheiro.
Neste momento eu penso em quanto odeio gerundistas. Lembro que já é dezembro, começa a correria do Natal e do Ano-Novo. Tudo só se resolverá em janeiro. Então pra que ficar me esborrachando né?
- Obrigado senhora. Eu volto outro dia.
- De nada.
...

Janeiro de 2007:

Depois de gastar alguns interurbanos e conseguir do cazzo do cartório a mardita da certidão da merd... ah, deixa pra lá.

- Olá moça, eu preciso tirar o RG. Trouxe uma segunda via da minha certidão de casamento com a averbação do divórcio.
- Deixe eu ver. Hum... certo... foto... comprovante de residência... certo... Tudo bem senhor! Agora o senhor vai ao banco com esta senha - e me dá um papel - para estar recolhendo a taxa.
- Onde é o banco?
- Do lado do pavilhão central. Tem uma placa enorme lá.
- Obrigado. Já volto.
...

- Voltei, moça. Aqui está a guia recolhida e os documentos. Tudo aqui.

Pouparei o leitor do ritual de impressões digitais, assinaturas e questionário verbal no qual quase perguntaram quantas relações sexuais eu tenho semanalmente. Mas, antes tarde do que mais tarde. Peguei o protocolo do RG e pude ir ao Detran atualizar a CNH. Simples assim? Não, ainda recolhi outra taxa no banco, fui examinado por um médico e peguei mais umas três filas. Agora são filas de sentados com senha. Tinha até um porta-revistas com exemplares que servem de analgésico pela demora.

Fico pensando que, se é difícil assim para quem tem acesso à informação, sabe engraçar com atendentes, desembolsar taxas e emolumentos, telefonar para outras cidades e pagar antecipadamente por segundas vias de documentos, como será que faz o migrante pobre que veio de Caatinga dos Pelados* no interior da BA, do CE ou do PI e perdeu os documentos no bagageiro do Itapemirim? Ou simplesmente não faz?

CNH, RG, CPF, CC, CN, PIS, Título de Eleitor, CTPS, Reservista... Será que não dá pro Governo simplificar a identificação de um pobre cidadão? Precisamos mesmo de tudo isso?

Que venha o guarda. Agora o tio é habilitado.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Pesquisa política em MG

A estagiária de jornalismo está dando um duro danado em uma pesquisa de campo. Foi designada para uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. Bate palmas à porta da primeira casa, da longa jornada do dia.

[clap clap clap clap]

Um matuto abre só a frestinha da porta, o suficiente pra pôr o olho.

- Bom dia senhor!
- Dia!
- Sou de um instituto de pesquisas e estou fazendo uma qualitativa de opinião. Este é meu crachá. Posso entrar?
- Uai, institu di quê?
- Pesquisa senhor.
- I tem pisquisá logu aqui?
- Não senhor. Vários bairros da cidade estão sendo pesquisados. Eu fui designada para este.
- I num há di tê otras casa?
- Todas vão ser pesquisadas. Comecei por aqui. Então, posso entrar?
- Sei não sinhora.
- Como não sabe, meu senhor? O senhor não é o dono da casa?
- Sô donu di nada não.
- Mas o senhor não mora aqui?
- Moru, mais di aluguel.
- Não importa. Por favor senhor, é um trabalho importante.
- Tindi. Fazê u quê? Intão entra, uai.

Contrariado, o mineiro abre a porta e a moça vai entrando.

- Com licença. A pesquisa é sobre política local.
- Xi. Lá vem cois...
- Qual seu nome, por favor?
- Nomi? Como assim?
- Nome, senhor, seu nome. Preciso preencher no formulário.
- Mais aí ocê vai fazê u quê cum meu nomi?
- Absolutamente nada, senhor. Os dados são sigilosos e não vão jamais ser divulgados, ok?
- Uai, si num vai divurgá intão num há di tê pricisão du meu nome, num é mes?
- Mas senhor...

Nesse momento a garota lembra que precisa visitar mais tantos lares naquele dia e resolve escrever qualquer nome no formulário.

- Muito bem senhor! Vou escrever aqui José da Silva, ok?
- Ocê qui tá dizênu.
- Bem, o senhor acompanha a política daqui da cidade, certo?
- Sei nadinha di pulítica não, môça.
- Como não? O senhor não é daqui?
- Sô não sinhora.
- De onde o senhor é?
- Di otra cidade.
- Sim, mas mora nesta casa há quanto tempo?
- Aqui?
- Sim.
- Nessa casa faiz sêis mêis.
- Então o senhor chegou há pouco tempo na cidade?
- Um tiquim.
- Quanto tempo?
- Uns quinzi anu, achu.
- Ora bolas, então onde o senhor morava antes desta casa?
- Na rua ditráis, uai.

A pesquisadora começa a suar.

- Vamos lá: Em qual candidato o senhor votou para prefeito nas últimas eleições?
- Quandu é qui foi isso?
- Foi no final do ano passado. E o senhor já morava aqui, não é?
- Já disse qui não dona. Eu morava na rua di tráis.

A moça desiste da questão e assinala qualquer coisa.

- Entendo. Então vou para a questão dois. O que o senhor acha da prefeitura daqui?
- Nunca fui lá não.
- Estou perguntando da administração da cidade.
- Qui tem ela?
- Esta página da pesquisa é de satisfação. A administração é boa ou ruim?
- Ah... uns diz qui é boa... otros diz que é ruim.
- E o senhor?
- Qui tem eu?
- O que o senhor diz?
- Digo nada não, dona. Só vô iscutano as prosa dus ôtru.

A estagiária sonha com o dia em que trabalhará em uma redação.

- Pois bem senhor e os vereadores?
- Di ondi?
- Daqui, ora!
- Conteceu arguma coisa cum eles?
- Não, mas em qual vereador o senhor votou na última eleição?
- Sei não.
- Como não sabe? Na sua porta tem um cartaz de um candidato.
- É messss... Qui coisa, dona! Si a sinhora num fala eu num tinha vistu, sô. Vai vê tá aqui dêis di antis di eu mudá e num notei. Inda bem qui a sinhora aviso... Já vô inté mandá tirá... Ô fio, vem cá mais u pai fazê uma cois... Essas criança são fogo dona... Priguiços qui só... Ói um dia dess u minorzim deles, me aprontô uma...
...

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

O futuro que nos espera

"Que pena que ela vai morrer. Mas quem vive?" - Com essa frase rememorada pelo policial Deckard, protagonizado pelo impagável Harrison Ford, termina a Director´s Cut de Blade Runner. Sem dúvida um dos melhores filmes SCI-FI de Hollywood.

Depois de vê-lo no cinema mais de uma vez na época em que fora lançado, adquiri o vinil da trilha sonora, depois comprei as duas versões em CD (uma com a New American Orchestra e outra com o próprio Vangelis), eis que chega à coleção do tio Xavier o DVD do filme. De tanto procurá-lo em vão eu já cogitava mandar digitalizar meu conservadíssimo VHS, mas não foi preciso. Pela bagatela de vinte e cinco reais pude adquirir no Submarino uma cópia remasterizada de ótima qualidade. Entre tê-lo achado na internet, preencher o pedido e pagar o boleto, meu impulso de compra foi tal que fiz tudo em menos de cinco minutos. Acho que era medo de que o estoque acabasse.

A Los Angeles de 2019 pintada por Ridley Scott é soturna, chuvosa, poluída em todos os sentidos, superpopulosa, impessoal e fria. Saturada pela mão destrutiva da civilização, a Terra está inabitável. Grandes empreendedores imobiliários do futuro anunciam loteamentos em outros planetas colonizados. É o homem predador levando a cabo a missão que criou para si, de devastar todo o Universo à sua volta. A Engenharia Genética, através da Tyrrel Corp cria os replicantes, uma espécie de andróides semi-humanos, para servirem de escravos e guerreiros na nova conquista do Oeste, desta vez a rapinar terras muitos anos-luz distantes do Arizona, com espaçonaves no lugar de diligências. Os replicantes são planejados para não saber que o são e para durabilidade finita. Porém, um grupo deles toma consciência dos fatos e se amotina em busca do segredo para viver mais. O ex-policial Deckard é intimado a prestar serviços novamente no extermínio dos invasores. Um enredaço baseado no livro de Philip K. Dirk, Do Androids Dream of Electric Sheep? (Os andróides sonham com carneiros elétricos?).

Blade Runner é um filme profundíssimo, cuja fotografia e cenografia são labirintos de sutilezas. Como no instante em que Deckard tira o casaco e aparece por baixo uma camiseta que lembra uma camisa cowboy. Ele a qual despe - também simbolicamente - ao confrontar-se com estonteante replicante Rachael (Sean Young) por quem se apaixona. As questões existenciais clamadas pelo filme percorrem as dúvidas sobre os destinos da civilização. Escancara que, diante do sistema que levou o mundo ao caos da Los Angeles de 2019, andróides e humanos são difíceis de se diferenciar na multidão. Mais do que na aparência, no papel de cada um na manutenção silenciosa do sistema em que as multidões patéticas mais parecem reses abate. Como andróides? Durante uma das caçadas em que Deckard sai atirando e atropelando a multidão, vê-se um grupo de Hare-Khrishnas cantando a boa e velha Hare-Hare. Essa aparição sugere que a busca pelo divino e o transcendente talvez nunca morra, mesmo naquele futuro caótico e tenebroso.

É quase certo que em 2019 as metrópoles ainda não estarão como no retrato cinematográfico de Riddley Scott, ao menos no que diz respeito à tecnologia e ao visual. Porque essencialmente cada vez mais será difícil diferenciar os humanos dos andróides. Seremos todos criação da indústria genética para a manutenção do sistema? O que nos faz humanos? - são questões que, de modo cifrado, o replicante Roy (Rutger Hauer), tece no seu discurso de morte. Time to die, em suas últimas palavras.

* * * * *

Agora chega. Compre o seu e assista. De preferência dezenas de vezes, como o tio Xavier. Sinto que há mais a filosofar com essa pérola cinematográfica do que pode imaginar a nossa vã TV aberta (eca!).

Nota: O Submarino, a Warner, o Ridley Scott e o Harison Ford nada pagaram ao tio por essa babação de ovo. Mas não resisto. O filme é mesmo sensacional.

Comemorar?

Diferente do post sobre o aniversário de Sampa que fiz ano passado, neste ano um realismo pesaroso ronda minha mente. Eu já protagonizei o filho arrependido da parábola cristã. Isso ocorreu no início da década passada depois de tentar a vida em uma cidade do interior. Sampa me recebeu com ressalvas, mas depois me acertei com ela, ficamos de bem novamente e saboreei de cada oportunidade do cotidiano que ela oferece. Saí sem grana e desfrutei de atrações gratuitas, saí com o bolso cheio e me diverti em baladinhas e bares caros, já tive o carro roubado à mão armada, outro furtado em minha ausência, já arranjei empregos, namoradas - atividade que cessou na atual companheira - , vi temporais e a garagem do prédio encher-se de água naufragando meu fusca, mudei de casa, abri meu próprio escritório, reencontrei amigos antigos, perdi outros... isso não tem fim e renovo diariamente. Morar em Sampa é algo único.

Mas minha reflexão de hoje me remete a um recém-conhecido na cidade. O buraco da obra do metrô, filho mais novo desta metrópole. Tudo bem que eu também estou de saco cheio dele. Até mesmo minha caçula um dia desses desabafou, ao ver a milésima chamada de noticiário a respeito dele. Mas eu insisto que há mais para entender naquele buraco.

O que está por baixo daquele buraco além do entulho e - tomara que não - mais algum cadáver? Me perdôe pelo comentário mórbido, mas o buraco é o símbolo de nossa cova comum. Do pó vieste, ao pó voltareis, parece ser a voz que vem do fundo da vala. Ou decifra-me ou devoro-te diria o buraco se tivesse a formosura da esfinge egípcia. Mas o buraco é feio, decadente, escuro e úmido. Talvez seja mal-cheiroso também. Acima de tudo, a cratera conta uma história.

A história é de uma metrópole construída por barões do café, que por tanto e quanto tempo deram as cartas no que eles chamam de desenvolvimento. Não reclamarei da falsa pompa de outrora, quando gente bonita rica e bem trajada cruzava o Viaduto do Chá e lindas mansões ostentavam o impressionismo realista dos manda-chuvas. Na verdade nem meus pais viveram essa época (sim, sou um tio jovem). Mas falo de coisas e circunstâncias muito mais próximas de nós.

Falo do fim de um falso milagre econômico feito à custa de poupança de viúvas européias com juros quase simbólicos. Um sonho que morreu definitivamente no início da década de 80 também soterrado, mais tarde pela cratera-panacéia do Plano Cruzado. Falo de um descaso absurdo com os milhões de migrantes que até então foram intencionalmente atraídos para cá. Foram bons porquanto serviram de carregadores de tijolos e limpadores dos quintais das lindas mansões. Com o fim delas e das grandes obras governamentais, passaram à condição de seres errantes ciscando trabalhos temporários e se desqualificando moral e socialmente a cada dia, à cada geração, engolidos pela informalidade e pelos imensos camelódromos controlado por mafiosos ricos.

Falo de serviços antes públicos e reconhecidamente de responsabilidade dos Governos. Nada mais justo já que do sustento da maioria eles tiram as primeiras fatias do toucinho. São escolas podres, postos de saúde simbólicos, policiais mal-remunerados, transportes insuficientes para os fluxos humanos que vão dos bairros-dormitório, como Itaquera, até os suntuosos centros empresariais como a Berrini. Se você morar em um bairro de periferia, já deve estar cansado de saber que nós e nossos familiares são transportados em um serviço autônomo de vans controlado pelo PCC. Cadê a saudosa CMTC? Depois da privatização, foi esse o destino das linhas que os empresários foram rifando para as cooperativas de transporte auto-geridas. Nesse contexto o buraco desabado é somente o resultado de um Estado que se retirou até mesmo da supervisão e fiscalização das obras públicas, num belo exemplo da aplicação da privatização universal e sem critério.

São décadas de rodízio simbólico de partidos e arremedos de gestões populares, mas que se somam e resultam em uma deterioração visível a qualquer um. Enquanto isso a burguesia cafeeira depois de vender suas lindas mansões na Paulista para construtoras de prédios que esconderam os céus, agora ela própria se esconde em condomínios fortificados inclusive em municípios vizinhos, como Barueri. Criam suas fortalezas para passar seus dias imunes à tamanha cagada pseudo-gestora em que insistem prosseguir, pois o importante é levar vantagem em tudo, como profetizou a famigerada propaganda de cigarro.

E a população de Sampa continuará amanhecendo trabalhando e anoitecendo trabalhando. Ao menos enquanto o buraco da obra da deterioração social não se expandir e engolir a tudo. Mas acredite que de certo modo nós todos - tanto os protagonistas quanto os omissos - estamos lá debaixo do soterramento. Nossa cova coletiva, vala comum de nossa morte. Pena que nem os bombeiros nem as cadelas farejadoras parecem nos encontrar.

Ei senhores, onde vão? Voltem aqui!

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Sorte tem quem acredita nela

O tio não costuma jogar. Mais precisamente o tio odeia jogatina, inclusive loterias legais ou ilegais. Mesmo assim, no ano passado - não me faça perguntas - eu comprei esse bilhete acima, o qual ficou por meses esquecido até que hoje resolvi tirá-lo da carteira e conferir. Não sem antes ler as cláusulas no verso pelas quais descobri: os prêmios prescrevem em noventa dias.

Sim, meu caro leitor, se você comprar um bilhete, ele for premiado e não retirar a grana em noventa dias, ela vai-se embora para sempre, para algum fundo de habitação ou sei lá o quê.

Well, o tio resolveu conferir o dito no site da CEF. Pra começar que essa extração não constava mais no site e tive que fazer download de um arquivo com todas as 54069461460 extrações desde a década de 1960. Eis que achei a que me interessava. Adivinha?

Não meu caro amigo, não terei sequer o que reivindicar na Justiça, porque os números nem passaram perto. Por incrível e contraditório que isso possa parecer eu suspirei aliviado. Mas fique esperto: ao comprar um troço desses confira tão logo a extração saia. Coloque lembretes no monitor, alarmes no Google Agenda, anote na sua agenda de mão, no seu palmtop e no seu celular. Senão, lamente depois.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

A Sociologia das Filas

Hoje uma amiga me propiciou um momento de sinapse único e demarcador de uma nova etapa em minha vida. Ela me contou que foi ao Fórum Cível em Sampa e lá havia uma imensa fila para atendimento. Para entender melhor o meu artigo, leia antes AQUI. Mas as histórias possuem alcance muito maior do que as intencionadas pelos seus protagonistas e narradores. E foi lendo a narrativa dela que tive um instante de iluminação, subindo um degrau rumo ao Nirvana. A Sociologia das Filas é um ramo do estudo sociológico que até agora não havia sido explorado por nenhum outro estudioso. E a partir deste post, tio Xavier passará a ser uma referência acadêmica mundial no assunto.

Existe uma razão psicossocial para a existência das filas. Elas vão muito além das motivações aparentes. Entenda: quando você vê uma fila de banco não se trata de uma simples fila de banco. É na verdade um evento social construído pelo inconsciente coletivo das classes populares. Trata-se da oportunidade que o povão, o populacho, o proletariado - ou seja lá como você queira chamar a gentalha - cria para se relacionar, interagir e se reafirmar como sujeito social.

Veja a dona Francisca* do post mencionado no caput deste artigo. É bem possível que, depois de a Red´s ter se mandado da repartição pública, a dona Francisca tenha feito o mesmo. A fila para ela, enquanto terapia, já tinha cumprido sua função. Dona Francisca jamais ouvira falar em Freud e Jung e sequer teria grana para pagar um profissional da Psicologia. Mas o inconciente dela sabia que ela encontraria a Red´s na fila para ouvir as suas lamúrias bostiais. Nada mais. Dona Francisca foi embora aliviada e graças à função terapêutica da fila, conseguirá suportar o cheiro de fossa por mais alguns dias, sem esfaquear o vizinho imundo.

A fila e a afeição que o povo tem por ela remonta a períodos muito antigos da história da humanidade. O que teria sido o Êxodo senão uma grande fila de povão atrás de Moisés? Os hebreus sequer questionavam a escravidão em si e nisso os teólogos da libertação erraram feio. O povo não seguiu o fundador do judaísmo em busca de liberdade até porque a maioria nascera em cativeiro e nunca imaginara outro modo de vida. Seguiu porque Moisés conseguiu formar uma pequena fila. E os hebreus foram atrás dessa fila. A maioria sequer sabia o destino ou quem era o guia. Alguns questionaram e foi depois de muitos dias, por causa da falta de alimento.

Falando em alimento, é só olhar os supermercados. Todos sabem que há carne cortada, selecionada e pesada nas bandejinhas das gôndolas refrigeradas. Mas o povão faz questão de pegar a fila do açougue do mercado. Não é como todos pensam - para obter cortes privilegiados - mas pelo simples ato de fazer parte de uma fila. Senão como explicar que o povão lote os supermercados nos mesmos dias do mês e nos demais encontrarmos os caixas vazios com as operadoras quase dormindo? O argumento do dia do pagamento não cola, já que o povão compra sempre com cartão de crédito e o que vale é o vencimento da fatura. Algumas investigações revelam que o povão se reúne em confrarias secretas, para combinar quando é que vão assediar os locais com filas. Isso explica as oscilações entre vazios e filas quilométricas, de alguns locais.

Mas a fila não é privilégio das classes proletárias. A paixão pela fila conquista gentalha de classes mais abastadas. É só passar diante de uma balada-badalada, para ver que a fila também exerce ali seu papel de formadora de opinião pois em última análise ela indica os lugares in do momento. Você entraria em um restaurante que em pleno domingo não exibisse uma fila na porta? Não minta. Ou você acha que o Famiglia Mancini em Sampa recebe centenas de clientes aos domingos por causa das deliciosas pastas e suculentos molhos? Nada disso. Experimente tirar a fila da porta, que é onde as pessoas bebem, conversam, tomam o sol escaldante e ficam em pé durante horas, para ver quantos fins-de-semana resistirá o hit gastronômico deles.

A fila tem também um apelo religioso. A Eucaristia teria sido - segundo os evangelhos - instituída pelo próprio Jesus. Fora em uma mesa de refeição sentado junto com seus apóstolos e entes mais queridos. No entanto, o cristianismo de massa instituiu a missa com o povão sentado nos bancos. Mas é só o padre anunciar a distribuição da hóstia que o povo mais do que rápido forma uma imensa fila. As igrejas bem que tentaram instituir ministros auxiliares para levar o sacramento até onde o povo ficava sentado, mas não funcionou. O povo ignorava os ministros e insistia na fila. Assim também as romarias e procissões são expressões religiosas da predileção por filas que o povo tem. Aposto uma caixa de cerveja que a maioria dos romeiros não tem a menor idéia de quem é o santo ou a festividade de determinada procissão. Para os romeiros santa é a fila e isto basta.

Por fim, a fila possui sua expressão e faceta lúdico-infantil. As brincadeiras inocentes como balança-caixão e piuí-abacaxi são embriões do que as crianças almejam para a idade adulta: a fila. Mesmo a brincadeira de ciranda cirandinha exprime um simbolismo filosófico sobre a fila. A roda é nesse caso representa uma fila infinita, que submete as crianças a guinadas de trezentos e sessenta graus. As crianças terminam sempre no mesmo lugar, só apenas um pouco mais tontas e risonhas. Isso é importantíssimo na infância, pois as prepara para a vida adulta, de modo que entrem e saiam de filas em repartições e bancos com um pouco mais de humor.

O estágio mais elevado da fila já foi atingido pela humanidade. Ele está expresso pela criação das filas de sentados. São aqueles locais onde você retira um ticket numerado e fica olhando um painel para ver se seu número é chamado. O painel comprova de forma inquestionável que você não é nada mais do que um número. As cadeiras formam um confortável ambiente, que alude aos sofás das salas de visitas onde as pessoas sentam-se para conversar e contar causos. É como se nem existisse fila e todos estivessem em uma grande reunião de amigos. Por isso raramente se vê pessoas reclamando, já que estão confortalmente sentadas e o painel universaliza a espera.

Eu tenho revelações inéditas sobre a relação do cotidiano com as filas. Só para adiantar uma, o movimento Diretas Já foi uma campanha não pelo direito de voto em si, mas pelo direito de fazer filas imensas nos postos de votação. Quem quiser saber mais, pode contratar minha palestra Sociologia das Filas - Muito além de Marx e Engels ou aguardar o lançamento do meu livro. E você poderá fazer fila para receber meu autógrafo, claro.

Na próxima vez que avistar uma fila, não critique o serviço em questão. Pense nos milhares de freqüentadores que se sentem melhor dia-a-dia ao passar pelas filas.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Neologismo no buraco

"Acidentes como esse são improvisíveis" (sic)
José Tadeu da Silva - Engº Civil/CREA-SP, em entrevista à TV Gazeta.

domingo, 14 de janeiro de 2007

Só contaram para ele

Diante da imensa tragédia na obra do Metrô de Sampa, que até agora não sabemos a quantos vitimou, o governador sai com essa pérola:

"Quem estiver lá dentro, terá sido vítima"

Só uma pessoa muito perspicaz é capaz de uma conclusão dessas.

Mandem esse homem pra casa urgente e deixem os bombeiros trabalhar!

sábado, 13 de janeiro de 2007

Falando sério

Uma modelo que até o momento não demonstrou se seu talento vai além das passarelas, talvez na falta de outro lugar ou quiçá em busca de mais notoriedade, trepa com o - quem sabe - enésimo ficante amoroso da sua vida. Só que em plena praia pública e debaixo de sol-a-pino. Escancara os orifícios ao rapaz e a sublime cena aos fotógrafos e filmadores de gosto duvidoso, que trabalham para veículos compatíveis.

Doppo o tal vídeo vai parar em um site hospedado no exterior. Sabe-se lá se não fora por ação direta ou indireta dos próprios ciosos. Eis que meritíssimos, sábios e letrados juízes da 4ª Câmara do TJ/SP decidem: Nenhum internauta brazuca poderá doravante freqüentar o Youtube. Tudo por conta das cenas calientes e de um processo movido pela modêlo-apresentadora de voz anasalada e seu viril parceiro sexual.

Os meritíssimos, sábios e letrados juízes perdoem-me pela intromissão, posto ser eu uma ignóbia criatura acerca da Lei e do Direito. Mas poderão existir outras coisas dignas julgamento urgente, que não esse infame e medíocre episódio sexual litorâneo? Minha vã ignorância tenta-me a questionar se a nobreza da atividade judiciária não viria a ser incompatível com a paupérrima petição do casal sexualmente ávido. No mais, sempre ouço dizer que os tribunais estão abarrotados de processos e que alguns tramitam há anos e até há décadas. Talvez não seja verdade. Pois senão como é que poderia logo esse, de causa tão medíocre, circular tão rápido pelas mesas dos nossos atarefados magistrados? Ó Destino, porque me fizeste ser tão inapto ao juízo e tão desconhecedor da magnitude dos temas magistrais?

Por fim, bloqueio de acesso só existe na mente de seres desprovidos de conhecimentos elementares de navegação internética. Cliente de uma das empresas idiotas que acataram a decisão, apenas redirecionei meu servidor proxy para outro situado no exterior e naveguei normalmente. Há dezenas deles - e gratuitos - espalhados pelo mundo.

Bloqueio de site é pra jacú. Trepar na praia também. Julgar méritos, isto sim é para os magistrados. Cada qual, cada qual.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

O dia da marmota

nove horas

Na verdade foi um pouco mais tarde, pois cheguei atrasado só pra variar um pouco. Fico sabendo que a carga do meu cliente, que me esmerei para colocar no agente aéreo sábado de manhã sequer saiu de lá. Somente à tarde ela sairia para Congonhas, para - quem sabe - embarcar à noite para BH, seguindo no dia seguinte para Confins e, desta, em via terrestre para a cidade destino. Meu cliente terá trigêmeos.

dez horas

Toca meu telefone com um prefixo de MG. Não atendo. Não tenho nada para dizer para o cliente. Vou pôr a culpa na Varig?

dez horas mais 30 minutos

Chega um e-mail de outro cliente perguntando sobre a entrega de uma impressora. Não tenho o que dizer para este, porque a distribuidora fica no sul de Minas e foi inundada na sexta-feira. Deixo para respondê-lo amanhã quando eu conseguir dizer algo convincente.

onze horas

Ligo para uma distribuidora de peças para saber sobre quatro míseras pecinhas, essenciais para o conserto de equipamentos de outro cliente. São quatro míseras como eu disse. Tão simplórias que é uma vergonha que não sejam fabricadas no Brasil. Bem, a resposta é que terão que ser importadas e demorarão até quarenta e cinco dias para chegar. Não crio coragem de ligar para esse também.

meio-dia

O dia está um saco só. O extrato bancário da empresa acusa apenas doze reais. Doze reais e está certinho. O número não sai da minha cabeça. Olho o contas a receber e dou-me conta que o próximo recebimento significativo só ocorrerá daqui a dez dias. Penso em suicídio. Evito consultar as contas a pagar e saio para almoçar.

uma da tarde

Volto para minha sala, escovo os dentes e ligo a tevê no noticiário. Na verdade nem presto atenção no conteúdo. Pouco me interessa.

dez para as duas

Vou a um bairro próximo visitar uma empresa de onde me ligaram solicitando visita. Marcada para as 14 horas, chego britanicamente no horário e me anuncio. A recepcionista gerundista disse que estava avisando e a pessoa de contato já ia estar atendendo.

duas e meia

Jogo um cartão de visita na mesa da gerundista e me mando. Porra, se os desgraçados não podiam atender porque não falavam logo? Eu odeio esperar. Na volta passo no banco onde tenho conta pessoa física. Tiro uns trocados para pagar dois credores dos arredores, que não merecem esperar. Quem manda eu almoçar no boteco fiado e colocar o conserto do micro no prego?

três e meia

Depois dos pagamentos entro no escritório. Está uma zona. Não agüento mais aquela baderna. O calor me derrete e o circulador-de-ar-engana-trouxa parece rir de mim com sua ineficiência. Olho pro infinito. Tenho umas dez tarefas para fazer, pelo menos. Mas vontade nenhuma de fazê-las.

quatro da tarde

Abro o scanner e o que encontro nele? O boleto do seguro do carro. Agora me diz: que raios fazia o boleto dentro do scanner? Não tenho com quem brigar, pois trabalho sozinho e só eu mesmo podia ter feito aquela merda. Detalhe que o boleto não podia mais ser pago após 02/01/07. Ligo pro corretor e ele verifica que terei que fazer uma vistoria no carro, para ele obter outro boleto e revalidar meu seguro, que está bloqueado.

cinco da tarde

Fecho o escritório e de saco cheio me mando para passar no posto de vistoria e em seguida buscar minha filha na escola. Sim, ela está na escola em pleno janeiro. A escola infantil é integral e não temos com quem deixar a criança. Na frente do posto de vistoria vejo uma fila com uns dez carros. Odeio fila. Decido fazer a bosta da vistoria somente no dia seguinte.

seis da tarde

Desço a ponte do Tatuapé no acesso para a Marginal. Paro atrás de um carro que aguardava oportunidade para acessar a pista. Ouço um estrondo e meu caro chacoalha tanto que meu cérebro dá boot. Pelo retrovisor vejo a tampa do porta-malas aberta pelo impacto. Checo se minha filha está bem no banco de trás e noto que só está assustada, tanto quanto eu. Atordoado, desço do carro para entender o ocorrido. Só tenho tempo de escutar pneus cantando e um carro quase me atropelando se manda. Percebo que meu sedan virou um modelo hatch. Tarde demais. Não consegui sequer ver o modêlo e a cor do filho da puta. Quanto mais a placa.

seis da tarde mais três minutos

A tampa não fecha, o pára-choque está afundado, o chassi do carro idem. Amarro a tampa com uma cordinha que havia no porta-malas e rumo para a minha casa de onde não devia ter saído hoje. Amanhã verei a real dimensão dos prejuízos e pensarei como me virar para pagar o conserto.

seis da tarde mais vinte minutos

Tentando me refazer do susto, do tranco e da desilusão, pego o celular e ligo para meu primo Eduardo. Edu é funileiro (ou lanterneiro, em carioquês). Conto a desgraça toda e aviso que passarei no trabalho dele pela manhã, para ver o que fazer. Percebo que ele não está entendendo nada. Só então percebo que ao invés de meu primo, eu falava com um cunhado também Eduardo. Não é meu dia. Acho que vou tomar um banho e dormir. Não sem antes tomar uma cachaça. Tenho certeza que amanhã quando o despertador tocar, verei que foi tudo um sonho. E este post não existirá.

Não precisa dizer: eu sou o cocô do cavalo do bandido que foi assassinado pelo xerife.

sábado, 6 de janeiro de 2007

Da série "Questões que assolam a humanidade"

Para que raios serve o controle-remoto da TV, se na hora em que precisamos dele temos que levantar do sofá e procurá-lo por toda a sala?

Como se não bastasse, os aparelhos de hoje praticamente não possuem painel de comandos. Cadê a TV com comando de voz que ainda não inventaram?

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Concurso público: Técnico condutor de quadrúpedes

A Secretaria Municipal de Turismo da Prefeitura Municipal de Jaboarandim (PB) abriu inscrições para concurso público de técnico condutor de quadrúpedes. Sim, foi isso mesmo que você leu. O local de trabalho será na praia de Vivendas. Para quem não conhece, Vivendas é uma praia turística muito freqüentada em Jaboarandim e o ecoturismo lá é responsável por parte significativa do PIB municipal. Daí a importância de se criar o cargo.

Entre os requisitos, exige-se: curso primário completo (Ensino Fundamental-Ciclo I), disponibilidade física para auxiliar turistas a montar nos animais, suportar sol intenso e cumprir jornadas nos fins-de-semana durante temporadas turísticas. São apenas trinta vagas.

O salário é de trezentos e cinqüenta reais, mais auxílio-alimentação de quarenta reais e - acredite! - um protetor solar fator 50 por mês. As inscrições podem ser feitas em qualquer agência do BB e custam mil e quinhentos reais, junto com o caderno de estudos e a cópia do edital. Os exames serão realizados pela Fundação Joboarandinense de Ensino Superior (FJES), somente na própria cidade e as despesas correm por conta do candidato.

O tio Xavier decidiu que é hora de ser funcionário público. Vou sim prestar esse concurso. E se passar - acho que dever ser moleza - me mando pra lá de mala e cuia. Tudo bem que eu não gosto de praia, nem de calor. Mas clique AQUI para ver a foto do trabalho que enfrentarei.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Sai capeta

Um amigo meu taxista - o Elson - passou por uma situação hilária um dia desses. Não resisti e, autorizado pelo filho dele, partilharei a história.

Disse que chegou ao habitual ponto de táxi e viu estacionado o carro de um colega gente boa pacas, o Edinaldo, o velho Ed. Tendo estacionado, foi até carro do Ed, que estava com a porta aberta. Lá dentro, Ed estava a fazer alguns apontamentos em um caderno, aparentando cuidadosa organização. Elson disse não ter resistido e bisbilhotado as anotações. Eis o que o amigo anotava:

"Dia tal hora tal, corrida de D.Fulana. Valor R$100,00, a receber dia tal. Valor do Senhor R$10,00" e colocou dez reais em uma caixinha que estampava uma logomarca parecida com um coração, que não lhe era estranha. Meu amigo não se conteve e perguntou:

- O Ed, o que é esse valor do Senhor?
- De tudo o que eu ganho, dez porcento eu entrego ao Senhor.
- Como assim?
- Eu sou membro da Igreja Universal do Reino de Deus - disse exibindo a logomarca da igreja na caixinha - e não falto jamais com o dízimo do Senhor, pois ele não falta comigo.
- Mas como você dá essa grana pro Senhor?
- Ah, Elson, eu entrego pro pastor na igreja, ora.
- Epa, mas você nem recebeu da D.Fulana. Como pode repassar dízimo de uma féria que sequer recebeu?
- Eu sei que vou receber, porque o Senhor a tudo me provê.
- Pô Ed se liga. O Senhor precisa de grana? Você na verdade não está sustentando as mordomias dos pastores da IURD, pra eles ficarem andando de BMW, viajando para o exterior e morando em condomínios de luxo?

O tal Edinaldo abriu a porta quase em cima do pobre Elson. Ao contrário do cara amigo e pacato, Ed aparentava um certo furor, com os olhos arregalados. Elson ficou paralisado aguardando uma reação abrupta do convicto dizimista. E eis que o crente levanta uma das mãos coloca sobre a cabeça do colega de ponto, proferindo quase aos brados:

- Sai demônio sujo e imundo do corpo desse homem! Senhor Deus mostrai como disse o profeta Malaquias, que (...) - e seguiu-se um roteiro interminável de glorificações, maldições, clamores e até agradecimentos pelos abençoados pastores que dirigem a IURD - (...) isso eu te peço pelo poder do sangue do Teu Filho Jesus! Amém! Amém! Amém, Senhor!

Elson resignado e talvez arrependido pela perda de tempo, disse que deu de ombros e voltou para o seu carro a aguardar seu lugar na fila por passageiros.

Quem manda se meter no caderninho de dízimo alheio? O mundo tem malandros porque tem otários, ora bolas.