sexta-feira, 25 de abril de 2008

Da série: O especialista

Episódio de hoje: The Assets Manager

Segundo lendas indígenas essa história foi publicada em um site sobre finanças e investimentos. Como não estou com tempo pra pesquisar, resolvi publicá-lo assim mesmo, pois se não é verdade está bem contado.

Diz a lenda que uma mulher escreveu para um site financeiro pedindo dicas sobre como arrumar marido rico. Só isso já é insólito, mas o melhor da história é que um cara, possivelmente um economista ou investidor, deu a ela uma resposta bem fundamentada no fórum.

Mensagem dela :

"Sou uma garota linda (maravilhosamente linda) de 25 anos. Sou bem articulada e tenho classe. Estou querendo me casar com alguém que ganhe no mínimo meio milhão de dólares por ano. Tem algum homem que ganhe 500 mil ou mais neste site? Ou esposas de gente que ganhe isso? Vocês poderiam me mandar algumas dicas?

Namorei um homem de negócios que ganha por volta de 200 a 250 mil, mas não consigo passar disso e 250 mil não vão me fazer morar em Central
Park West.

Conheço uma mulher da minha aula de ioga que casou-se com um banqueiro e vive em Tribeca, e ela não é tão bonita quanto eu, nem é inteligente. Então, o que ela fez de certo que eu não fiz? Como eu chego ao nível dela?

Grata,

Fulana de Tal."


Resposta do sujeito que postou:

"Li seu anúncio com grande interesse, pensei cuidadosamente sobre seu dilema e fiz uma análise da situação. Primeiramente, não estou gastando seu tempo, pois me qualifico como um homem que atende seu orçamento; ou seja, eu ganho mais de 500 mil por ano.

Isto posto, considero os fatos da seguinte forma: sua oferta, quando vista da perspectiva de um homem como eu, é simplesmente um péssimo negócio. Eis o porquê: deixando as firulas de lado, o que você sugere é uma negociação simples. Você entra com sua beleza física e eu entro com o dinheiro. Ótimo, fácil.

Mas tem um problema. Sua aparência vai se acabar e meu dinheiro vai continuar existindo, perpetuamente. De fato, é bem possível que meus rendimentos aumentem, mas é certeza absoluta o fato que você não vai ficar nem um pouco mais bonita!

Assim, em termos econômicos, você é um ativo sofrendo depreciação e eu sou um ativo rendendo dividendos. Você não somente sofre depreciação como esta depreciação é progressiva, sempre aumenta! Explicando, você tem 25 anos hoje e deve continuar gostosa pelos próximos 5/10 anos, mas sempre um pouco menos a cada ano. O fim de sua aparência começa cedo e em alguns anos você já estará acabada!

Então, usando o linguajar de Wall Street, nós a chamaríamos de 'trading position' (posição para comercializar), e não de 'buy and hold' (compre e retenha), que é o que você deseja... daí o problema casamento. Não faz sentido, do ponto de vista de negócios, 'comprar' você (que é o que você quer), portanto prefiro alugá-la.

Se você estiver pensando que estou sendo cruel, eu tenho a dizer o seguinte: se meu dinheiro vai se acabar, você também vai. Então, quando sua beleza se esvair eu tenho que ter uma opção de saída. É simples assim. Um negócio razoável, portanto, é um namoro, e não casamento.

Paralelamente a isso, bem no início da minha carreira me ensinaram sobre mercados eficientes. Assim, eu me pergunto como uma garota 'articulada, com classe e maravilhosamente linda' como você se diz, ainda não achou seu tio Sukita. Acho difícil acreditar que você é tão bonita quanto diz e os 500 mil dólares ainda não te encontraram, nem que fosse pra um 'test drive'.

Por sinal, sempre há um jeito de você descobrir como ganhar dinheiro por conta própria, para que não precisemos ter essas conversas difíceis.

Com tudo isso dito, devo dizer que você está tentando da maneira certa. É a clássica 'capitalização via golpe do baú'. Espero que tenha sido útil e, se quiser negociar um contrato de aluguel, fale comigo.

Atenciosamente,

Beltrano.


Mais direto, impossível. Clap your hands, everybody.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Padre sobe aos céus

"O religioso queria voar durante 20 horas, mas o mau tempo levou-o em direção ao mar de Santa Catarina. As buscas aéreas e marítimas concentram-se a cerca de 30 quilómetros da costa, na aérea onde o padre terá feito o último contato..." conforme O Globo.

"Um vôo de balão que serviria para chamar a atenção para a causa dos caminhoneiros e para bater um recorde, acabou em desespero. O padre Adelir Antônio de Carli, membro da Pastoral Rodoviária, levantava vôo com um balão formado por 1 mil balões de gás hélio, quando o vento surpreendeu e levou o sacerdote para o caminho oposto ao desejado..." de acordo com o JB Online.

Um cara desses merece o prêmio Darwin Awards, por contribuir para a seleção da espécie. Ao menos depois dele talvez surjam padres mais providos intelectualmente. Oito anos de faculdade (Teologia e Filosofia) para isso. Nem precisa pegar a caixa-preta dos balões pra analisar a defecada. Ocorre que ele era da Pastoral Rodoviária. Logo, não entendia nada de Pastoral Aérea. Saiu das suas atribuições pastorais.

Caso a Guarda Costeira ou os Bombeiros não o achem, podemos transformá-lo no primeiro padre assunto aos céus com balões. Sabe-se que o profeta Elias foi em uma carruagem de fogo. A mãe de Jesus, segundo a tradição católica, foi levada por anjos. Mas o padreco Adelir... De qualquer modo ele entrará para a História como sendo o único padre que foi para o céu. Ao menos enquanto durou o gás.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Drops DVD: Diários de Motocicleta

Depois de um século, aluguei "Diários". Já sabia que veria um Ernesto "Che" Güevara pré-Baía dos porcos. Um jovem nada tão politizado que vai apenas para uma aventura que muitos de nós fantasia e fica só nesta. A odisséia dos malucos consegue misturar o mítico com o lúdico, embora trate-se de uma viagem real.

O filme é essencialmente fotográfico. Mostra lindas paisagens da América do Sul e segue o roteiro de viagem de Ernesto e seu amigo Alberto Granado. Só por isso vale à pena. Filme de Walter Salles (de Central do Brasil e Abril Despedaçado) se não surpreende pelo enredo, posto não ser dele exatamente, faz a diferença por fugir um pouco do Che mitológico. Muito embora pareça justificá-lo, na medida em que enfatiza as experiências do jovem Ernesto com uma América de contrastes sociais mostrando Ernesto indignado com o que vê.

Diários de Motocicleta na minha abalizada opinião de crítico não merecia esse nome. Não faz sentido porque a tal motocicleta teve falência múltipla dos órgãos durante o primeiro terço da viagem. Devia se chamar "Diários a Pé". Mas justifica a locação. Bacana. Bom entretenimento.

O dia da marmota

Sabe aqueles dias em que você sabe que tem uma porrada de coisas chatas pra fazer em casa, como pequenos consertos, fixação de prateleiras, levar arquivo morto da empresa pro sótão de casa, instalar suporte de televisor na parede e coisas suuuuuuperlegais assim?

Pois é. Não tente fazer isso em sua casa. As pessoas que o fazem são profissionais treinados, supervisionados pelo Corpo de Bombeiros e assistidos por paramédicos de plantão com helicóptero da propaganda do plano de saúde. Se você ignorar este aviso e tentar, a estante será alta demais para a altura disponível no sótão, os furos que você fará para fixar o suporte de televisor ficarão fora de posição e no fim você só terá dado mau-jeito nas costas e sujado a casa inteira com 300Kg de pó do sótão. Paradoxalmente tudo para nada. O resultado será zero. Ou negativo.

Daí você passará o resto do dia de bode. Sua mulher ficará de cara feia reclamando da sujeira. Óbvio que ela não se lembrará que foi ELA quem lhe encheu a paciência para você tirar as merdas de caixas de arquivo-morto do corredor. Se ainda assim você em vez de ir dormir tentar assar uma picanha no forno ela ficará dura como um músculo, mesmo sendo maturada e embalada à vácuo; cozinhará arroz e ficará sem gosto. Sua filha ficará torrando pra você levá-la pra andar de bicicleta e começará a chover.

Por isso mande esta mensagem para o máximo de pessoas possível com o título "ALERTA URGENTE: DIA DE BODE". Não quebre esta corrente.
"Nada está tão ruim que não possa ser piorado um pouco." (Cel. Murphy)

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Sem discução

Observe a segunda linha do quadro abaixo.

O ser vivo que postou isso no fórum de um curso de graduação universitária:

- Respira
- Polui
- Consome água
- Vota
- E PRETENDE LECIONAR!

domingo, 13 de abril de 2008

Uma no cravo, outra no casco

Nunca antes na história deste país um presidente conseguiu a façanha de superar a máxima "uma no cravo, outra na ferradura". A expressão, até onde eu soube, aludia a ferreiros com habilidades limitadas para ferrar um cavalo. Em vez de dar as marteladas todas nos cravos de fixação, erravam e acertavam na ferradura, prejudicando inclusive a estabilidade dos cravos já inseridos.

A analogia da ferradura agora aplica-se com perfeição ao senhor Luís Inácio. Ele aprovou semana passada, em uma só canetada, a manutenção do hediondo imposto sindical obrigatório e a desobrigação de as entidades sindicais prestarem contas aos tribunais públicos. No mês de março um dia cheinho continuará a ser arrancado de seu bolso à força e irá direto para o bolso dos sindicalistas. E estes poderão continuar gastando como bem entenderem, inclusive para promover prejuízos aos que eles supostamente representam. O chefe da nação teria ainda dito que a fiscalização dos sindicatos cabia aos trabalhadores. Concordo em parte. Mas, no quadro atual, tente você ir a uma assembléia do seu sindicato e pedir balancetes ou comprovantes de gasto.

A contradição do ato não tem precedentes. O Estado encarrega-se do serviço sujo de usurpar o dinheiro, mas tira o seu da reta ao desonerar-se da fiscalização. Dessa forma ex-sindicalista Lula matou dois coelhos com uma só cajadada na cabeça do trabalhador: manteve o atrelamento dos sindicatos com o Governo, processo desencadeado na primeira fase do governo de Vargas, e traiu uma das principais bandeiras dos trabalhadores na década de 80 que era o fim do imposto sindical obrigatório.

Para quem não sabe, os sindicatos até meados da década de 80 ou eram dirigidos por interventores nomeados pelo Governo ou tutelados por dinastias legitimadas por processos eleitorais chulos e podres. Embora, segundo Lênin, toda eleição seja fraudulenta, o feito dos operários do ABC paulista ao constituírem a CUT foi pomposo e importante: retomou os processos eleitorais interrompidos pela ditadura e varreu os interventores. Representou a possibilidade de ruptura com o aparelhamento governamental dos sindicatos de até então. Faltava extinguir o imposto sindical.

Berger em "A construção social da realidade" sabiamente dissecou a dinâmica das instituições. Segundo ele, elas nascem a partir de propósitos humanos fundamentais, depois se institucionalizam e em dado momento tomam assumida postura de dirigir a maior parte dos seus esforços para a sua perpetuação, como resultante do seu processo de burocratização. Com a CUT não havia de ser diferente. O que foi no passado um legítimo canal de expressão dos operários, ao longo do tempo foi se especializando e aperfeiçoando na criação de castas de burocratas profissionais que se fossilizaram nas suas estruturas. Ainda mais hoje, com o representante que melhor expressa os anseios de 1.980 ocupando o maior posto executivo do país. Seria de se estranhar que a CUT continuasse a dar vazão às necessidades mais legítimas do operariado. Naturalmente ela foi sendo ocupada por contra-revolucionários e conciliadores das piores espécies.

Se no passado, o PT e a CUT foram os braços político e sindical do movimento popular, hoje já não passam de meros tentáculos do estado burguês. Ou alguém acredita que Lula ocuparia o posto que ocupa, sem ser por consenso entre as elites coronelistas, os representantes do imperialismo e burguesia urbana acovardada? Óbvio que não. O status-quo se alimenta do refreamento dos movimentos sociais acabrestados por dirigentes canalhas. A esses dirigentes o prêmio pelos bons serviços prestados "à nação": muita grana confiscada do trabalhador e nenhuma conta para prestar.

Pra eles, melhor que isso só os dois disso. Lula concedeu-lhes ambos. Às nossas custas.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Fala sério: isso é camisa de time?

Her, her comes


Essa jóia imaginária da indústria automobilística, jamais antes construída é nada menos do que o lendário Match-5 em tamanho real. Concebido no Japão durante a década de 60 para o desenho animado Speed Racer, o M-5 é capaz de peripécias que fariam Henry Ford se sentir um babaca com seu tôsco Ford-T. Neste fim de semana o M-5 estava em exposição em no Shopping SPMarket em Sampa. Que viu, viu. Porque a estas horas já foi embora.

A réplica, para um especialista como o tio que decorou até as falas dos episódios, poderia ser bem melhor. A começar pela ausência dos botões alfabéticos no volante. No desenho eles fazem toda a diferença, já que acionam as traquitanas mecânicas e eletrônicas mais fantásticas. Porém, para quem passou a infância sonhando em possuir o M-5 e ser o próprio Speed Racer, poder ver de perto e fotografar seu sonho é perto de impagável. Foi por isso que atravessei a cidade (cerca de 150Km ida e volta) só para tirar fotos.

Se você tem menos de vinte e cinco anos ou mais de quarenta e cinco, por razões diferentes talvez não conheceu Speed Racer e seu fabuloso Match-5. Veja o vídeo abaixo, da abertura da série original. Uma viagem. Espero que o filme, que chegará à nossas telonas daqui dois meses, não peque por excesso de computação gráfica. O desenho, nem tão animado assim, com um visual tosco encantou toda uma geração de garotos. Como o tio há algumas décadas.


domingo, 30 de março de 2008

Moção de repúdio: Livros no lixo em Sampa

Venho por meio desta manifestar a ojeriza com que li a notícia do JT de 1º/02/08, republicada na revista Nova Escola de março. Já faz umas boas semanas, mas acreditam que seja possível a direção de uma escola pública jogar no lixo dezenas de livros em bom estado? Isso é muito sério! Como não gosto de palavras ao vento, seguem os dados do estabelecimento:
Escola Municipal Professora Ruth Lopes de Andrade
Rua Jundiapeba, 177 - Vila Zelina - São Paulo - SP
Fone (11) 2341-3992
Vice-diretora: Laíde da Costa Ribeiro Sales (palmas pra ela!)
Diretor(a): Não consegui descobrir (deve estar escondida debaixo da mesa)

Resumindo, a escola ensacou e depositou em uma calçada nas proximidades algo como QUATROCENTOS LIVROS diversos, incluindo obras literárias clássicas e autores de renome. Moradores encontraram o descarte cultural, recolheram e denunciaram o fato. Parabéns para todos os vizinhos.

A desculpa dada pela vice-diretora-bucha-de-canhão (o diretor ou diretora na ocasião tomou Doril) foi que os livros e o armário respectivo tinham sido atacados por insetos da espécie wababeelooba-wabenboon. No iluminado pensamento educacional dos (ir)responsáveis, os livros não tinham mais utilidade. Contudo, os moradores que recolheram os sacos comprovaram a mentira. Quase tudo estava em bom estado. O material foi reconduzido à SME e diz uma lenda que foi aberta uma sindicância para apurar os fatos. Só mais um detalhe: ao contrário os livros, o armário onde estiveram não foi descartado nem estava infectado. Talvez serviria para guardar pertences pessoais, acessórios de sex-shop, vídeos pornôs e sabe-se lá mais o quê.

Reflitamos: que merda de coordenadores educacionais em sã consciência jogam fora livros? Talvez preguiçosos da mais irrelevante qualidade. Desses que fajutam os planos educacionais da escola com firulas e parágrafos prolixos, mantém os pais o mais longe possível da escola e simulam ensinar. Quem sabe profissionais sem Ética e de Moral deficiente, incapazes de incentivar a leitura aos alunos. Desses que fingem ser educadores, quando vivem nas tetas do Estado, amparados pelo concurso público. Seres aproveitadores dos mecanismos de aprovação automática que - imaginam eles - os desoneram da responsabilidade da repetência escolar. Gente que pouco se importa se uma criança ingressa na escola, paga com os suados impostos dos cidadãos, e dela sai após o fim do Ensino Fundamental sem sequer saber escrever uma frase sucinta ou compreender um conto dos Irmãos Grimm (que também estavam no lixo).

Gentalha desse tipo merece, no máximo, engrossar as fileiras dos programas bolsa-miséria, almoçar no Bom Prato e pedir bilhete de desempregado nas filas da SPTrans, pra não dizer outras coisas.

Eu sentiria vergonha de olhar para um aluno por muito menos que isso. A propósito, alguém saberá dizer se os crápulas foram punidos? Agradeço informações.

sábado, 29 de março de 2008

Coisas que só acontecem com os outros

Acabo de tomar conhecimento de um fato muito triste. Recebi um telefonema me dando conta de que o presidente da Associação dos Familiares das Vítimas da TAM é um ex-colega de trabalho meu. Eu ando totalmente alheio de noticiários, sobretudo quando se trata de notícias funestas, mas o informante que também trabalhou conosco sabia bem de quem se tratava.

Dario Scott é um daqueles seres sensatos, ponderados e equilibrados. Não me lembro jamais de tê-lo visto alterado, ao menos durante nosso convívio profissional. Às vezes triste, às vezes preocupado com as dificuldades, como qualquer pensante. Mas nunca a ponto de perder as estribeiras. Pesquisei notícias na web e soube o pior: a vítima do vôo fora Thaís, filha única do casal. Me veio à mente a máxima nua e crua de que a vida é volátil e estamos aqui de passagem. Ora mais longa, ora breve.

Conheci Thaís por volta de 2000 quando tinha apenas nove anos. Não teria nenhum motivo para canonizar a quem quer que fosse, mas a lembrança que me vem à mente é de uma menina meiga, exemplarmente educada e alegre. Em uma das ocasiões em que almocei na casa do casal Dario e Ana Volpi - esta última neta do pintor Alfredo Volpi -, Thaís me recepcionou como se eu fosse o embaixador britânico. Na mesa da refeição, minuciosamente arrumada por ela, haviam papéis grafados com letra de criança indicando os lugares. Gentilezas que duraram todo o tempo que passei lá. Ao final daquele almoço me senti de fato como alguém importante. E fui. O pai e a mãe notadamente também ensinaram à Thaís o bom trato com o semelhante.

Após nos desligarmos da empresinha onde trabalhamos no ABC paulista, suponho que Dario deva ter viajado para vários cantos dando suporte intelectual e tecnológico para os trabalhos acadêmicos da esposa. Assim o fizera na década de 90 na Europa. Por essas e outras, perdemos o contato. Há poucos meses passei a cinqüenta metros da casa onde moraram. Cheguei a pensar em bater mas, certo de que não os encontraria, desisti.

De alguma forma foi até bom. Eu não saberia conter meu desconcerto caso encontrasse algum parente morando lá e soubesse da absurda tragédia que abateu a família Scott. Thaís, então com dezesseis anos, vinha do RS junto com uma amiga para visitar a saudosa avó. Mas infelizmente estavam no fatídico vôo.

Meus sentimentos ao Dario e à Ana. Que Thaís descanse em paz. Sua lembrança será para mim a da menina bonita, amorosa, vivaz e educada que nunca esquecerei.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Roteiro gastronômico do submundo 2008-2

Subtítulo: AO DIABO COM OS NABOS

Há algumas semanas eu e os meus "chefes" iniciamos uma odisséia jamais antes tentada pelo homem: encontrar um bom lugar para almoçar com comida boa, preço honesto e um mínimo de decência no atendimento. Note que não mencionei questões sanitárias. Não é que sejam presumidas nem que estejam implícitas. É que abandonamos esse quesito por pura preservação da espécie. Almoçar nas ruas de uma metrópole não é tarefa simples, ainda mais se você começa com muita frescura. Já visitamos dezenas de milhares de botequins e ainda não encontramos a Shangri-lá do comercial com bife e ovo frito.

Como já era a centésima-quadragésima primeira tentativa, ao passarmos pela Rua Domingos Rodrigues 423 apenas entramos. Nossos olhos esbugalhados e olheiras denunciavam a voracidade do apetite. Sem questionamento pegamos nossos pratos e fomos nos servir. Era apenas mais um do inédito sistema self-service (ou "serve-serve" como pronunciam alguns serviçais menos letrados).

Para alguém como eu que desde cedo hoje estava com gana por ver um boi no rolete, a visão do buffet não foi das melhores. As coisas me pareceram meio estranhas, mas já era tarde demais. Entre tantas coisas havia uma massa esverdeada sob um pingo de molho que me sugeriu ser uma panqueca recheada de carne. Abracei. Mas ao comer notei que o queijo branco dentro não se parecia em nada com coxão-mole moído. Ricota. Depois peguei algo que lembrava um hambúrguer. Não era muito bom, mas não consegui definir do que era feito. Agora estou lendo o folheto que apanhei na saída, no qual se lê: "hambúrguer de PVT". Não vou pesquisar o têrmo na internet porque se eu vomitar terei que sair para comer um cheese-salada-bacon imediatamente.

Bem que eu achei cultureba demais a decoração do lugar. Era cheio de livros em estantes, revistas, objetos decorativos e fotos da natureza. Mas ingenuamente não percebi o óbvio. Após comermos (mal) e saírmos de lá, senti um alívo quando avistei uma feira-livre com uma barraca de pastel onde devorei um sem cerimônia. De carne, obviamente. Nada como gordura saturada, carne e massa cheia de carboidrato para saciar um primata selvagem.

Se você se interessou pelo estabelecimento comentado, beleza. Nada contra. Clique AQUI e aprecie. Já eu não vejo a hora de chegar o almoço de amanhã pra eu descontar. De preferência em uma churrascaria.

sábado, 22 de março de 2008

Audio-vingança

Você tem vizinhos chatos? Que tal enlouquecê-los de vez? O tio Xavier oferece a você que quer fazer seu vizinho se mudar e vender o apartamento a preço de banana a solução infalível.

É muito simples: basta plugar a saída de áudio do PC no aparelho de som, botar o volume no último e apertar o play. Quando a reclamação bater à sua porta disfarce e siga as instruções para cada caso.

Festa aqui? Desculpe, mas você me acordou.


Eu também ouvi portas batendo, mas achei que eram do seu apartamento.


Faxina aqui? Nem aspirador eu tenho. Você tem bebido?


Quando a polícia bater à porta, desligue as luzes e atenda com cara de sono:


Eu também detesto violino. Se você descobrir quem é me avise.


Pois não, dona síndica. Bebê aqui no meu apartamento? Esse vizinho está delirando (ele usa drogas, viu?)


Desculpe, mas eu nem tenho ferramentas elétricas. Deve ser o apartamento do lado.


É que nós somos sexualmente insaciáveis. Nossa, vocês não fazem sexo aí?


Basquete? Claro, bem vindo à sede do Chicago Bulls. O Michael Jordan está distribuindo autógrafos.


Gritos? Eu também ouvi e pensei que vinham do seu apartamento. Estou com muito medo. Será uma alma penada?


Deve ser esse pessoal de cima. Que saco né?


Nossa, quem terá um telefone desses ainda?

quinta-feira, 20 de março de 2008

Nota fúnebre

Faleceu por volta das onze horas desta manhã, o senhor Avô Xavier, após uma parada cardio-respiratória. Com sessenta e nove anos incompletos, o aposentado vinha em desabalada diminuição da saúde. Ao que tudo indica fora auto-vitimado por seus cinqüentenários vícios tabagista e alcoólico, acrescidos do desapreço pela vida.

Pai de um casal de filhos e avô de cinco netos, deixa viúva dona Avó Xavier, de sessenta anos.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Prova de Direito Penal Internacional

"O Senado do Chile aprovou nesta terça-feira (11) uma minuta de acordo para a extradição do chileno Mauricio Hernández Norambuena, condenado a 30 anos de prisão no Brasil pelo seqüestro do publicitário Washington Olivetto.

Segundo fontes parlamentares, o texto, aprovado pela maioria do Senado, pede que a presidente Michelle Bachelet interceda para que Hernández termine de cumprir sua pena no Chile."

(Fonte: Folha/Uol)

Vamos às questões. Respondam à caneta no papel timbrado e coloquem seus números de matrícula bem visíveis. Cada questão vale dois pontos e meio:
  1. Esse lixo estava no Brasil todo esse tempo?
  2. Quanto de despesa ele já nos gerou?
  3. A conta da estadia vai ficar por issso mesmo?
  4. Esses caras do Chile não podiam tê-lo pedido para pagar pena em seu país de origem há mais tempo?

domingo, 16 de março de 2008

Drops anti-DVD: Eu sou a lenda

Vão à merda. O Will Smith era mais legal em "Um maluco no pedaço". Que filme mais bobo esse "Eu sou a lenda". O povo americano deve ser muito paspalho se por acaso gostou disso. Se bem que um povo que vive mitificando e construindo heróis... deixa pra lá.

Não me pergunte como chegou às minhas mãos, nem alugue quando chegar à locadora perto da sua casa. Perdi uma hora e meia da minha vida. Se quiser algo do gênero, prefira o bom e velho Resident Evil, que é muito mais legal e mais original.

Drops DVD: Efeito Borboleta

Tente conceber o samba-do-crioulo-doido que podia dar se Einsten e Freud parassem para beber em uma cervejaria e enchessem o latão:
- Booooorra Vróidx... vozê é beu abigu... Zabe que uzuniverzu baralelo (hic!) zaum uba bozibilidadix gongreta.

- Olha Aiztem... vozê é beu aaaa (hic!) bigu. Baiz ajo... ajo... olha... brezta atenzaum... que dudu num baza de um vai-i-i-i-i (hic!) e veeeem di lembranza da benti hubãna.


- Vróidx, ibagina zi um gara... (hic!) budesse bergulhar nos lasp... lasbz... lábzus de tembo da bebória e bejer nu pazadu?
Horas e canecas depois os caras resolvem escrever um enredo cinematográfico juntos. Só que quando se reencontram para escrever o enredo estão sóbrios. O resultado seria algo como Efeito Borboleta.

Se você gosta de enigmas sobre o funcionamento da mente humana e teorias sobre universos paralelos, Efeito Borboleta é o seu filme. Bom mesmo. O melhor é o filme chegar no final e você ficar repensando se sacou corretamente ou se tudo não terá passado de ilusão. A interpretação dependerá também de suas inclinações: se você lê mais Freud ou Stephen Hawking.

Eu não conhecia o ator principal, nem a atriz coadjuvante e também não olhei na caixa quem é o diretor, a produtora, nada. Pela capa tem tudo para ser um "filme B". Mas o filme é bom e ponto. Também não gastarei meu teclado para colar a ficha técnica aqui. Desta vez, procure você mesmo pela internet. Quer saber? Assista ao filme. Você não se arrependerá.

quinta-feira, 13 de março de 2008

quarta-feira, 12 de março de 2008

Da série: "O poço das antas"

Na boa, amigo:

Primeiro estude bem o infinitivo dos verbos com eles. No mínimo fará bem para você.

Depois não deixe eles escolharem nada, seja lá o que signifique escolhar.

Procure sempre usar teclados que tenham ponto de interrogação, para suas perguntas parecerem perguntas.

E, finalmente, peça para a Coordenadoria Pedagógica escolher outro docente para a essa turma.

Urgente.

Us govenos não ce emporta com a eduação

Acho que já expliquei isso aqui mas a graduação que estou cursando inclui, além das tantas matérias presenciais, mais uma aplicada pela internet, como Ensino à Distância (EAD). Nos disseram que é uma exigência do MEC e tal, o que não fiz questão de checar. Acho que os adultos têm que ser maduros o suficiente para fazer ao menos parte do seu aprendizado na base do "se vira nos trinta". O EAD é um sinal dos tempos modernos e não tem mais volta.

Semana passada o docente aplicou uma questão para ser respondida no fórum da matéria. A pergunta feita pelo professor era um tanto subjetiva. Provavelmente objetivava perfilar os alunos para situar o professor e era a seguinte: "EM SUA VISÃO, QUAIS OS PRINCIPAIS PROBLEMAS DA ATUAL EDUCAÇÃO BRASILEIRA?"

A resposta mais sensacional foi essa: (clique para ampliar)

Detalhes: a autora é universitária e pretende ser professora.

terça-feira, 11 de março de 2008

Às traças

Concordo se você disser que isto aqui está em abandono completo. Não é falta de assunto não, porque tenho uma coleção de absurdos para compartilhar. Mas está me faltando tempo. Falando em tempo, já é uma e meia da tarde e tenho um cliente às duas em Osasco.

Com licença.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Railway Life - Parte IV: The Singer

Ninguém merece. Quando eu penso que escapei dos crentes, depois de um dia de trabalho sou obrigado a ouvir isso: (ligue o som)



Eu postei o som porque é impossível de narrar e ninguém acreditaria.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Railway life - Parte-III: Cajú e Castanha

Em outro dos dias eu tinha uma reunião em um cliente antigo, sito no município de Santo André. Como ele praticamente divide muro com a estação ferroviária e Santo André é um adorável município no qual basta você pensar em ir para receber uma multa em casa, optei novamente pelo transporte suburbano. Tudo bem e em paz na ida, uma vez que a reunião era no final da manhã e fiquei livre da turba proletária amassada.

Mas na volta, uma hora da tarde, embarquei no trem e sentado vejo dois nordestinos de um metro e meio de altura anunciarem-se na ponta do vagão. Claro que meu assento tinha que ser a dois metros das figuras, por razões cármicas. Ambos abrem sacolinhas tiram pandeirinhos de plástico adquiríveis na 25th Street em Sampa por um real e começam o discurso alternando-se em forma de jogral.

[Som de pandeiro em ritmo de repente]
- Nóis pudia tá róbanu.

- Pudia mais num tamu.

- Cum esse tamanho todo

- De menos de metro e meio

- O tiozinho que tá ali

- Istorava nóis co'arreio

- E essa moça bunita

- Parece com a globeleza

- Vai dá uma ajuda pra nóis?

- Vai dá sim tenho certeza

- Nesse trem só tem gente bunita

- Acho que demo sorte

- Cum a ajuda de todos vocêis

- E os trocado que nos dão

- Sustentamu os fio no Norte
Eu fui mais rápido. Quando vi os pandeirinhos saírem das sacolas, troquei rapidamente os óculos pelos escuros. Fiz uma expressão steviewonderiana olhando pro infinito e evitei que eles me fizessem a (des)gentileza de compor algum verso em minha frente esperando um trocado. Eu até pagaria algo, se mediante o pagamento eles concordassem em saltar do trem em movimento e nunca mais encher o saco de ninguém.

Como é proibido tocar som, vender coisas, esmolar e perturbar os passageiros, o que inclui os pé-no-saco dos pregadores evangélicos, os repentistas evaporaram com suas doações e pandeiros, tão logo o trem chegou à estação. Certamente para disfarçar e mudar de vagão ou então esperar outro trem. Se não tivesse quem achasse graça naquilo e ninguém lhes desse dinheiro eles já tinham mudado de "profissão". Fazer o quê? Não tenho culpa de ter os ouvidos apurados.

Railway life - Parte-II

Grotesco é apelido. Além do suplício de Prometeu a que o passageiro ferroviário é submetido, uma horda de seres estranhos faz questão de completar o quadro.

Semana passada, em um dos dias a darling fez questão de levar a cria comigo para a escola e assim me acompanhou no trem, cada um rumo ao seu trampo. Dado o cenário impossível, deixamos passar duas composições enquanto analisávamos uma estratégia que nos garantisse o embarque. Percebemos que o primeiro vagão era menos abarrotado. Com um certo esforço físico era possível empurrar os cumpanhêro da crasse operária e ficarmos entre o contingente e a porta. E assim o fizemos. Fomos coladinhos um no outro e por mais que isso possa sugerir algum erotismo, lamento desapontar o leitor. Numa hora dessas é mais capaz que pensemos em jogar o outro pra fora por sobrevivência, do que tiremos proveito do grude.

Fechada a porta e pensei que estava delirando. Mas começo a ouvir vozes em côro:
"O Senhor é meu Pastor e nada, nada me faltará
O Senhor é meu Pastor e nada, nada me faltará
Já me deu o suficiente nesta vida, não peço mais
Já me deu o suficiente, já me deu o suficiente
Já me deu amor e paz"
Eu devo merecer. Não me bastava o calvário do transporte e ainda tinha que ouvir hinário evangélico. Atente que não tenho nada em absoluto contra a fé alheia. Desde que seja praticada em ambiente fechado entre seus adeptos. No mais vão todos à merda. Ninguém pediu para ouvir aquilo nem muito menos a pregação que algum deles fazia nos intervalos entre um cântico e outro. Juro. Além da musicaiada chata, piegas e carola que os pentelhos obrigavam-me a ouvir, um mala-sem-alça ainda intercalava exortações e citações bíblicas. Muito mal referenciadas e mal interpretadas, cabe-me dizer. Como é patente dos evangélicos chatos, as palavras eram proferidas aos brados retumbantes.

Talvez os desinfelizes sintam algum alívio no meio daquele sufoco, louvando e suplicando ao deus deles. Uma espécie de narcótico espiritual de efeito analgésico. Enfrentar a dureza da vida com a cara e a coragem não é para qualquer um. Escorar-se em deuses e entidades espirituais propicia alívio aos ingênuos e piedosos. Como quis dizer o velho Marx, quando afirmou que a religião era o ópio do povo. Para quem não sabe o ópio, droga extraída da papoula, na época de Marx não era uma droga nos moldes do narcotráfico de hoje. Era um anestésico de uso clínico-hospitalar. Como tal, aliviava as dores dos doentes. Sábio Marx. Pobre povo rezando no trenzão em busca dos seus salários de fome.

Só que vão cantar os seus hinos no inferno, no céu ou na PQP como preferirem. Cambada de chatos.

Eu "muito bem" vindo de trem de algum lugar

Estação Sé, em Sampa. Horário de pico. Embarque para ZL.

Diferente da terra dos nossos irmãos estadunidenses, aqui em Pindorama morar no subúrbio é sinônimo de má qualidade de vida. Se os subúrbios de lá, ao menos os dos filmes, são povoados com casas paradisíacas sem cercas e com jardins mimosos, morar na periferia aqui requer grades grossas, correntes, cadeados enormes e - por que não? - um bom três-oitão fácil de recorrer. Terras de Marlboro, com leis próprias, as periferias brasileiras não são o melhor lugar para se viver. Aliás, viver já é grande coisa. Sobreviver, melhor dizendo.

É nesse contexto que tenho provado de parte das dificuldades do proletariado, já que na periferia moro há muitos anos. Embora me encontre em uma escala intermediária, abaixo dos possuidores mas pouco acima dos despossuídos, posso fazer uma série de escolhas no meu cotidiano. Posso escolher entre andar de carro (quitado e abastecido à vista), escolher onde a cria estudará, dentro de um leque limitado, e não dependo de postos de trabalho anunciados em classificados, pois sei criar os meus.

Como o meu novo posto de trabalho fica no lado oposto da minha casa muitas vezes, quando não tenho que visitar clientes, opto por cruzar a cidade de trem. Trenzão de subúrbio mesmo. O antigo Fepasão que agora faz parte da Cia do Metropolitano de São Paulo. Deixo a cria na escola, boto o carro em um estacionamento ao lado de uma estação e embarco para uma sucessão de baldeações, mas que me possibilitam cruzar a cidade em cinqüenta minutos ao invés de duas horas e meia, como seria de carro. E de quebra é melhor para ir à faculdade à noite, pois a instituição fica ao lado de um terminal multimodal.

Confesso que não sei o que é pior: se é cruzar a cidade em duas horas e meia com cãibra de tanto embrear e engrenar o carro ou embarcar no trem às sete da madrugada - é madrugada sim - sendo compactado pela porta automática forçada pelos seguranças da estação. Acredite em mim que é impossível mover os braços depois de ver-se prensado na massa humana dentro do vagão. Ao entrar na lata de sardinhas gigantesca é preciso escolher previamente a posição dos pés e braços, porque nenhum movimento é possível durante o trajeto. No máximo se negociar com um dos prensados fronteiriços. Do lado em que embarco, o consolo é que a porta só se abre praticamente na estação final de modo que não entram mais pessoas. E também o trem é uma espécie de expresso, pois só pára a cada uns cinco quilômetros. O suplício dura menos.

Tente imaginar o cenário: não estou falando que o trem está cheio e não tem lugar pra sentar. Isso já é fato, inclusive porque o número de assentos vem se reduzindo a cada reforma. Afinal de contas, gado não precisa de assento. Estou falando que há vezes em que para se respirar é preciso revezar. O vizinho do corpo-a-corpo respira e você inspira. Sempre de forma alternada porque, se todos inspirarem ao mesmo tempo, as portas explodem para fora, por causa do aumento de volume dos corpos. Os trens em si até são bons. Têm vidros fumê, ar-condicionado funcionando e assentos acolchoados. Só que são em número insuficiente para a demanda. Mesmo somando a linha de metrô com as duas linhas de trem para a zona leste de Sampa, não dá nem pro começo durante o horário de pico. Por outro lado, vai saber se a infraestrutura de segurança, sinalização e comunicação comporta um aumento de tráfego. Suspeito que não.

Nesta semana um colega do trabalho, meio-parceiro meio-chefe me contou ter lido que o governo paulista receberá noventa e nove trens da Espanha, se não me engano. De segunda mão, claro, mas comparados às sucatas que ainda servem algumas linhas, equivalerão a transporte VIP. Achei até interessante o número. Por que não cem? Alguma coisa cabalística, deve ser. A merda é que não há políticas sérias para transporte público. Nenhuma instância de governo demonstra ter projetos concretos e factíveis para transportar a pobraiada em larga escala. No máximo obras viárias desconexas e assíncronas (malhas, viadutos, túneis) mas que privilegiam sempre o transporte individual, o carro que polui desproporcionalmente e entope as vias em prol do indivíduo. Enquanto isso a grande massa proletária pedestre passa sufoco no precário transporte público.

E ainda dizem que o brasileiro é vagabundo. Óbvio que depois de enfrentar um transporte desse naipe o peão chega na fábrica moído e indisposto. Cego é quem não quer ver.

Aliás neste ano tem eleições municipais, né?

Ops, desculpe. Essa é em Vancouver, Canadá.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Mea culpa

Peço aos 3 ou 4 leitores disto aqui, envergonhadas desculpas. Não é que me falte assunto para escrever nem que eu tenha perdido a destreza no teclar. Mas o leitor não sabe a quantas anda a vida do tio. Trampo novo, as aulas recomeçaram e, ao que tudo me faz crer, os professores estão a fim de formar PhDs Harvardianos, pela volúpia com que despejam seus programas do semestre, suas bibliografias e suas promessas de que a moleza acabou.

Acontece que depois de uns anos, durante os quais uma complexa tabela de cálculos e arredondamentos para cima conseguia fazer um vegetante ser diplomado, a reitoria da instituição resolveu voltar aos bons tempos. Acabaram-se os generosos arredondamentos automáticos "do sistema", as provas de peso diferenciado, as substitutivas para os faltosos e - pasmem - o exame. Este último era a tábua de salvação de uma turba de ancéfalos(as), que insistiam em constar na lista de chamada.

Ou seja: a casa dos vagabundos caiu. E a do tio, se eu quiser continuar sendo "o the best", vai exigir que eu rale um tantão mais do que o habitual. Já estou programando meu evento "back to the old books store". Preciso comprar uma meia-dúzia de livros de referência e espero encontrá-los desolados e abandonados nas banquinhas de cinco reais dos sebões do centro velho de Sampa. Tomara.

E no trampo novo as coisas prosperam. Somados o adiantamento do maldito Carnaval deste ano com a exímia competência comercial do tio e um upgrade nas oportunidades, tudo indica que estou rumando para meu primeiro milhão de dólares a passos largos.

Explicado o acima e considerando que já são trinta minutos de um novo dia, preciso dormir. Amanhã tenho clientes para visitar nos dois períodos. E quem dorme na mesa de negociação costuma levar a pior. Ou melhor dizendo, não levar nada.

Fui.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Sebastião Rodrigues Maia


- Mais som, mais grave, mais agudo, mais tudo.

Tim Maia é tão interessante que não achei um título decente para este post. Já devo estar no quarto ou quinto e talvez se você pressionar [F5] o título já tenha mudado. Acabo de ler a obra litero-jornalística de Nelson Motta. Vale tudo é um livro direto em linguagem objetiva, bem escrito e apaixonante. Não pela obra em si, mas pelo objeto da narrativa.

Tim Maia é, por si só, a figuraça mais balançante e mais pitoresca da MPB. Sempre gostei do Tim, principalmente por causa do gênero, dadas as "minhas raízes afro". Vivi e dancei toda a década de 80, que foi o apogeu da carreira musical do Tim com hits que explodiam as caixas nas pistas das casas. Esmerilhávamos o chão com nossos sapatos (minha geração procurava se vestir bem e usava sapatos para ir aos bailes) fazendo passos sincronizados em grupo, ao som de Sossego e Do Leme ao Pontal.

Nas palavras do próprio autor ninguém, nem cheirando tudo o que o Tim cheirou, bebendo tudo o que ele bebeu e fumando tudo o que ele fumou, jamais conseguirá se aproximar do perfil do músico mais doido, mais intempestivo e mais swingado que o Brasil já viu.

Compreender melhor as fases da vida e da obra timaiana me animou a dar um retoque na minha coleção de mp3 do gordo. Até então resumia-se à ripada de umas coletâneas que possuo, mais a digitalização de uma fita K7 e um LP. Como estou sem o menor saco de caçar agulha do toca-discos pra digitalizar os outros LPs e sem grana pra comprar mais CDs, o jeito foi apelar para São Download. E olha que tem coisa do Tim na rede. Do it and enjoy it.

Por fim recomendo a todos que leiam o livro. "Vale Tudo" valeu os cinqüenta merréis pagos. Lamento apenas pelo final, que não me furtarei de contar aqui: o Tim morre. A propósito em março fará dez anos. O Brasil ficou sem síndico.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Roteiro gastronômico do submundo 2008-01

Subtítulo: NÃO VENDA O QUE NÃO TEM

A pior coisa que pode ocorrer a um cliente é sofrer a tentativa de ser enganado pelo fornecedor. É o mesmo que chamá-lo de trouxa na cara. Tenho uma regra de ouro, de minha autoria, que serve para qualquer ramo de atividade:
"Quando não tiver a lebre que o cliente pediu não empurre o gato.
No máximo tente convencê-lo das vantagens do gato."
Infelizmente em um tempo em que a incompetência crassa, a malandragem cresce e a filhadaputice abunda, essa regrinha tão simples é desconhecida.

Não somos obrigados a ter sempre o que o cliente pede. Mas não é porque o cliente pediu algo que ele quer esse algo. Geralmente ele quer resolver alguma questão e cabe ao vendedor captá-la. Pode ser fome, pode ser uma solução técnica, pode ser um meio de transporte, sensação de segurança, etc.. Em resumo, quando o cliente pede especificamente por alguma coisa, em noventa e nove porcento das vezes essa coisa é passível de substituição. Mas tem que ser feita de forma honesta, transparente e competente.

Eu mesmo me vejo obrigado a reespecificar os pedidos de meus clientes todos os dias. E graças à minha competência, consigo apontar valor para o que tenho a oferecer, em relação ao que o cliente havia pedido. Para isso, depois de entendida a necessidade real, eu só trato de posicionar os holofotes em cima das melhores características do que eu possuo para vender. O freqüente resultado é que consigo vender, deixo o cliente satisfeito e ele torna a me ligar para comprar novamente. Fatos sim, mentiras jamais.

Mas os proto-profissionais que atenderam a mim e à tia darling na Panificadora Marengo (vide ficha técnica no rodapé) jamais ouviram falar de tudo isso. Aliás, estabelecimento alimentício lotado quase sempre é sinônimo de mau atendimento. Não deveria. Se a demanda é maior do que a capacidade, parabéns para o empreendedor. Esse é o sonho dourado de todos. Só que daí para satisfazer bem aos que conseguiram adentrar ao recinto é bem outra coisa. Veja se não estou sendo severo demais.

Depois de amargar uns trinta minutos na fila com a darling e eu faminto, conseguimos uma mesa. Logo notei que o in da noite era o rodízio de pizzas. A fisionomia de estresse da funcionária de cabelos mesclados de cor-de-rosa e dos demais empregados não era lá muito animadora. Mas eu não tinha ido lá para admirar as funcionárias e tampouco os seus pares masculinos. Sentamo-nos. Os pratos já estavam postos e, em poucos segundos, uma funcionária aporta em nossa mesa com uma fumegante pizza:

- Brócolis com muzzarela?

- Não. Por favor, pede para alguém... - mal tive tempo e a dita saiu-se voando a servir outra mesa - .

Chega outro servente:

- Atum com cebola ou atum com catupiry, senhor?

- Nenhuma. Eu quero o cardápio.

De novo, esse se manda, nada de cardápio e encosta um terceiro de mãos vazias:

- O que vão beber?

- Eu quero o cardápio primeiro.

- Não tem bebida no cardápio.

- Você pode trazer o cardápio?

- Mas não tem bebida no cardápio.

Eu sei que podia ter dado um berro e um murro na mesa para me fazer entender. Mas sou um ser com alma nobre e apenas estou estagiando na plebe enquanto meus milhões não me chegam. Tento explicar, como cabe a um futuro pedagogo:

- Você já me disse e eu ouvi. Mas eu quero escolher lanche. Posso?

- Não vão comer pizza?

- ...

Com uma delicadeza paquidermiana a baianinha inculta e mal-remunerada puxa os pratos da mesa, sem ao menos pedir licença. Ainda que mal, tive tempo de dizer que queríamos dois refrigerantes pretos com gelo e limão. O simpático casal da mesa ao lado riu da cena insólita. Comentei com eles e a darling que quebrar rotinas robotizadas dava nisso. O povinho que trabalhava lá estava em modo piloto automático, carregado com o software "rodízio.exe". Ser do contra seria meu desafio. Mais ou menos como os Luditas faziam nas fábricas durante a revolução industrial. Pane certa. Mas eu sou brasileiro e não desisto nunca.

Alguns ajustes no modus operandi dos robozinhos e o cardápio chega em nossa mesa. Procuro escolher rápido meu lanche. Na verdade eu já sabia de antemão o tipo de coisa que queria e só usei o cardápio para escolher a versão. A darling gostou da sugestão e clonou. Melhor mesmo, porque em um ambiente lotado como aquele pedir variações seria suicídio. Dois cheese-picanhas. Segundo a descrição do cardápio algo simples como: picanha frita em tiras, com queijo derretido e salada, no meio de um pão de hambúrguer. Eu já havia comido isso lá mesmo, um ano antes. E achei que seria satisfação garantida. Ao menos foi o que pensei.

Minutos depois chegam os enormes e vaporosos lanches no prato com talheres. A servente de madeixas rosadas despenca-os rapidamente na mesa junto com um catchup. Tomo fôlego para pedir a mostarda mas ela já estava a um quilômetro. Tudo bem, esperaria outro atendente passar. Corto o primeiro pedaço, degusto e puto da vida decreto para a darling:

- Isso aqui só é picanha se for na casa da senhora mãe deles.

O casal vizinho só observa, tranqüilos que estavam com o serviço-padrão de pizzas randômicas.

- Não é? - pergunta minha companheira - .

- Nem a pau. Desde quando picanha tem nervinhos? E a aparência dessa gordura? Isto é contra-filé.

Tiro um pedaço com o garfo, destrincho no prato e mostro para a amada ironizando:

- Eu adoro pedir algo e me darem outro sem maiores explicações.

Acontece que, quando essas coisas são feitas nos estabelecimentos, os funcionários - ao menos os nascidos de profissionais do sexo - já sabem bem o que estão fazendo. A técnica é a famosa SPP: Se passar, passou. E para isso, após arremessar a entrega na mesa do cliente eles tratam de se mandar. Se possível encerram o expediente ou voltam somente quando o cliente pedir a conta. Antes de mais nada, peço para uma garçonete chamar a senhorita pink-hair. Ela chega à mesa atabalhoada com aquela cara de "fala logo que tô ocupada" e ouve a queixa do pobre freguês:

- Isto aqui não é picanha em lugar nenhum do mundo. É contra-filé.

Ela persiste e comete o pênalti. Acha de argumentar, sugerindo que me falte sanidade mental ou conhecimento:

- Impossível, porque hoje nós nem temos contra-filé.

- Querida - puxo o pedaço de carne com o garfo e mosto a ela destrinchando com os dedos - isto aqui não tem textura de picanha, não tem gosto de picanha, nem cheiro de picanha e nem gordura de picanha. Na melhor das hipóteses seria contra-filé. Mas se você diz que não têm contra-filé, aí me preocupa. Que diabo será?

Visivelmente emburrada a esguia mulher pega o meu lanche e coloca na janela do chapeiro. Conversam de forma que eu não escute, mas a darling ainda consegue ouvir. O senhor chapeiro queria reafirmar o milagre da transubstanciação bovina dizendo que não tinham contra-filé. Vão às putasqueospariram com essa insistência. Se se tratasse de pessoas leigas eu juro que perdoava. Mas esses merdas trabalham com isso o dia todo. Sabem o que receberam do fornecedor, o que cortaram e o que fritaram, mas insistem em chamar o cliente de idiota. Mais destestável impossível. A moça volta à mesa com mesmo o prato, na vã tentativa de me convencer dos poderes sobrenaturais do estabelecimento.

- Isto é picanha. Se o senhor pedir outro lanche vai vir igual. Porque não temos contra-filé. Impossível.

Que dane-se a modéstia, mas tenho um paladar de gourmê francês, olfato de cão e conheço alimentos um bocado. Mas raciocinei de forma pragmática. Eram nove e meia da noite, tínhamos ficado na fila por trinta minutos, eu não tinha almoçado e tudo nos arredores tinha filas nas portas. Então condicionei, inegociável:

- Olha jovem, não sou inimigo de contra-filé. Mas eu pago pelo gato, não pela lebre. Continem enganando aos que não conhecem carne. Vou ficar com o lanche mas jamais vou pagar isto como cheese-picanha. Tudo bem? Se vire com a especificação da conta e obrigado. Se estamos conversados, com licença que vou comer.

Não sei se resignada, aliviada, ou sei lá o quê, a ditinha ainda avisou que na hora de saírmos era para chamá-la. Entendi que era para fazer a correção da comanda. A darling, por sacanagem ou por estar com menos fome que eu, fez questão de rejeitar alguns dos pequenos pedaços que achou duros, abandonando-os mordidos no prato auxiliar. Chamei a atendente que digitou algo no micro-terminal, levantamo-nos e ao passar pelos chapeiros lancei um olhar fulminante ao time de pilantras. Estivesse eu com adereços e trajes apropriados de vodu, eles sairiam de lá direto pra se benzer. Ao pagar a conta atentei ao que era processado e vi que a magrela tinha bilhetado os lanches como "churrasco com queijo". Aqui em Sampa o têrmo define um sanduíche simplório de carne picada. Menos da metade do preço da iguaria que eu pedira e queria. Mas fome aplacada e instatisfeito com o atendimento, me mandei para casa com a querida.

Atenção senhores da Marengo: não façam mais isso. É muito feio, desonesto, ofensivo e canalha. Não tem, não tem. Um cliente satisfeito recomenda a mais dez. Um insatisfeito alerta a cem. Ou bloga, que é bem mais eficiente.

FICHA TÉCNICA:

Dia: 08/02/2008.
Hora: 21h00.
Local: bairro do Tatuapé, em Sampa.
Estabelecimento: Panificadora Marengo
Conceito: Sacanagem não se perdoa. Não merece bis.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Momento merchan

É com grata satisfação que veiculo gratuitamente neste blog, sem qualquer solicitação ou autorização dos proprietários, a seguinte empresa:

Para mais informações, visite o site www.xavier.com.br.

Ps.: O tio Xavier, até onde se sabe, não tem nenhum vínculo societário ou consangüíneo com os acionistas da empresa em questão. Senhores seqüestradores não percam vosso tempo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A conversão

É curioso como a falta de alternativas às vezes é de grande ajuda nos momentos de dúvidas. É um paradoxo. Costumo dizer que deve ser fácil ser fiel de seitas fundamentalistas radicais, porque as escolhas terminam no dia em que se entra nelas. Daí por diante escolhem por você e, quando não, fica-se refém de uma única alternativa. Esse rodeio todo é para justificar o final da maratona na escolha de uma escola para a caçula. No meio do sétimo ano de vida dela (incompleto) vi-me na árdua tarefa de pesquisar escolas, posto que encerrou-se o período de Educação Infantil. Ela vai para o segundo ano e a escola onde permaneceu não oferece o Ensino Fundamental.

Por causa das rotinas de trabalho da darling e minha, período integral foi uma premissa inegociável. Depois viria - supunha eu - a enquete sobre a proposta pedagógica, preço, estrutura predial, serviços agregados e coisas assim. Descartei de cara a escola pública, deteriorada que está por aqui e em todo lugar. Puxei uma lista de escolas no site do sindicato patronal, filtrei por faixa de CEP para ver as mais próximas e comecei os telefonemas. A pergunta inicial e primeira eliminatória era: "Vocês têm período integral no Ensino Fundamental-I ?". À resposta negativa eu agradecia e desligava. Assim liquidei 90% da lista em minutos. E a angústia aumentava na mesma proporção.

Sou avesso ao ensino básico ligado a instituições religiosas. Por mais que a obrigatoriedade do conteúdo laico seja uma exigência legal até respeitada não tem jeito. A "pegada" religiosa da mantenedora vaza pelos poros da instituição. E não-praticante religioso que sou, mais precisamente anti-clerical, entendo que a educação básica deva ser laica, plural e científica. Mas da peneira do listão, eliminados os estabelecimentos que não ofereciam período integral, sobraram apenas dois. Visitei-os. Ambos bem pequenos, sendo que um era dirigido por... religiosas católicas. A cria foi junto, afinal de contas a "cliente" de fato era ela.

No final das duas visitas, fui para casa mais preocupado ainda. Não me apaixonei por nenhum e o calendário, a logística e as modestas finanças jogavam-me contra a busca de outras possibilidades. Enfim, perguntei para a criaturinha de qual das duas ela havia gostado mais.

- A das freiras.

- A das freiras? Por que?

- Porque tem uma igreja.

Para quem recentemente tinha proferido umas dez blasfêmias na mesa do café da manhã, aquilo parecia-se com a conversão de Saulo de Tarso. Dias atrás ao ouvir uma das expressões corriqueiras da darling - coisa simplória como "se deus quiser" ou algo assim - a cria desfiou frases que fariam tremer até os exorcistas mais renomados do Vaticano. "Tô com saco cheio desse deus de vocês" foi a mais branda de todas. A darling ficou ainda mais branca do que já é. Eu fiquei esperando a cria dar um giro de trezentos e sessenta graus com o pescoço, a mesa levitar e ela expelir um jato de vômito verde. Mas nada aconteceu e continuei a passar manteiga no pão. Notei que era mais um de seus teatros para apavorar a ingênua e piedosa mãe, que continuou paralisada e de olhos arregalados por uns dez minutos.

Voltando à questão de fundo, como em todo colégio religioso que se preze há uma capela no interior dele. E a minha filha, justamente a filha de um marxista, agnóstico, ex-católico e auto-excomungado, escolhe o dito por causa do mini-templo cristão dentro dele. Comecei a refazer minhas idéias, mais movido pela falta de escolhas e em consciente processo de acomodação à realidade. No fim, conversei com as freiras por quem nutro respeito e foi assim. Lá está a criaturinha de pacote completo. Curso regular, atividades extras e ensino religioso suplementar, o qual autorizei também. Quem tá na chuva é pra se molhar e não haverá de fazer-lhe mal. Quem sabe ela pára de perturbar o café da manhã da mãe com blasfêmias.

Não ter escolhas facilita as coisas.

Não estamos sós

Riolândia-SP a 700Km da capital paulista está sendo palco de notícias inusitadas. O testemunho do caseiro-arrendatário de uma pousada situada em um canavial e estranhas marcas deixadas em um ponto da plantação estão dando o que falar. Um objeto voador extraordinário teria sobrevoado a cidade e pairado sobre o canavial, a poucos metros da casa. Ao menos é o que jura Maurício Pereira da Silva, a única suposta testemunha do fenômeno luminoso durante a madrugada. Saiba mais clicando AQUI.

Confesse: que é curioso, isso é mesmo.

A vasta literatura ufológica, que versa sobre formas de vida e transportes aéreos vindo de outros lugares do cosmo, sempre fascinou a humanidade. É um território desconhecido e por isso assustador, surpreendente e mistura fatos, com factóides excitando o imaginário popular. O caldeirão torna-se mais fervente pela freqüência com que autoridades governamentais - dentro e fora do Brasil - costumam bloquear investigações, sabe-se lá a razão. Aí é prato cheio para teorias da conspiração.

Para o teólogo, filósofo, ufólogo de magazine e futuro pedagogo Tio Xavier essa questão tem uma complexidade semântica que vai muito além. Acreditar ou ter convicções sobre a existência de outras formas de vida não é qualquer coisa como gostar do Roberto Carlos, de feijoada ou de futebol. Coloca o ser humano diante dos dilemas existenciais da própria espécie.

Lembremos que há milênios o homem conseguiu domesticar seus deuses, construindo-os à sua imagem e semelhança. Tirando algumas vertentes indianas, africanas e ameríndias, as religiões de modo geral representam seus deuses, anjos e demônios com imagens de hominídeos, dentro dos padrões de beleza das culturas que os originaram. A moral religiosa, por sua vez, reflete os momentos em que os preceitos foram "revelados" ou, melhor dizendo, codificados, pois são recheados das necessidades políticas, econômicas e antropológicas dos povos de origem. O ápice disso é o monoteísmo judaico, cristão e islâmico. Religiões com a mesma raiz cultural, para as quais podemos dizer que o Deus Supremo é pouco diferente do Homem Supremo, assim entendido por essas religiões.

Domesticados os deuses, resta à Humanidade crer que seja possível exitirem outras formas de vida e organização diferentes das nossas, quiçá como alternativa ao mundo que está aí determinado. Já praticamente sabemos qual é o regime econômico que tende à perpetuação, qual é a nação que domina o mundo, como prossegue a acumulação de riqueza, como aumenta a devastação do planeta e destruição dos recursos vitais e daí por diante. Seria uma certa foram de alívio se soubéssemos da existência de outras possibilidades. Talvez a raiz do ceticismo dos governantes seculares e religiosos sobre a existência de vida inteligente fora da Terra esteja na incontrolabilidade que essa perspectiva abriria. Imaginemos por um segundo que a hipótese de vida inteligente em outros lugares do universo seja factível, nos livrando de preconceitos e paradigmas.

O que esses caras nos trariam de imediato, caso não viessem como predadores? Outras formas de se relacionar com a morte e vida após morte? Outros idiomas? Outra maneira de organizar a produção de víveres e de preservar a espécie? Outros modos de divisão econômica e conceitos de propriedade? Outros deuses, se não fossem eles os próprios? Outros modos de uso dos recursos naturais? Outras tecnologias de comunicação e informação? Outros modos de organização política e social? Tudo isso junto e mais alguma coisa?

A perspectiva de que os ETs subvertessem o que está aí e virassem o mundo que conhecemos de cabeça para baixo (ou para cima, vai saber) não é qualquer coisa. Acho melhor o seo Maurício deixar esse assunto quieto e continuar a sua rotina de cuidar de sua pousadinha. E jamais abrir o vitrô da cozinha se ouvir barulhos de novo. Quem sabe esses ETs pegam logo as amostras que querem e se mandem. Melhor assim. Sei lá.

domingo, 27 de janeiro de 2008

O mundo de Caras®

Fútil. Não acho palavra para definir melhor os trezentos ou quatrocentos gramas de papel couché em quatro cores, aplicado na confecção de Caras. É impressionante folhear qualquer exemplar e dar-se conta de que não há ali nada capaz de alimentar o intelecto. Nem mesmo uma ou outra receitinha culinária salvam-na da babaquice completa. Cheguei a essa conclusão da forma mais empírica possível. Como sempre rejeitei essa revista no salão onde corto o cabelo, foi apenas quando ela chegou em minha casa que pude fazer o exame detalhado. Durou os exatos cinco minutos em que permaneci sentado no vaso sanitário. Um bom lugar para folhear Caras, já que toda manhã eu... (pouparei o leitor dos detalhes).

Considerando a razoável formação cultural da minha família o leitor há de se perguntar: como chegou isso na casa do tio? É que os editores da Caras, ano passado, fizeram uma promoção tão idiota quanto a própria revista. Era aquela famosa "receba X edições grátis", que termina com um boleto bancário facultativo para renovação. Divulgada a farra no trabalho da darling, a mulherada em peso preencheu um formulário na internet, que não requeria nem mesmo o sobrenome do assinante virtual. Bastava dar o endereço, um primeiro nome e pronto. A darling usou do famoso "de graça até choque" e o fez. No final da palhaçada, todo mundo recebeu a enriquecedora publicação em suas casas. E digo mais, que elas não o fizeram só uma vez. Ao expirarem as edições gratuitas, preenchiam novamente dando outro nome para outras quatro edições também grátis. A brincadeira durou umas quatro rodadas. Dezesseis edições de Caras digrátis pra cada uma. E ninguém do grupo, em absoluto, se interessou pelo singelo boleto para perpetuar a assinatura.

A maioria dos exemplares da minha casa já foi repassada, com a embalagem ainda lacrada, pro tiozinho catador do bairro. Um ou outro acabou sendo aberto pela cria, pela própria darling ou por alguma visita muito culta que se espantava com a pilha de Caras sob a mesinha na sala. Depois do bota-fora uma ou duas sobreviveram como literatura sanitária, dividindo espaço com outras publicações ecléticas como revistas de Informática, um livro de auto-ajuda sobre alimentação e até duas edições de uma revista Zen-Budista.

Hoje durante meus afazeres orgânicos matinais, folheei a que estava na pilha ao lado. Na capa da edição de 16/11/2007, Ivete Sangalo sorria apaixonadíssima por um namorado bósnio. Paixão avassaladora esta que acabou há poucos dias, dentro do padrão de descartabilidade dos romances famosos. Talvez pela falta de redatores competentes, ou pela falta de conteúdo mesmo, o que predomina na revista são fotos. Fotos e mais fotos. O que pode ser também uma estratégia editorial, ligada à baixa capacidade de leitura e compreensão dos adeptos da revista. Como infelizmente grande parte dos periódicos impressos, Caras é apenas um suporte flácido e oco para veiculação de 348430834080 propagandas a cada edição. Pela vida de quase uma década e meia dessa pérola, é certo que existam anunciantes de sobra. E tontos que a compram.

Não é difícil entender as prováveis causas de Caras ser um sucesso editorial. Basta somar o baixíssimo nível cultural da população de todas as classes sociais à incapacidade crítica e reflexiva que cresce exponencialmente, mais o ideal consumista alimentado pela indústria e pela mídia e, por fim, o voyeurismo idiota das camadas mais pobres, ao almejar o mundo falsamente feliz das celebridades vazias enquadradas pelos fotógrafos.

As fotos conseguem como nenhuma outra coisa combinar a plástica de sorrisos artificiais com poses bizarras das mais variadas. Estou com preguiça de escanear pra botar aqui, mas tem cada uma de chorar de rir. O namorado da linda Luíza Brunet ajoelhado em pose de súplica, enquanto ela simula subir as escadinhas do casebre de um beco italiano é uma das tantas. Bem de frente a uma das torres do tal Castelo de Caras, um tal de Kiko Sobrino (?) e outro sujeito chamado Alessandro Jordão (?), de costas um pro outro encenando armas com os dedos em riste macaqueando um duelo. Mal-vestidos como só eles. Me desculpem mas independente de quantos cinco ou dez mil reais possam estar cobrindo-os, ambos não têm o menor senso para indumentárias. Bregas. Uma gal de Gigi Monteiro (?) mostra sua barriga da gravidez. Igual às rampeirinhas daqui da periferia. Só que é bem bonita e cosmeticamente tratada. Lamento apenas porque barrigas em formato de melancia não são algo esteticamente bonito e deveriam sempre ser ocultas. Já um casal de nome Carla Regina (?) e Malcolm (?) está sentado sobre a cama sob véus fazendo pose de apaixonados a olhar e sorrir um para o outro. Bela cena seria, não fosse resultado de encenação sob flashes e olhares de meia dúzia de profissionais, aboletados dentro do mesmo quarto. Em outra foto sensacional uma tal de Tatiana Santo Domingo (?) com seu parceiro Andrea Casiraghi (?) ostentam respectivamente um sorvete de casquinha e uma cerveja Kronenbeer (argh!). Karen Couto (?) compra biscoitos em uma loja na Itália, vejam que interessante. Maria Paula e João Suplicy - esses eu sei quem são - estão em uma loja de utilidades domésticas e enxovais fazendo compras. Em uma das fotos eles estão examinando panelas anti-aderentes, algo realmente engrandecedor. Não por acaso, em toda e qualquer foto ao ar livre figura um Fiat Punto, lançamento na época da edição. Belo carrinho, mas merchan paupérrimo em criatividade e sutileza.

E esse é o mundo de Caras. Fotos posadas, sorrisos de visível superficialidade, celebridades insignificantes para a evolução humana, romances rasos e fugazes, vestes onerosas e feias, falsos escritores, falsos pintores, premiações vazias e anúncios - claro - muitos anúncios.

Pobres diabos das classes remediadas e das classes pobres. Folheiam essas coisas e sonham, enquanto amargam pegar trânsito suando e bufando por seus salários miseráveis. À margem da riqueza material por contingência. Alheios à riqueza cultural e espiritual por arbítrio.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Depuseram o rei

PQP. Abro os jornais eletrônicos hoje e em vários deles vejo a mesma e importantíssima notícia. Era sobre a eleição do rei-momo do carnaval baiano. Os melhores analistas políticos do país são uníssonos na compreensão. Nem a questão da transposição do São Francisco, nem a escassez de água nas barragens, nada disso é tão importante para o Brasil quanto essa questão.

Resuminho básico: No estado de Dona Canô os caras que cuidam do Carnaval elegeram um rei-momo que não se parece com um hipopótamo. O homem pesa menos de sessenta quilos. Ou seja, é um ser normal, saudável e não servirá de incentivo para que a pobraiada carnavalesca aumente os casos de AVC e infartos nos hospitais públicos. Mas não. O rei-momo tem que ser uma espécie de mamute paramentado.

O assunto é tão importante que o Ministério Público entrou na contenda. A promotora Heliete Viana entrou anteontem com uma ação civil pública para anular a escolha. Aidê Ouais, juíza substituta de não sei qual vara pública empenhou-se em anular a eleição. Tudo porque o Seo Clarindo, o tiozinho eleito, é magro. Nobres procuradores federais pagos com dinheiro do contribuinte, ao invés de se preocupar com denúncias de corrupção, desvio de dinheiro público, licitações fraudulentas e coisas assim, se engajaram nessa importante demanda monárquico-carnavalesca. Nada mais prioritário do que discutir a pança do rei-momo baiano.

Sem pança, no king.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Lost, no more

Os aficcionados por seriados que me desculpem mais uma vez. Mas não consigo ver coisa mais chata do que acompanhar seriado. Seriado de um modo geral, aplicando-se a novelas, trilogias, quadrilogias e infinitologias. Sempre fui um amante da leitura. Li romances aos montes. Não essas porcarias que infestam as prateleiras, cuja única função é vender, nada trazem de conteúdo - vide o acadêmico e embusteiro Paul Rabbit - e que são escritas sob pressão de prazo dos editores. Romances mesmo, desses que você percebe que o autor viajou espiritualmente e viveu no imaginário cada milésimo de segundo do escrito. Li títulos de gente que os jovens de hoje sequer imaginam que tenham existido como por exemplo o carioca José Mauro de Vasconcelos de quem suspeito ter lido tudo, dado meu pai ter trabalhado na Melhoramentos®. Alguém aí por favor me surpreenda dizendo-me que já leu O meu pé de laranja-lima, Rosinha minha canoa ou O palácio japonês. E não sou nacionalista de plantão não. Li coisas ótimas de estrangeiros como Morris West, Isaac Asimov e até doidos conspiradores como Erich von Däniken e Peter Kolosimo. Falo dessa escrita densa e de vasto vocabulário, que pouco ou nada tem a ver com os clichezinhos da atualidade. Mas dane-se. Cultura se compra e se lê. Não vou aqui convencer ninguém a abandonar a pseudo-literatura que abunda no mercado editorial. Voltemos à questão dos seriados.

Lost, foi e é um hit, se é que continua sendo produzido. É a estória de uma galera que toma um capote com um avião e cai em uma misteriosa e mística ilha cheia de desafios e perigos, remetendo o telespectador àquelas provas de sobrevivência que foram licenciadas e clonadas pelo Fantástico na Rede Globo como o nome de... (não me lembro agora). Com enredo difuso e aberto a praticamente tudo, Lost satisfaz o desejo íntimo de voyeurismo do expectador ao escancarar supostos detalhes da intimidade e dos aspectos psicológicos desconhecidos dos personagens revelados somente em situações-limite. Ah... No Limite (lembrei) era apresentado pelo Zeca Camargo, que depois de uma vidinha dura na TV Cultura e na MTV colhe agora os louros da glória, vivendo a vida que até os jornalistas ateus pedem aos deuses.

Agora vejam bem. Que saco é ficar esperando o próximo capítulo de algo infinito com cinco mil episódios, gente. Isso pra quem assistiu desde o começo. O que é então pra gentalha como eu que não tenho TV por assinatura e alguma vez de repente me vi diante de um episódio na casa de alguém. Um amigo fã de carteirinha me copiou seis episódios em DivX mas parece que eram da segunda ou terceira temporada. Eu bem que tentei assistir, mas não tendo a menor idéia de quem é quem, me enfastiei após dez minutos de exibição em casa. Dei a mídia para outro amigo que me disse gostar e entender tudo desse trem.

Mas enfim, meus problemas se acabaram. Alguém resumiu em oito minutos e quinze segundos tudo o que aconteceu naquela birosca. Parece que o oito e o quinze remetem ao tal vôo 815 que despencou na ilha do cacete. As cenas mais parecem flashes de trailler, a narração lembra locutor de futebol no rádio, mas tem legendas em Português. Aviso: mesmo os leitures mais treinados hão de sentir dificuldade para ler as legendas tão rápido. Mas se souber Inglês, delicie-se com a narração.

Agora só falta eu arranjar saco para assitir a esse compacto.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Los Cuadros

Nesta semana fiquei impressionado com o movimento do resgate dos quadros roubados. Os quadros foram recuperados em um casebre no orifício anal de um município da Zona Leste da Grande São Paulo. Além de a Polícia fazer o maior pavão alegando que a operação fora resultado de uma minuciosa investigação - acho mais provável que tenha sido denúncia - fizeram um verdadeiro desfile alegórico na recondução dos quadros ao MASP. Segundo alguns repórteres mais sensacionalistas foram cento e cinqüenta policiais em viaturas e helicópteros que garantiram a volta dos afrescos.

Se foram cento e cinqüenta, cento e trinta ou cem, não importa. Mas foi pavão demais pela insignificante possibilidade de os quadros serem roubados de novo no trajeto. Alguém consegue imaginar ladrões assaltando a diligência policial para pegar as telas diante de quatrocentas câmeras fotográficas e de tevê? Só se fosse daquele jeitão de faroeste com cavalos e o rosto coberto por um lenço. Vão fazer desfile lá no sete de setembro, minha gente. Como se gasta dinheiro do contribuinte com promoção barata...

O quadro do Portinari (à direita) até que é expressivo e bacana.
Mas essa bicha com cara de nojo do Picasso (esquerda), francamente...

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Depois do reveillon

Como o leitor pôde perceber nos posts anteriores o tio não tinha nenhum propósito para 2008. Nada daquelas promessas de fazer dieta e se livrar dos quilos a mais, nada de ir mais ao cinema, voltar a nadar, enfim nada dessas coisas bestas que as pessoas se prometem todos os anos. Como se os algarismos no calendário fizessem alguma diferença além da convenção de contagem de tempo. Não faz. E consciente disso eu só quero que 2008 e o Lula Lelé façam as suas partes e não me atrapalhem nos meus afazeres. Mais nada.

Contudo uma coisa eu já defini. A partir de fevereiro estarei de trabalho novo. Me enchi da minha multinacional. A ferrada de ficar de saco cheio do emprego tendo um escritório próprio é não poder se demitir e não poder mandar o chefe pro inferno. Ao menos em tese, porque foi isso que eu fiz. Propus uma sociedade com o diretor de uma representada minha, com quem venho estreitando relações há tempos e resolvi parte de minhas dores-de-cabeça. Entreguei-lhe a minha boa e velha Carteira de Trabalho e Previdência Social e agora vou cuidar tão e somente do que melhor sei fazer: vender e receber polpudas comissões.

Doravante serei um empregado. Terei chefe, agüentarei dias de cara feia e serei chamado à atenção quando fizer alguma grande merda. Terei que pedir autorização quando tiver que decidir algo, mas por outro lado pedirei verba quando julgar que há algo oportuno a ser feito, pedirei sulfite, pedirei grampo pro meu grampeador, pedirei clipes e também cartucho para a impressora. Reclamarei quando a rede estiver lenta, xingarei quando o sistema estiver falhando, sairei para a rua quando o micro desligar sozinho, quando o sistema operacional travar e só voltarei quando o técnico tiver resolvido.

Quando eu chegar em casa com o saco na Lua por causa de um dia ruim, falarei com a darling e colocarei toda a culpa nos chefes. Quando algo em algum projeto der errado praquejarei contra os caras da área técnica. Quando algum cliente me reclamar que não retornei uma chamada, cairei de pau em cima da recepcionista por não ter me dado o recado.

Não mais passarei as manhãs olhando o extrato bancário da empresa para ver se o cliente X ou Y pagou, não ficarei preocupado se o meu talão de notas fiscais tem papel carbono bom, não postarei mais boletos para os clientes, não ficarei olhando o vencimento de contratos e data-base de reajuste.

Quando eu for visitar uma empresa fora da cidade pedirei dinheiro para o pedágio e quando eu pagar do meu bolso, apresentarei os comprovantes para reembolso. Quando surgir um projeto novo e inusitado não serei eu mais a procurar o profissional que desenvolverá o software ou a parafernalha cibernética que eu vou inventar no papel sulfite.

Enfim, despedi-me do cargo de patrão. Como chefe de mim mesmo eu sou insuportável. E já fui tarde.