domingo, 1 de novembro de 2009

Não perca por esperar

O tio não é vingativo. Jamais. Sou apenas um escorpiano que acredita que as leis da Natureza e os ciclos do deus Chronos colocam as pessoas em situações semelhantes, de tempos em tempos. É nesse intevalo que os seres mais preparados e iluminados do Universo são capazes de criar condições para reverter situações, a fim de revid... (ops!) digamos assim, retribuir gentilmente o que recebemos das pessoas, entende? Nada de vingança, nada de rancor. Apenas é uma característica dos escorpianos ter uma memória privilegiada. Explico:

Uma década e pouco atrás, a assistente do tio recebeu um telefonema de um dono de empresa interessado em um sistema de gestão empresarial. Justamente o que comercializo há mais de quinze anos ininterruptos. Dados anotados e data agendada pela eficaz colega, lá vai o tio encontrar-se com o suposto empresário. Não explicitarei aqui características étnicas ou religiosas do dito cujo, pois isso poderá servir para me acusarem de anti-qualquer-coisa, o que seria inverídico. Sou agnóstico, pluralista, estudioso da Filosofia e sei bem que comportamentos humanos têm pouco a ver com essas características de massa, mas são fruto de algo que chamo de pedigree humano. Um misto de qualidades advindas da linhagem familiar, tanto de modo inato quanto por socialização. Alguns conseguem superar parte das sinas de seus ascendentes, mas talvez não era o caso do bípede em questão.

Lá chegando, deparei-me com um sujeito de aparência e modos rudimentares. Era o dono de uma fábrica de velas que refletia exatamente a imagem dele. Me senti no século XIX e ao ver a precariedade das condições dos operários quase telefonei para Bakunin, mas o conceito de tempo me voltou à mente e desisti. A pergunta que me ocorreu foi: Será que, considerando o anacronismo deste lugar, esse sujeito compraria um bom sistema informatizado para gerir os seus negócios? À aparência negativa, tratei de todo o tempo manter-me teatralmente crente na hipótese positiva, apesar de a fabriqueta demonstrar que há centenas de anos nem um centavo fora investido em equipamentos, métodos, muito menos em condições de segurança operacional. Era aquilo que chamamos popularmente de moquifo.

Fiz uma demonstração com o meu notebook - na época um Toshiba de 200Kg! - porque nenhum dos computadores dele tinha condições mínimas para rodar o instalador do meu sistema. Todo tempo os comentários do "empresário" eram de que não precisava disto, essa outra função não era importante e coisas assim. Saquei de longe que a intenção era minimizar a relevância do produto, achando que com aquilo faríamos uma doação filantrópica para ele. Embora minha vontade fosse de me retirar eu toquei a reunião até o fim, quando ele me perguntou o preço. Não sei estabelecer a relação desse preço hoje, mas lembro era algo confortável para uma pequena empresa pois em outras empresas do mesmo porte meu sucesso era significativo. Dei-lhe uma tabela de preços e, sem delongar, fingi não ter ouvido seus comentários medíocres de que era caro, etc.. Zarpei e, como de costume, anotei um acompanhamento por telefone para os próximos dias.

Passada uma semana, a competente colega de trabalho telefonou para o cidadão. Qual não foi minha indignação ao saber que ela fora receptora de uma dezena de vocábulos impublicáveis neste seleto espaço. Pra você ter uma idéia, um dos palavrões que ele proferiu para a mulher incluía o nome popular do orifício sito ao final do reto. Segundo o nobre empresário, era um absurdo que um "programinha de computador" - palavras dele - custassem tanto e, enfim, a lista de impropérios torpes foi imensa. A coleguinha apenas desligou e deu a oportunidade de venda como encerrada. Ao fim da tarde, quando ela me contou eu cheguei a pensar em ligar para ele, mas fui demovido pela dama que já dava por demais ela ter ouvido o que ouviu. Disse que bastava sepultarmos a ficha daquele ser desprovido de qualitativos. Colega de nobreza. Assim, o assunto morreu.

Dois ou três anos depois o tio já estava trabalhando em outra empresa. Maior, de tecnologia mais sofisticada e de certo garbo, que incluíam um escritório na Av. Paulista e uma clientela onde constavam multinacionais renomadas. A secretária do departamento, desta vez era a adorável baiana "Nil" também competente. Certa feita ela encaminhou um agendamento para mim. Adivinha de onde e de quem era? Imagine então minha cara de espanto ao ver na ficha o nome daquele sujeito, da espelunca de sua propriedade, telefone e endereço tais e quais. Bem, well, seguindo as premissas do primeiro parágrafo, chegara a hora. Ri e pedi no ato que a colega ligasse para o hominídeo, mas que permanecesse na escuta para testemunhar e registrar os fatos. Ela o fez, inicialmente sem entender. Começa o diálogo:

- Alô, Sr. Schlebovitch*?

- É ele (sic!).

- Boa tarde, sou o Tio Xavier, da Acme Software Inc.* e o senhor ligou para nossa empresa procurando um sistema de gestão, correto?

- É. A moça falou que vai vim um cara aqui (sic). É você que vai vim (sic)?

- Não senhor.

- Então quem vai ser?

- Nem eu e nem ninguém desta empresa, sabia Schleb*?

- Como assim? Quem é você? Posso saber por quê?

- Como assim, é? O senhor por acaso ainda usa um programinha feito em Cobol há uns nove anos, certo?

- Uso, mas que é que você tem com isso? Quem é você?

- O que é que tenho? É que por acaso, em 1997, você recebeu a visita de um profissional da Acme Technologies Corp.*. Fui eu. Fiz-lhe uma simples oferta comercial e, não querendo, bastava-lhe rejeitar. Mas não. Ao receber a ligação da minha assistente dias depois você demonstrou uma baixeza inigualável. Falou uma série de palavrões para a moça, mostrando que não tem um pingo de educação básica, nem gabarito para possuir um computador. Quanto menos uma fábrica. Aliás, não tem pré-requisito nem para viver em sociedade. Por isso é que essa espelunca que você chama de empresa parece um porão escuro, é um nojo e você continuará para sempre usando a mesma porcaria de programa que usava nos seus micros 286. Você nunca vai evoluir e, por isso, a sua fabriqueta também não vai. Ela é seu reflexo.

Após uns trinta segundos mudo, certamente pego desprevenido ele recuperou-se:

- Quem é você? Eu quero falar com seu chefe agora!

- Quem tem chefe são grupos tribais pré-civilizados, compreende? Aqui tem diretores e um presidente. Mas eles jamais vão atender a um ser tão desprovido de espírito como você. Se quiser, ligue novamente no PABX e tente a sorte. O nome do presidente da nossa empresa é Frank Schulzenstein*. Mas ele só atende a pessoas socializadas e elevadas.

- Você vai ver com quem está falando! Eu vou aí nesse troço falar com alguma autoridade.

- Eu sei com quem falo. Sinto muito mas não sei o que é "troço". Aqui é uma renomada empresa e você sequer vai conseguir entrar com sua camiseta ensebada neste edifício. Pode tentar vestir uma roupa apresentável, mas seus modos mostrarão ao porteiro que não é do tipo de gente bem vinda aqui. Passar muito bem.

- Você vai ver se eu não apareço aí.

Por um instante achei até que ele tentaria. Esperei por mais um ano. Na verdade eu pagaria para que ele conseguisse entrar e chamássemos os seguranças para defenestrá-lo. Mas ele jamais foi.

Por que lembrei dessa história agora? Porque acessei a base de contatos recentes do site da empresa onde trabalho atualmente. Curiosamente, lá estava um pedido de informações de um tal Schlebovitch*. Isso mesmo: o dono da fabriqueta de velas, com o mesmo nome e endereço. Apenas fiz um comunicado à nossa telefonista, para que jamais dê atenção a um telefonema dele. Afinal, como novamente trabalho com uma empresa distinta e próspera, é meu dever selecionar a clientela. Certo, Schlebão?

O próximo, por favor.

domingo, 25 de outubro de 2009

Peruadas, galinhadas & other things

Foto: Fabiano Cerchiari/UOL

Dia 16 passado, ao final da tarde, fui buscar minha cara companheira no trabalho para irmos para casa. Mal desci a rua Vergueiro - centro da capital paulista - e enfrentei um congestionamento digno horário de rush de véspera de feriado. No meio do trânsito eu soube que era uma manifestação de estudantes. Suspirei consolado. Afinal participei de tantas na minha remota juventude estudantil e os compreendia. Tratei apenas de achar caminhos alternativos. Só mais tarde tomei conhecimento de que tratava-se de uma tal "peruada" organizada por estudantes de Direito da USP do largo São Francisco.

No dia seguinte vi diversas fotos nos jornais online e um desânimo me abateu. Nada de faixas com palavras de ordem nem camisetas com slogans contra o governantes, reclames contra escassez de universidades públicas, reivindicações sociais, nada disso. Como pano de fundo - mais pretexto do que qualquer coisa - havia sim o que chamavam de "caráter político e humorístico do evento" sendo que o anti-homenageado, a princípio, era Sarney pelo seu nepotismo. Mas as imagens falam mais que palavras. Essas mostraram um trio elétrico com ninguém menos que a "cantora" Gretchen e uma banda comandando uma verdadeira festa para os dois milheiros de jovens que os seguiam. Muitos dos presentes estavam fantasiados de tudo o que se pode imaginar, dançando, empunhando latas de cerveja e, afinal de contas, curtindo mesmo uma animada micareta. Me custa acreditar que ao menos uma ínfima parte dos garotos ali tivesse intuitos politizados ou estivesse a fazer lá algo mais do que dançar, paquerar e beber ao som da "cantora" do hit Freak le boom boom.

Uma lembrança saudosa dos protestos da década de 80 que culminaram na campanha pelas eleições diretas e, pouco depois, nas Campanhas pela Constituinte, me acometeu. Foi no início de 1987 - logo após a posse dos parlamentares que escreveriam a nova Carta Magna do país - que voltamos às ruas para coletar milhões de assinaturas em toneladas de papel encaminhadas para Brasília, a fim de que na Nova Constituição fossem incluídas emendas populares por direitos civis e conseguíssemos garantir reivindicações trabalhistas, educacionais e mesmo as liberdades sociais pouco antes suprimidas. Foi um trabalho árduo, de sol a sol, que deixou nossas peles bronzeadas de tanto andar pelas ruas, montar banquinhas nas calçadas e abordar transeuntes para discutir a importância do que acontecia naquele momento. Mas valeu à pena, considerando alguns dos avanços que a Constituição Federal incorporou.

Nós os estudantes, ao lado do movimento sindical e alguns partidos de esquerda, naquele momento éramos a voz da consciência política para as massas. Precisávamos desalienar a população que ficara vinte e tantos anos à margem do processo político, intimidada e acuada pelos militares da linha-dura e seus lacaios. Éramos jovens que dividiam o tempo entre trabalho, estudo, diversão e militância, nem sempre nessa ordem. Curtíamos Legião Urbana, Cazuza e Titãs. Namorávamos, bebíamos, estudávamos, mas sobretudo sonhávamos com um país melhor e, suando nossas camisetas com slogans politizados, tentávamos por todos os meios realizar ações que tornassem o Brasil um lugar justo e equânime.

Talvez eu esteja me tornando apenas um tiozão desolado. Mas é triste ver que os estudantes secundaristas e universitários de hoje demonstram-se alienados de tudo o que acontece e sem nenhuma vontade de fazer algo que não seja "empurrar com a barriga" os seus cursos para tão somente para conseguir um trabalho bem assalariado. Quando não, cabulam aula para ir ao bar ou acompanhar algumas das baladas e micaretas propagandeadas na porta da universidade. Sei bem do que falo, pois na porta de onde estudo nunca vi uma panfletagem, que não fosse apenas sobre entretenimento.

Uma pena. Enquanto Gretchen "canta" no trio elétrico e mostra seus glúteos recauchutados para a turba estudantil de nossos dias, Renato Russo deve estar dando cambalhotas no túmulo. Terão meus herois morrido de overdose? Porque os meus inimigos, até onde sei, continuam lá onde sempre estiveram.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Notícias populares

Era um domingão à tarde. Eu havia abandonado as coisas que estavam por fazer e resolvi tirar uma soneca após o almoço. A invejável siesta, praticada religiosamente em alguns países como México, Espanha e Grécia. Povos sábios, eu diria.

A darling saíra pra ver a mãe levando a cria. Uma bênção. Deitei na minha deliciosa queen-size e coloquei o tapa-olhos, a fim de não ver os fios de claridade que entravam pela veneziana. Os carneirinhos começaram a saltar: um... dois... trêzzzz... Zzzz... O quarto ovino vinha na raia de atletismo em slow-motion ao som de Chariots of fire. Mas o telefone interrompe com aquele pipipipipi irritante. Tocou uma, duas, três... Não tive remédio senão levantar e atender com voz de poucos amigos:

- Alô.

- Oi meu filho - era a avó Xavier - você tá escutando os helicópteros?

- Hum, até estou. Mas tinha conseguido dormir apesar deles. Parecem longe.

- Mas já sabe o que é, né? - a voz da velha tinha um tom de que eu tinha que saber - por isso eu to ligando.

- Não, não sei.

A mulher assume um tom dramático de Datena e dá o fato:

- Roubaram um carro em um bairro próximo. Os ladrões fugiram e a polícia veio atrás. Então entraram em uma travessa do lado da universidade. Mas bateram no muro de uma casa e o carro pifou. Aí pularam o portão de uma casa e tomaram a família como reféns. A polícia está cercando o local. Um pandemônio! Liga na Record.

- Ahn, tá. Vou ver - minha pobre intenção era desligar o telefone e voltar a dormir -.

Mas a velha insiste:

- Ligou? Tá vendo?

- Não mãe, não liguei. Daqui a pouco eu ligo.

- Daqui a pouco coisa nenhuma. Liga agora! O repórter Schlebts tá fazendo a cobertura. Um horror. Ai meu Deus, olha isso!


- Entendi. Bom, eu vou ver lá então. Mas primeiro vou tirar minha soneca.

A dona esbraveja:

- COMO ASSIM??? VOCÊ NÃO QUER VER AGORA? VOCÊ NÃO FICA PREOCUPADO?

- Eu devia ficar?

- Mas você não tem medo?

- Medo do quê, mãe? Minha casa tá trancada. Se pularem o muro eu garanto que porta adentro eles não chegam. Não vivos, pois tenho meus meios pra isso.

- Não acredito que você não queira ver na TV. É aqui perto. Você não quer saber o que está acontecendo?

- Sinceramente? Não.

- Nossa, viu? Eu ligo aí pra dar a notícia e você nem se interessa. Olha, nunca mais te ligo pra dar notícas. Eu aqui preocupada e você nem se incomoda.

- Olha mãe, se for esse tipo de notícia, não precisa.

- Tá bom - o tom agora era de vitimização - nunca mais informo você. Puta merda, viu?

- Tá bom, mãe. Obrigado. Mas prometa.

- Tchau - se despede abrupta -.

Até o momento desta publicação ela realmente cumpriu o prometido. Doravante poderei tirar os meus cochilos dominicais pós-almoço. Sem notícia ruim. Ufa!

sábado, 10 de outubro de 2009

Não acredito. Mas que existe, existe.

Tem coisas nas quais eu não acredito nem a pau. Meu agnosticismo não permite.




E com a palavra final...

Pronto, está dito. E não se fala mais nisso.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Personal Mobility Device

Que obras na Marginal Tietê, que nada. Nada de investir bilhões em vias férreas e transporte de massa. Já que a linha do Capitalismo vai sempre focar o individual, o jeito é substituírem todos os veículos por esse genial dispositivo que está sendo gestado pela Honda: o U3-X, o mais novo e revolucionário dispositivo pessoal para transporte.

Os donos dos estacionamentos já estão se preparando para mudar de ramo.



O único problema ainda não resolvido pelo fabricante é com relação aos dias chuvosos. Aí danou-se.

domingo, 27 de setembro de 2009

Kingston®: o pendrive lavável (2)

Se você ainda não leu a experiência científica anterior, passe AQUI antes de ler este post. O pendrive utilizado foi o mesmo exemplar dos testes anteriores.

Desta vez o experimento foi diferente, para uma análise de espectro mais amplo. O sabão aplicado foi da marca Brilhante. Como aquela máquina BS-Continental pediu aposentadoria a de agora é uma Bosch®. O meio de suporte utilizado para o objeto dentro da máquina foi o bolso de uma camisa. Nesta versão a água da máquina foi mantida fria.

O pendrive saiu da máquina encharcado e pingando. Como era um dia ensolarado, não utilizamos a secadora. Assim, o equipamento foi pendurado no varal, com o conector virado para baixo, sob sol escaldante para fins de secagem ao natural.

RESULTADO: após algumas horas pendurado junto com as roupas, o pen-drive Kingston® de 512MB foi conectado a uma porta usb de um notebook Acer ligado. Demorou cerca de trinta segundos e o micro chegou a exibir a tela de "instalação de dispositivo". Mas depois do processo, os arquivos anteriores estavam intactos, novas gravações foram feitas nele e o dito está mais alvo, com cheiro de amaciante, em ótimas condições de uso.

Assim, declaro que o pendrive Kingston® de 512MB faz jus ao selo do Xavier Institute of Quality Assurance™ e terá seu certificado revalidado por mais cinco anos.

Ps.: Essa experiência foi executada por profissionais treinados. Não tente fazer isso na sua casa. O pendrive utilizado no experimento foi o de 512KB, a máquina de lavar é Bosch®. O sabão em pó Brilhante® é fabricado Unilever. Não temos registro de resultados com dispositivos de outras capacidades. Nenhum dos mãos-de-vaca, fabricantes das marcas acima, topou pagar algo por este testemunho e não se responsabilizam por tentativas similares.

Agradeço a Santo Expedito (2)

Ainda não ganhei um centavo com isto. Mas acabei de ver no contador, lá no rodapé, que as pageviews desta pocilga ultrapassaram a marca de 20.000. Foram mais de vinte mil cliques desde quando instalei essa porcaria de numerador.

Grande merda, não é mesmo? Meu corsinha velho ultrapassou 200.000Km e o que ganhei foram mais despesas com manutenção. Agora aqui nem manutenção tenho dado.

Agradeço a todos os SEIS leitores. Sim, são seis. Convenci um professor meu a olhar de vez em quando. Para garantir, toda segunda-feira eu pergunto a ele "e aí, teacherzão que achou do meu último post?". Eu o enquadro para ter certeza de que pelo menos ele abriu e leu o título.

Agradeço também à darling, por ter colocado o Sem Sentido como página inicial dela no micro da firma. Agradeço também à minha mãe que outro dia ficou pressionando [F5] o dia todo, embora não tenha entendido o porquê de eu pedir isso.

Um abração a todos e boa semana.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Curso rápido de plágio

Algumas pessoas têm muita dificuldade em ler e compreender um texto, o que os especialistas denominam como "analfabetismo funcional". Outras têm distúrbios de aprendizagem, o que as impossibilita de relacionar fonemas com grafemas e significantes com significados, como é o caso dos disléxicos.

Seja qual for o seu caso, ou simples inaptidão para usar os neurônios esquerdo e direito, síndrome conhecida como "preguiça mental", segue abaixo um curso expresso de plágio. Você não precisa nem saber ler, tampouco escrever. Basta usar os comandos CTRL+C / CTRL+V, em determinados trechos de um bom texto de modo aleatório. Não é necessário prática tampouco habilidade, pois também são pré-requisitos difíceis para determinadas pessoas.

Você mesmo pode fazer no seu computador. Se não souber ligar o PC peça para alguém fazer isso por você. Veja o resultado abaixo, extraído da plataforma de EAD de uma universidade situada em São Paulo:


Esta primeira fez recortes simples mas mutiladores, comprometendo trechos e destituindo algumas frases do sentido original:


Note que esta segunda tem dificuldades com numerais também, pois confundiu o título do assunto:


Daqui a alguns meses é muito provável que ambas estejam diplomadas. E assim caminha a inducassão.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Vá em paz Gunther

Os desígnios divinos são mesmo imperscrutáveis. Quem saberá o que se passa na cabeça dos deuses, sejam eles politeístas ou monoteístas? Já li - não lembro em qual romance - que "Deus, o Destino e o Kaiser são a mesma pessoa" (acho que foi em um Machado de Assis).

Mas quero manifestar meus pêsames pelo falecimento de Gunther Link. Alguém de quem pouco sabemos, mas que sem dúvida foi um homem sincero na sua devoção. Católico fervoroso com 45 anos Gunther havia ficado preso em um elevador pouco antes. Podemos supor que a maioria dos leitores daqui já tenham ficado presos em elevadores. Pelo menos eu fiquei algumas vezes, já que nem todos são mantidos com as preventivas recomendadas. Felizmente nenhum despencou do cabo de aço, razão pela qual encontro-me aqui escrevendo para deleite dos 5 leitores. Mas voltemos ao assunto.

É a fé que permite ao homem enxergar os acontecimentos com outros olhos. No aparentemente corriqueiro, o homem de fé consegue enxergar a ação divina. Do alto da sua fé, Gunther interpretou seu resgate como um milagre divino, tal como um Lázaro a sair do sepulcro. Logo Gunther não teve a menor dúvida em dirigir-se a um templo católico para agradecer, com um ato de reverência, gratidão e adoração. Porém o destino lhe reservava mais uma surpresa. Pior ou melhor, ninguém senão ele agora poderá saber.

Ocorreu que ao abraçar uma pilastra do altar - provavelmente emocionado e orando aos prantos - o Sr. Link foi abatido pela gigantesca pedra da mesa de culto que caiu sobre ele. Seu corpo padeceu ali mesmo, naquele que seria seu derradeiro ato de fé na vida carnal. Ao morrer na casa do seu senhor, Gunther talvez estivesse sinalizando simbolicamente o destino de sua alma.

Não sei como são as igrejas na Áustria, se há zelador, se trancam as portas ou se são ao menos vigiadas. Mas essa em específico parece que não. Gunther foi encontrado por fieis somente no dia seguinte, por ocasião dos preparativos para a missa. Qual não terá sido o choque das pessoas que, adentrando ao templo, encontraram aquele homem simples e piedoso prensado sob o altar sagrado de oferenda e celebração? Pois assim estava o próprio corpo de Gunther como um auto-sacrifício para a incompreensão de muitos. Descrente e materialista, agora a polícia de Viena está investigando o ininvestigável. Pobres homens esses que tentam compreender o que não é compreendido pelo intelecto, mas tão e somente pela alma daquele que crê.

Vai ter azar assim no inferno, hein Gunther! Ou sorte no paraíso. Quem há de saber?

A propósito, a notícia foi obtida AQUI.

domingo, 30 de agosto de 2009

Da série: placas interessantes

Essa placa espetacular encontra-se na entrada para a balsa Guarujá-Santos.

Só fiquei pensando se não dava para os caras serem mais objetivos.


Depois não querem que a gente fale

Olhe você mesmo a cena de amor apaixonado. Não quero ser o acusador de nada, mas a foto não deixa dúvidas quanto às preferências sexuais dos sãopaulinos. É isso.

sábado, 15 de agosto de 2009

Vendendo o peixe

Sinto uma compulsão absurda por escrever. Sei que escrevo mais bobagem do que coisa útil e por isso há alguns anos eu criei o Sem Sentido.

Só que entre outras coisas sou também um irresponsável profissional de vendas há mais de vinte anos. Acho que a meia-dúzia de acertos e as milhares de erros que já cometi na profissão (o que explica minha pobreza de marré-de-si) podem ser documentados de forma a servir ao menos aos iniciantes na profissão como guia sobre o que não fazer.

Goste ou não, está lançado a partir deste momento o Vendendo o peixe, meu mais novo blog. É destinado aos vendedores e demais interessados no assunto. Em breve estará nas piores livrarias e palestras mais chinfrins de autoajuda (auto-ajuda não tem mais hífen; é isso né?).

ACESSE AQUI E INAUGURE UMA NOVA ETAPA NA SUA VIDA!

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Baixo calão no Senado

Noooofa gente! Estou estupefato. A troca de ofensas entre o Tasso e o Canalh(ops) Calheiros foi um horror. Até onde consegui assistir na web, um chamou o outro de dedo-sujo, coronel cangaceiro (e de terceira categoria!) e mais ainda: minoria com complexo de maioria. Esta última expressão chula eu nem sei o que quer dizer. Meu léxico de palavrões é limitado aos tradicionais e mais antigos.

Mas agora vem o pior. Eu não vi, mas quem viu disse que é verdade. Um teria mandado o outro a... como é que vou escrever? Estou constrangido. Bem, lá vai: à M-E-R-D-A. Que coisa horrorosa mandar o outro àquele lugar (merda é um lugar?) que é sinônimo de excremento intestinal. Realmente a nossa política está pela hora da morte. Basta lembrarmos que todos nós, este que escreve e os cinco leitores (sim, descobri mais um), jamais seríamos capazes de proferir em sã consciência coisas tão vilipendiosas e ofensivas.

Agora se alguém aí não cair no conto da hipocrisia e não estiver almejando entrar para a Liga das Senhoras Católicas ou para os Vicentinos, saberá que mandar à merda - se bem que eu ainda não tenho provas desse xingo - não será a pior das excrementações que os nobres parlamentares cometem com o meu, com o seu, com o nosso suado dinheirinho. O critério de decoro parlamentar deles é um bocado distinto dos conceitos da média da população, para quem mandar o colega de trabalho à merda ou quem sabe à puta que o pariu seja até saudável de vez em quando, podendo inclusive evitar AVC's e males cardíacos. Por mim eles que se mandem à merda, às putas que os pariram ou quiçá tomarem nos respectivos orifícios anais, também conhecidos como cus. Pouco importa, uma vez que eles fazem exatamente isso com o dinheiro dos pesados impostos recolhidos da população. Pelo menos de vez em quando eles devolvem a grana sob a forma de espetáculo circense. Circenses sem panis. Essas sim são as ofensas de fato.

Peço desculpas a todas as prostitutas que tomarem conhecimento destes apontamentos. Entendo perfeitamente que elas trabalham honestamente, alugam o que é delas e ganham o pão cotidiano às próprias custas. Com suor dos seus corpos são obrigadas a tolerar clientes dos mais grotescos, muitos com vocação para senadores esbravejantes.

A todas as putas venho manifestar meu desagravo e respeito. Faço questão de reiterar que nenhuma de vocês é mãe daqueles caras do Congresso e do Senado. Tomara.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O poder de cura do riso

Patch Adams já está entre nós. Muito interessante a reportagem e os esclarecimentos dos profissionais entrevistados. Destaque para a psicóloga Andréia Christina de quem eu tenho a honra de ser amigo.

domingo, 26 de julho de 2009

Envelhecer com dignidade

A questão da velhice sempre me intrigou. Me lembro de quando criança pegar nas mãos de uma tia-bisavó e ficar brincando com a sua pele flácida. Não achava beleza nem feiúra. Era apenas uma mistura de carinho e brincadeira de criança. Ao mesmo tempo, seus cabelos branquinhos e presos em coque me transmitiam uma imagem de grandiosidade que eu não sabia explicar. Hoje entendo mais racionalmente como sinais externos da experiência histórica de décadas vividas, a prenunciar a escassez do tempo restante.

Semana passada eu estava com a família em um balneário tirando uns dias de férias. No local, considerável parcela dos hóspedes eram pessoas acima dos sessenta anos, algumas das quais organizadas em excursões. O convívio inevitável nas áreas comuns - como no restaurante - permitiam-me observar trejeitos e comportamentos de vários deles, como em uma pesquisa de campo descompromissada. Os perfis eram dos mais variados e cada um denotava nas entrelinhas as diferentes concepções de vida.

Um dos casais parecia em plena lua de mel. O zelo e o trato mútuos levantavam-me a suspeita de que poderia não ser um casamento de bodas de ouro, mas sim um namoro recente. A história verossímil que construí mentalmente para eles dava conta de que ambos haviam enviuvado há alguns anos e tinham se conhecido em um baile. Com efeito eles dançavam com desenvoltura invejável durante os bailes noturnos no balneário. Tinham simplicidade no vestir, mas de modo esmerado, transmitindo a imagem de pessoas de poucas posses, porém caprichosas consigo. Os cabelos rareando e os rostos marcados pelo tempo nem pareciam ser das mesmas pessoas, que demonstravam gana por tirar o melhor proveito do cotidiano. Acima de tudo um bonito par de namoradinhos, isso eram mesmo.

Já outro casal destacava-se pelo contraste de aparências. Ela, curiosamente andava de bobes na cabeça durante parte do dia, sempre vestida de modo exagerado para o local. Era como se a qualquer momento fosse participar de um evento diplomático ou receber um célebre. O seu companheiro parecia mais velho. Era despojado, mas não menos distinto. Andava sempre bem arrumado e com boas costuras, mesmo que trajado de modo informal. A dona tinha características visíveis de quem passou por cirurgia plástica. Se sua face emprestava-lhe uma década a menos à primeira olhada - o que explicava a aparência de mais jovem que o marido - não resistia à segunda fitada, pois ostentava aqueles olhos repuxados pelo esticamento da pele. Chegava mesmo a ser estranha pelas vestes e aparência um bocado artificializadas. Sua postura era altiva e um tanto pedante, enquanto a de seu marido insinuava a vassalagem de quem ficava com parte bem menor das posses sociais e materiais.

No local haviam outros tantos. Uns solitários, de olhar perdido, e outros que mesmo sem par misturavam-se aos dançantes fazendo a própria festa. Vi também turmas de senhoras desacompanhadas, que ficavam em rodinhas tagarelando, cada qual encenando a seu modo o teatro concreto da velhice. No que será que pensavam quando estavam em silêncio? Fofocando com minha querida reparávamos em um e outro, aqui e acolá, enquanto aproveitávamos para elucubrar sobre como deveríamos viver a nossa terceira idade. De consenso até o momento só temos que o zelo com a aparência não resolve as questões da alma e que envelhecer com saúde, autonomia, dignidade e alegria possa ser o suficiente, apesar de ser um desafio grandioso por si só.

Acabamos elegendo como modelo a simplicidade do primeiro casal - os supostos viúvos - que acima de tudo faziam notar um equilíbrio carinhoso e sadio na relação amorosa. Não vejo com bons olhos o esforço desmedido em cirurgias e tratamentos estéticos, pois mais desfiguram do que configuram. Tentar resgatar forçosamente com bisturis e enxertos, o viço de décadas que já passaram, sempre me soou um pouco doentio.

Generalizando um pouco, minha percepção é que as pessoas que mais se sacrificam e gastam dinheiro pela aparência física curiosamente são as que menos zelam pela espiritualidade. Por espiritualidade, entenda aqui a busca de saberes mais profundos, de transcendência, de completude, de autoconhecimento e de um modo de viver presente e reflexivo. Para mim é como se a ganância cega pelo visual buscasse compensação pela esqualidez e fugacidade da alma desnutrida. Hoje em dia essa busca já não é exclusiva dos mais velhos. Podemos encontrar moças de vinte anos ou até menos entregando-se às clínicas de cirurgia estética, como quem rasteja diante dos ditames comerciais da beleza física a qualquer preço. O desespero pela aparência pode ser apenas uma válvula de escape, paradoxalmente por causa de um vazio interior. Em um mundo marcado pelo consumo não é de se estranhar que a embalagem ganhe mais atenção do que o produto. Mas são escolhas. Cada pessoa faz as suas.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Justa causa

Antes de você praquejar contra mim porque esta espelunca não é atualizada, explico: eu estaaaava gozando férias (infelizmente no pretérito).

Segundo, caso queira ler os melhores microposts do momento, aviso que estou tuitando:


Sem mais para o momento.

Tio Xavier

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Tunak

No clima criativo de modinha indiana que a novela da Globo está suscitando, a Som Livre bem que podia ressuscitar o Tunak. Afinal de contas, ninguém mais sensacional, indiano e dançante do que ele. Acrescente-se "Bizarro".

domingo, 12 de julho de 2009

Festival do quê???

Pamplona, Espanha. Festival de São Firmino. Lá foi o povo lançar mão do seu sadismo e manifestar seu desprezo pelos animais na realização de mais uma competição absurda. Competição é modo de dizer, porque na verdade trata-se de um massacre onde os vencedores são sempre os mesmos: uma multidão covarde de seres humanos. O perdedor - ou melhor dizendo, a vítima fatal - é um pobre animal, que não pediu para participar e sequer entende o que está acontecendo. Aliás nem eu entendo. Gostaria de saber se esse tal Firmino que batiza a festa era também sádico e maltratava animais. Não pesquisei sua vida, mas duvido um bocado. Os homens santos de verdade são marcados principalmente pelo respeito à vida e pela compaixão.

Desesperado com a turba ensandecida o touro tenta apenas fugir e se defender como possível. Talvez instintivamente ele perceba que seus minutos estão contados. Como resultado, na última "festa" desta semana o valente bovino conseguiu o que na minha avaliação foi uma façanha. Ao defender-se bravamente da multidão logrou êxito ao atacar um dos endemoninhados que se divertia com os maus-tratos. Matou o idiota a chifradas perfurando seu pulmão e o pescoço. Querem saber minha opinião? Bem feito! Parabéns para o touro! Pena que o pobre animal, atacado por centenas de dementes não tenha dado conta de mais uma dúzia deles. Claro que depois dessa palhaçada o animal é abatido, sempre da forma mais cruel possível.

Mas nem tudo está perdido. Enquanto o massacre era praticado, um enorme grupo de manifestantes vindos de vários países protestava contra essa aberração. Muitos aproveitaram o verão europeu e desfilaram nus o que, segundo organizadores, era para chamar a atenção. Espero que tenham conseguido o objetivo. Embora esses peladões sejam um tanto bizarros e andar com genitálias expostas não seja a única maneira eficaz de protesto, ao menos estão expondo a si mesmos, ao contrário dos sádicos e cruéis que se divertem expondo ao sofrimento animais inocentes.

Que existam seres humanos idiotas e maus o suficiente para realizar festivais como o de São Firmino, vaquejadas, touradas, rodeios e similares isso já não me espanta, embora eu continue indignado. O que ainda me preocupa mais é que governantes sejam igualmente covardes e sádicos a ponto de continuar a permitir esse tipo de coisa, tendo como pretexto promover o turismo e seja lá o que mais for.

Enquanto nada é feito, continuarei a torcer pelos touros e vibrar quando algum desses pobres bichos conseguir dar o troco devido. Espero também que o idiota que morreu a chifradas acorde em outro mundo, correndo desesperado e nu no meio de uma porção de touros enlouquecidos, em algo como um "festival de São Bovinus". Tomara mesmo.

Foto: Reuters

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Bingo versus o abandono de animais

Anos antes de eu me mudar do bairro de Vila Romana, uma colega de sala - a Marta - avisou na escola que sua cachorrinha sem raça definida havia parido meia-dúzia de filhotes e os doaria assim que desmamassem. Demorou alguns dias para eu convencer meus pais a me deixarem ficar com um. Mas com minha persistência acabaram cedendo. Claro que com aquela lista de condições que se referiam ao zêlo com o animal, incluindo a higiene dele e limpeza da sujeira. Tudo seria a meu cargo, mas eu prometeria qualquer coisa naquela hora, ainda que todos soubéssemos que nem sempre cumpriria.

Como fui o último a confirmar, tive que me resignar com o último deles que era o mais feinho de todos. Era cinzento, de pelagem bagunçada e seu porte indicava que nunca teria uma estatura vistosa. Bingo foi o nome que escolhi.

Os meses foram passando e tal e qual na fábula do pato, o cãozinho feio foi se configurando no mais bonito de toda a ninhada. Como rezava um boato, o suposto pai era um cocker-espanhol que morava na vizinhança. Se for verdade, Bingo herdou suas mais bonitas características que incluiam um farto pêlo dourado, sedoso e esvoaçante. Sua estatura ficou média e a postura garbosa. Como eu nunca fora muito de brincar na rua, Bingo era na prática o meu melhor amigo. Chorava comigo quando eu levava chineladas da minha mãe, fazia papel de monstro nas brincadeiras com meus soldadinhos e miniaturas e me acompanhava em passeios, ocasiões em que me protegia sempre que uma turminha de moleques folgados vinha me importunar.

Depois de quatro anos na Vila Romana, o meu amigo canino chegou a morar conosco em mais duas efêmeras residências no bairro de Vila Maria. Mas eis que chega em casa uma carta muito implorada aos anjos e santos pela minha mãe. A Cohab - Cia Habitacional de São Paulo - ofereceu à minha família um apartamento na Cohab-II, um conjunto imenso no fundão do final, da então última beirada da Zona Leste de São Paulo. O sonho da casa própria iria se concretizar. Mas havia um pequeno problema: em um minúsculo apartamento de dois dormitórios, os cães, além de não terem lugar adequado, eram expressamente proibidos pela arrendatária. Em suma, eu teria que me despedir do meu amigo Bingo, com quem eu convivera em significativa parte das infâncias de ambos.

Por semanas procuramos entre a vasta parentela quem tivesse uma casa com espaço e se dispusesse a adotar um cachorro com seis anos. Bingo era inofensivo, mas a maior das pessoas hesita em arcar com um cão adulto. De conversa em conversa meu pai conseguiu que uma prima, que morava no diametralmente oposto bairro do Jaraguá, ficasse com Bingo. Já o conheciam e aceitaram na família. Avesso às minhas preces para o tempo parar, o destino chegou e trouxe consigo o dia de o levarmos. Um tio que tinha carro nos transportou até a casa da prima. Fomos eu e meu pai, levando Bingo e seus pertences. Eu estava no banco de trás e fiz o trajeto todo abraçado a ele, ensopando-o com o sofrido choro da separação. Não era um cão. Era antes parte de minha vivência, da qual eu me despedia naquele momento. Depois de ambientado na casa da prima, almoçamos e chegou a hora de partirmos. Dói lembrar essa cena e não sei por mais quantos dias ou semanas eu chorei escondido pela saudade do cãozinho a quem eu tinha dado leite, comida, carinho e amizade. Do Bingo eu tinha recebido fidelidade, afeto e companhia infalíveis. Por causa da distância, agravada pela falta de um automóvel e pela condução precária, revi meu amigo por mais poucas vezes depois disso. Até que anos mais tarde soube que ele morrera.

Hoje recordando-me do meu amigo Bingo não me conformo que a Prefeitura de São Paulo tenha que fazer uma campanha de conscientização para que não se abandone animais. Que raio de animal é o bicho-homem para ser capaz de expulsar do convívio familiar um animal domesticado e abandoná-lo indefeso em beiras de estrada, bairros desconhecidos e terrenos baldios? A racionalidade atribuída como exclusiva do homem, antes de ser sua melhor qualidade, talvez seja seu pior defeito. A razão, nesse caso, talvez seja o atributo que permite a um humano contabilizar egoisticamente o que julga oportuno para si, ignorando, entre outras coisas o olhar terno e fiel de um animal de estimação.

Me preocupa conviver com uma comunidade humana tão consumista e pragmática a ponto de um animalzinho de convívio não lhe despertar amor de verdade, com zelo e responsabilidade. Mas esses são os tais humanos e quanto mais os conheço mais me decepciono com eles. Sempre suspeitei que um ser humano que não sinta compaixão por um animal seja igualmente incapaz de senti-la pelo seu semelhante.

Fica aqui meu recado: não abandone nunca seu animal de estimação. Ao menos consiga outro lar para ele. Faça isso por você mesmo. Caso seja incapaz de compreender, lamento muito por você.

Cartaz da campanha contra o abandono de animais.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Depois da santa do vidro...

No RS uma família encontrou o que acha ser o rosto do Michael Jackson na gordura de uma carne assada (foto).

Emílio Rotta/Ag. Free Lancer /Futura Press/Site Terra

Essa imagem, no meu ver, revela ao menos dez coisas:

1) Eles lavam os utensílios de maneira duvidosa. Tem crostas que estão lá desde quando Michael começou a carreira.

2) Essa família não é longeva. Devem morrer de infarte ou AVC em pouco tempo.

3) Pelo mesmo motivo, os manequins da família são todos acima de 46, incluindo a filha de 6 anos.

4) O Gugu no próximo domingo fará uma extensa cobertura do assunto, já que a santa do vidro foi esquecida.

5) Em breve legiões de fãs piedosos farão romaria ao RS para ver o rosto gordurento na fôrma.

6) O milagre só durará o inverno. Na primavera essa nojeira derreterá.

7) Há gente desocupada na família. Quem é que fica olhando gordura em assadeira à caça de imagens?

8) Esse fotógrafo (devidamente creditado) tem um futuro brilhante. Cobertura de assadeira com gordura é sem dúvida um furo de reportagem.

9) Lajeado-RS é um mercado potencial para venda de papel-alumínio. Ninguém por lá sabe forrar uma assadeira.

10) E, por fim, a família em questão tem um baita mau-gosto para decoração: a cortina de bambuzinho, a geladeira bege e o gabinete cor de mogno são lamentáveis. Extreme Makeover neles!