segunda-feira, 26 de março de 2007

Sleeping Away

Imagine que você foi dormir normalmente e em horário adequado ontem à noite. Contudo você acordou não sabe a que horas da madrugada, não tinha nada para pensar, ficou contando carneirinhos, depois pardais, depois ursinhos polares, depois coelhinhos e quando a fauna terrestre já estava no fim você cerrou naturalmente os olhos e começou a mergulhar em um doce sono.

Mas já era tarde. O sol ameaçava surgir e o fdp do despertador tocou. Então você vai para o escritório e fica se sentindo assim na cadeira de trabalho. O próprio Garfield em plena segunda-feira.

Então por favor: não me telefone, não venha no meu escritório, não me chame no msn, não espere respostas de e-mails urgentes de mim, nada. Aliás, não sei nem porque você abriu esse blog hoje. Feche e deixe-me dormir. Grato.

domingo, 25 de março de 2007

Bailando per un sueño

O tio é um saudosista. Embora não tenha vivido os tempos gloriosos dos grandes bailes de salão, passei boa parte da adolescência freqüentando a Toco, a Contramão, a Ponta, a Cris e tantas outras "discotecas" (era assim que se chamavam) da Zona Leste. Bons e doces tempos.

Usava-se a expressão "ir ao baile" entre a molecada. Minha preferências por essas casas que citei vinha obviamente do tipo de som funk que elas detonavam nas pistas. Mas o baile era dividido em três sessões. Na abertura, o DJ detonava uma pilha de efeitos sonoros com fumaça de gelo-seco, vinhetas e rifs de músicas conhecidas que se faziam seguir por uma coletânea bombástica de batidas pra dançar aos sons da melhor qualidade das grandes bandas e os melhores cantores mundiais. Destaque para Michael Jackson, KC & The Sunshine Band e Earth Wind & Fire que jamais poderiam faltar.

Depois de uma hora e tanto de passos sincronizados que ensaiávamos em grupo e performances "no meio da roda" que era quando a turma abria para cada um fazer sua graça por um ou dois minutos ao centro, vinha uma seleção de músicas românticas. Aí era o bicho. Quem era esperto, já ciscava o par para essa dança desde o início do baile e marcava a ponta em um canto determinado para a hora da "seleção de lentas". Aí tome melódicas do The Manhattans, Marvin Gaye, Betty Wright, Air Supply, Kenny Rogers com Diana Ross e outro tanto de musiquetas que, se eram tão breguinhas quanto um Roberto Carlos, tinham uma pegada de som lento-balançante que nos permitia dançar de rosto e corpo coladinho em uma ginga sensual, mas que chegava a ser ingênua para os padrões depravados de hoje. Esse jeitinho de dançar colado foi o que se chamou de cheek-to-cheek. Uma delícia, de tal forma que não queríamos que acabasse mais e de vez em quase sempre me valia um beijo bem molhado da parceira a quem não necessariamente não iríamos ver depois desse baile. Eram praticamente encontros únicos, embora às vezes rendessem namoros. A molecada de hoje que se julga esperta no vazio do "ficar" com qualquer um em qualquer lugar, nada sabe que o ficar daquela época já existia, porém era recheado de muito mais romantismo e sensações do que os atuais.

Na terceira rodada, acabadas as lentas, começava outra leva de balançantes para pôr a casa abaixo. Sem repeteco da primeira jamais os DJ´s lascavam mais funk, disco e do eletric house que começava a nascer a partir de bandas que descobriram os samplers com uma batida mais aceleradinha. Muito bom mesmo. O tio tem uma coleção invejável de vinis, K7´s e agora a maioria em .mp3 dessas levas de sons.

Well, vou procurar na internet onde é que se pode dançar boas músicas com uma canja para um rostinho colado e uns beijos bem gostosos aqui em Sampa. Desta vez, obviamente irei com a Tia Darling, o que tornará o evento mais gostoso, intimista e cúmplice. Se você tiver alguma sugestão legal, escreva para o tio.

Um curso de "dança de salão" não será uma má idéia também. Vou dar uma olhada nisso...

sexta-feira, 23 de março de 2007

Dobradura conspiratória

Essa é uma brincadeirinha idiota que o tio recebeu em um dos malditos e-mails powerpoint. Eu ia deletar, mas o cara que me passou estava aqui no escritório usando outra mesa e, após passar, ele mesmo veio exibir. Tudo bem que até achei legal.

Material necessário: uma cédula de vinte dólares.

Dobre a grana como abaixo:

Certo, agora dobre assim:
Muito bem. Agora dobre como se fosse fazer um aviãozinho.

Certo, abstraia (bem pouco) e me diga: Não parece o Pentágono em chamas?


Tá bom, foi meio forçado. Mas então vire a nota do outro lado. O que parece?


Torres?

Agora vamos fazer uma sanfoninha inclinada com a nota. Já viu esse nome?


Ei. virando a nota aparecem outras letras. Leia de trás para a frente.


E agora o pior: você sabe das origens da cédula de vinte dólares? Quem a desenhou? Então procure... Só posso dizer isso até aqui, porque tem uns caras estranhos entrando no meu escritório agora... ugh... meu pescoço... socor...

sábado, 17 de março de 2007

Carta ao amigo Joseph Ratzinger

À
SUA SANTIDADE PAPA BENTO XVI

PIAZZA DI SAN PIETRO - VATICANO
ROMA-ITÁLIA

"Se a Eucaristia exprime a irreversibilidade do amor de Deus em Cristo pela sua Igreja, compreende-se por que motivo a mesma implique, relativamente ao sacramento do Matrimônio, aquela indissolubilidade a que todo o amor verdadeiro não pode deixar de aspirar. Por isso, é mais que justificada a atenção pastoral que o Sínodo reservou às dolorosas situações em que se encontram não poucos fiéis que, depois de terem celebrado o sacramento do Matrimônio, se divorciaram e contraíram novas núpcias. Trata-se de um problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos."

(Trecho do documento "Sacramentum Caritatis" recém-publicado pelo Vaticano)
Santidade:

Vossa encíclica sobre o sacramento do amor é deveras bonita. São comoventes as vossas iniciativas, no intuito de melhorar a humanidade e tornar a convivência humana mais justa. Também são notórias e nobres as vossas admoestações, sempre preocupadas com o bem-estar de vosso rebanho, dos demais rebanhos que não são vossos e, penso eu, daqueles que não pertencem a nenhum dos rebanhos identificáveis. Decerto que vós pensais e orais por todos. A propósito, antes de mais nada, permita-me identificar-me como sendo da categoria dos sem-rebanho. Ser pensante que me julgo - contando com vosso perdão - nada mais tenho em semelhança às reses de nenhuma espécie. Embora, como muitos saibam, no passado eu tenha pertencido à vossa instituição de modo engajado e sincero. Mas os estudos da Filosofia, da Teologia, das Ciências Sociais e outras tantas, me tentaram ao pecado capital da soberba. Temo ter me tornado um ser crítico, ácido, arrogante e presunçoso.

Dito isto, neste momento tento esmiuçar os pensamentos e conceitos que permeiam o vosso recente pronunciado doutrinário. Claro que respeitando e partindo de vossas próprias premissas, baseadas na compreensão do Cristo e das palavras a ele atribuídas. Não é fácil para mim, já que vós e vossos auxiliares praticamente deteis o monopólio da inspiração divina e do discernimento da palavra. Por isso, sei que sou imperfeitamente movido pelos meus escassos estudos e pelo meu limitado senso.

Falastes do amor de Cristo em comparação à "... sacramento do Matrimônio, aquela indissolibilidade a que todo amor verdadeiro não pode deixar de aspirar...". Impossível não sentir a precisão dessas palavras. Mas veja, Cardeal, falais de aspiração. Haverá coisa mais imperfeita do que um sentimento humano? Convenhamos, Santidade. Lembrais de que não falais de vós e de vossos pares, privilegiadamente inspirados pelo Criador, mas sim de criaturas dos últimos escalões. Como há de ser possível conseguirmos construir entre cônjuges amor tão perfeito quando aquele supra? Sois servidores hierarquizados do Criador e não tendes a menor idéia de o que é dividir contas a pagar, administrar dinheiro escasso, educar crias, defender a moradia, pagar impostos e outras tantas agrúrias humanas. Se eu puder sugerir uma modificação no vosso documento, acrescentai na frase acima: "..., compreendendo que aspirações não são plenamente estáveis, dentro das limitações humanas". Tudo bem? Ponhais na vossa próxima edição revisada.

Vós também mencionastes que "... atenção pastoral que o Sínodo reservou às dolorosas situações (...) se divorciaram e contraíram novas núpcias" Olha, aí não sei não. Primeiro ajudai-me na memória, porque passei pela faculdade de Teologia há quase duas décadas, mas Sínodo não se refere a bispos? Então explicai uma coisa: há entre vós, bispos ungidos, algum que já tenha sido casado e contraído novas núpcias? Ou pelo menos vos reunistes para ajuizar essas coisas, consultando leigos de vosso rebanho em tal situação? Porque está estranho o uso do adjetivo dolorosas. Não caiu bem no documento não, Santidade. Pelo menos até onde conheci, casais separados e com novos cônjuges estiveram um dia em situação dolorosa. Foi por isso que decidiram ser melhor ficarem longe um do outro.

Permitai-me revelar-vos uma coisa: é horrível fazer votos de amor eterno a alguém e depois descobrirmos o erro. Até nesse ponto o adjetivo relativo à dor se aplica. Mas é comum nas novas núpcias pessoas viverem felizes, amadurecidas pela experiências anteriores, talvez por terem sido mais criteriosas na escolha do segundo nubente. É sério Santidade. Procurai nos salões paroquiais e vereis alguns casos. Ah é. Esse é um segredinho de sacristia: muitos deles continuam gostando de vossa igreja freqüentando-a e servindo-a. Até comungam nas vossas missas. Se não acreditais é porque tendes estado por demais ocupados com os vossos ofícios sagrados. Pode estar faltando a vós um resgate do convívio paroquial. Quereis uma prova?

Quando seu antecessor veio ao meu país foi homenageado por um cantor, de nome Roberto Carlos juntamente com a esposa. Pesquisai nos vossos arquivos eclesiásticos, acerca do estado matrimonial dele. E digo mais: na esmagadora maioria dos casos os vossos padres sabem e levam na boa, vedes? Não hei de citar nomes porque não sou X9 nem tenho dedo de seta, Santidade. Mas juro sobre a Bíblia. Sei lá como Deus vê isso, pois só Vossa Santidade haveis de ter o e-mail, o msn e o celular do Criador. Nem sei se Ele de fato se importa, pois consta que o Santo Filho d'Ele teria dito "não necessitam de médico os que estão sãos, mas sim os que estão enfêrmos" (Lc 5,31). Então, dentro do vosso inspirado veredito de que "Trata-se de um problema pastoral... uma verdadeira praga ... que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos" vai ver que eles - os acometidos da praga do segundo casamento - hão de estar certos em freqüentar a vossa igreja e tomar a Eucaristia na missa. Acompanhando vosso inspirado raciocíonio é o que parece.

À mim resta viver à margem de vossa conceituada instituição, mas mais por opção. Não que eu não seja um homem de fé, Santidade. Mas minha fé mudou com o passar dos anos. Desde quando eu decidi abandonar vosso rebanho, ainda no reinado do vosso antecessor, muitas coisas me aconteceram. Do resumo de todas elas, decidi pensar que não sou res para nenhum rebanho. Tive um casamento - realizado somente perante o poder secular - e depois descasei-me. Tivemos dois filhos, dos quais vivo um pouco distante, inclusive por razões geográficas. Na sentença do divórcio a explicação foi aquela padronizada: incompatibilidade de gênios. Essa parte foi mesmo dolorosa, Santidade. O adjetivo se aplica.

Tempos depois conheci outra criatura em semelhante situação à minha, por quem me apaixonei. Decidimos viver juntos, embora não tenhamos comunicado à vossa burocracia eclesiástica, e desta vez nem aos potestados seculares. Fizemos os votos às sós, olhando nos olhos um do outro, e nos consentimos mutuamente. Decidimos conceder-nos uma segunda chance de construir uma vida feliz. Na fusão de vidas, herdei um filho do outro casamento dela. Santidade, eu só não ganho na mega-sena. O rapaz é o filho que todos sonham. Só não vou descrevê-lo a vós, porque foge ao objetivo desta missiva. Mais recentemente, há cinco anos e meio, tivemos em comum uma filha. Minha mulher fez questão de apresentá-la a Deus, mediante o sacramento do batismo em vossa igreja. Não me opús, nem teria razão para tal, grato que sou pelos bons princípios que aprendi de vossa sagrada instituição.

Não tivemos entraves decorrentes de nossa situação irregular. Os padres daqui da periferia são gente boa e parecem não esquentar muito a cabeça com vossas inspiradas encíclicas e regras canônicas. Para mim tanto faz. Independente das opções religiosas ou laicas que meus quatro filhos venham a fazer, só pretendo que sejam seres críticos, conscientes, pensantes e sobretudo caridosos. Sacramentvm Caritatis, não é papa? Portanto eu já aviso a vós que é bem provável que a caçula seja a menos propensa a se curvar diante de vossa conceituada hierarquia. De genética ovina eu e ela não parecemos ter nada. E também porque vós insistis em manter-vos na mais anacrônica estrutura monárquica da qual se tem notícia. Mas até lá, pode ser que tenhais mudado, embora eu ache difícil. Poder envolve muita gente, estruturas e essas coisas que vossos leigos e também nós laicos não entendemos nada, não é mesmo Santidade?

Ah, eu já ia me esquecendo de contar-vos o mais importante, pois tenho certo de que ficareis contentes em saber. É que hoje vivo feliz, como jamais pensei em sê-lo. Vós não tendes a menor idéia de o que é dormir e acordar com a pessoa a quem amamos, com quem tramamos, conspiramos, nos completamos e o resto não me atreverei a dizer-vos aqui. Minha atual companheira é minha face feminina e lá se vão dez anos de vida em comum. Todos os dias sou tomado por um sentimento adorável, ao olhar para os olhos e o sorriso dela. Não há nada de doloroso não, Santidade. Arrisco-me à heresia para dizer-vos que sentimos a presença de Deus um no outro. Alguém há de ter mentido para vós. É uma pena que não tenhais acesso à experiência de conjunção de vida como a nossa. Portanto, corrigis também essa parte do texto, que tá pegando muito mal. Fique também para a vossa próxima edição revisada.

Respeitosas saudações.

Tio Xavier

segunda-feira, 5 de março de 2007

Funk também é cultura e o tio gosta

Foi o que você leu: o tio Xavier gosta de funk. Já falei isso milhares de vezes. Só que, mais uma vez again, volto a explicar aqui que gosto da Original Funk Music. Encontrei um texto no Orkut escrito por ESTE CIDADÃO e achei-o genial, digno de ir para a Wikipedia. Resolvi adicioná-lo neste blog como mais um esforço em minha busca insólita, pela purificação semântica da palavra funk. Isso tudo porque a maioria já sabe que eu odeio pancadão, proibidão e todos os derivados putrefatos, incultos, anti-líricos e analfabetos da batida de Miami, que se disseminaram nos morros cariocas. Na verdade meus instintos me fazem cogitar ações de homem-bomba nesse barracões. Farei-o assim que encontrar voluntários para a empreitada. Para se inscrever, deixe um comentário. Segue o texto do senhor Ricardo, com algumas observações e inserções de minha parte.


Os músicos negros norte-americanos primeiramente chamavam de funk à música com um ritmo mais suave. Posteriormente passaram a denominar assim aquelas com um ritmo mais intenso, agitado, por causa da associação da palavra funk com as relações sexuais (a palavra também era relacionada ao odor do corpo durante as relações sexuais). Essa forma inicial de música estabeleceu o padrão para músicos posteriores: uma música com um ritmo mais lento, sexy, solto, orientado para frases musicais repetidas - riffs - e principalmente dançante. Funky era um adjetivo típico da língua inglesa para descrever essas características. Nas jam sessions, os músicos costumavam encorajar outros a "apimentar" mais as músicas, dizendo: “Now, put some stank (ou stink/funk) on it!". Algo como: "Coloque mais funk nisso!". Em um jazz de
Mezz Mezzrow dos anos 30, Funky Butt, a palavra já aparecia.

Devido à conotação sexual original, a palavra funk era normalmente considerada indecente. Até o fim dos anos 50 e início dos 60, quando funk e funky eram cada vez mais usadas no contexto da soul music, as palavras ainda eram consideradas indelicadas e inapropriadas para uso em conversas educadas. Não é difícil associar esse preconceito com a origem étnica do têrmo, pois estamos falando de um país regido por leis brancas.

A essência da expressão musical negra norte-americana tem suas raízes nos spirituals, nas canções de trabalho, nos gritos de louvor, no gospel e no blues. Na música mais contemporânea, o gospel, o blues e suas variantes tendem a fundir-se. O funk se tornou assim um amálgama do soul, do jazz e do funk dos anos 70 até os dias atuais. Nos anos 70, George Clinton, com suas bandas Parliament e posteriormente a Funkadelic, desenvolveu um tipo de funk mais denso, influenciado pela psicodelia. As duas bandas tinham músicos em comum, o que as tornou conhecidas como Parliament-Funkadelic. O surgimento do Parliament-Funkadelic deu origem ao chamado P-Funk, que se referia tanto à banda quanto ao subgênero que desenvolveu.

Outros grupos de funk que surgiram nos anos 70 e incluem: B.T. Express, Commodores, Earth Wind & Fire, War, Lakeside, Brass Construction, Kool & The Gang, Chic, Fatback Band, The Gap Band, Zapp, Instant Funk, The Brothers Johnson, Skyy, e músicos/cantores como Rick James, Chaka Khan, Tom Browne, Kurtis Blow (um dos precursores do rap), e os popstars Michael Jackson e Prince (estes últimos dispensam apresentações e link).

Nos anos 80 o funk tradicional perdeu um pouco da popularidade nos EUA, à medida em que as bandas se tornavam mais comerciais e a música mais eletrônica. Seus derivados, o rap e o hip hop, porém, começaram a se espalhar, com bandas como
Sugarhill Gang e Soul Sonic Force. A partir do final dos anos 80, com a disseminação dos samplers, partes de antigos sucessos de funk (principalmente dos vocais de James Brown) começaram a ser copiados para outras músicas pelo novo fenômeno das pistas de dança, a house music. Foi uma enxurrada de remixes, new versions e raps feitos sobre bases mais antigas e conhecidas. Um clássico que praticamente originou a série foi Rappers Delight da Sugarhill Gang, que usou a base de Good Times, do grupo Chic. Estima-se que Good Times tenha sido de longe a base mais copiada que recebeu edições até do Queen em Another One Bites The Dust e do brazuca Gabriel O Pensador em 2 3 4 5 meia 7 8 entre outras.


Nessa época surgiu também algumas derivações do funk como o Miami Bass (esta famigerada que subiu os morros), Infor, DEF, Funk Melody e o Freestyle que também faziam grande uso de samplers e baterias eletrônicas. Tais ritmos se tornaram combustível para os movimentos Break e Hip Hop. As "crias" da Miami Bass deram origem também a grupos de eletrofunk como Information Society e vários da House Music. Os anos 80 viram também surgir o chamado funk-metal, uma fusão entre guitarras distorcidas de heavy-metal e a batida do funk, em grupos brancos como Red Hot Chili Peppers e Faith No More. O ex-produtor do Sex Pistols, Malcolm McLaren, após sair da banda fez grande sucesso com Buffalo Galls que introduziu o scratch (aquele efeito do disco esfregando) e adotou baixo e guitarra com distorção na música funk, inaugurando o estilo break.

Chega de papo acadêmico. Aí vai um medley-remix exclusivo, produzido pelo tio Xavier. Enjoy it!



domingo, 25 de fevereiro de 2007

Spaghetti au aglio by Xavier™

É domingo, está um calor lascado e mal dá fome. Você não quer passar a manhã toda na cozinha. Ainda mais para preparar aquele frango de novo ou aqueles bifes à milanesa que sujam a cozinha inteira. Na verdade você sonha com um convite para almoçar. Mas ninguém telefonou e você está quase sucumbindo ao restaurante mais próximo. Aí corre o risco de se empanturrar de comida gorda e calórica, inadequada para um dia quente. Muita calma. Leia bem este post, que o Tio Xavier™ vai ajudar você a sair dessa enrascada. A receita de hoje é leve e muito simples de fazer. Até você que é uma nulidade gastronômica conseguirá.

O macarrão é uma das bases culinárias mais versáteis na forma de preparo. Os melhores formatos de macarrão para ela são o tradicional spaghetti nº8 e o penne, nessa ordem. Mas você pode usar esta receita com aquele que mais lhe aprouver. Melhor dizendo, com aquele que tiver disponível.

Por favor: escolha um macarrão de boa marca. Há massas secas deliciosas como a Divella® (importada). Hoje em dia pode-se comprar tranqüilamente boas marcas nacionais, mas sempre com ovos, combinado? Dê preferência às grano duro, que são mais consistentes para obter o ponto al denti. Dito isso, vamos ao que interessa.

Ingredientes

- Um pacote de 500g de macarrão
- Duas cenouras pequenas, limpas e picadas em cubos pequenos
- Meia-dúzia de vagens frescas picadas.
- Uma lata (180g) de atum. O ralado é mais prático.
- Sal refinado.
- Pimenta-do-reino preta.
- Oito dentes de alho frescos e grandes, descascados.
- Uma xícara de salsa fresca picada.
- Azeite de oliva (de preferência o virgem).

Preparo

Cozinhe à parte em uma panela pequena, a cenoura picada com a vagem em rodelas. Coloque meia colher de chá de sal na água para dar gosto. Uma vez cozidos - mas consistentes - escorra a água e reserve.

Fure a lata do atum e escorra o óleo contido. Depois abra a lata coloque o atum em uma tigela, adicione uma pitada de sal, uma pitada de pimenta-do-reino, misture bem e reserve.

Esmague e pique os dentes de alho. Coloque uma pequena frigideira para aquecer com um pouco de óleo vegetal no fundo. Frite o alho em fogo brando, mexendo até dourar tudo de forma homogênea. Retire a frigideira do fogo e esfrie com um generoso despejo de azeite de oliva. Sem dó mesmo. Polvilhe sal a gosto e misture. Reserve. Na hora de despejar sobre o macarrão, você pode aquecer um pouco, na mesma frigideira.

Paralelamente, cozinhe a massa até o ponto al denti (verifique na embalagem o procedimento). Lembre-se de colocar duas colheres de chá de sal na água do macarrão, juntamente com um fio de óleo vegetal. Quando chegar ao ponto, escorra o macarrão e reserve.

Il gran finale

Em uma travessa espaçosa misture bem o macarrão, o alho frito com azeite, a salsa picada, os legumes cozidos e o atum. Espalhe tudo de forma equilibrada com muito cuidado, para não destruir a massa.

Para servir, decore o macarrão na travessa com pequenos ramos de salsa para dar um visual apetitoso.

Está pronta uma refeição simples, saudável e bem adequada para dias de calor. Não precisa de mais nada. Para beber, sugiro um bom vinho branco gelado.

Tempo de preparo: em média 30 minutos.
Rendimento: 4 porções (pessoas normais) ou 1 porção (pedreiros)
Calorias: não calculei, mas você se importa?

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Literatura nunca mais

Você tem problemas quando seus amigos começam a falar sobre literatura clássica? Não sabe o que dizer quando alguém pergunta se você já leu determinado livro? Fica constrangido porque na verdade você gosta de beber, fazer sexo e não tem tempo para essas babaquices?

SEUS PROBLEMAS SE ACABARAM!

É por isso que Tio Xavier está publicando mais um serviço de utilidade pública. O melhor e mais crítico resumo, jamais antes publicado, dos chamados "clássicos da literatura mundial", que na verdade são um pé-no-saco. Agora você brilhará nas reuniões arrasando com essa chatisse pseudo-intelectual dos seus amigos frustrados, que ao invés de transarem gastam as noites lendo. Vamos lá.

Madame Bovary, de Gustave Flaubert. 778 páginas.

Uma dona de casa mete o chifre no marido e transa com o padeiro, o leiteiro, o carteiro, o homem do boteco, o dono da mercearia e um vizinho cheio da grana. Depois entra em depressão, envenena-se e morre. Não gaste tempo com isso. "A dama do lotação" do Nelson Rodrigues dá de dez nisso.

Guerra e Paz, de Leon Tolstoy. 1.200 páginas.

Um rapaz não quer ir à guerra por estar apaixonado enquanto Napoleão invade Moscou (óbvio pois ninguém era besta de querer enfrentar o general Bonaparte). A mocinha casa-se com outro. Sinceramente, mil e duzentas páginas para isso? Paulo Coelho teria feito melhor e mais resumido.

À La recherche du temps perdu, de Marcel Proust. 1600 páginas.

Um rapaz asmático e de modos delicados sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite. No dia seguinte (pule para a página 486 vol. I), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (se mande para página 1344, vol.VI) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito velhinhos. Acredita que tem gente que lê tudo isso? Eu não.

Os Lusíadas, de Luís de Camões. 652 páginas.

Um poeta com insônia decide encher o saco do rei e contar-lhe uma história de marinheiros que, depois de alguns problemas resolvidos por uma deusa super gente boa, ganham a maior boa vida numa ilha cheia de mulheres gostosas. Isso prova que sempre existiram desocupados, mesmo nos tempos do império, no melhor estilo "Senta que lá vem história". Prefira assistir ao "Castelo Ra-Tim-Bum".


Romeo and Juliet, de William Shakespeare. 336 páginas.

Dois adolescentes rebeldinhos se apaixonam, mas as famílias proíbem o namoro. As duas turmas saem na porrada, uma briga danada, muita gente se machuca. Então, um padre tem uma idéia idiota e os dois morrem depois de beber veneno, pensando que era sonífero. Pior impossível. Podiam ao menos se mandar para a Holanda e ficar se drogando em Amsterdan. Ao invés de ler isso, coma queijo com goiabada.

Hamlet, de William Shakespeare. 400 páginas.

Um príncipe com insônia passeia pelas muralhas do castelo, quando o fantasma do pai lhe diz que foi morto pelo tio que trepa com a mãe dele, cujo homem de confiança é o pai da namorada, que, entretanto se suicida ao saber que o príncipe matou o seu pai para se vingar do tio, que tinha matado o pai do seu namorado e trepava com sua a mãe. O príncipe mata o tio que trepa com sua mãe, depois de falar com uma caveira. Morre assassinado pelo irmão da namorada, a mesma que era doida e que tinha se suicidado. Puta merda! Essa gentalha não sabe trepar na surdina e ficar tudo de bem? Agora me diga, vale à pena percorrer 400 páginas por isso?

Édipo-Rei, de Sófocles. 72 páginas.

O xarope qualquer, não dá ouvidos ao que um ceguinho lhe diz e acaba matando o pai, depois trepa com a própria mãe e furando os olhos. Por conta disso, séculos depois, um tal de Sigmund lê isso e inventa uma nova forma de ganhar grana. Surge a Psicanálise que, enquanto mostra que você vai pelo mesmo caminho, lhe arranca os olhos da cara em cada consulta. Incesto caro esse. Édipo podia ao menos catar a mãe do príncipe Hamlet.

Othelo, de William Shakespeare. 368 páginas.

Vamos combinar que esse tal Shakespeare devia ser um tremendo vagal que além de tudo não trepava com ninguém. Mas eu explico só mais este. Um rei otário, tremendo zé-goela, tem um amigo muito do fdp que só pensa em passar-lhe a perna. O tal "amigo“ não ganha um cargo no governo e resolve se vingar do rei, convencendo-o de que a rainha está dando pra outro. O fato é que zé-mané acredita e mata a rainha. Depois descobre que não era corno, mas apenas muito burro por ter acreditado no traíra. Prende o cara e fica chorando sozinho. Prefira assistir a um filme com o finado Grande Otelo, mil vezes mais divertido.

* * * * *
Graças às informações acima, você economizou a leitura de pelo menos 5.400 páginas e mais R$ 500,00 em livros. Agora vá para a balada ou beber que é muito mais divertido. Quando o papo idiota de literatura começar, esculache com esses títulos, dizendo que são um lixo. Quem sabe nesses ambientes pinte alguém simpatizante a fim de sexo.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

A estrela Dalva

Um baile de Carnaval de matinê, onde idosos, jovens, crianças, deficientes, casais com filhos e toda sorte boas pessoas se divertem, cantam e dançam em meio à intensa chuva de confete e serpentina. Sonho? Nostalgia? Nada disso. Foi o que presenciei hoje no SESC da Vila Mariana em Sampa. Presenciei só não. Claro que entrei na dança, irresistível que era.

Eu havia deixado minhas queridas lá no início da tarde para nadarem um pouco, enquanto eu resolveria umas questões logísticas com uma amiga nas proximidades. Quando voltei para buscá-las, por volta de 16h, achei estranha a demora para o segurança liberar minha entrada ao estacionamento. O jovem, empunhando um "moderno" walkie-talkie de uns doze quilos, veio à minha janela cortês e educamente me explicar que estavam monitorando as vagas por causa da lotação. Esperei por uns dez ou quinze minutos até que fui liberado.

Ao circular pelas alas internas do clube, me deparei com um espaço onde uma porção de gente cantava e dançava ao som das mais originais, puras, ingênuas e agradáveis canções carnavalescas. Nada lembrava a beijação desesperada e nojenta dos micareteiros, nem esfregação de bundas suadas do carnaval em Salvador, nem gente tentando tirar lasquinhas de partes de outrem como em bailes-funk. Nadica de nada. Tudo na mais pura diversão e espontâna alegria em que as pessoas dançavam de mãos dadas e carregavam no pescoço suas crias. Um típico baile familiar.

No palco estava Maria Alcina. Com seus quase sessenta anos mostrava que ainda vai animar bailes por algumas décadas. A tiazona esbanjou um fôlego digno de inveja, já que vozeirão todos sabemos que ela tem. No repertório, as tradicionais marchinhas, intercaladas com sambas-enredo famosos e adaptações carnavalescas de sucessos como Fio Maravilha, de Jorge Benjor. Coisa da melhor qualidade, pra bons ouvintes jamais botarem defeito. Até as marchinhas hilárias do Sílvio Santos tiveram lugar no repértório.

Imediatamente liguei para minha amiga, com quem estou bolando um plano para salvar o mundo. Pedi para ela adiar algumas ações, até que consigamos mapear melhor os locais. Temos que preservar esse monte de gente boa que ainda sabe brincar o Carnaval.

"A estrela Dalva
no céu desponta.
E a lua anda tonta
com tamanho esplendor.
E as pastorinhas
pra consolo da lua,
vão cantando na rua
lindos versos de amor..."
(Braguinha e Noel Rosa)

sábado, 17 de fevereiro de 2007

The year of the pig


Não tenho mais dúvidas. Este será o ano de o tio tirar o pé da lama. Vejam se isso não foi um sinal:

No começo desta noite o tio estava dirigindo pela Rod. José Ermírio de Moraes, mais conhecida como "Castelinho" nas proximidades de Sorocaba. Num lance de farol alto vi algo inusitado, mas em tempo de reduzir a velocidade. Era um porco gigantesco atravessando a estrada, que de tão grande cheguei a achar que era um javali. Na boa que o bicho pesava uns duzentos quilos. Praticamente parei para não atropelar o animal e esperei-o terminar a desengonçada travessia. Era gordo mesmo.

Uma hora e tanto depois, cheguei em casa, liguei a tv e um noticiário danou a mostrar os festejos do ano-novo chinês. Ano do porco, que para os chineses significa ano de fartura, de enriquecimento e prosperidade.

Foi ou não foi um sinal?

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Frases em embalagens

Esse texto já virou uma lenda cibernética. Diz a lenda que as frases abaixo foram encontradas em embalagens de produtos à venda em prateleiras de supermercados em Portugal. Não duvido mesmo que a maioria seja verdadeira.

Num secador de cabelos:
"NÃO USE QUANDO ESTIVER DORMINDO"
(Sei lá, você pode querer ganhar tempo)

Na embalagem do sabonete anti-séptico Dial:
"INDICAÇÕES: UTILIZAR COMO SABONETE NORMAL"
(Boa! Cabe a cada um imaginar pra que serve um sabonete anormal)

Na embalagem do ferro de passar Rowenta de fabricação alemã:
"NÃO ENGOMAR A ROUPA SOBRE O CORPO"
(Gostaria de conhecer a infeliz criatura que não deu ouvidos a este aviso)

Em alguns pacotes de refeições congeladas Swan:
"SUGESTÃO DE APRESENTAÇÃO: DESCONGELAR PRIMEIRO"
(É só sugestão! De repente o pessoal pode estar a fim de chupá-las como picolé)


Numa touca para a ducha:
"VÁLIDO PARA UMA CABEÇA"
(Alguém muito romântico poderia colocar a si e à pessoa amada na mesma touca)

Na sobremesa Tiramisú da marca Tesco, impresso no lado de baixo da caixa:
"NÃO INVERTER A EMBALAGEM"
(Ops!!! Leu o aviso é porque já inverteu!)

No pudim da Marks & Spencer:
"ATENÇÃO: O PUDIM ESTARÁ QUENTE DEPOIS DE AQUECIDO"
(Esse estudo foi feito por físicos da NASA)

Num expectorante pediátrico, da Boots:
"NÃO CONDUZA AUTOMÓVEIS NEM MANEJE MAQUINARIA PESADA, DEPOIS DE TOMAR ESTE MEDICAMENTO"
(Melhor mesmo é manter qualquer criança longe do controle de veículos e escavadeiras)

Nas pastilhas para dormir da Nytol:
"ADVERTÊNCIA: PODE PRODUZIR SONOLÊNCIA"
(Pode? Então pode ser que não produza?)

Numa faca de cozinha:
"IMPORTANTE: MANTER LONGE DAS CRIANÇAS E ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO"
(Tente imaginar um cão empunhando uma faca)

Numa caixa de luzes decoração de Natal:
"USAR APENAS NO INTERIOR OU NO EXTERIOR"
(Haverá outra forma?)

Nos pacotes de amendoim da Sainsbury:
"AVISO: CONTÉM AMENDOINS"
(Ah... estragou a surpresa)

Num saquinho de batatas fritas, cujo fabricante fazia uma promoção:
"VOCÊ PODE SER O VENCEDOR. NÃO É NECESSÁRIO COMPRAR. DETALHES DENTRO".
(Sem comentários)

Numa fantasia infantil de Super-Homem:
"O USO DESSE TRAJE NÃO O TORNA APTO A VOAR".
(Traumatizante como destroem a imaginação das crianças!)

E essa achei a melhor de todas:

Numa serra elétrica da Husqvarna, de fabricação sueca:
"NÃO TENTE DETER A SERRA COM AS MÃOS OU OS GENITAIS"
Alguém já terá tentado?

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Horror, náusea e nojo

Eu prometi a mim mesmo que não escreveria uma linha sequer sobre essa monstruosidade. Há muito que detesto noticiários, jornais em geral e programas mundo-cão. Mas ouvi por acaso a notícia no Transnotícias, programa de rádio protagonizado por três amigos muito queridos, de quem já falei aqui.

Como pai de uma criança na exata idade do pequeno barbarizado, o que senti ao tomar conhecimento foi o mesmo sentimento nauseabundo, ao imaginar o terror e abandono vivido pelo pequeno, nos minutos que o dilaceraram e tiraram sua preciosa vidinha. E penso no coração também dilacerado da mãe, no sentimento de impotência e na cena da absurda tragédia desaparecendo no horizonte, coisas que jamais abandonarão sua alma. Hoje, após lembrar involuntariamente da notícia e não conseguir conter minhas lágrimas decidi republicar a coluna do meu amigo Pelegi. Ele de certo modo conseguiu traduzir parte dos meus sentimentos e quiçá de todos os seres conscientes da vida.
Náusea (Texto de Alexandre Pelegi)

"Vi o noticiário nas primeiras horas desta manhã e fiquei paralisada ao saber do assalto no Rio de Janeiro que culminou na morte violenta de um menino de 6 anos. O espaço que há em mim para alocar barbáries e atrocidades não é o bastante para conter a minha consternação. O choro não ameniza o que sinto quando inevitavelmente se repete na minha imaginação a cena da criança sendo arrastada e esfacelada diante da impotência do público apavorado. Tampouco me conforta quando me coloco no lugar da mãe zelosa que conduzia seus filhos na segurança dos cintos que a maioria ignora e que, pela ação dos assaltantes, é lançada à mais dilacerante das experiências ao alcance de alguém; assistir à dor e agonia de seu filho, impossibilitada de qualquer atitude que possa salvá-lo do sofrimento e morte trágica. Estou em estado de aniquilamento. O que preciso hoje é esquecer que sou da espécie "natureza humana", portadora tanto do que faz bem quanto de monstruosidades como esta."

É minha amiga Maria Balé quem escreve, enojada com o desfecho trágico de mais um assalto nas ruas de nossas cidades. Aconteceu no Rio de Janeiro, mas sabemos que poderia ter acontecido – e poderá acontecer a qualquer instante – em qualquer parte do país. Vi mais tarde, pelos jornais da TV e na internet, que a polícia prendera os assassinos – três rapazes, um deles classificado nessa cada vez mais elástica denominação “menor de idade”.

Os bandidos – não seria mais correto chamá-los monstros? -, com o intuito de roubar um carro, arrastaram uma criança por sete quilômetros, atravessaram quatro bairros, passaram em frente a um quartel do Corpo de Bombeiros, a um Fórum de Justiça e a um quartel do Exército. Não havia polícia, não houve quem os detivesse. Os jornais informam que os jovens assassinos estavam tão certos de que não seriam presos, que estacionaram e trancaram o carro antes da fuga, e saíram calmamente da cena do crime.

Minha amiga descreveu com precisão a revolta que sinto. Nestes dias em que ainda repercutem as notícias de que nosso planeta está à beira do caos ambiental, culpa da ganância e irresponsabilidade de muitos, reforço ainda mais minha certeza de que a natureza apenas reage aos monstros em que nos convertemos. Me assusta o pressentimento de que nossa destruição como raça acontecerá da pior maneira possível – muitos de nós estão se tornando a cada dia mais cruéis, mais insensíveis, mais egoístas.

Que a revolta que sentimos não nos tire o pouco de esperança que ainda resta em um planeta viável. Mas que sirva, ao menos, para aumentar nossa indignação. Por trás de cada crime há várias autoridades omissas, muitos políticos corruptos, quase nenhuma punição. Não basta reclamar penas mais duras contra bandidos conhecidos. É preciso cortar o círculo vicioso que alimenta a violência.
(Texto publicado em "Voz Corrente" no site do programa nesta data)

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

A odisséia da cidadania

Dezembro de 2006:

- Bom dia, moça! O tio precisa renovar a habilitação. É aqui?
- O senhor está com a carteira vencida?
- Sim, veja.
- A do senhor é das velhas que nem têm foto - a jovem gorducha faz questão de me jogar a idade na cara - .
- É o que está aí - disse eu visivelmente desagradado - .
- Então o senhor terá que estar fazendo o CFC ou os exames de defensiva e primeiros socorros.
- E onde diabos é isso?
- O senhor pode estar procurando qualquer CFC no seu local mais próximo e estar se informando.

Eu estava em uma das unidades do Poupa-Tempo, ou "gasta-tempo", como insisto em chamar. Para quem não é de SP explico: São gigantescas unidades de serviço burocrático governamental de múltiplas repartições. Em um só local um cidadão pode tratar assuntos de quase todas as áreas documentais e tributárias. Deve haver similares em outros estados, creio eu. Enfim, uma boa idéia. Mas o fato é que eu ainda estava sem habilitação, dirigindo ilegalmente mas foi por expiração de validade. Nunca acumulei pontos de infração que me suspendessem a CNH. Sou um motorista exemplar.

[/intervalo de alguns dias]

Achei um tal CFC autorizado a ministrar os exames. A atendente bem que tentou me vender um cursinho para eu saber o que havia sido alterado no Código de Trânsito e alguma outra coisa que me faria sentar a bunda por três dias na tal escola e deixar um polpudo cheque, mas rejeitei. Depois me deu como alternativa baixar umas tais apostilas de direção defensiva e não sei mais o quê na internet e rachar de estudar, pagando apenas o exame (R$28). Claro que esta era a alternativa mais barata e topei. Melhor ainda: mais tarde lembrei que a tia darling tinha as tais apostilas as tomei emprestadas. Dias depois fui fazer o famigerado teste no computador do CFC e tive a brilhante, sensacional e invejável avaliação de 90% de acertos. Considerando que sequer olhei as malditas apostilas foi muito bom. Tudo bem, eu confesso: as perguntas eram do tipo "se devemos ligar os limpadores de pára-brisa durante a chuva" ou "acender os faróis à noite" e coisas complexas assim. O importante é que já de posse do certificado e recibo de pagamento retornei semanas depois ao Poupa-Tempo.

[/intervalo de mais alguns dias]

- Olá moça, eu trouxe aqui o certificado. Aqui está minha CNH antiga. E meu RG.
- E as fotos, tio?
- Fotos? Vocês não capturam a imagem das pessoas com câmera digital?
- Não mais senhor. Esse sistema foi suspenso e não sabemos quando volta. A gente escaneia (sic) - tome neologismo digital - a foto que o senhor trouxer.
- Escaneia a foto?
- Sim. E o senhor pode estar tirando lá embaixo no fotógrafo do Poupa-Tempo.
Contrariado saí do atendimento e lá fui tirar as malditas fotos. Fotos digitais, diga-se de passagem. E como o tio não é lá muito fotogênico, é fato que as fotos ficaram horríveis. Bom, mas a máquina só reproduz o que focalizou, fazer o quê? Volto ao atendimento com as fotos.
- Olá moça, eu trouxe aqui o certificado. Aqui está minha CNH antiga. E meu RG. E agora as fotos.
- Xi senhor, esse RG é muito velho.
- Mas está legível e inteiro.
- Sim, mas sua foto está muito apagada. Esse documento é de 1.983 - joga mais uma vez na minha cara - e não identifica mais o senhor.
- Cáspita, mas e aí?
- O senhor vai ter que estar indo na SSP e tirando outro, antes de estar vindo fazer a CNH. Mesmo que não estando pronto, o senhor pode estar dando entrada na CNH só com o protocolo do RG.
- E onde eu faço o RG?
- Na ala B. Lá tem a SSP.
- Obrigado.
...

- Olá moça, eu preciso fazer meu RG.
A robótica responde:
- Certidão de nascimento ou de casamento original e uma cópia, foto 3x4. RG antigo o senhor perdeu? E um comprovante de endereço.
- Veja, eu tenho o RG que dizem estar velho. Não pode ser ele, já que vocês têm o cadastro aí na SSP?
- Por que? O senhor não tem certidão de nascimento original?
- Na verdade até tenho. Mas sou divorciado.
- Certidão de casamento averbada.
- Casseta, mas o cartório é no interior de SP.
- Então o senhor pode estar indo na central dos cartórios e estar pedindo uma segunda via.
- Onde é isso?
- Segundo corredor à direita.
- Obrigado.
...

- Olá moça, eu preciso tirar o RG, pra poder renovar minha CNH. Mas preciso de uma segunda via da minha certidão de casamento com a averbação do divórcio.
- O senhor sabe qual cartório?
- De Jacupiranga do Oeste* .
- Um momento - e fica digitando algo no computador - Aqui diz que nessa cidade tem dois cartórios civis, o senhor sabe qual é?
- O primeiro.
- Aqui estão os dados do cartório para o senhor estar entrando em contato. Se quiser podemos estar pedindo por aqui mesmo. Demora cerca de quize dias. Custa trinta reais, mais as despesas de Correio.
- Não tenho remédio. Peça.
- Qual é a data, livro, página e número da certidão?
- Ahn?
- Precisa desses dados para eles estarem achando lá. No mínimo a data do casamento ou do divórcio.
- Essas datas a gente prefere esquecer, moça. Fala sério. Posso chutar?
- Poder pode, senhor, mas se eles não acharem, depois de quinze dias eles vão estar respondendo que não acharam e vão estar demorando mais quinze para estarem devolvendo seu dinheiro.
Neste momento eu penso em quanto odeio gerundistas. Lembro que já é dezembro, começa a correria do Natal e do Ano-Novo. Tudo só se resolverá em janeiro. Então pra que ficar me esborrachando né?
- Obrigado senhora. Eu volto outro dia.
- De nada.
...

Janeiro de 2007:

Depois de gastar alguns interurbanos e conseguir do cazzo do cartório a mardita da certidão da merd... ah, deixa pra lá.

- Olá moça, eu preciso tirar o RG. Trouxe uma segunda via da minha certidão de casamento com a averbação do divórcio.
- Deixe eu ver. Hum... certo... foto... comprovante de residência... certo... Tudo bem senhor! Agora o senhor vai ao banco com esta senha - e me dá um papel - para estar recolhendo a taxa.
- Onde é o banco?
- Do lado do pavilhão central. Tem uma placa enorme lá.
- Obrigado. Já volto.
...

- Voltei, moça. Aqui está a guia recolhida e os documentos. Tudo aqui.

Pouparei o leitor do ritual de impressões digitais, assinaturas e questionário verbal no qual quase perguntaram quantas relações sexuais eu tenho semanalmente. Mas, antes tarde do que mais tarde. Peguei o protocolo do RG e pude ir ao Detran atualizar a CNH. Simples assim? Não, ainda recolhi outra taxa no banco, fui examinado por um médico e peguei mais umas três filas. Agora são filas de sentados com senha. Tinha até um porta-revistas com exemplares que servem de analgésico pela demora.

Fico pensando que, se é difícil assim para quem tem acesso à informação, sabe engraçar com atendentes, desembolsar taxas e emolumentos, telefonar para outras cidades e pagar antecipadamente por segundas vias de documentos, como será que faz o migrante pobre que veio de Caatinga dos Pelados* no interior da BA, do CE ou do PI e perdeu os documentos no bagageiro do Itapemirim? Ou simplesmente não faz?

CNH, RG, CPF, CC, CN, PIS, Título de Eleitor, CTPS, Reservista... Será que não dá pro Governo simplificar a identificação de um pobre cidadão? Precisamos mesmo de tudo isso?

Que venha o guarda. Agora o tio é habilitado.

sábado, 3 de fevereiro de 2007

Pesquisa política em MG

A estagiária de jornalismo está dando um duro danado em uma pesquisa de campo. Foi designada para uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. Bate palmas à porta da primeira casa, da longa jornada do dia.

[clap clap clap clap]

Um matuto abre só a frestinha da porta, o suficiente pra pôr o olho.

- Bom dia senhor!
- Dia!
- Sou de um instituto de pesquisas e estou fazendo uma qualitativa de opinião. Este é meu crachá. Posso entrar?
- Uai, institu di quê?
- Pesquisa senhor.
- I tem pisquisá logu aqui?
- Não senhor. Vários bairros da cidade estão sendo pesquisados. Eu fui designada para este.
- I num há di tê otras casa?
- Todas vão ser pesquisadas. Comecei por aqui. Então, posso entrar?
- Sei não sinhora.
- Como não sabe, meu senhor? O senhor não é o dono da casa?
- Sô donu di nada não.
- Mas o senhor não mora aqui?
- Moru, mais di aluguel.
- Não importa. Por favor senhor, é um trabalho importante.
- Tindi. Fazê u quê? Intão entra, uai.

Contrariado, o mineiro abre a porta e a moça vai entrando.

- Com licença. A pesquisa é sobre política local.
- Xi. Lá vem cois...
- Qual seu nome, por favor?
- Nomi? Como assim?
- Nome, senhor, seu nome. Preciso preencher no formulário.
- Mais aí ocê vai fazê u quê cum meu nomi?
- Absolutamente nada, senhor. Os dados são sigilosos e não vão jamais ser divulgados, ok?
- Uai, si num vai divurgá intão num há di tê pricisão du meu nome, num é mes?
- Mas senhor...

Nesse momento a garota lembra que precisa visitar mais tantos lares naquele dia e resolve escrever qualquer nome no formulário.

- Muito bem senhor! Vou escrever aqui José da Silva, ok?
- Ocê qui tá dizênu.
- Bem, o senhor acompanha a política daqui da cidade, certo?
- Sei nadinha di pulítica não, môça.
- Como não? O senhor não é daqui?
- Sô não sinhora.
- De onde o senhor é?
- Di otra cidade.
- Sim, mas mora nesta casa há quanto tempo?
- Aqui?
- Sim.
- Nessa casa faiz sêis mêis.
- Então o senhor chegou há pouco tempo na cidade?
- Um tiquim.
- Quanto tempo?
- Uns quinzi anu, achu.
- Ora bolas, então onde o senhor morava antes desta casa?
- Na rua ditráis, uai.

A pesquisadora começa a suar.

- Vamos lá: Em qual candidato o senhor votou para prefeito nas últimas eleições?
- Quandu é qui foi isso?
- Foi no final do ano passado. E o senhor já morava aqui, não é?
- Já disse qui não dona. Eu morava na rua di tráis.

A moça desiste da questão e assinala qualquer coisa.

- Entendo. Então vou para a questão dois. O que o senhor acha da prefeitura daqui?
- Nunca fui lá não.
- Estou perguntando da administração da cidade.
- Qui tem ela?
- Esta página da pesquisa é de satisfação. A administração é boa ou ruim?
- Ah... uns diz qui é boa... otros diz que é ruim.
- E o senhor?
- Qui tem eu?
- O que o senhor diz?
- Digo nada não, dona. Só vô iscutano as prosa dus ôtru.

A estagiária sonha com o dia em que trabalhará em uma redação.

- Pois bem senhor e os vereadores?
- Di ondi?
- Daqui, ora!
- Conteceu arguma coisa cum eles?
- Não, mas em qual vereador o senhor votou na última eleição?
- Sei não.
- Como não sabe? Na sua porta tem um cartaz de um candidato.
- É messss... Qui coisa, dona! Si a sinhora num fala eu num tinha vistu, sô. Vai vê tá aqui dêis di antis di eu mudá e num notei. Inda bem qui a sinhora aviso... Já vô inté mandá tirá... Ô fio, vem cá mais u pai fazê uma cois... Essas criança são fogo dona... Priguiços qui só... Ói um dia dess u minorzim deles, me aprontô uma...
...

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

O futuro que nos espera

"Que pena que ela vai morrer. Mas quem vive?" - Com essa frase rememorada pelo policial Deckard, protagonizado pelo impagável Harrison Ford, termina a Director´s Cut de Blade Runner. Sem dúvida um dos melhores filmes SCI-FI de Hollywood.

Depois de vê-lo no cinema mais de uma vez na época em que fora lançado, adquiri o vinil da trilha sonora, depois comprei as duas versões em CD (uma com a New American Orchestra e outra com o próprio Vangelis), eis que chega à coleção do tio Xavier o DVD do filme. De tanto procurá-lo em vão eu já cogitava mandar digitalizar meu conservadíssimo VHS, mas não foi preciso. Pela bagatela de vinte e cinco reais pude adquirir no Submarino uma cópia remasterizada de ótima qualidade. Entre tê-lo achado na internet, preencher o pedido e pagar o boleto, meu impulso de compra foi tal que fiz tudo em menos de cinco minutos. Acho que era medo de que o estoque acabasse.

A Los Angeles de 2019 pintada por Ridley Scott é soturna, chuvosa, poluída em todos os sentidos, superpopulosa, impessoal e fria. Saturada pela mão destrutiva da civilização, a Terra está inabitável. Grandes empreendedores imobiliários do futuro anunciam loteamentos em outros planetas colonizados. É o homem predador levando a cabo a missão que criou para si, de devastar todo o Universo à sua volta. A Engenharia Genética, através da Tyrrel Corp cria os replicantes, uma espécie de andróides semi-humanos, para servirem de escravos e guerreiros na nova conquista do Oeste, desta vez a rapinar terras muitos anos-luz distantes do Arizona, com espaçonaves no lugar de diligências. Os replicantes são planejados para não saber que o são e para durabilidade finita. Porém, um grupo deles toma consciência dos fatos e se amotina em busca do segredo para viver mais. O ex-policial Deckard é intimado a prestar serviços novamente no extermínio dos invasores. Um enredaço baseado no livro de Philip K. Dirk, Do Androids Dream of Electric Sheep? (Os andróides sonham com carneiros elétricos?).

Blade Runner é um filme profundíssimo, cuja fotografia e cenografia são labirintos de sutilezas. Como no instante em que Deckard tira o casaco e aparece por baixo uma camiseta que lembra uma camisa cowboy. Ele a qual despe - também simbolicamente - ao confrontar-se com estonteante replicante Rachael (Sean Young) por quem se apaixona. As questões existenciais clamadas pelo filme percorrem as dúvidas sobre os destinos da civilização. Escancara que, diante do sistema que levou o mundo ao caos da Los Angeles de 2019, andróides e humanos são difíceis de se diferenciar na multidão. Mais do que na aparência, no papel de cada um na manutenção silenciosa do sistema em que as multidões patéticas mais parecem reses abate. Como andróides? Durante uma das caçadas em que Deckard sai atirando e atropelando a multidão, vê-se um grupo de Hare-Khrishnas cantando a boa e velha Hare-Hare. Essa aparição sugere que a busca pelo divino e o transcendente talvez nunca morra, mesmo naquele futuro caótico e tenebroso.

É quase certo que em 2019 as metrópoles ainda não estarão como no retrato cinematográfico de Riddley Scott, ao menos no que diz respeito à tecnologia e ao visual. Porque essencialmente cada vez mais será difícil diferenciar os humanos dos andróides. Seremos todos criação da indústria genética para a manutenção do sistema? O que nos faz humanos? - são questões que, de modo cifrado, o replicante Roy (Rutger Hauer), tece no seu discurso de morte. Time to die, em suas últimas palavras.

* * * * *

Agora chega. Compre o seu e assista. De preferência dezenas de vezes, como o tio Xavier. Sinto que há mais a filosofar com essa pérola cinematográfica do que pode imaginar a nossa vã TV aberta (eca!).

Nota: O Submarino, a Warner, o Ridley Scott e o Harison Ford nada pagaram ao tio por essa babação de ovo. Mas não resisto. O filme é mesmo sensacional.

Comemorar?

Diferente do post sobre o aniversário de Sampa que fiz ano passado, neste ano um realismo pesaroso ronda minha mente. Eu já protagonizei o filho arrependido da parábola cristã. Isso ocorreu no início da década passada depois de tentar a vida em uma cidade do interior. Sampa me recebeu com ressalvas, mas depois me acertei com ela, ficamos de bem novamente e saboreei de cada oportunidade do cotidiano que ela oferece. Saí sem grana e desfrutei de atrações gratuitas, saí com o bolso cheio e me diverti em baladinhas e bares caros, já tive o carro roubado à mão armada, outro furtado em minha ausência, já arranjei empregos, namoradas - atividade que cessou na atual companheira - , vi temporais e a garagem do prédio encher-se de água naufragando meu fusca, mudei de casa, abri meu próprio escritório, reencontrei amigos antigos, perdi outros... isso não tem fim e renovo diariamente. Morar em Sampa é algo único.

Mas minha reflexão de hoje me remete a um recém-conhecido na cidade. O buraco da obra do metrô, filho mais novo desta metrópole. Tudo bem que eu também estou de saco cheio dele. Até mesmo minha caçula um dia desses desabafou, ao ver a milésima chamada de noticiário a respeito dele. Mas eu insisto que há mais para entender naquele buraco.

O que está por baixo daquele buraco além do entulho e - tomara que não - mais algum cadáver? Me perdôe pelo comentário mórbido, mas o buraco é o símbolo de nossa cova comum. Do pó vieste, ao pó voltareis, parece ser a voz que vem do fundo da vala. Ou decifra-me ou devoro-te diria o buraco se tivesse a formosura da esfinge egípcia. Mas o buraco é feio, decadente, escuro e úmido. Talvez seja mal-cheiroso também. Acima de tudo, a cratera conta uma história.

A história é de uma metrópole construída por barões do café, que por tanto e quanto tempo deram as cartas no que eles chamam de desenvolvimento. Não reclamarei da falsa pompa de outrora, quando gente bonita rica e bem trajada cruzava o Viaduto do Chá e lindas mansões ostentavam o impressionismo realista dos manda-chuvas. Na verdade nem meus pais viveram essa época (sim, sou um tio jovem). Mas falo de coisas e circunstâncias muito mais próximas de nós.

Falo do fim de um falso milagre econômico feito à custa de poupança de viúvas européias com juros quase simbólicos. Um sonho que morreu definitivamente no início da década de 80 também soterrado, mais tarde pela cratera-panacéia do Plano Cruzado. Falo de um descaso absurdo com os milhões de migrantes que até então foram intencionalmente atraídos para cá. Foram bons porquanto serviram de carregadores de tijolos e limpadores dos quintais das lindas mansões. Com o fim delas e das grandes obras governamentais, passaram à condição de seres errantes ciscando trabalhos temporários e se desqualificando moral e socialmente a cada dia, à cada geração, engolidos pela informalidade e pelos imensos camelódromos controlado por mafiosos ricos.

Falo de serviços antes públicos e reconhecidamente de responsabilidade dos Governos. Nada mais justo já que do sustento da maioria eles tiram as primeiras fatias do toucinho. São escolas podres, postos de saúde simbólicos, policiais mal-remunerados, transportes insuficientes para os fluxos humanos que vão dos bairros-dormitório, como Itaquera, até os suntuosos centros empresariais como a Berrini. Se você morar em um bairro de periferia, já deve estar cansado de saber que nós e nossos familiares são transportados em um serviço autônomo de vans controlado pelo PCC. Cadê a saudosa CMTC? Depois da privatização, foi esse o destino das linhas que os empresários foram rifando para as cooperativas de transporte auto-geridas. Nesse contexto o buraco desabado é somente o resultado de um Estado que se retirou até mesmo da supervisão e fiscalização das obras públicas, num belo exemplo da aplicação da privatização universal e sem critério.

São décadas de rodízio simbólico de partidos e arremedos de gestões populares, mas que se somam e resultam em uma deterioração visível a qualquer um. Enquanto isso a burguesia cafeeira depois de vender suas lindas mansões na Paulista para construtoras de prédios que esconderam os céus, agora ela própria se esconde em condomínios fortificados inclusive em municípios vizinhos, como Barueri. Criam suas fortalezas para passar seus dias imunes à tamanha cagada pseudo-gestora em que insistem prosseguir, pois o importante é levar vantagem em tudo, como profetizou a famigerada propaganda de cigarro.

E a população de Sampa continuará amanhecendo trabalhando e anoitecendo trabalhando. Ao menos enquanto o buraco da obra da deterioração social não se expandir e engolir a tudo. Mas acredite que de certo modo nós todos - tanto os protagonistas quanto os omissos - estamos lá debaixo do soterramento. Nossa cova coletiva, vala comum de nossa morte. Pena que nem os bombeiros nem as cadelas farejadoras parecem nos encontrar.

Ei senhores, onde vão? Voltem aqui!

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Sorte tem quem acredita nela

O tio não costuma jogar. Mais precisamente o tio odeia jogatina, inclusive loterias legais ou ilegais. Mesmo assim, no ano passado - não me faça perguntas - eu comprei esse bilhete acima, o qual ficou por meses esquecido até que hoje resolvi tirá-lo da carteira e conferir. Não sem antes ler as cláusulas no verso pelas quais descobri: os prêmios prescrevem em noventa dias.

Sim, meu caro leitor, se você comprar um bilhete, ele for premiado e não retirar a grana em noventa dias, ela vai-se embora para sempre, para algum fundo de habitação ou sei lá o quê.

Well, o tio resolveu conferir o dito no site da CEF. Pra começar que essa extração não constava mais no site e tive que fazer download de um arquivo com todas as 54069461460 extrações desde a década de 1960. Eis que achei a que me interessava. Adivinha?

Não meu caro amigo, não terei sequer o que reivindicar na Justiça, porque os números nem passaram perto. Por incrível e contraditório que isso possa parecer eu suspirei aliviado. Mas fique esperto: ao comprar um troço desses confira tão logo a extração saia. Coloque lembretes no monitor, alarmes no Google Agenda, anote na sua agenda de mão, no seu palmtop e no seu celular. Senão, lamente depois.