quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Happy birthday to me

Oficialmente é HOJE que o tio Xavier completa quarenta e duas primaveras. Literalmente. Foi na estação das flores que a avó Xavier deu-me à luz. Vou explicar cientificamente: na véspera do dia em que se comemora meu nascimento eu COMPLETO o ano. Amanhã será o primeiro dia do meu quadragésimo-terceiro ano. Se não entendeu, problema seu. Páro por aqui.

Segundo algumas correntes de pensamento que misturam Biologia com esoterismo, no caso presente estou encerrando o meu sexto ciclo de vidas. Acontece que uma célula vive no máximo sete anos. Sendo assim, amanhã iniciarei meu sétimo ciclo celular que se encerrará ao têrmo do meu quadragésimo-nono ano.

Esse tempo significa muita coisa. Significa que hoje sou muito mais. Mais impaciente, mais intolerante, mais desbocado, mais saco cheio, mais fadigado, enfim mais chato do que vocês já conheceram. Chega desse papo babaca estilo: "eu não me troco por esses carinhas de vinte e cinco anos". Claro que se houvesse a possibilidade de eu esvaziar a alma de algum jovem e me apossar da carcaça dele eu o faria sem pestanejar. Aliás se alguma feiticeira de plantão souber a receita, pago bem pelo serviço executado.

Neste sábado receberei um seleto grupo de seletos amigos mais próximos. Algo modesto, caseiro e destinado apenas àqueles que de fato estão "sempre aí" quando o tio precisa e chamam-me quando estão no apuros. Os demais são colegas, parentes e grupos circunstancializados. Têm algum lugar na estima do tio, mas para os momentos como esse eu costumo mesmo restringir.

Inspirado por uma crônica que li dia desses não haverá apagamento velas. Nada de apagar. Se for para ter fogo, será para acender e mantê-lo como espero manter minha chama vital por mais algumas décadas, enquanto eu tiver qualidade de vida. À certa altura dos comes chamarei as pessoas para o bolo de sobremesa. Por favor sem cantoria nenhuma, tampouco "o tio faz anos, o azar é só dele". Azar para PQTP porque vencer quatro décadas e tanto de luta não foi fácil. Não é, aliás.

Se você que lê esta espelunca tiver alguma relação comercial com o tio, seja fornecedor, representado, cliente, credor ou do governo, por favor não me ligue amanhã para pedir isto ou aquilo. Amanhã tirarei o dia para mim. O máximo de esforço que me permitirei será ir até a padaria comprar um pãozinho quente e uma mortadela defumada. Talvez ir à pedicure tirar os lençóis de calosiodade sob a unha do dedão. Talvez eu pare no caminho pra tomar um açaí gelado e ficar olhando as moçoilas a passar pela calçada, com suas saias curtas e coxas grossas. Talvez eu pare em alguma loja e compre um mimo pra mim, porque trabalhar como camelo e não tirar uma lasquinha ninguém merece.

Parabéns pra mim. Meeeeeeesmo.

domingo, 26 de outubro de 2008

Justificativa

Prezado Senhor Presidente do Tribunal Regional Eleitoral:

Tio Xavier, brasileiro, trabalhador, divorciado e reajuntado, corinthiano, meio-budista, filósofo e descrente da falsa democracia, vem por meio desta apresentar o formulário abaixo de justificativa para o não comparecimento ao segundo turno do pleito realizado neste ano. Segue após o formulário a argumentação, embora possa ser desnecessária.

Ocorre que nenhum dos candidatos apresenta qualquer medida que possa conduzir nossa imatura democracia para além dos tapetões eleitorais, onde ganha quem tem a melhor máquina eleitoreira. Neste turno particularmente os dois remanescentes passaram o tempo todo, além de trocando acusações fúteis, tentando empinar o peito (ela) e a barriga (ele) para posar de "o melhor the best of city administration" quando o que a população precisa é de educação para participar de verdade - com consciência e co-responsabilidade - dos destinos da polis.

Nenhum dos dois fez qualquer menção em instituir conselhos consultivos e deliberativos nas subprefeituras para discutir o que de fato seria prioridade em cada região. Ambos têm históricos pregressos péssimos a respeito de não receber a população organizada quando grupos desta resolveram finalmente tirar as bundas dos sofás, desligaram as TVs e foram ao gabinete do alcaide. Ao contrário, consta que costumam não recebê-los mantendo as portas trancadas ou mandando seus cães-de-guarda espantar a gentalha, pois assim eles nos vêem depois de eleitos.

Nenhum dos dois levanta junto aos parlamentares municipais a lebre de que falta transparência, quando não honestidade, no que se faz com o dinheiro público, prestando contas de verdade do que fazem com os centavos. Ao contrário, se locupletam com os nobres vereadores para poderem fazer passar projetos que nem sempre são de importância coletiva. Também ninguém faz menção de abrir canais diretos para que pobres populares, como este tonto que aqui posta, possam emitir sua opinião no Diário Oficial do Município ou em algum fórum eletrônico aberto, já que temos que correr atrás do pão de cada dia e não podemos nem pensar em ir à Câmara, se é que seríamos recebidos como comentei acima.

Enfim, ambos receberam polpudas doações de empreiteiras, bancos e fornecedores de produtos e serviços ao serviço público permitindo que possamos levantar ao menos uma distante suspeita de que estes seriam bondosamente favorecidos nas aquisições da municipalidade. Então já sabemos de antemão que independente do contemplado pelas urnas, os governantes de fato serão aqueles acima.

Por esses argumentos que julgo suficientes, peço carimbar o protocolo acima. Os R$3,50, recolherei ao cofre público oportunamente. Será apenas mais um pagamento ao Estado, dentre os tantos que fazemos em cada grão de arroz que comemos. Considerando a gasolina que eu gastaria, o calor que está lá fora e o tempo que eu perderia, prefiro brincar com minha cria, dedicar-me aos estudos tardios e aos afazeres domésticos. Afinal a multinha sairá bem mais barato do que a ida à seção.

Nestes termos,

Pede deferimento,

Tio Xavier
Título eleitoral 0000000, zero à esquerda.
Zona? (não sou em quem a promove).

domingo, 12 de outubro de 2008

Nota de falecimento, parte XVI

Faleceu nesta madrugada uma das pessoas mais importantes que passou na vida do tio. Ele soube ser amigo, camarada e até pai nos momentos mais difíceis da minha juventude. Presente igualmente em ocasiões divertidas em volta da churrasqueira (com caipirinha e cerveja também), o padre Pedro Paloschi, natural de Botuverá-SC, foi uma das pessoas mais coerentes e responsáveis que conheci.

Os amigos do tio mais próximos dessa época, hão de saber a diferença que o padre Pedro fez na vida de tantas pessoas nas comunidades por onde passou. Estudioso, sensato, equilibrado e sobretudo responsivo, Pedro nunca se calou diante de uma situação injusta e é claro que em alguns momentos isso lhe custou os pouquíssimos desafetos que ele teve.

Por uns bons anos participei da paróquia católica que ele coordenou na Vila Maria. Devo dizer que muito da minha formação e caráter tem base na passagem do Pedro. Embora hoje eu já não professe o mesmo credo religioso dele, respeito muito a este, sobretudo pelo testemunho vivo do Pedro. Ainda no início deste ano tive oportunidade de almoçar com ele e apresentar-lhe a darling e a cria mais nova. Pude ver nos seus olhos e sorriso a sincera satisfação de ver uma velha ovelha desgarrada vivendo feliz.

Só que hoje pela manhã recebi um telefonema de um amigo comum, me dando conta da triste notícia de sua partida. Para onde? Não sei. Mas se o deus em que ele acredita existir mesmo é certo que há de ter um lugar reservado para esse meu amigo. Com muito churrasco e cantoria de modinhas. Ah, e umas cervejas na geladeira.

Vai lá com ele, Pedrão. Se for verdade mesmo, talvez um dia a gente se veja de novo. Desculpe pelas tantas lágrimas de hoje, que não combinam com as lembranças das nossas festas. Mas é também pelas lembranças felizes delas.

Leva saudades deste seu amigo e admirador.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

To chegando na Cohab

Ao ler a lista dos vereadores eleitos de Sampa e constatar que o pagodeiro escroto Netinho de Paula está no top ranking, eu reflito e concluo: ESSE POVINHO DE BOSTA MERECE!

sábado, 4 de outubro de 2008

Estado de quem, cara-pálida?

"Toda eleição é fraudulenta". Demorei um bocado de tempo para compreender esse postulado simples e direto de Wladimir Ilich Ulianov, esse cara aí ao lado, mais conhecido com Lênin. Certamente ele já falava dos rumos da democracia pós-revolução bolchevique que assinalava os contornos do fiasco totalitário em que iria se tornar a experiência russa nas mãos dos burocratas do PC soviético. Lá se enterrariam os sonhos da democracia proletária e da própria futura extinção das classes sociais. Nas terras bushianas, quiçá em breve barackianas, o Estado Burguês faz uma gigantesca operação financeira para "salvar a economia". Cá amanhã teremos eleições municipais que renovarão cem por cento das câmaras legislativas municipais e seus executivos alcaides. O que há de ligação em tudo isso?

Aqui entra um pouco de análise política. Quando falamos de Estado (com maiúscula), referimo-nos a organização política maior de uma nação. O Estado representa a classe que o constituiu ou que o tomou de assalto. Por isso um Estado é sempre classista. Desde os movimentos iluministas e as revoluções que puseram abaixo os regimes feudais e monarquias, a classe revolucionária que tomou o poder foi a burguesia economicamente ascendente. E que logo tomaram para si a política. Assim podemos entender que a política é o reflexo organizacional e normativo daqueles que detém o poder econômico, ao cabo, o poder de controlar quem mora, quem se alimenta, quem se veste e como o fazem.

O regime econômico que domina o mundo hoje, o Capitalismo, é fruto da ascenção burguesa a todas as esferas de poder político em nível mundial. E a faceta "globalista" do Capitalismo é exatamente a hegemonia dos extratos burgueses dos países mais ricos sobre os extratos burgueses dos países menos ricos e destes sobre as classes não possuidoras dos meios de produção. Nós que não possuímos riqueza e dependemos tão somente da nossa força de trabalho e inteligência para o sustento. Essa força de trabalho precisa geralmente ser exercida para os possuidores ou para o Estado, expressão maior das classes dominantes.

Curiosamente a burguesia é disseminadora do discurso mais falacioso e inconsistente do capital, desde os postulados de Adam Smith: o de que a economia pode seguir solta que se auto-regula pela força positiva da mão invisível do mercado. Por isso a burguesia em todos os países faz questão de pregar a extinção do Estado em prol de um mercado de homens livres no qual o desejo de progresso e prosperidade de todos impulsiona as forças produtivas para a construção de cada vez mais riqueza, o que é bom para todos, certo? E também que o risco é inerente às operações de investimento. Alguns ganham, outros perdem, depois a situação pode se inverter e no final todos ganham. Ahã...

Então observe para onde os capitalistas especuladores (ops!) os investidores dos mercados de capitais e bancários vão correr, quando o capital volátil das bolsas treme (por causas de peculiaridades do sistema de acumulação). Acabamos de ver nesta semana: para o Estado. Ora, ora... Lá se desnudam os valentes desbravadores do mundo financista que arriscam seus patrimônios heroicamente e que até então - enquanto lucram - pregam a extinção do Estado ou então o "Estado Mínimo". Estado Mínimo no conceito deles é o fim do Estado redistribuidor, que presta socorro aos que precisam do elementar, como educação, assistência médica, aposentadoria, programas de moradia, socorro a desabrigados, enfim o chamado Estado do Bem-Estar Social. Esse é o Estado que os capitalistas querem sepultar. O último resquício de que o Estado Burguês - outrora revolucionário - poderia promover melhoria de vida para a maioria das pessoas. O Estado que socorre o Capital, o defende com seus aparelhos jurídicos e com o braço armado - polícias e exércitos - esse fica.

Voltando a bushilândia, os "corajosos investidores" estão sempre destemidos para lucrar, mas correm com chapéu em mãos para o governo quando perdem alguns trocados. E este Estado, benevolentemente, em nome do bem-estar $ocial dele$, empenhou um socorro jamais antes visto. Foi muita grana. Procure as cifras nos noticiários. Os coitadinhos dos investidores foram lá apavorados porque não esperavam o baque em seus habituais megalucros. Curioso que um amigo do tio lá da bushilândia, ex-morador de New Orleans, contou-me semanas atrás que tantos anos após a tragédia do dique que matou trocentos pretos e hispânicos, ainda há milhares de desabrigados com famílias morando em traillers, esperando um socorro bem mais modesto da parte do Estado: um kitchenete do CDHU deles ou um empréstimo pra comprar um sobradinho de 40m². Pra esses não têm ajuda estatal. Por que não estou surpreso?

Chegamos aqui nas eleições municipais. Em cada cidade um dos potenciais prefeitos assumirá em janeiro. E todos os conglomerados de prestação de serviço que vivem de vender para a municipalidade já investiram nos elegíveis. Algum trocadinho para um ou outro minoritário porque este poderá se aliar ao eleito em troca de uma secretaria municipal e também favorecer as compras das prefeituras. Investimento sem risco, com retorno certo. Ao lado, milhares de candidatos se acotovelam em busca do shangri-lá de uma das vagas da Câmara Municipal e terão a árdua missão de avalizar atos do alcaide, além de renomear ruas e praças que são os projetos predominantes nas câmaras municipais. Tudo isso a preço de ouro e além dos custos formais, com muita grana saindo pelos cantos ajudando os pobres políticos eleitos e seus lacaios a ampliar seus modestos patrimônios.

Enquanto isso você eleitor que lê isto - se é que agüentou até aqui porque hoje estou prolixo demais - está aí pensando se vota no que prometeu hospital, no que prometeu escolas, no que diz que já fez tudo isso ou naquele que beija criancinhas na feira livre comendo pastel. Meu caro, minha cara, o baralho está marcado, os dados viciados e a roleta tem um pedal de freio escondido. Caia fora dessas. Nunca pensei que diria isso um dia, mas não há caminho para melhoria da nossa vidinha medíocre no tapetão deles. Forget it. Vamos lá para os (des)construtivos conselhos do tio:

NÃO VOTE OU VOTE NULO. Isso não mudará o quadro em nada, mas tirará o seu aval dessa balbúrdia que está aí.

COMPRE SEMPRE QUE PUDER de pequenos produtores, hortas comunitárias, cooperativas autônimas, do seu Zé que planta verduras no terreno ocupado, da dona Lola que costura em casa no anonimato. Corte o cabelo no seu Antônio que nem firma aberta possui e desconhece o que quer dizer ISS. Tudo isso ainda terá um resquício de imposto embutido mas a sua contribuição diminuirá bastante.

SONEGUE SEMPRE QUE PUDER os impostos. Os impostos vão para sustentar e perpetuar o Estado Burguês incluindo a polícia que te dá borrachada se você for pra rua reclamar. Infelizmente quase tudo que chega às nossas mãos já vem com impostos antecipados ou tributados do produtor (exceto os vegetais da horta do tiozinho do terreno invadido). Mas quando se tratar da suada rendinha do seu trampo, sempre que puder faça-a informalmente e enfie a grana no bolso. Com o $ que seria da tributação você poderá contribuir melhor do que ninguém para o bem-estar social da sua família. Isso inclui não cair no conto da Nota Fiscal Paulista e suas assemelhadas de outras unidades territoriais. O Estado não te devolve merda nenhuma no final das contas. Ele apenas quer saber quanto VOCÊ GANHA e o mesmo a respeito do cara que te vendeu.

E novamente eu insisto:

NÃO VOTE OU VOTE NULO. Não fará a menor diferença mas pelo menos você desencantará sua mente das ilusões, tornando sua visão mais limpa e realista. Se você se ausentar a multa é irrisória; mais barata do que o busão de ida e volta. Não caia também nessas histórias de que se X% mais tanto votarem branco, nulo, absterem-se, etc.. anulará o pleito. Isso não tem a menor base jurídica. E ainda que tivesse, se um colapso eleitoral ocorrer, o TSE, o STF e as câmaras legislativas federais darão um jeito rapidinho de mudar as regras e manter a legitimidade da farsa. Toda eleição é fraudulenta, já disse o tio Lênin. Ela traz no seu âmago as regras espúrias e o germe da locupletação.

Desculpe pelo mau humor. Por esses dias estou frio e realista demais.

Pode confirmar sem medo: o número está mais que certo.

sábado, 27 de setembro de 2008

Rent-a-vote

Já que:

a) As eleições não passam de um falsete democrático,

b) A tal democracia representativa é um imbróglio, pois os cidadãos permanecem alienados das esferas de poder e

c) Comprar ou vender voto é crime, ao menos na teoria e na legislação eleitoral.

O tio decidiu alugar o voto. Agora que me caiu a ficha: não preciso vender. O voto só tem validade por 4 anos, que é a duração do mandato. Então é simples faturar uma grana sem incorrer em crime eleitoral: basta alugar que não consta na legislação como crime correlato.

Os políticos e partidos interessados podem enviar suas propostas para o Tio Xavier que as analisará. Serão alugados separadamente o voto para prefeito e o para vereador. O critério classificador será a maior oferta, em moeda corrente. Em caso de empate o tio poderá, com critérios próprios, solicitar aos finalistas uma oferta adicional de desempate.

O resultado será postado aqui na sexta-feira que antecede o pleito, ao meio-dia. O(s) vencedor(es) deverá(o) depositar imediatamente a importância acertada na conta do tio. Em espécie porque cheque de político nem pensar. Caso contrário não alugarei meu voto.

Alea jacta est.

Atenciosamente.

Tio Xavier

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

The train, parte XVII

Senhor de meia-idade e suburbano que sou, adentro ao vagão do trenzão da zona leste umas sete e tanto da madrugada. Pego-o voltando para a primeira estação para poder ir sentado, pois tentar pegar o trenzão na terceira estação, como seria meu caso, é impossível. Não dá nem para entrar.

A composição pára na estação final, eu permaneço confortavelmente sentado bem no canto e abro o livro de Emília Ferreiro que estou lendo. Eis que quando o vagão lota compactando a massa proletária ouve-se um aparelho sonoro tocando no último a grudenta, sebosa e enjoada voz do ex-detento Belo. Aos poucos a banda sintetizada cresce e o mais chato dos pagodes românticos toca a todo vapor. Putaquipariu.... tem que ser no meu vagão.

No banco atrás de mim, duas senhorinhas reclamam entre si. Pessoas bufam. Mas ninguém fez o menor intento de introduzir o aipódi do energúmeno no respectivo orifício defecador dele. Essa é merda da inclusão da gentalha no mercado de consumo. O jeca foi nas lojas do Sr. Samuel Klein, comprou o treco em quatrocentas e dezesseis prestações e acha que toda a Humanidade quer ouvir o mesmo lixo que ele.

Depois de me dar conta de que as palavras da autora já não se processavam no meu cérebro não resisti mais. Assim que o trem parou na estação seguinte e me certifiquei que seria ouvido dei um berro digno de vendedor de sapatos da rua Direita.

- Ô didjei! Abaixa esse troço aí por favor!

Felizmente o merda deve ter se constrangido e foi abaixando, abaixando até que a voz nojenta do Belo sumiu-se de vez. Aí, nada como um arremate:

- Brigado aê, falou?

Gentalha.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Denúncia de maus tratos...

De novo! Um noticiário está mostrando uma mãe em Recife - escondendo o rosto não sei o porquê - que denunciou uma babá por comprovados maus tratos à uma menina de dois anos. No vídeo, que a mãe forneceu à polícia depois de contratar um sistema de vigilância interna, a tal babá (na verdade uma serviçal sem a menor qualificação) bate, puxa os cabelos, ergue pelo braço e - pasme! - fura a perna da criança com um palito de dente. Depois de demitida, agora a sujeita está foragida. Puxa, vida...

Onde já se viu denunciar à polícia uma pessoa dessas? Oumaigódi, o que tem na cabeça dessa mãe? A criança tem pai? Tem tio? Avô? Ou pelo menos, caso a mãezinha viva sem marido, não haverá um amigo mais chegado que tenha estima pela família?

O tio Xavier nunca admitiria uma denúncia contra alguém que maltatasse uma criança de minha casa, um idoso, nem sequer um animal doméstico, incluindo os peixes do meu aquário. Não, isso não é motivo para se denunciar. Eu socaria a boca até que não restasse um centímetro de gengiva para dar suporte a um implante, enfiaria um cabo de enxada por um lugar escuso até que saísse pela boca e por fim, tapearia o switch da porta do microondas para poder cozinhar a cabeça desse ser.

Depois chamaria a polícia e simularia uma possessão de exu, fazendo um discurso sobre o que merecem seres que maculam e maltratam indefesos, independente da espécie desses. Duvido e faço pouco que qualquer juiz criminal teria argumentos para me condenar.

Denúncia? Tá bão, viu...

sábado, 20 de setembro de 2008

O império de Satã

Fazia quase uma década que pelo menos duas das três TVs da casa do tio estavam inativas. Foi quando caiu um raio na antena e o tio entendeu como uma mensagem de Alá, para eu proteger minha família contra o império de Satã. Na ocasião mantive apenas o aparelho da sala em operação parcial e quando não chovia era possível discernir alguns personagens em meio aos chuviscos. Como não canso de dizer e todos já sabem a TV aberta é uma merda, então não havia razão para restaurar o funcionamento. A TV por assinatura é uma merda mais sofisticada. Tem alguns canais informativos e às vezes passa algum filme bom que se reprisa por 403983 vezes nos meses seguintes. Custa uns bons trocados por mês; "despesa fixa" como classifica-se na Administração Clássica. Por isso eu me recusei toda vida a bancar essa brincadeira.

Meu exemplar e já bem-sucedido enteado, formado e ganhando mais que o tio (o que até um catador de papelão consegue) já tem autonomia para diversas coisas. Nunca pede um real para o padrasto nem para a darling. Ao contrário, já assume alguma despesa da casa e com freqüência deixa cédulas na bolsa da mãe. Um exemplo e você que tem filho proto-delinqüente mooooooorra de inveja.

Ocorre que o caro jovem contratou a TVA para a casa do tio. Do dia pra noite, cheguei em casa e vi toda a família assistindo TV, cada um em um cômodo, como cabe a uma família moderna. Enfim o império de Satã conseguiu adentrar a casa da família do tio. Agora produções dos pecadores hollywoodianos que pregam o evangelho infernal do consumismo, o sucesso a qualquer custo, a infidelidade e do desprezo pelo semelhante, invadem todos os dias a sala e os quartos casa. Desenhos de bonecos abobalhados (que têm por missão neutralizar os neurônios das poucas crianças inteligentes) passarão a estrelar nos horários em que a cria assiste TV. Estou impotente diante da situação e já considero protagonizar um ataque-bomba à minha própria casa, como única forma de garantir a salvação da minha família.

Mas tudo que é ruim pode piorar. Já faz uma semana que o técnico da TVA, um tiozinho calvo e gorducho, não sai daqui de casa. Traduzindo: a merda da tecnologia dos caras não tá funcionando direito e as imagens vira e mexe congelam, eventualmente junto com o áudio. Num dia ele vem e troca os decodificadores, no outro as fontes de alimentação, no outro o filtro de sinal, no outro os cabos e por aí vai. Me lembrei de uma propaganda, na qual o técnico vai morar com a família, porque a TV deles o só dá problema. Acho que vai sair uma nova versão. Aqui na casa do tio.

Jihad já! Pela destruição de todas as emissoras pecadoras! Viva a Al Jazeera!

Coração de estudante...

- A senhora nunca mais se intrometa nos assuntos que não são da sua alçada. Estão dispensadas as suas sugestões a respeito, minha senhora. Quanto às provas, a senhora limite-se a aplicá-las e corrigi-las. Eu fiz a prova e farei todas as outras que eu decidir fazer até o final deste curso. E caso a senhora não tenha percebido e não lembre minha nota, independente da suas opiniões sem fundamento, estou entre os mais capacitados desta turma. Nunca mais, nem aqui, nem para as pobres criancinhas do CDHU pra quem a senhora leciona, repita suas sugestões esdrúxulas, anti-pedagógicas e anti-éticas. Se sua intenção era me desestabilizar a minutos da prova, eu lamento muito minha senhora. Pra conseguir isso é preciso ser alguém muito bom. No seu caso... tsc... tsc...".

Com esse discurso, com um sorrisinho cínico insuportável e com dedo em riste o tio arrematou a aula de Didática na facu da última quinta-feira, uma semana depois da prova. Antes que você me faça acusações, permita-me explicar o ocorrido:

Uma semana antes, minutos antes da prova de Didática, a mais limitada, insossa e desinteressante professora deste semestre estava fazendo a última embromação após três aulas enroladas. Manja aquelas técnicas que aplicam em alunos do Fundamental-I quando manda-os confeccionar cartazinhos e apresentar para a sala? Pois pasme: o assunto em questão era sobre os pensadores da Educação do século XX, cujos reflexos encontram-se na Pedagogia atual. Tema de complexidade, importância e profundidade, que requeria ao menos duas aulas de exposição e acalorado debate. Mas a professorinha, ao invés disso, passa tarefinha de pesquisinha e montar cartazinho. Típica (má) operária da Educação Infantil que se aventura pela universidade. As mais incautas e empolgadas colegas do tio se esmeraram nas canetinhas coloridas e colagens. Mas o tio é um pouco mais exigente e não vê razão para treinar colagem e letra-caixa em cartolina. Aliás não há razão.

Dessa forma há três aulas eu estava com a mesma cara de reprovação, quando a pentelha resolveu pedir para eu explicar a colagem nas coxas que minha equipe havia feito. Com o saco na Lua, primeiro eu disse um sonoro: "Está escrito lá". Mas a mala-sem-alça e sem noção insistiu ao que - com a maior indisposição do mundo - resmunguei: "Parece que...". Era o que ela esperava. A protótipa de chefinha medíocre desembestou a dizer coisas como: "Começou mal. Se no dia da prova você 'acha' ou 'parece que', então é melhor você não fazer a prova porque não está capacitado e blá blá blá...". Mantive o sapo cururu paradinho na garganta. Eu bem me conheço e qualquer coisa que eu dissesse naquela hora, com 50% do fluxo sangüíneo concentrado no cérebro, começaria obrigatoriamente com "Enfia no seu ânus a sua opinião que eu não pedi"; depois eu vestiria meu gorrinho da Gaviões da Fiel e daria uma cabeçada no nariz dela. A prova seria suspensa, eu seria retirado por seguranças e é provável que trouxessem pastores da Universal para me amarrar em nome de Jesus. Ao final de tudo eu perderia as benesses que tenho lá (que não vem ao caso quais são) e seria expulso com assinatura irrecorrível do próprio reitor, aliás, meu benfeitor.

Mas o tio é um cara zen e acredita nos ensinamentos de Buda. Sobretudo se ele tiver proferido algum que diga algo como: "Antes de encolerizar-se lembre-se que você pode esperar até a próxima oportunidade e colocar seu oponente abaixo do cu do cachorro". Depois, quem se desequilibraria para a prova seria o tio e jamais conseguiria obrigá-la a aplicar um reluzente 9,5 na exímia dissertação, que foi o que aconteceu. O cururu desceu até o estômago onde fermentou por sete dias até eu vomitá-lo anteontem na cara dela.

Well, eu não sou vingativo, mas minha memória é altamente eficaz nessas ocasiões. E agora, depois de gaguejar diante da sala, a professorinha medíocre terá que respirar fundo todas as quintas-feiras à noite. Ela lembrará que terá que ver minha cara de irônico, que nem eu mesmo suporto quando olho no espelho... Problema dela. Venha, que eu moro muito adiante da Penha.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Amy Winehouse

Tenho lido algumas chamadas para notícias e muitas críticas na mídia à cantora Amy Winehouse. Dia desses, zapeando o controle remoto eu vi no Pânico na TV uma performance bastante bizarra batizada de "Momento Amy Winehouse" que na sua estrutura relembrava o antigo quadro - igualmente sem o menor senso - chamado "A Hora da Morte".

Sinto-me no dever de confessar aos dois ou três leitores deste blog que eu não tenho a menor idéia de nada sobre essa tal Amy Winehouse. Não sei de que país ela é, nem que tipo de música canta ou se toca algum instrumento, nem como é o seu timbre de voz (dizem que é muito bom), enfim quase nada. Só o que ouço ou leio nos títulos: que é uma surtada que se entope de drogas - legais ou ilegais, sei lá - e que tem protagonizado várias presepadas em locais públicos.

Curiosamente esse "conhecimento" não me fez nenhuma falta, assim como aquelas notícias de colunas sociais tipo "Fulano trepa com Beltrana no castelo de Caras", "Emengarda está curtindo a gravidez do jogador Sicrano", "Joãozinho casou-se nesta semana com Mariazinha e foi passar a lua-de-mel nas ilhas gregas" e coisas assim, nada, nada, absolutamente nada disso me desperta o menor tipo de interesse.

Isso se aplica também à vida dos vizinhos e parentes. Nas reuniões ou festas o que mais rola é comentário sobre a vida alheia. Vejo pouca gente falando de si, de seus projetos pessoais, de suas eventuais frustrações ou de seus relacionamentos amorosos. É sempre "o outro" o objeto da conversa. Não que eu seja algum tipo de santo budista iluminado e jamais comente alguma coisa sobre outrem. Claro que o faço, sobretudo se tratar-se de uma pessoa querida que me desperte alguma preocupação ou ainda melhor, quando é alvo de admiração por algum progresso visto. Só não é meu foco.

Mas continua me faltando tempo para cuidar de mim, da minha prole, dos meus estudos, das minhas finanças e dos meus projetos. Talvez felizmente. Assim continuarei a não dar a mínima para essa tal de Amy Winehouse. De algum modo estar ignorante sobre a vida de celebridades me faz sentir mais feliz.

E o Quico? Pergunte ao Chaves.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Guia básico de comunicação feminina

Entender as mulheres é cientificamente impossível. Mas pesquisas lingüísticas recentes revelaram alguns significados próprios da linguagem feminina.

Com isso, tio Xavier - lingüista, ocultista e psicanalista de botequim - lança o projeto: "Guia Básico da Comunicação Feminina". Ele contém verbetes e expressões corporais minuciosamente estudadas em fêmeas da espécie humana. Se você é um macho do sexo masculino, vai lhe ser útil. Em breve nas bancas.

Preste atenção e entenda o que elas querem dizer, quando dizem:

Legal - Terminação argumentativa. Ela se acha certa e você deve calar sua boca estúpida.

Cinco minutos - Algo entre meia-hora e uma hora e meia, dependendo da situação.

Nada - Não se iluda; significa alguma coisa. Geralmente "Nada" quer dizer "quero te trucidar". Antecedido de um "Legal" significa: bote suas barbas de molho que ela falará por "cinco minutos".

Vá em frente (com sobrancelhas erguidas) - Ameaça gravíssima. Se ela completar com "Nada" e "Legal", contrate seguranças.

Vá em frente (com sobrancelhas normais) - Significa “eu desisto” ou “estou me lixando pra você”. Antecede um “Vá em Frente" com as sobrancelhas erguidas”. Mas se for seguido de um “Nada” e/ou um “Legal”, ligue para 190 imediatamente.

Suspiro alto - Indicação não-verbal. Traduz-se por: "Você é um idiota". Nesse momento ela está se questionando a razão de perder o tempo precioso dela argumentando com você, mesmo depois ter dito um “Nada”.

Suspiro suave - Outra indicação não-verbal. Significa que ela está contente. Evite movimentos bruscos e não diga nada. Geralmente ela não avança na sua jugular após um suspiro suave e até pode ser que role um sexo.

Tudo bem - Uma das frases mais perigosas, já catalogadas pelos peritos policiais e legistas. Ela só quer pensar melhor como vai se vingar de você. “Tudo bem” é geralmente usado com a palavras “Legal” e em conjunção com um “Vá em Frente”, com as sobrancelhas sobre-erguidas. Converta-se a alguma religião, porque lhe será útil em um futuro próximo.

Por favor, faça - Isso é uma oferta. Ela está te dando a oportunidade de contar alguma que você já aprontou. Dissimule fazendo parecer verdade. Mas se ela responder “Tudo bem”, a casa caiu mesmo.

Obrigada - Apenas diga: “de nada”. Não prolongue nem olhe para os lados. Você está fora de perigo.

Muito obrigada - É diferente de “Obrigada”. Quer dizer que ela está fula com você. Você fez alguma merda. Se seguir-se um “Suspiro Alto”, tente sair de cena ou chamar a atenção para um avião no céu. Mas nunca, jamais pergunte o que há de errado após um “Suspiro Alto”. Ela irá responder: “Nada”. Nesse caso, você já está morto.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Nosso líder curandeiro

Nosso Chefe de Estado é imbatível. Nunca antes na história deste país tivemos um presidente tão multi-tudo. O homem tem conhecimentos de diversas áreas da saúde e da Medicina. No lançamento do programa de saúde em Pernambuco, o nobre dirigente esbanjou conselhos dos mais variados para uma platéia masculina de 20 a 39 anos. Vejam só:

Sobre o exame de próstata:
“Se tem um bicho covarde é homem. Seria bom que ele engravidasse um pouco para ver quantos toques ele ia tomar...”

Sobre exercícios físicos, dos quais ele é um adepto inverterado, disse ao ministro Temporão:

“Você não anda, não corre, não faz ginástica e fica dando conselho pra gente.”

Lula também é dentista:

“Minha preocupação é que rico não tem dor de dente, mas pobre é uma desgrama. (...) Tem até dentista infantil para rico. Se a rede pública não atender, pobre não tem condição”.
Entre outras pérolas consta que ele tenha proferido que dor de dente, quando ele era criança, era curada com o despejo de cachaça no dente com cárie. Isso explica algumas coisas sobre ele...

Ele também tem um lado otorrinolaringologista. Contou que dor de ouvido, nesse mesmo tempo da cachaça, era curada colocando um algodão com óleo quente no ouvido do desinfeliz.

Esse é o nosso prizidenti! Lula pra presidente vitalício já!

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Powerpointaquipariu

Inicia-se hoje minha retumbante campanha internacional "Morte ao PowerPoint".

No passado fui adepto do retroprojetor e habituei-me a escrever com letra-caixa sobre transparências para expor minhas idéias, projetar cânticos no telão durante a missa, ministrar aulas e coisas assim. Foi um tempo bom, apesar de o recurso e os meios físicos darem um bocado de trabalho, tanto na produção quanto na logística. Pra quem não conheceu, o retroprojetor era um trambolho e tinha quase que ser carregado em liteira, pois além de tudo a caríssima lâmpada era sensível e queimava por qualquer abalo sísmico de 0,01 na escala Richter.

Com o advento do Windows e posteriormente do PowerPoint, apresentar tornou-se deveras simples, assim como a inclusão de recursos antes impensáveis como movimento, som, fundos decorados, variações de letras e tantas coisas que vieram, sem dúvida, enriquecer as apresentações de conteúdo. Ênfase, por favor na palavra CONTEÚDO. Ocorre que todo recurso fácil de usar acaba caindo nas mãos da gentalha - o populacho - e aí a coisa começa a feder. Gentalha não sabe o que é conteúdo e pensa que se refere aos 350ml da latinha de cerveja. Então, após ler as mais piegas poesias do Renato Soviético ou escutar uma música chata de fundo, enquanto passam palavras supostamente proferidas por um também suposto monge tibetano, o pentelho não tem a menor dúvida: ele PRECISA passar isso para toda a sua lista de contatos.

Por essa razão o PowerPoint, que tinha tudo para ser uma poderosa ferramenta de apresentação e de vendas, para mim e para grande parte das pessoas tornou-se uma coisa hedionda, odiável e digna do meu mais veemente desprezo. Odeio quando alguém me manda algo intitulado "lindo", "leia e medite" e outras tantas besteiras de auto-ajuda com anexos .PPS e .PPT. Até piada! Porra, uma simples piada que se pode mandar pelo bom e velho texto simples, a horda de emo-desocupados anda montando em PowerPoint acrescentando imagenzinhas tontas e fundo musical, barulhinhos... E cada frase em um slide, ainda por cima. Ou seja, uma piadinha de 10 linhas de diálogo passa a ter doze slides, já que tem abertura e encerramento.

Vou procurar no Orkut se tem alguma comunidade tipo "Introduza o PowerPoint no final do seu intestino". Morte ao PowerPoint.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Papo cultural dus manu

Nessa minha vida semi-proletária, utilizando o transporte ferroviário urbano, sou obrigado a presenciar conversas de todo tipo. Essa que segue abaixo captei em uma das viagens suburbanas, ouvindo o diálogo entre dois manus.

Para quem não é de Sampa, antropologicamente falando, manus são uma espécie de jacus suburbanos que se vestem com fakes de grifes famosas e calças cargo. A indumentária inclui camisetas de times de basquete estadunidenses, igualmente falsificadas, além dos tênis comprados nas mesmas barracas. Vivem em tribos e seus estranhos costumes ainda não foram suficientemente estudados, exceto alguns bem específicos cujos estudos são feitos pelas Secretarias de Segurança Pública e pelas Polícias Militares.

Culturalmente falando, devido à evasão escolar e ao baixo nível do ensino público em grande parte das escolas, os manos se caracterizam também por um dialeto próprio desprovido de regras gramaticais rígidas e por vocábulos muito específicos, às vezes ininteligíveis até para os melhores lingüistas.

Tentarei reproduzir grafologicamente as pronúncias, tais como são proferidas, embora a Língua Portuguesa em sua forma culta possa ser pouco suficiente para representar o dialeto manês urbano periférico. Abaixo está o belo diálogo. Atentem para os dados culturais e conhecimentos históricos e econômicos que estão presentes nele:

- Ô véio, viu u bagüi do final das olimpíada?

- Vi uns lanci.

- Da hora né?

- Só. Cada bagüi lôcu que us cara faz. Mós efeitu.

- Podicrê.

- Manu, essis chinêis são foda.

- Só.

- É qui us cara são centenáriu, tá ligadu?

- Qui mané centenáriu... Os cara é milenáriu.

- Us cara inventaru tudu qui é bagüi, mano.

- E us brasileiru? Nada. Us cara inventaru o avião, mas us francêis que levaru a fama.

- É, nu fim us francêis ficaru ca grana. U Santus Dumont morreu mó pindaíba.

- Só. Mas us chinêis, tá ligado qui eles inventaru a póvora, né?

- Podicrê. Elis inventaru tudu qui a gente temu in casa.

- Só. Liquidificadô, batedera, televisão... Tudu di eletrônicu foi us chinêis qui inventaru. Pô véio, us cara num cansa. Tá ligadu que elis vai dominá u mundu.

- Podi crê... Tudu quantu é bagüi.

- Num dá nem pra alcançá elis, véio. Us cara faiz uns cem mil anu qui têm a civilização delis.

- Dus tempu dus faraó então.

- Podicrê, bem antigão memu... achu qui dus tempu dus dinossauru.

- Vai sabê si num foi us chinêis qui acabaru cus dinossauru.

- Só, véio. Vai vê elis invetaru a póvora i estreiaru nus dinossauru memu. Meteru uma pá de teco nelis. Já era us dinossauru. Cum aquele tantu de genti cum fomi elis dévi tê cumidu us dinossauru.

- Lógu nóis tá é comenu cachorru. Tá ligadu que us chinêis come cachorru?

- Cé locu!

- É fiu, ma du jeitu qui vai...

- Podicrê. Vixi... cachorru tô fora.

- Nada a vê.

- Só. Falô véio... to inu nessa.

- Falô.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Loucuras de amor

Depois de enfrentar uma hora e meia de trânsito - vide post anterior -, chego à minha rua. Um estrondoso som viola os vidros do carro, que estavam fechados. Vencido, desligo meu CD e tento entender o que se passa.

Mais adiante, em frente a um pequeno prédio da rua, um ato de amor ensandecido. Uma pickup "Loucuras de Amor" com quinze mil balões a decorá-la e oitocentos mil watts de som estremece o asfalto. A homenageada consta que era uma conhecida do tio, muito graciosa e gente boa por sinal. Era aniversário dela e o apaixonado contratou aquela versão miniaturizada de trio elétrico baiano para tocar as mais bregas canções de amor, enquanto o locutor com voz de cantor de tango declamava poemas.

Abundavam vizinhos aos portões para assistir à linda performance. Eu tratei foi de entrar em casa o mais rápido que pude. Sinto vergonha daquilo, ainda que nada tenha a ver comigo. É cafona demais, é brega demais. O amor estardalhante, que precisa de amplificadores tem algo de doentio - quiçá até de superficial - dado precisar de projeção, no sentido mais psicanalítico da palavra. Não tem nada de singelo, nem da profundeza de um olhar silencioso, nem do toque sutil sobre as mãos da pessoa amada, do afago terno ou do beijo roubado em segredo. Nada. É feito de chuva de papel laminado, som no último e salva de rojões. Juro pra vocês que teve tudo isso.

O amor espalhafatoso é brega, muito brega. As canções de amor entonadadas pelos pagodeiros e sertanejos (foi o repertório que ouvi) adicionam cafonice ao que por si já não precisava mais. E no caso citado, ainda mais pé-no-saco quando não me deixa ouvir o que o âncora do jornal está dizendo.

O Kassab tem que autorizar os cidadãos a atirar granadas sobre os carros de som. Senão não vai levar meu voto.

Suicidando-se a si próprio

Um homem sobe em uma torre a pretexto de tentar se suicidar. Os bombeiros, a companhia de energia, a Swat e o Chapolim Colorado, são todos mobilizados ao local. A energia de quinze bairros é desligada para tirar o caboclo de lá.

O tio, depois de enfrentar mais um dia de labuta, chega à faculdade com muito custo e lá descobre que as aulas foram suspensas, pois às 19h o apagão ainda não tinha hora para terminar. Desconsolado, lá fui enfrentar um congestionamento monstruoso rumo ao barraco.

No caminho eu começo a filosofar as teorias sobre o Estado. Passam pela minha mente John Locke, Maquiavel, Marx, Berger e uma infinidade de pensadores. A cena de um quarto da cidade parado sem energia, o homem lá querendo se matar, tudo me parece um imenso quebra-cabeças. E me vem a pergunta de fato: o Estado tem direito de decidir sobre a vida individual, do suicida nesse caso?

DEIXA ESSE INÚTIL SE MATAR E PRONTO, SACO!

sábado, 23 de agosto de 2008

Transações com mais segurança?

Se você é usuário dos cartões de débito Mastercard Maestro® já deve estar acostumado a ter que digitar algum dado de checagem adicional depois da senha. Às vezes a máquina pede o dia do nascimento, às vezes o mês ou então o ano com dois dígitos. A princípio essa checagem extra deveria aumentar a segurança anti-fraude, certo? Ao menos é o que a operadora quer fazer-nos pensar. Mas não.

O empirista profissional Tio Xavier, após um incidente que revelou a tapeação, começou a fazer experiências científicas* nos POS e nos PinPads da vida. Certa vez estava eu a passar o cartão de débito no supermercado com a darling quando a máquina pediu o dia do meu aniversário. Não me pergunte o porquê, mas nesse exato momento eu olhei pra darling e me confundi. Digitei o dia dela e dei enter. No mesmo instante me toquei da falha mas já tinha ido. Restava esperar a rejeição para passar o cartão novamente. Mas atenção para o resultado: debitou sem delongas.

Depois de constatar as falhas - minha e do sistema - comecei a fazer experimentos propositais. Ao pedir o meu mês eu digitava qualquer outro de 01 a 12. Ao pedir o dia eu mandava outros que não o meu. Sempre passava. Ou seja: um lixo. Agora quer saber a maior? Passei a fazer testes mais arrojados digitando 55 quando pedia o dia e até 08 como ano. Sempre passa, pode testar. Basta a senha estar certa e o mais importante: ter saldo. Ah, sim, o mês? O sistema aceita qualquer coisa de 00 até 99.

Conclusão do Experimento: essa tapeação idiota implementada pelas operadoras de TEF, só serve para os tontos dos usuários pensarem que a segurança foi reforçada. Mas os bancos, operadoras e grandes redes querem que você e a segurança se danem, contanto que a grana saia da sua conta e vá para as deles. Bando de FDP.
* Nota da Metodologia: Esse experimento foi realizado por mais de vinte vezes, em diferentes estabelecimentos, com um cartão de débito Maestro®. Não apliquei a metodologia com meu Visa Electron® ainda. Mas por analogia, já antevejo possíveis resultados.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Car System dos infernos

São cinco para a meia-noite. Estou beliscando alguma coisa pra preencher o jejum que já durava umas oito horas, incluindo o período de aula. Neste exato instante uma bosta de um carro com aquele maldito alarme Car System não pára de berrar na rua. Do dono, nem notícias.

O que o corno currado do proprietário não sabe é que a maioria dos moradores da rua costumam dormir à noite. Isto é, quando o desgraçado do dispositivo não dispara e enche o saco de qualquer cristão. O tal alarme de merda já disparou na madrugada passada fazendo o tio acordar e demorar a redormir. Tenho certeza de que não fui o único.

Outra coisa que o destituído de pregas anais desconhece é que carros que tem alarme Car System que disparam de madrugada costumam sofrer combustão espontânea. Verdade. Se não me falha a memória li isso em uma revista científica. Como sou uma pessoa preocupada com o bem alheio, avisei ao çaguranssa da rua sobre o alarme disparado, para que oriente o proprietário a desconectar. É um perigo. Dizem que a Car System está até fazendo um recall desses alarmes incendiários.

Sabe como é né? Com combustão espontânea não se brinca.

domingo, 17 de agosto de 2008

Momento olímpico

Sabe o que eu acho interessante?

- Nenhum empresário de peso bota grana significativa em alguma das "N" modalidades esportivas existentes.

- Boa parte dos atletas são pobres e treinam descalços sob sol escaldante, sem orientação profissional e sem alimentação adequada (alguns quase sem nenhuma).

- Nenhum político desgraçado ladrão e ordinário move uma palha para legislar ou interferir no descaso geral que o país tem para com o desporto, mesmo sabendo que seria possível tirar trocentos futuros trombadinhas da rua popularizando-se o esporte.

- Uns pouquíssimos jogadores abastados contribuem anonimamente com sustento de atletas pobres e talentosos, (leia-se a ginasta negrinha e uns outros aí) mas são meia-dúzia de gatos pingados.

Aí quando chegam essas porras de Jogos Panamericanos e Olim-piadas (de-mau-gosto) fica todo mundo torcendo com o Galvão, gritando a vinhetinha idiota, enquanto assiste ao vergonhoso fracasso brazuca nos telões dos bares badalados, se empanturrando de feijoada e caipirinha.

VÃO TODOS PARA OS QUINTOS DOS INFERNOS.

ESPERO QUE OS ATLETAS DESISTAM DAS CARREIRAS, VIREM SERIAIS-KILLERS E VITIMEM A TODOS ESSES HIPÓCRITAS.