sexta-feira, 26 de junho de 2009

Ben

Era 1974. O tio estava no primeiro ano do primário. Magrelo, espevitado e comunicativo, ainda que precocemente, eu estava apaixonado pela Magali. Era uma loirinha de bonitos olhos vivazes, um tanto mais alta que o tio e que aos tenros oito anos, seu corpinho já dava pequenos sinais de seus os hormônios reproduziam-se em velocidade maior do que a média das meninas. Do amor anotado em bilhetes ela tinha prometido um beijo - na boca, claro - o que representava uma transgressão e tanto para a idade e ainda mais para a época.

Sábado à noite, comemoração do aniversário da Magali e óbvio que o menino miúdo de olhos azuis estava lá apaixonado. Festinha na casa da família Império na Vila Romana, bairro simpático e tradicional de Sampa. Na vitrola Philips, o alto-falante situado na tampa vermelha destilava sucessos da época com Elton John, The Chi-Lites e Stevie Wonder entre outros, a maioria concatenados no LP trilha da novela global Uma Rosa Com Amor. Mas na hora das músicas lentas, ocasião em que nos bons tempos se dançava abraçado e com o rosto coladinho, Magali e eu não pensávamos em outra coisa que não fosse dançarmos grudados. A paixãozinha precoce tinha um misto de ingênuo e descoberta. E começa a tal música lenta...
"Ben, the two of us need look no more
We both found what we were looking for
With a friend to call my own
I'll never be alone
And you, my friend will see
You've got a friend in me
(You've got a friend in me)"
A voz que cantava era a de uma criança, ao som de um violão de aço e uma bateria suave, com cadência quase melancólica. Todos sabíamos tratar-se de Michael Jackson. Na época já seria um rapazote, mas os sucessos musicais costumavam durar anos. Ben, na vozinha pueril de Michael, não era uma exceção. Teria durado um bom tempo no topo das paradas de sucesso, de modo que lá estava embalando nosso romance.

A simplicidade dava o tom das coisas nos primórdios dos anos 70. Em um bailinho promovido com uma simples vitrola, sem luzes especiais nem mixers, podia-se esperar que o operador trocasse o disco ou que uma mesma música fosse tocada diversas vezes, repetida ou alternadamente. O grande sucesso daquela noite foi Ben, cuja repetição hoje em dia seria estranha à maioria das pessoas. Após cada uma das execuções de Ben, eu e Magali saíamos sorrateiros e ligeiros para algum lugar escuso aos portões da casa para ensaiar o beijo.

Os corações pequeninos batiam a 150bpm. Os olhinhos brilhavam no escuro. Cada par de mãozinhas se amparava nas do outro suando em bicas. Mas a coragem para inclinar a cabeça não vinha. Acho que a Magali estava mais resolvida com aquilo do que eu. Mas jamais uma dama tomaria a iniciativa. Ela esperava quase cobrando pela aproximação dos meus lábios para o sonhado beijo. E à cada ensaio frustrado, sempre que Michael Jackson voltava a cantar nós corríamos de volta à garagem coberta para dançar e flutuar novamente. Nunca esqueci aquela pele macia nem os longos cabelos dourados no meu rosto me fazendo sonhar. Sonhava que eu já era "grande" e que podíamos sair de mãos dadas, ir ao cinema, ir à lanchonete juntos. Era tudo o que um casalzinho de oito anos conseguia devanear, no auge de um amor puro e ingênuo.

O beijo nunca aconteceu. De ensaio em ensaio, lembro somente da penumbra e da voz fina da Magali dizendo que estava esperando, em meio a um sorriso lindo. A coragem me faltou, mas não a emoção do momento único. A pulsação frenética, o calor das mãos se tocando e os corpinhos magricelos dançando, isso tudo eu nunca esqueci. Assim como se eternizaram nos meus ouvidos os versos na voz de Michael Jackson, que eu nem sabia o que diziam, mas que os bons artistas fazem sentir de forma tão universal que sua poesia e voz atravessam continentes e culturas para tocar os corações apaixonados. Daquele aniversário ficou a doce lembrança da Magali, de quem anos mais tarde eu me despediria ao mudar de bairro para sempre. Mas também e igualmente ficou a delicada voz e o violão de Ben.

Essa é uma das tantas histórias que Michael Jackson nunca soube. Certamente eu e milhões de outras pessoas vivenciamos romances, aventuras e mais tarde noites de glamour dançante ao som estrondoso das discotecas e sob luzes estroboscópicas estonteantes. Por mais três décadas a evolução musical de Michael Jackson, que separou-se e juntou-se com os irmãos algumas vezes, embalaram a vida de tantos jovens sonhadores.

Michael Jackson não nos conheceu, mas certamente sabia de tudo isso. E ontem ao partir depois de uma vida atribulada, às vezes doentia - características quase inerentes à carreira escolhida - o astro pop deixou órfãos duas ou três gerações de fãs. Mas como toda boa obra se eterniza, sua influência musical e coreografias perdurarão por muitos e muitos anos nos mais diversificados artistas.

Vai em paz, Michael. Sua missão terminou e no que diz respeito ao seu trabalho foi pra lá de caprichada. Desculpa pela inevitável fuga de lágrimas e muito obrigado pela presença.

E você, que leu isto até aqui, ligue o som, feche os olhos e apenas ouça.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Looping para não ser atendido

1) Abra uma conta no banco abaixo.

2) Tente falar com o banco pela Superlinha (4004-xxxx). Após propagandas você ouvirá uma gravação dizendo que o serviço está temporariamente indisponível. Nunca informam por quanto tempo. Na verdade o serviço está disponível, mas como a fila de espera excederá o tempo exigido por lei, eles batem a porta na sua cara. Desse modo não são penalizados por demora. Ou seja: demora é infração, mas indisponibilidade não é. Captou? Não? Esquece e vá já para o passo 3.

3) Entre no site do banco. Após fazer o login da sua conta, clique no link de um suposto chat, na plataforma web de sua conta-corrente. Você verá essa linda imagem:


4) Agora você pode teclar sua mensagem pois supostamente há um especialista online pronto para ajudá-lo, afinal está escrito na tela, certo? ERRADO. Ao tentar "enviar" a mensagem você receberá esse alerta:


5) Resignado você dá "OK" e pressiona o botão "SAIR", pois é o único que funcionará. Aí o site lhe dará essa outra singela e polida mensagem:


6) Você então decide ligar na Ouvidoria do banco. No site deles tem um telefone 0800 (oba, grátis!). Uma vez que conseguir ser atendido, o ouvidor lhe solicitará o número de protocolo da reclamação. Assim que você informar que não possui, o ouvidor - que agora se tornará falador - dirá que você tem que ligar na Superlinha para reclamar e obter o número de protocolo.

7) Volte ao passo 2.

A quem serve a ignorância

"A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". (Lei de Diretrizes e Bases, Artigo 2º)

Educação pública sempre dispensou adjetivos. Não se dizia “educação pública de qualidade” nos anos 60, quando qualidade, antes de predicado, era imperiosa obrigação. Quem precisava de adjetivação era a escola particular, onde estudar custava caro, muito caro. Em alguns casos decorrência da excelência do ensino. Em muitos outros causa direta da salvação que se oferecia aos ineptos da escola pública.


Hoje a escola se transformou num instrumento de apartheid social. Nas últimas décadas do século passado o direito à educação e à saúde ficou diretamente proporcional à renda das famílias, num período em que a carga tributária no país só fez aumentar. Enquanto pagávamos, a cada ano, mais e mais impostos, recebíamos de volta cada vez menos e menos direitos, bens e serviços...


O que incomoda, ao lado da derrocada da educação no país, é o discurso falacioso de políticos e gestores públicos. Quer sejam prefeitos ou governadores, todos falam em melhora acentuada dos índices educacionais quando se trata de avaliar suas próprias gestões. Festejar números e estatísticas, para políticos em geral, é o mesmo que comemorar o resgate da excelência do ensino público.


Não há meias palavras nesse universo. O único indicador cabível para medir a qualidade do ensino está em garantir que a escola pública funcione como espaço democrático de conhecimento e de socialização. Escola verdadeiramente pública é aquela que é freqüentada por todos - filhos de autoridades e de empresários, de deputados e profissionais liberais, de cantores e intelectuais -, e não somente por pobres e remediados. A escola que separa crianças pelo critério da renda jamais funcionará como local de expansão do conhecimento e de disseminação da esperança.


Enquanto não conseguirmos diferenciar educação de mercadoria, a escola pública será sempre ruim. Afinal, esta é a maneira mais eficiente de tornar a educação uma mercadoria supervalorizada... Essa lógica perversa interessa à maioria dos políticos, que se perpetuam graças à ignorância da maioria.


(Texto de Alexandre Pelegi, publicado nesta data em www.primeiroprograma.com.br)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

No submarines

Alguns banheiros são verdadeiras galerias de arte. Aparentemente para coibir a permanência de algumas obras, a direção de uma empresa que é cliente do tio afixou esse sublime e carinhoso aviso, conforme foto abaixo.

Singeleza é tudo.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

O Mago

Elogiar biografias do Fernando Morais pode ser um tremendo pleonasmo, pois suas obras já são um elogio por si só. Mas nada como ler algo sobre Paulo Coelho escrito com a pena de um jornalista tão brilhante. Já tive oportunidade de ler Corações Sujos e Chatô, entre outras obras do Morais. Por isso admito que só topei ler a vida do Paulo Coelho por conta da autoria. O Mago, publicado pela Editora Planeta do Brasil, é de uma fluidez textual capaz de fazer qualquer preguiçoso devorar as suas 632 páginas em pouquíssimos dias. Fica por aqui o registro dispensável de parabéns ao autor e à obra.

Já sobre a obra do escritor de maior vendagem mundial de todos os tempos, resta admitir que é um fenômeno de marketing literário "jamais visto na história" para parafrasear o nosso iletrado presidente. Li apenas três das primeiras obras de sucesso de Paulo Coelho, a saber: O Diário de Um Mago, O Alquimista e Brida no início da década de 90, quando o escritor tornava-se um best-seller brasileiro. A proposta dos livros - claramente situados no universo da auto-ajuda - é de uma espiritualidade profunda como um pires. Talvez eu tenha sido exigente demais por conhecer coisas interessantes sobre diversas manifestações religiosas e filosóficas. Mas o "conteúdo" dos três livros na época não me serviu muito mais do que como gancho para impressionar moçoilas desavisadas e arrastá-las para intimidades, no que fui razoavelmente eficaz. No aspecto espiritual-religioso os livros "coelhais" são emaranhados de mitos, práticas religiosas e fraseado recortado de diversas tradições aqui e acolá. Portanto, eu não gastaria meu escasso tempo de hoje em dia para ler algo dele.

Mas por trás da obra está um homem e uma história. Ao passar pela narração de O Mago, o leitor entrará em contato com um personagem concreto, bem contextualizado e bem demarcado. Paulo Coelho não fora nenhum mendigo, proletário ou andarilho, que passou a vender sonhos e se notabilizou do zero social à notoriedade mundial, a ponto de ser convidado de honra de pessoas como a rainha da Inglaterra. As origens de Paulo Coelho remetem primeiro a ascendências nobres, que ele viria a descobrir mais tarde. Mas também especificamente a uma classe média-alta em ascensão na capital fluminense da década de 60. Esse lastro familiar, com casa bem situada, pai com profissão notória, passagens por colégios renomados (embora com desempenho questionável) permitiu que o escritor concedesse a si vários luxos como "vadiar" pelo mundo artístico teatral por anos seguidos, enfiar o nariz e as veias no alucinante mundo das drogas, surtasse em suas crises existenciais quebrando todos os pertences da casa paterna, fosse internado em clínica psiquiátrica a título bem oneroso, espairecesse nos EUA e na Inglaterra (sempre salvaguardado por ajuda financeira dos pais) e em suma contasse com o que Bourdieu chama de "capital social". Dessa maneira, seus surtos e desbundes foram progressivamente resultando em mais aquisições sociais até situá-lo de forma quase irreversível no seguro círculo dos possuidores. Tragam à luz novamente o escritor em uma residência proletária e seus intentos literários não resistirão sequer até a sua adolescência.

O mérito do escritor de maior sucesso mundial, está fragmentado em uma conjunção de fatores favoráveis dos quais o maior sustentáculo está na mediocridade filosófica dos leitores. Só pra citar um exemplo: se alguém leu os quatro volumes de As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, saberá que apenas estes tomos valem pelos os não-sei-quantos opúsculos de Paulo Coelho. Mas a tiragem de Bradley e a quantidade de idiomas traduzidos não chega às botas do nosso mago brazuca. E, quem sabe, a gana dela por ser a maior escritora do mundo de todos os tempos não exista, ora bolas. Porque segundo Morais, Paulo Coelho já na mais tenra idade manifestava em seus diários pueris o desejo de ser um grande escritor. Sua persistência de décadas na participação de concursos literários demonstra que a construção do escritor de maior renome mundial não nasceu de um insight no balcão de um bar, do dia para a noite. O homem queria por que queria estar onde está. Hoje, o feito e a suas posições (social e mercadológica) homologam por si o que ele quiser escrever. Posso elucubrar que se de repente ele resolvesse negar a existência do deus que ele prega, mais da metade do mundo, independente da religião de origem se tornaria atéia. E se depois tornasse a pregar a crença, reverteria o quadro tão logo seus escritos chegassem às bancas.

Outro dia eu me arrisquei ao apedrejamento ao comentar sobre o escritor com uma colega da faculdade. Após tatear o assunto com cuidado soube que ela tem grande admiração pela "simplicidade" de Paulo Coelho, que vive de uma maneira muito despojada e blá, blá, blá... Assim como Morais eu entendo que para um multimilionário - por seu mérito e custas - ele e a sua esposa vivem até que de maneira bastante espartana. Mas isso é bem fácil quando se tem escolhas. Eu também viveria de modo bem simples, se tivesse acesso a um casarão-castelinho em uma cidade pacata ao sul da França, obviamente para não ser importunado (por ora meu insignificante ser tem que se contentar em pagar as prestações da CEF do meu - mais modesto ainda - sobradinho a leste de Sampa). A opinião da minha colega foi só uma mostra do poder de persuasão do personagem criado pelo escritor-mago, que mistura catecismo católico com a suposta pertença a ordens religiosas secretas, peregrinações por caminhos considerados místicos e um caldeirão de peanuts espirituais para pessoas crédulas dos mais diversificados matizes. Embora o que ele faça com a invejável e merecida grana que possui não seja da conta de ninguém, cabe-me ressaltar que Paulo Coelho mantém uma porção de obras sociais próprias e contribui com inúmeros institutos, coisa que nem todo milionário faz. Sem falar em sua incansável militância ao, por exemplo, ter sido um importante porta-voz político pela extinção dos manicômios e suas terapias tão agressivas quanto ineficazes, como o eletrochoque. Nada como ter sentido na pele durante suas três internações para compreender, não é mesmo?

Enfim Paulo funde em um só personagem um controverso mago e o coelho que sai da própria cartola para os aplausos do mercado editorial mundial. Concluo este post com duas sugestões: 1) Leia O Mago (aliás leia qualquer outro livro do Fernando Morais); e 2) Se você gosta do Paulo Coelho e das suas prosopopéias espiritualistas, continue comprando e lendo. Afinal de contas gera empregos e, tirando o fato de ser simplório e raso, se lhe faz bem que mal tem?

sábado, 30 de maio de 2009

Essa Susan já deu no saco

Modinhas, ô trem que enche o saco. No caso da caloura Susan Boyle a máxima de Nelson Rodrigues "toda unanimidade é burra" aplica-se com louvor. Canso de repetir em círculos virtuais e presenciais que reconheço que a mulher canta bem. Não há como negar. Mas daí a considera-la fenômeno jamais visto na história da humanidade, convenhamos: menos, né?

Os neo-discípulos da seita susanboyleana justificam suas bocas abertas recorrendo ao fato de ela ter sido tratada com desdém pelos jurados, tapando a boca deles após começar a cantar. Está aí outra coisa piegas que só. Via de regra os aventureiros que se embrenham no show business pela porta dos fundos dos concursos e programas de calouros, aguentam sacanagem de todo tipo e escracho dos apresentadores, diante de milhões de telespectadores. Aqui no Brasil, quem viveu para assistir à Buzina do Chacrinha sabe do que estou falando. A você mais jovenzinho, recomendo procurar pelo Velho Guerreiro no Youtube garantindo previamente que é impagável. E dentre esses calouros, alguns dos quais bem-sucedidos, estão famosos de hoje em dia. Gente que suportou de pé a avacalhação do Chacrinha, do Sílvio Santos, do Faustão (em Perdidos na Noite), do Barros de Alencar e do Bolinha, só pra citar alguns.

No Orkut entrei só de sacanagem na mais populosa das dezenas de comunidades dedicadas a tiazona gorducha. Mal entrei e já mandei um tópico homônimo deste post. Vá lá e confira a enxurrada de pedradas que a molecadinha mandou. Ninguém me entendeu. Também, em um país minado pelo analfabetismo funcional e pelo "complexo de vira-latas" (diagnosticado também pelo sábio Nelson), não haveria de ser diferente.

O que eu reivindico apenas é o reconhecimento de que em nosso bom e velho país há gente tão talentosa quanto - senão mais que - essa gringaiada do Britain´s Got Talent. Inclusive em programas populachentos como os calouros do Raul Gil. Aí abaixo está o Rinaldo que não me deixa mentir. Calouro por calouro, fico com os nossos.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Gente que faz: Gildo, o eletricista

Como meus conhecidos já sabem eu sempre prestigio os trabalhadores esforçados deste Brasil varonil.

Desta vez foi o companheiro Gildo, o eletricista. Ele não ficou em casa se lamentando por causa da marolinha do Lula, nem da queda das bolsas americanas, nem pela baixa do dólar. Gildo muniu-se de um bloquinho verde, uma caneta esferográfica e na porta de cada residência escreveu esses folders simples e objetivos, dizendo a que veio.

Se você mora na Zona Leste de Sampa e precisa de serviços congêneres não tenha dúvida: chame o Gildo. Fone (11) 7481-9778.

domingo, 24 de maio de 2009

É assim que se faz?

Uma cliente reclama a você sobre os seus serviços, seu atendimento e sobre erros de procedimento em uma negociação. Depois de tratar mal a cliente você ainda o processa por calúnia, injúria ou difamação? Tenho certeza que se na empresa onde você trabalha - seja sua ou não - houver pessoas de senso mediano, dessas que possuem desconfiômetro ao menos, isso não ocorrerá. Mas é o que ocorre com certas empresas.

Acabo de saber da saga que se arrasta entre uma blogueira da melhor qualidade - a Srta. Red - e uma empresinha de mudanças. Até onde soube o nome da azienda é Anita, Annyta, Annita ou algo assim. Se for quem eu penso era uma que mantinha (ou mantém) um caminhão velho de dar dó estacionado em frente ao antigo Bingo Imperatriz, servindo de outdoor, de modo a ser visto pelos passantes na Av. 23 de maio. Um caminhão bem velho mesmo que ostentava o telefone pintado no baú. De longe parece esses mercedões 11xx da década de 70 ou 80. Aliás, NESSE SITE AQUI parece que os moradores e usuários da rua não gostam muito do caminhão estacionado.

Conheço a blogueira em questão e digo que tanto ela quanto o pai têm capital moral como poucos (vale dizer que este assessora autoridades governamentais de primeiro escalão). Logo eu assinaria de olhos fechados a reclamação dela. Aliás, nem é só dela. Um dos lugares cibernéticos onde encontra-se reclamações bem similares a respeito do empreendimento é AQUI. Tem outro AQUI. A propósito, no site das reclamações consta "Annita" ou "DS", caso seja a mesma empresa.

O presidente de uma renomada entidade patronal de transporte confidenciou-me que "a mudança é o pescoço do transporte". Não concordo nem discordo, mas o cara tem credencial para dizer isso, já que é um empresário com frota superior a duzentos veículos e presta serviços de alto valor agregado para multinacionais. Quem sou eu para contestar? Mas tenho certeza de que há boas empresas - e rentáveis - no ramo de mudanças. Eu mesmo já visitei algumas a trabalho e me surpreendi com o profissionalismo e qualidade.

Agora dita amiga disse que foi processada pela empresa autointitulada "multinacional" - através de justiça gratuita(?) - e que no processo pede-se uma indenização de trinta mil reais. Nada mal, caso a empresa esteja em dificuldades financeiras e se a ação for julgada procedente, hipótese da qual duvido, pois qualquer magistrado tem acesso à internet e isso basta. Presumo que a indenização poderia substituir por um tempinho a receita da empresa. Mas vai lá saber se essa "multinacional" resistiria a uma fiscalização fazendária, trabalhista, do Detran ou mesmo de processos de outros clientes descontes? Quem é que sabe? Trinta paus salvariam a lavoura?

Só sei de uma coisa: ainda que eu não pretenda mudar de casa tão cedo, pelos fatos ocorridos me parece boa idéia ignorar a existência dessa dita empresa, caso venha precisar de serviços congêneres. É só uma intuição...

domingo, 17 de maio de 2009

Onde é que está a graça?

Um casal de classe média alta emprega uma doméstica com comprometimento auditivo profundo, próximo de surdez. Os ignorantes não sabem nada sobre comunicação com surdos e, por isso, a empregada não entende o que os patrões falam. Estes vivem um drama entre manter a empregada surda e demiti-la ficando sem empregada, o que para essa classe é sinônimo de morte. A moça surda é ridicularizada e os trejeitos da personagem sugerem desde incapacidade até algum tipo de déficit cognitivo (que nada tem a ver com surdez).

Na lamentável imagem acima o patrão tenta pedir que ela prepare frango.

Eu não sou surdo e não tenho nenhum parente ou pessoa do convívio com graus de deficiência auditiva comprometedora. Mas como educador fico imaginando como é que os pais, mães ou o próprio deficiente auditivo se sentem vendo isso na emissora de maior audiência do país, dado o quadro insinuar que o D.A. seja incapaz, ineficiente e até profissionalmente descartável.

Pelo amor do que vocês acreditarem, mandem e-mails cartas e telegramas para tirarem esse quadro do ar e exigir desculpas em público da emissora. Se tiverem dúvida do absurdo do conteúdo, assistam a essa porcaria abaixo.



NOTA ZERO PARA O VERDADEIRO INCAPAZ QUE CRIOU ISSO.
NOTA -10 PARA OS PRODUTORES DESSA VERGONHA OFENSIVA.
NOTA -100 PARA A EMISSORA QUE POSSIBILITA ISSO.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

domingo, 10 de maio de 2009

Ratos em Brasília

Durante reportagem do Fantástico no Ministério da Saúde neste domingo alguns ratos passeavam tranquilamente atrás da repórter Deliz Ortiz. ”Eu não imaginei que ratos passaram atrás de mim. Acho que se eu tivesse noção do que estava acontecendo atrás, eu não sei”, disse a repórter.

Rodrigo Rodrigues, da Vigilância Ambiental do DF citando o ocorrido afirmou que há inúmeras tocas de ratos atrás dos holofotes do Ministério da Saúde. Ocorre que as pessoas trabalham na Esplanada dos Ministérios e passam por ela. Sem muitas opções de onde comer, acabam comprando frutas, doces e queijo nas barraquinhas de rua dos arredores. O resultado é que há sempre um banquete para os ratos, com as sobras e o que cai no chão.

O cientista e veterinário Ângelo Boggio, que combate roedores há 50 anos, diz que uma fêmea pode ter 32 filhotes por ano. Segundo ele: “a população de roedores é maior do que a população humana. Quanto maior, não se sabe. Qualquer número que por acaso eu venha lhe dar seria chute”, aponta.

De qualquer modo é certo que diversas espécies de ratos proliferam em Brasília e não é só na Esplanada. A infestação inclui o Senado, o Congresso e mesmo o Palácio da Alvorada. Entre as espécies há os ratos eleitos, os ratos nomeados, os ratos concursados e até ratos togados. Disfarçados no meio de funcionários honestos eles se reproduzem em grandes quantidades. Diferente da ratazana citada pelo Dr. Ângelo, os ratos de terno e gravata podem reproduzir-se, apadrinhar e abrigar quantidades muito maiores de novos ratos todos os anos.

Um problema que dificilmente os veterinários conseguirão debelar. Quem sabe se com empenho dos eleitores, movimentos sociais e organizações autônomas essa peste não possa ser minimizada ou até extinta?

Cada um no seu quadrado

As estratégias de diversificação no comércio nem sempre dão em boa coisa. As grandes redes dos atuais hipermercados são um bom exemplo. Do bom e velho local para comprar comida e produtos de limpeza, os supermercados foram crescendo de modo voraz, em tamanho e em diversificação de itens, de tal modo que hoje em dia é possível comprar roupas, eletroeletrônicos, brinquedos, pneus e acessórios, utilidades domésticas, papelaria, computadores... Ah! E até alimentos e produtos de limpeza! Que coisa...

A ânsia pela monopolização do cliente faz com que alguns estrategistas de marketing entupam as gôndolas com tantas categorias de produtos a ponto de esquecerem o básico do comércio, que o seu Manoel da padaria sabe tão bem: atendimento. O conceito de auto-serviço, levado ao extremo, corrói o que seria de se esperar que é um ser humano prestativo para atender nos casos necessários. Lembre você mesmo: quantas vezes foi à seção de eletrodomésticos ou eletroeletrônicos, procurou um funcionário e não encontrou nenhum? Ou então, quando o encontrou, deparou-se com um jovem mal preparado, oriundo de alguma empresa terceirizada, que não sabia absolutamente nada sobre o que estava sendo vendido no setor? É lamentável.

Ontem tive um excelente exemplo, pela infelicidade do mesmo. Saindo rapidamente da faculdade ao meio-dia e tendo que ir a uma cidade do interior, notei que o ponteiro do combustível pedia um pitstop rápido. Na Marginal Tietê, à altura da Ponte do Limão há um Carrefour que entrou no ramo de combustível não faz muito tempo. Como a marca do produto é renomada - embora estrangeira (Shell) - o preço é competitivo e o serviço é drive-thru entrei, na vã expectativa de encontrar um similar de box de F1, onde me abasteceriam rapidinho e de onde eu me mandaria em três ou quatro minutos, certo? Errado.

Na bomba que escolhi havia quatro carros, um já abastecendo. Tive a sensação de demora e comecei a checar o que havia. Foram mais de cinco minutos entre o primeiro da fila abastecer e passar no guichê de pagamento logo à frente. Idem com o segundo. Eu teria zarpado, mas o local não fornece rota de escape e a fila atrás de mim já se aglomerava. Pude ouvir um frentista repetir a outro "o sistema dos cartão caiu de novo". Separei o dinheiro do meu abastecimento pensando em me adiantar, mas foi em vão. Ninguém apareceu para propor uma rota alternativa pra quem não ia pagar com cartão. Engessadinhos que só.

Os atendentes engomados do posto do Carrefour Limão em nada se assemelham aos bons e velhos frentistas de macacão dos postos de rua. Lentos, atrapalhados e querendo transmitir aquela simpatia artificial de balconista do McDonalds os frentistas-cover eram verdadeiros estranhos no ninho. A empreitada foi um fiasco e só atrasou minha viagem. No fim da palhaçada demorei quase meia hora para resolver minha simples necessidade de encher o tanque e me mandar.

Fica aqui o conselho de marketing do tio: se você é supermercadista, não tente ser posto de combustível e vice-versa. Espero que a Petrobras não resolva vender mantimentos também. Ado a-ado; cada um no seu quadrado.

Momento apaixonado

A balzaquinha ucraniana Milica Nataša Jovović, mais conhecida como Milla Jovovich é uma das poucas mulheres sobre a face da Terra, cuja beleza há de resistir a um acordar despenteada e sem reforçadores de beleza. Seus atributos mostram com clareza que ela dispensa qualquer camuflador de imperfeições estéticas, popularmente conhecidos como "reboque". Essa é a opinião oficial do renomado TXBI - Tio Xavier Beauty Institute -.

As mulheres russas em geral têm algo de especial que só a má distribuição geográfica de beleza explica. Engraçado que, mesmo em se tratando de terras supostamente atéias, os deuses de todos os credos nunca deixam de depositar suas bênçãos estéticas sobre a mulherada de lá. Fala sério...

Não importa se ela esteja como a adolescente Lily em Expresso para Kathmandu ou a ninfeta também Lilli em De volta à lagoa azul, a deliciosinha Leeloo de O quinto elemento (vide foto) ou a Alice não do País das Maravilhas, mas da inóspita Raccoon City de Resident Evil. A mulher é um desbunde e consegue ficar sensual até com barrigão de grávida, proeza de poucas como a Catherine Zeta-Jones (se duvida, assista à Traffic).

Neste domingo, dia das mães, fica registrada aqui a minha homenagem a todas as mães zelosas e dedicadas, claro que em especial à darling e à avó Xavier (e o medo né?). Mas dou destaque para Milla Jovovich, essa deusa ucraniana. De propósito pus uma foto bem despojada já que ela basta por si. Ai lóviu Milla [suspiro].

terça-feira, 5 de maio de 2009

Não vem mais?

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, cancelou nesta segunda-feira (4) a viagem que faria ao Brasil nesta quarta-feira (6), segundo o Itamaraty. Esta seria a primeira vez que ele visitaria o Brasil. Sabe-se lá a razão, sua assessoria ligou para os capatazes do Lula e pediram que aguardemos um novo agendamento.

Puxa vida, que chato! Um cara tão simpático, tão democrático, tão acolhedor. Agora esse monte de bichas, judeus, evangélicos e chatos de toda ordem se unem e ficam protestando contra a vinda do pobre homem. Acabaram desanimando a comitiva dele. Assim não dá. No dia seguinte esses mesmos grupelhos de chatos voltam a brigar entre si: os evangélicos falando que as bibas vão para o inferno, os judeus falando que Jesus não era o cara. Eita gentalha!

Melhor assim. Dá mais tempo pro Lula tentar treinar a pronúncia do sobrenome dele.

Desculpa seu Mahmoud. Depois o senhor vem.

Brasil emprestará sonda para turcos

A Petrobras anunciou hoje que assinou na Turquia um acordo pelo qual irá emprestar uma sonda de perfuração de poços para a estatal Turkish Petroleum Corporation (TPAO). Eu disse EMPRESTAR. Que acordo mais mané esse da Petrobras, hein? Digrátis...

Esses turcos são mãos-de-vaca mesmo. Nem pra pagar um aluguelzinho pelo equipamento. Depois não querem que a gente fale.

domingo, 3 de maio de 2009

Roteiro gastronômico do submundo 2009-1

Morar na periferia da metrópole e ficar com preguiça de ir pro fogão é um dilema. Como não sou afeito à tradição "fila-bóia-na-mãe" do proletariado, quando tento me dispensar de cozinhar no domingo - já que a darling cuida de outros afazeres - a tortura começa. As opções são duas básicas: rodar no mínimo quinze quilômetros até um lugar civilizado ou encarar arremedos de botequim que se auto-intitulam restaurantes.

Só que outro dia voltando da casa de uma amiga passei pela Av. São Miguel e avistei uma fachada grande ostentando o nome Chico Restaurante. Arisco com os estabelecimentos destas bandas eu apenas parei para observar. Sem referências ou indicações de clientes - essenciais nesse ramo - limitei-me a reparar que os carros estacionados à porta era beeeeem melhores que o meu corsinha velho. Toyotas, Hyundais e até um Chrysler bem novinho reluziam na rampa espaçosa. Considerei a possibilidade de que seja bom e esteja fora do mercado de "prato feito a cinco reais".

Fomos hoje. Acordamos ao meio-dia e decretei que sairíamos logo pra almoçar. Caso fizéssemos o breakfast encararíamos lugares lotados e retornaríamos atrasados para assistir à final do paulistão (Timão... Eô). Votos vencidos, a darling e o enteado embarcaram no meu possante e fomos encarar o Chico. Sem trocadilhos, por favor.

À porta haviam outros dos vistosos carros que custam mais do que o meu barraco. O gentil funcionário ao olhar meu humilde transporte sugeriu que eu parasse no estacionamento deles ao lado. Eu faria o mesmo se fosse o dono, afinal marketing é fundamental. Mas ao entrar já foi estranho não ser recepcionado por ninguém. Fomos andando devagar, tentando localizar uma mesa e só depois de acomodados é que apareceu uma moça trazendo cardápios. Sem maitre, sem recepcionista, tsc...

Trouxeram o que chamaram de couvert: três mini-pães franceses, um potinho com vinagrete e três manteigas em miniatura. Pobrezinho é apelido. Já o cardápio era satisfatório na variedade e economicamente acessível. Pedimos um filé à parmegiana. Só que acredite ou não o dito não acompanha fritas. Tive que pedi-las à parte. Embora o bife tenha me parecido de bom mignon, o molho estava ácido com gosto de enlatado. O arroz era quebradiço e as fritas bem que podiam ser daquelas de pacote congelado. Ao menos seriam seletas e uniformes. A aparência das que vieram era bem feia.

O que é digno de nota sobre muitos lugares que servem parmegiana é que os donos parecem não desconfiar de onde poderia vir o nome da iguaria. Dessa forma no Chico eu também tive que pedir pelo queijo parmesão. Vamos ver se os donos de restaurantes matam a charada: Parma... Parmesão... Parmegiana. Sacaram? Não, né? Não tem importância. Fora as mancadas acima, sobretudo o molho que merecia mais capricho, a bóia era comível.

Aleluia! Lá no Chico não havia guardanapos de papel. Somente grandes guardanapos brancos de pano para colocar no colo e fazer a limpeza trivial. Mas o garçom me trouxe um copo com um OGNI (objeto grudado não identificado). Reclamei educadamente e me trouxeram outro: MOLHADO. Complicado esse serviço de copa. Na parede do salão havia a hedionda televisão de cem polegadas. Porca miséria, o que há com donos de restaurantes que não conseguem manter o ambiente apenas com uma música suave? Ao menos essa não estava com o volume no último, mas televisão em restaurante devia dar de dois a cinco anos de reclusão.

Por fim pedi a conta e trouxeram-me a de outra mesa. Daria quase no mesmo, financeiramente falando. Mas não era a minha e um pouco de atenção pouparia o retrabalho. Junto com a troca pedi a máquina portátil de débito eletrônico da rede X. O garçom sem cerimônia disse pra eu pagar no caixa porque o aparelho estava recarregando a bateria. Podia ao menos ter pedido desculpas.

CONCLUSÃO: Preço acessível não justifica os deleixos que relatei acima. Um pouco mais de zelo não eleva custos. Mas no Chico dá para três adultos almoçarem modestamente por menos de oitenta reais ao todo. Pra não ir pro fogão no domingo, talvez eu retorne. Claro até eu achar um concorrente demonstre ser mais zeloso. Cotação no Guia Xavier: 6,5 pontos.

O Chico Restaurante fica na Av. São Miguel, 4779 - Ponte Rasa - Sampa.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Você se garante?

Você se garante? Essa pergunta pode parecer muito vaga, mas remete aos diversos aspectos da segurança em si que cada um deveria conquistar. Definir a si próprio é uma tarefa um tanto difícil, admitamos. Nos situamos naquele limbo entre a imagem que temos de nós mesmos, a imagem que os outros têm de nós e algo que pode ser nossa essência. Passamos por isso a todo momento ou quem sabe devíamos nos questionar em instantes específicos da vida. Mas preocupar-se excessivamente com apenas nossa imagem externa pode - além de resultar em neuroses - contribuir para a ruína dessa mesma imagem que queremos construir. Garantir-se não é para qualquer um. É enxergar-se com realismo sem abrir mão do sonho. É construir uma auto-imagem compatível com nosso lugar-mundo e as competências que podemos conquistar de maneira sustentável.

Há coisa de um ano e tanto, conheci uma pessoa. Uma jovem muito bonita e digo sem pudor que é muito atraente. Algumas semanas depois, não sem quem foi que encontrou o perfil de quem no Orkut e acabamos nos adicionando. Cumprindo o propósito irresistível dos sites de relacionamento, passei a bisbilhotar sorrateiramente as fotos da bonita moça, querendo saber um pouco mais a respeito da enigmática e silenciosa figura. No seu álbum virtual notei que todas os as manhãs sempre havia novas fotos dela em baladas, sorridente e com copos à mão. Fiquei intrigado, confesso. Para quem estuda à noite, presume-se que trabalha. Divertir-se e beber em danceterias até altas horas todas as noites me pareceu mais compatível com os entrevistados do Amaury Jr., da classe social A++. Fora que em Sampa uma saidinha de nada nunca custa menos de cento e cinqüenta reais, isso em lugares dos mais modestos. Faça as contas e descubra o despêndio mensal. Só se ela for "filha de papai", pensei.

Dia desses a jovenzinha me procurou nos corredores. Me supondo alguém bem relacionado profissionalmente, ela pediu que eu arranjasse um emprego pra ela. Sou reticente com essa coisa de indicação profissional. Mantenho contato direto com dezenas de empresários. Mas só indico pessoas de quem tenho bem claras as competências e requisitos. Perguntei o que ela fazia e recebi como resposta o lamentável "qualquer coisa". Ora leitores, quem faz qualquer coisa, ganha qualquer salário e tem que trabalhar em qualquer lugar. Qualificação e especialização são condição sine qua non para um posto profissional recompensador. Emprego há somente no meio político, em cargos indicados para não fazer nada. Para profissionais de verdade há postos de trabalho. Perguntei o que ela fazia atualmente e descobri tratar-se de uma balconista de loja, com ganhos que mal tangiam seiscentos reais mensais.

Se você teve saco de ler até aqui deve estar se perguntando: uma suburbana, que estuda em faculdade popular, tem um empreguinho de nível "D" vai à baladas todas as noites... como? Há de ter um namorado "bom partido" com as burras bem cheias. Não, meu amigo, minha amiga. A moçoila, apesar de ser muito bonita mesmo, não tem namorado fixo. Ao menos não tinha até há poucos dias, quando bisbilhotei-a um pouco mais. Trata-se de uma "ficante errante". Segundo uma colega comum, que mora na mesma rua do mesmo bairro pobre, a moça sonha com uma vida melhor como é justo a qualquer um. Mas a estratégia de sustentação do seu sonho inclui não se relacionar com ninguém do pedaço humilde onde reside e um esforço desmedido para misturar-se a tribos de poder aquisitivo mais relevante. E sem grana para bancar esse capital social, o preço que ela paga é dar canja para rapazes abastados que não resistem aos seus belos traços e contornos, ficando com um aqui, outro acolá, uma cama aqui e outra ali, a cada balada ou fim-de-semana a passeio. A rotatividade é sem fim, já que relacionamento estável no meio baladeiro não é uma patente. Sua dedicação diária na postagem de fotos em que aparece sempre sorrindo, mais parece uma ação de marketing planejado a vender a idéia de como é feliz.

Com seu desempenho acadêmico próximo de medíocre ela deve continuar sonhando com um príncipe encantado cavalgando em um carro importado, para tira-la do seu lugar social de proletária-suburbana e leva-la em definitivo para um castelo encantado, quiçá um bom apartamento em bairro melhor. Não mais por uma noite. Deve ser muito difícil viver uma dicotomia tão grande entre fantasia e realidade. Acima de tudo ela parece ser uma boa pessoa e por isso desejo que ela se divirta bastante, dada a efemeridade que a vida representa. Mas sinto um bocado de pena a imaginar o vazio que sua pessoa encontra, toda vez que não consegue um patrocinador para ir para a balada. Sem os entorpecentes das luzes piscantes, das músicas dançantes e dos drinks coloridos que pagam para ela, a moça pode ver-se em um vazio desagradável. Tomara mesmo que o príncipe apareça - e logo - porque se demorar muito seu salário de balconista não bancará os antidepressivos.