domingo, 17 de janeiro de 2010

Os carrascos do Haiti

Dois Haitis: a praia paradisíaca para turistas e ricos versus a população miserável.

As sucessivas tragédias que abatem o Haiti não são nem de longe monopólio da Natureza. Talvez esta última não se compare em número de mortos com todas as outras. Habitada por índios Caraíbas e Tauínos há quase dez mil anos, o Haiti foi aviltado no século XVI com a invasão espanhola. Em poucas décadas a população original foi dizimada. No ciclo seguinte, no qual a economia mundial era regida por monoculturas coloniais exportadoras e comércio de escravos africanos - não necessariamente nessa ordem -, o território seria rifado aos franceses, para os quais acabou sendo a mais próspera e rentável fonte exploratória.

Mas a passividade não é uma característica da região. O Haiti seria adiante palco de sangrentas revoltas, nas quais os escravos afro-exportados e franceses se degladiariam e alternar-se-iam por várias vezes no poder. Até que, em meados do século XIX, o país seria dividido econômica, política e quase solidariamente entre Espanha e França. Terra dizimada, repovoada artificialmente, é no início do século XX que a Primeira Guerra Mundial vai propiciar à potência emergente dos EUA um rearranjo econômico e territorial, segundo o qual ela se torna "dona" da região. É melhor dar os nomes corretos às coisas e invasão é mais propício, seja por Colombo, seja pelos EUA.

Ao contrário do que se alardeou, os novos interventores do Haiti não foram apaziguadores. Não pode haver paz em Estados sem soberania, atrasados e com divisões de classe tão pronunciadas. Por isso a região nunca estabilizou-se politicamente, de modo que contínuas revoltas e guerras étnicas fariam do Haiti no século XX um cenário de incessantes quedas e ascensões de governantes. Até que em 1957 ocorreu a que talvez tenha sido a mais macabra e assustadora permanência no governo, com a ditadura dos Duvalier. Eleito à presidência, o médico François Duvalier, conhecido como Papa-Doc, daria início à mais medonha fase do Haiti. Os órgãos e polícias do Estado seriam substituídos e ocupados por Ton-tons Macoute - algo traduzível como Bichos-Papões -, que passaram a policiar as ruas com armas de fogo e facões a mutilar e assassinar quem demonstrasse o menor indício de antipatia pela família Duvalier e seus desmandos. Além de roubar o erário público e expropriar as pequenas propriedades agrícolas, Papa Doc instituiu a proibição de qualquer religião que não fosse o vodu, fechou órgãos de imprensa, escolas e sua família assumiu o controle de atividades econômicas de exportação. Governo este bem apoiado e referendado pelos EUA, vale, dizer. Notícias limitadas que chegaram ao exterior davam conta de que os rios
que cortam o país tingiram-se de vermelho e viraram depósitos de milhares de cadáveres mutilados pelos Ton-ton Macoutes, como ação patrocinada pelo governo. Com a morte de Papa Doc, seu filho "Baby Doc" (Jean Claude) assumiria, validado pela constituição do país escrita por seu pai que, entre outras coisas, dava poder vitalício à família.

No final da década de 80 não suportando as revoltas populares e principalmente com pouco para explorar, já que a economia do país estava em farrapos, a família Duvalier se manda para a França. Termino este triste currículo citando a malfadada democratização do país, com a eleição presidencial livre do padre Jean-Bertrand Aristide, que não conseguiu resistir a outro golpe protagonizado pelo militar Raúl Cedras. Agora, depois de mais duas décadas de instabilidades que se sucederam, forças de paz da ONU estão lá ocupando o país. Tenho ressalvas com qualquer coisa que a ONU chame de paz. O Haiti encontra-se economicamente destroçado. Mal e miseravelmente consegue ainda exportar alguns produtos agrícolas primários. É um país de famintos: sua renda percapita é inferior à de favelas cariocas. Não tem saúde: a expectativa de vida mal chega aos sessenta anos. Não tem organizações políticas civis sólidas e seu índice de analfabetos já ruma aos 60%.

Empresários do mundo inteiro esfregam as mãos e já houve quem proclamasse em jornais que o Haiti é "um celeiro de oportunidade$". E onde está o ex-ditador agora? Ora, o mundo capitalista recebe bem a qualquer sanguinário, desde que traga consigo muita grana, não é mesmo? Baby Doc e a ex-esposa ainda vivem confortavelmente sob as asas protetoras do governo francês e - pasmem! - pleiteiam reaver a fortuna que roubaram do povo e encontra-se bloqueada nos bancos suíços. Não duvidem que consigam, meus caros leitores. E agora, vamos botar a culpa na Natureza pelos males que assolam o Haiti?

Agora, aquela pergunta de sempre, que não quer calar: o que é que as tropas brasileiras estão lá, senão violando a soberania e dando sustentáculo para a ONU, até que a atual potência hegemônica volte a se estabilizar lá? Se quiserem ler uma opinião bem embasada a respeito, leiam o artigo escrito lá no início de 2007 pela jornalista Elaine Tavares AQUI. A melhor paz que poder-se-ia dar agora ao Haiti seria terminar de salvar os desabrigados e dar ajuda econômica, sem cobrança posterior. Assim os haitianos poderão voltar a sonhar e lutar por um lugar digno e pelos seus direitos aviltados pelas multinacionais estadunidenses. Termino por aqui com um recadinho para nosso caro presidente:

Sr. Luís Inácio, tire nossos jovens fardados de lá! Basta dessa colaboração vergonhosa!

domingo, 10 de janeiro de 2010

A pior miséria é orgulhar-se desta

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Confortáveis e...?

De verdade, pessoal. Como é que alguém tem coragem de sair na rua calçando isso? Alguns ex-amigos que usam (rompi com todos) vinham me dizer que era confortável. Ok, pantufas também o são. Então posso sair às ruas calçando-as? Façam-me um favor!

Ocride, fala pra mãe...

Um amigo meu frequentou várias festas com "famosos" por conta de seu trabalho. Durante essa trajetória ele criou uma proposta de classificação a respeito desses. Segundo sua teoria, os famosos poderiam ser divididos em três grupos: primeiro, aqueles que são famosos pela posição sócio-econômica. Gente endinheirada ou de sobrenome nobre, que está nos pódios do capitalismo, ou ao menos bem perto deles. Uma lista bem seleta. O segundo grupo seria formado por aqueles que ficaram famosos devido a prodígios ou talentos admiráveis: escritores competentes, bons cantores, intérpretes cênicos, realizadores ou líderes de feitos sociais e políticos. Enfim, esta lista teria possibilidades mais amplas, posto que não exige capital inicial e os protagonistas poderiam se valer de uma limitada mobilidade social. O último grupo seria o mais desprezível na opinião de meu amigo. Na rubrica que ele criou para classificar os seres desta lista, a justificativa é "são famosos porque são famosos". Traduzindo: não cantam, não encenam dramaturgias, não sabem pintar, não lideram nada, não têm atributos mnemônicos ou cognitivos vistosos (geralmente são o oposto!), não dançam e, enfim, é difícil encontrar nos seres dessa casta algo que lhes justifique o assédio da imprensa e, no limite, até o seu consumo de recursos naturais.

Em tempos de bundalização televisiva, muitas moçoilas detentoras de quadris que eu chamaria de grotescos são incluídas e ovacionadas nesse grupo de famosos porque são famosos. Do mesmo modo, rapazotes altos e anabolizados idem. Há também os pseudo-cantores, que cedem suas pseudo-vozes para pseudo-canções, resumíveis em podridão com acordes e batidas mal ajambrados. Em todos os casos, é preferencial que não abram as suas bocas e não profiram nada. Mas são exatamente estes os preferidos do grande público, que disponibiliza tempo e energia elétrica para assistir aos reality shows proliferantes nas emissoras abertas e fechadas.

Essa enorme população telespectadora é composta de seres com atrofia intelectual progressiva e que fazem questão de aprofundar as sua necrose neural a assistir, com bocas aberta e olhos vidrados, às sequências infindáveis de perda de tempo e vazio de conteúdo. E não me venham com teorias de conspiração que colocam isso tudo sob um manto de intencionalidade política, seja lá de quem for! Isso é fantasioso. Os canais de TV, principalmente os abertos, são sustentados por fileiras de vendedores de quinquilharias, que inserem sua mercadologia nas brechas entre as "informações" inúteis dos programas equivalentes. Até aí concordo que, quanto menos crítico, mais potencialmente o telespectador torna-se comprador das inutilidades domésticas e dos produtos milagrosos, capazes de deixar qualquer barango barrigudo com o físico dos velhos tempos do Schwarznegger ou transformar medusas em Claudias Schiffer ou Naomis Campbell. Mas isso é simbiose pragmática, nunca conspiração. Conspiração presumiria inteligências nos bastidores televisivos e está duro de crer que haja alguma atualmente.

Eu não me arriscaria a listar aqui sequer meio nome desses "famosos porque são famosos", nem sob tortura. Não tenho advogados que me safariam dos previsíveis processo por calúnia, injúria ou difamação. Mas você mesmo pode passar pelos canais da TV e verificar que eles participam de fazendas-disto, bigs-aquilo-outro, apresentam programas de auditório e entrevistas. Até mesmo ancoram a pretensos programas de notícia. Estão aí, enchendo as burras de ouro, frequentando festas badaladas, hospedando-se em castelos e ilhas e figurando em capas de revistas tão inúteis, fúteis e fugazes quanto eles mesmos. Mas se o povão gosta, fazer o quê? Me preocupa que essa parcela do povo tenha licença para uma coisa muito mais perigosa e mortífera do que portar uma arma de fogo. Me refiro agora ao título de eleitor. Não é de surpreender que, de quatro em quatro anos, essa turba ignóbia vote em sujeitos que escondem dinheiro em peças íntimas, compram merenda escolar a preço de caviar, aumentam vertiginosa e desavergonhadamente seus próprios salários, mantém fundações fantasmas com o erário público e por aí vai.

Quem sabe, um dia, se um bom trabalho educacional escolar a partir da primeira infância - mas com muita persistência mesmo! - comece a formar uma população mais preparada, capaz de rejeitar o lixo, a começar pelos famosos porque são famosos e terminando por defenestrar a camarilha de bastardos que constroem seus habitats nas instituições políticas? Em vinte ou trinta anos daríamos cabo na escória social e política. Quem sabe? Não custa sonhar. Tentar custa um bocado, mas pode valer à pena.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Músicas para alegrar o reveillon

Já que o saldo da minha conta-corrente não ajuda, que tal lindas canções para alegrar o reveillon? Se você tem mais de 30 ainda poderá tentar reproduzir aqueles movimentos que caracterizaram a dança new-wave dos anos 80.

O figurino ideal mais em conta: é composto por calça de popeline (ainda existe isso?) de cor berrante, de preferência verde-limão ou abóbora. A camiseta, preferencialmente sem manga, deve ser da cor oposta à da calça. Tênis "Katina-surf" podendo ser substituído por All Star sem cadarço. Se encontrar um estampado de xadrês, excelente. Mas na verdade vale tudo: peças em vinil emborrachado, meias-soquete listradas, boina, echarpe, tenis "Bamba" grafitado, meias-arrastão de cor, gravata com camiseta, óculos de proteção industrial amarelo, etc.. Quanto mais distoantes as cores, mais new-wave. É só procurar fotos da Cindy Lauper que verá como é.

Dançar é muito simples: estique os braços e rode-os na posição vertical, como se estivesse nadando. De preferência - se você tiver coordenação melhor do que a do Stephen Hawking - tente com um braço em sentido horário e o outro anti-horário. Ao mesmo tempo balance a cabeça como aqueles cachorrinhos de pelúcia com mola no pescoço, que os taxistas mais ousados põem no painel do carro. Com os pés simule chutes alternados, esquerdo, direito, esquerdo... isso... Já está bom assim.

Agora faça tudo junto e dê play abaixo.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

69 na virada de ano-novo!

Está decidido: o tio vai passar para 2010 com 69. Não, meu caro leitor, minha cara leitora. Não é nada do que sua mente poluída pensou. Veja a consulta que acabei de fazer à minha conta-corrente e entenderá. Já considero vender meu gasto corpinho para tentar melhorar a situação. Nesse caso o número poderá tomar outra conotação. É a vida.

Como diz o Zé Simão "Nois sofre, mais nois goza".

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Quem é sua razão? Do quê?

Com frequência lemos e ouvimos pessoas dizendo algo como "fulano(a) é minha razão de viver". À parte a intencionalidade romântica de demonstrar amor desmedido, é curioso que alguém ou algo cuja existência lhe esteja fora de seu domínio real, se lhe represente algo tão forte e tão profundo quanto a própria razão de viver. Para mim, honestamente, a expressão acima reflete algo bem estúpido, seja o objeto dessa paixão uma pessoa, um time, um partido político, uma banda pop, um animal de estimação ou até um nobre trabalho social. Não importa.

Isso me remete a uma questão que me foi muito bem colocada por uma amiga a quem admiro e me reporto com assiduidade. Psicóloga atuante, ela me reposicionou de modo terminológico razão, motivação e incentivo. Até então eu, imbuído do senso comum, usava inadvertida e indistintamente os termos, sobretudo para tratar de políticas empresariais e acadêmicas com o fim de conduzir pessoas à ação. Nada mais equivocado, aprendi.

Segundo minha intelectual amiga, razão, seria o pináculo último de uma pessoa para algo mais elevado, como o próprio viver. Não se trata da razão no sentido iluminista de racionalidade, ratio. Simplificando um bocado, razão seria uma elaboração complexa, composta de várias convicções, mais ou menos conscientes, que vão se construindo arraigando, se entrelaçando e interagindo dentro da mente humana. Poderíamos na linguagem religiosa traduzir a razão como alma, a anima que nos mantém em pé e vivos.

Já a motivação seria a resultante da razão, mas que nos coloca em movimento. Ela seria o que faz uma pessoa a embrenhar-se por determinado caminho, carreira ou empreitada. Por isso, só se encontra motivação dentro de si, no fundo da sua alma, no âmago da razão.

Por fim, fora do ser, é que pode existir o incentivo. É somente nele que conseguimos atuar quando tratamos com outras pessoas. Desta feita só conseguimos ter uma noção mais assertiva de com o quê podemos incentivar uma pessoa, quando passamos a conhecer e compreender suas motivações. Muitas pessoas fazem aparentemente as mesmas coisas: podem trabalhar ou estudar, na mesma empresa ou no mesmo curso. Podem estar unidas, dormindo na mesma cama, sob o mesmo teto, e no entanto ter motivações diferentes. Decorre disso que tentar incentivá-las da mesma maneira - no trabalho, por exemplo - pode ter efeitos distintos. Uma pode trabalhar movida por vaidade, outra movida por sede de poder, outra movida pelo dinheiro. À primeira poder-se-á ofertar reconhecimento público, à segunda possibilidades de crescimento hierárquico e à última recompensa financeira, caso se pretenda empenho dessas três.

O que mais me intriga em pessoas que projetam - aparentemente - suas motivações em outrem ou em algo, é que o fazem sem a menor noção de que seus nomeados sustentáculos podem desabar a qualquer tempo e, com eles, elas mesmas poderão amargar sensações depressivas. Quem faz isso, abdica de procurar suas razões dentro seu cofre interior, muito mais seguro. Ao não buscar o autoconhecimento, abre mão de encontrar bases mais consistentes para sua vida e, preferindo projetá-las, arrisca-se no pedregoso e instável terreno do apelo exterior, do mundo das aparências, como os semi-cegos da caverna de Platão. Prefere antes as sombras às imagens verdadeiras, tanto de si como das coisas e dos outros.

No fundo, essas pessoas que dizem "fulano(a) é minha razão de viver", adotam como alimento o feedback alheio ou a sensação ilusória que o objeto lhe proporciona, tal como um narcótico. Tomam o que o outro ou o objeto lhe propiciam e vinculam artificialmente seus motivos a isso. Nada mais arriscado e danoso. A mente humana é um celeiro de enganos. Aquilo do qual se aceita depender psiquicamente pode ser sua ruína, até mesmo pela possibilidade de ter origem em más formações conceituais ou distorções relacionais estabelecidas na infância. Aceitando tão somente esse retorno como alimento, nutre apenas suas próprias distorções e aprofunda aquilo que o conduzirá ao assassinato progressivo de sua personalidade verdadeira, de sua id-entidade.

Pelo amor de São Freud, recomendo a você que lê isto: jamais pense ou diga que alguém ou algo é a razão do seu viver. Ou, fazendo isso, se arrisque no beiral do penhasco onde há de precipitar seu ser. Os suicidas que o digam. Quem sabe, através de algum médium, caso isso seja possível.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Mensagem da equipe Transnotícias



Uma bonita mensagem narrada pelo amigo Irineu Toledo da equipe do Transnotícias. O programa vai ao ar de segundas às sextas-feiras, das 6 às 7 da manhã, pela Rede Transamérica FM.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Bad Christmas: dúvidas crueis

Estou com sérias dúvidas natalinas:

1) Digo logo para a caçula que o tal Noel não passa de um velho pedófilo e que acentua a divisão social em classes ao presentear os abastados e renegar os pobrezinhos?

2) Digo logo para a caçula que o tal Jesus não nasceu dia 25 de dezembro em uma manjedoura envolto em luz divina, nem foi adorado por reis magos, e que talvez nem tenha existido?

3) Digo logo para os familiares que estou com o saco cheio de amigo secreto, ainda mais quando dele participam seres que sequer passaram os momentos marcantes do ano conosco?

4) Digo logo para a darling que os *$#³£%!¬¢ do Banco do Brasil continuam com o meu saldo bloqueado e não tenho grana pra comprar nem uma sidra vagabunda feita no interior de SP?

Mais dúvidas no SPTV. Boa tarde. Fiquem agora com Globo Cor Especial.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Prestação de contas à sociedade

Informo a quem possa interessar, inclusive reitores e coordenadores de cursos superiores, o desempenho acadêmico do Tio Xavier no semestre. Não foi fácil, de modo algum. Estar no topo requer três "E": esforço, estudo e empenho.

Inúmeras vezes veio de brinde um quarto "E", de estresse. Mas nada que cochilos alternativos, acupuntura, fitoterapia - e outras coisas que não cabe escrever aqui - não me ajudem a superar.

Agradeço antes e sempre à darling e à cria caçula pela paciência com relação às minhas ausências e por me aturarem durante os dias em que eu estive com os cascos afiados, devido ao desgaste físico e mental. Agradeço também às colegas da equipe mais recente, Taty, Pat Souza, Pat Berloffa e Ketty, posto que sem elas tudo seria mais difícil e os resultados não seriam tão excelentes. Go to 2010. Come on, girls!

Mirem-se no exemplo do tio, estudantes.

* Nota do autor: Antes que alguém do ramo perceba, há duas notas não mencionadas devido às disciplinas transcenderem o semestre e, logo, não possuírem nota final.

Natal do Google

A galera do Google mandou para os usuários de diversos serviços o simpático cartão de boas festas abaixo.

Nada de hightec ao extremo, mas sim uma modesta animação em Flash. Só que vale pela iniciativa generosa da corporação (leia o texto). O usuário Tio Xavier aprova e continua Google-Fan. Espero inclusive que parte da doação venha para instituições brasileiras.

Clique na imagem para ir à animação original.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O bom combate

* Texto publicado originalmente em minha coluna no site do programa Transnotícias da Transamérica FM. Aqui.

O fim do semestre acadêmico me trouxe um alívio indescritível. O acúmulo de papeis profissionais, universitários e familiares, somados à minha idade - posto que não tenho mais vinte anos - me exigem, ano após ano, um desdobramento e uma versatilidade não tão fáceis de manter. Às vezes sucumbo mesmo, diante de alguma tarefa ludibriando-me com um julgamento tendencioso, segundo o qual alguma tarefa não seria relevante e poderia ser ignorada. Sei que são estratégias de sobrevivência comandadas pelo meu subconsciente, do contrário a estafa já teria me atirado em uma cama hospitalar.

Porém sempre fica em mim a sensação de insuficiência. Sinto que não li o quanto devia, que poderia ter caprichado mais em algum trabalho acadêmico, que poderia ter-me dedicado mais à família e aos amigos, que poderia ter sido mais eficaz no trabalho e obter melhores resultados, que poderia ter feito algum trabalho voluntário ou militado na política, que poderia ter cuidado mais de mim indo ao dentista ou chamando a acupunturista, que poderia ter feito algum curso suplementar, nadado, pescado, viajado...

Mas o deus Chronos é implacável e equânime: se recusa a privilegiar a quem quer que seja com a benesse de dias maiores, e muito menos com os tempos infinitos, com os quais sempre sonhei. Limitado por Ele, e segundo um certo perfeccionismo que me persegue, sinto-me sempre um ser incompleto e inacabado. Há sempre algo que eu possa fazer ou aperfeiçoar. Afinal, se algo merece ser feito é porque merece ser bem feito. Do contrário nem vale à pena fazê-lo.

Por todo esse turbilhão de pensamentos que me perseguem o tempo todo eu fico injuriado ao ver colegas na universidade ou no trabalho seguindo a vã filosofia do sambista que prega "deixe a vida me levar, vida leva eu". Nada contra o autor dos versos. É só uma "despreferência pessoal" tanto para com ele como com a obra. Mas tomo-os emprestados para demonstrar meu inconformismo com essas pessoas que desperdiçam a vida. São seres humanos que, abdicando de sua humanidade, trabalham pensando tão somente no mirrado salário do quinto dia útil; estudam apenas para "tirar nota" e "ganhar um diploma"; acordam por acordar já que o despertador lhes interrompe o sono. Vivem por viver, vivem por acaso. Ou pensam que vivem, posto que suas vidas carecem de intensidade, profundidade e direção.

Gostaria eu de poder comprar dessa gente os dias e horas desperdiçados. Eu realizaria mais e melhor tudo aquilo que tomo por missão. Mas Chronos também detém o monopólio do mercado de tempo. Não permite escambo ou venda, mas antes toma de volta para si cada minuto desperdiçado, para nunca mais devolvê-lo ao esbanjador.

Lutando para me livrar da auto-severidade vejo porém que o ano que se encerra foi generoso comigo em todos os aspectos. Prosperei, aprendi, fiz novos amigos, escrevi, li, briguei, fiz as pazes, assisti a filmes, subi em árvores, pesquei, vadiei, errei, acertei, em suma vivi. Vivi com apego sôfrego a cada minuto que caiu em minhas mãos como presente, desde o acordar com a querida trazendo a infalível caneca de café, até quando já era a madrugada do dia seguinte e esgotado consegui me esborrachar na cama para o que seriam minhas poucas horas de sono. Mas só tenho a comemorar.

Em suma sou grato à Vida. Agnóstico e mais apegado a São Tomé do que aos santos que creram sem ver, não professo nem isto nem aquilo. Mas antes procuro minuciosamente as pequenas verdades que cada momento encerra e revela. Tirar os infinitos véus de cada fração da vida é para mim uma fonte de satisfação infinita. Sem os apegos religiosos, restam-me os versos de Sérgio Britto, que sabiamente professam uma fé descuidada, porém confiante: "O acaso vai me proteger, enquanto eu andar distraído". Seja lá quem ou o quê for esse "acaso" que nos proteja sempre. Inclusive do risco de "viver por acaso".

Deixo aqui meu agradecimento a todos os ouvintes e leitores, mas sobretudo um convite: viva com intensidade e dedicação cada minuto de suas vidas. Como a criança que, absorta pela brincadeira, é capaz de se esquecer tudo à sua volta e mergulhar e emergir, indo e vindo, no universo do seu brinquedo. Um forte abraço!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Living without you

Olá senhor William... Lembra daquele notebook que comprei da Compaq em 2000? O fabricante tinha feito um acordo com o senhor e ele veio com seu sistema versão 98 embutido, com o respectivo preço idem? Pois é.

Lembra daquele potente servidor Pentium-IV, que comprei há oito anos e no qual instalei seu potente sistema versão 2000 Server? Pois é, eu paguei para o senhor na época algo em torno de mil e quinhentos dólares, só pelos seus CDs.

Lembra daquele outro notebook, da Acer (ops! é este onde estou editando), e que veio também com seu sistema embutido, com o respectivo preço? Pois é.

Lembra ainda daquele outro notebook Acer que comprei no início do ano passado, que agora anda na minha mochila, lembra? Ele também tinha vindo com seu sistema embutido (e os custos idem).

De toda a grana que lhe entreguei por anos a fio, espero que o senhor, além de aumentar seus bilhões na caderneta de poupança, tenha ajudado muitas ONGs, crianças famintas na África e hospitais.

Mas lamento informar ao senhor que TODOS OS MEUS COMPUTADORES agora estão rodando UBUNTU 9.10.

Depois eu lhe conto o resto. É bem capaz que o senhor queira mudar também.

Um forte abraço.

Tio Xavier.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Chatos culinários

Post escrito em parceria com a Red's.

Você conhece um? Claro que sim, todo mundo conhece. Talvez você seja um deles - os chatos culinários, pessoas sem noção cuja missão no mundo é azucrinar a paciência alheia querendo convencer as pessoas de que eles e o seus egos inflados são verdadeiros chefs milagrosos, capazes de fazer todos os seres humanos mudarem de opinião a respeito de comida, mesmo os mais resistentes.

É muito fácil identificar um chato culinário. Tal personalidade vem à tona quando uma pessoa ousa divulgar que não suporta determinado prato. Vamos pegar o exemplo da Red, que odeia todo e qualquer tipo de prato com peixe.

- Odeio peixe.

- Mas Red.. isso é porque você nunca comeu o peixe QUE EU PREPARO (há muita ênfase neste trecho da frase). Eu preparo uma tainha recheada de nozes que vc vai ADORAR!!! Você VAI TER QUE adorar... Não vai ter como não ficar fã.

- Tudo bem, mas não é o preparo. Eu não gosto é DO peixe em si.

- Um dia, Red, eu vou fazer um peixe lá em casa. Você vai ter que comer, nem que seja só um pouco. Vai experimentar. Depois de comer minha tainha com nozes eu DU-VI-DO que você não coma até se entupir.

- Você não entendeu. Eu tenho certeza que você prepara um peixe espetacular. Para quem gosta de peixe. Vou tentar explicar mais uma vez: EU NÃO GOSTO DE PEIXE.

O exemplo cita os peixes, mas o exemplo pode ser utilizado para qualquer prato.

É possível supor que o interlocutor compreendeu, tal a objetividade da frase e sua estrutura sucinta, certo? Errado. Durante seu desenvolvimento cognitivo, o chato culinário só conseguiu estabelecer sinapses o suficiente para processar operações de adição de ingredientes na panela. Ao contrário do que estudou Jean Piaget, depois dessa fase de operações concretas, o chato culinário não seguiu para a fase de operações abstratas. Por isso é que elucubrações complexas quanto "ele gosta disso", "ela não gosta daquilo" e muito menos "será que estou enchendo o saco?" não fazem parte do universo cerebral do chato culinário.

Na verdade ele está apenas processando a sua vaidade. Eis o raciocínio: a pessoa pode até não gostar de peixe, mas isso não tem nada a ver com o peixe DELE. O peixe DELE, assim como ele, é o máximo. Não dá pra aceitar, assim, de bate pronto, que um ser humano QUALQUER não o aprecie revirando os olhos e batendo palminha.

Até que um belo dia o chato convida Red para almoçar o tal peixe, a obriga a enfiar uma garfada goela abaixo e eis que ela emite o seu parecer:

- Não gostei.

E no segundo seguinte o chato culinário deve dizer:

- Ah, mas não é possível!

Sim, não é possível. A pessoa DEVE AMAR o peixe. Caso contrário, ele amarrará uma tromba, ficará ofendido para o resto da vida ou pensará - esta é a hipótese mais provável - que a pessoa é um caso perdido, um ser inferior que não sabe apreciar uma boa culinária.

Do alto da sua soberba o chato culinário tem semelhanças com o fundamentalista religioso. Ele vê como única hipótese de salvação - nesse caso gastronômica - que você se obrigue a amar, respeitar e adorar o que ele faz ao fogão, ainda que contenha toneladas de coentro, galões de dendê e um barril de cominho, por exemplo, e você diga claramente que não gosta de temperos muito fortes.

Assim também ao rejeitar a buchada de bode de um chato culinário você será taxado de fresco, de não saber o que é bom na vida, de não ter paladar e que deveria participar da sessão de descarrego, porque só um espírito das trevas pode fazer alguém não gostar do que ele gosta.

Nessa hora, a única saída plausível para a vítima é firmar o pé e não ameaçar ceder um milímetro, sob o risco de o chato culinário achar que ela tem potencial de gostar de tudo o que ele gosta. Se a pessoa fingir que gostou, já era.

Para o chato culinário não existem coisas como personalidade, gosto pessoal, preferências individuais, nem nada. Pessoas que não gostam do que ele gosta são problemáticas ou estão apenas a fim de ser do contra. Não existe outra possibilidade. De qualquer maneira, a outra pessoa deve ser convertida, e esforços para isso não devem ser poupados.

O chato culinário, porém, tem outras formas de abordagem que podem ser tão irritantes quanto esta citada. A primeira é sempre partir do princípio de que o que ele gosta é algo universal, e que não existem preferências particulares. Logo, quando a pessoa diz que não gosta de buchada de bode, ele fará a pergunta mais óbvia e mais cretina do universo:

- Mas você já comeu?

Ele usará uma expressão facial e uma entonação de voz de quem está questionando seriamente a afirmação da outra pessoa. Ele deixa bem claro que quem faz tal afirmação não pode ter embasamento algum no que diz. Ele pensa em desmerecer a vítima até a última gota, levando o tom da conversa para o seguinte raciocínio: "Você nunca comeu, logo não sabe do que está falando, pare de espalhar a sua ignorância pelo mundo!". Isso fará com que a vítima se sinta mal ou culpada por emitir tal opinião, e que seja reduzida ao tamanho de uma reles azeitona.

Se a pessoa disser que nunca comeu porque tem nojo de se imaginar comendo bucho de bode (ou é vegetariana), o chato imediatamente pula para a chatice descrita no começo. Se ela disser que já comeu e não gostou, então dê a resposta fatal:

- Ah, isso é porque você nunca comeu uma buchada bem preparada...

E emenda a ladainha anterior.

* * *

Fato mais inusitado ocorreu dias atrás com uma amiga psicóloga. Era aniversário de alguém em um barzinho. Aniversário em barzinho por si só é recheado de impessoalidade e torna-se ocasião em que você vai encontrar dezenas de pessoas que são "amigos, do amigo, do amigo do aniversariante" e, então, toda sorte de chatos pode aparecer. E, claro, o chato culinário está lá. Vejam esse diálogo verídico, narrado pela vítima:

- Oi, como você se chama, gracinha?

- Victoria*.

- Então, Vic. Posso lhe chamar de Vic né?

- Hãhã...

- Vic, vou pedir uma porção de rã fritinha, vai nessa?

- Não obrigada.

- Não gosta?

- Er... olha, não me ocorre degustar anfíbios. Ainda mais um batráquio.

- Batr... o quê? Você já comeu rã?

- Não, mas não quero comer. Não me agrada a ideia.

- Como não? Nâo pode ser. Você vai comer umazinha sim.

- Não, obrigada mesmo. Agradeço, mas dispenso.

- Ninguém resiste depois de comer a primeira. Você vai ver.

- Não vou não.

- Ah, vai. Você não tem a menor ideia do quê está perdendo.

- Tá bom, mas... entende? Eu apenas não quero.

Dali uns minutos aterrisa na mesa a travessa com os sapos efeminados. Acredite que o cara ainda pegou um e fez menção de leva-lo à boca da educada moça, que apenas levantou-se foi ao banheiro e demorou uns quarenta minutos para voltar, pois passou na pista de dança onde ficou um tanto. Para sua sorte a volúpia e gula do chato em questão foram maiores que sua pentelhice.

Mas neste caso acima, a chatice não se resume apenas às questões gastronômicas. Ao que parece, o estrago é bem maior. Mas este não é o assunto deste post.

Eu aposto meus dedos que vários chatos gastronômicos estão lendo este texto e pensando: "Isso é porque ela nunca comeu o MEU ____________________ (digite aqui o prato de preferência)".

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Arte sacra

Esse bonito vitral encontra-se em Sampa, no interior de uma igreja denominada "São Pedro". No retrato, o apóstolo parece que acaba de ser preso. Até aí tudo bem. Pena que o artista não tenha concebido que, na época da prisão do sujeito, os romanos não usavam armaduras medievais, que foram surgir centenas de anos depois.

Na mesma igreja há outras bizarrices, como Jesus pregando para sujeitos parecidos com Quakeres com um castelo estilo francês ao fundo. Qualquer dia vou lá fotografar tudo. Coming soon...


Piedade demais, conhecimento histórico de menos.

domingo, 29 de novembro de 2009

A saturação do transporte público

Semana passada alguns incidentes com o metrô de Sampa, incluindo uma inédita colisão entre trens fora de operação de madrugada, colocaram em cheque a segurança desse que já foi um exemplar transporte na cidade.

A fadiga atinge impiedosamente a tudo: pessoas, equipamentos e materiais. Até a Engenharia tem cálculos específico sobre a fadiga de materiais.

Alguns usaram a notícia para pichar, denegrir e maldizer o nosso bom e velho metrô. Eu mesmo já bloguei sobrei isso. Mas fui injusto, admito. Depois que vi essa foto, meu conceito mudou.

Se não estou enganado, esse exemplo de logística humana é na Índia.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Uma fatalidade com causa

A complexidade crescente do mundo e a frenetização das ações das pessoas são fatores capazes de neutralizar as ações pensadas e ponderadas, substituindo-as por um agir robotizado e cheio de falhas, sem o nosso diferencial que é o senso, o agir com sentido.

A cidade grande - floresta de hoje - é praticamente desprovidas de árvores e animais selvagens. Contudo é populada por outros perigos tão estressantes quanto eram no tempo em que vivíamos em grupos pequenos e habitávamos cavernas. Só que naqueles tempos, sem o trabalho sistemático, o homem conseguia ter um ócio posterior às situações de perigo, o que o recompunha. Hoje o estresse é ininterrupto e as atenções exigidas são múltiplas, muito além de nossa capacidade de dar foco com qualidade sobre alguma delas. São tempos agitados em que nós mesmos nos enveredamos em prol de algo que não sabemos dizer o quê. Talvez um bem-estar futuro, um tanto que incerto. Ou tudo isso é apenas a luta por sobreviver na selva moderna e seus perigos contemporâneos, talvez muito piores que os de outrora.

E foi assim que, involuntária e infortuniamente, uma jovem mãe aqui em Sampa saiu para trabalhar e, num súbito de mudança de trajeto, ao deixar a filha mais velha primeiro na escola esqueceu no carro a recém-nascida de seis meses, indo trabalhar. A pobre pequena foi abandonada na estufa em que se transforma um veículo fechado sob sol de 30ºC. A mãe só foi dar conta do ocorrido após horas, quando já era tarde e a fatalidade já havia se dado. O pai, acionado logo após a descoberta, abalou-se da universidade onde trabalha e mais adiante foi ter conta do alcance da desgraça familiar. Que trauma e culpa não lhes perseguirão pelo resto de suas vidas? Se eu fosse crente faria preces às dezenas pedindo que esse casal consiga conduzir-se após o ocorrido. Me resta torcer e talvez oferecer algum apoio, posto o pai ser pessoa do convívio diário de minha esposa.

O que está por trás desses lapsos, bugs cerebrais ou seja lá como os chamemos é o que a iluminada Monja Coen chama de "mente em piloto automático". Essa é a bandida do nosso alerta real, que nos rouba a capacidade de operar informações, de analisarmos com serenidade e tomarmos aquelas que nos parecerem as decisões mais adequadas. Reféns de nossas mentes enganosas, que fingem pensar, tornamo-nos autômatos. A rotina frenética e sem pausas é que nos substitui o papel de pensar e, assim, passamos ao papel de máquinas operatrizes, que seguem instruções programadas sem questionar a nenhuma delas. O mundo de hoje é um celeiro de mentes lesadas e conturbadas, que já não conseguem ponderar sobre as coisas e ocorrências. Um fazer-o-que-tem-que-ser-feito, seja lá o que isso signifique, toma o lugar do melhor de nossas faculdades mentais e - por que não dizer? - espirituais, no mais amplo sentido desta palavra.

É o espírito que nos faz presente, possibilitando que enxerguemos nuances das situações aparentemente cotidianas mas que, de fato, são distintas sempre e a cada segundo. Só que deixamos de percebê-las em profundidade. O "piloto-automático" é um estado de semi-torpidez que, qual um narcótico entorpecente, nos tira do melhor senso e faz-nos realizar as coisas sem questionar, sem dar nosso olhar que vê. Enxergamos mas não vemos, ouvimos mas não escutamos, somos tocados mas não sentimos.

Como sempre digo, a vida é feita de escolhas. Ao objetarmos algo através de escolhas irrefletidas nos tornamos o objeto dela. Nos "coisificamos" perante aquilo que escolhemos. Quanto menos crítica e presente tenha sido a ação seletiva, mais "coisa dela" nos tornamos. E, por fim, passamos nós a sermos os escolhidos e não mais os escolhedores. Assim sobretudo é a vida na cidade grande. "Escolhemos" trabalhar, estudar, ir à academia, depois correr para o curso de idiomas, ao supermercado, à oficina mecânica, ao médico e até ao que pensamos ser um lazer, mas geralmente não é senão um consumo de tempo a mais, sem a premissa da presença de espírito que caracterizaria um bom lazer. O agravante é que, em algum momento, jogamos fora o mapa da volta. Por isso não me espanta que pais e mães esqueçam filhos na escola, no carro, no supermercado. Antes de causa ou culpabilidade são mera consequência. Consequência dessas tantas escolhas irrefletidas que se apoderam de nós.

Tentar viver de uma maneira mais zen é a única salvação para a balbúrdia de vida na qual nos enfiamos em algum momento. Por isso recomendo a todos chutar o balde vez ou outra. Largar o carro em casa e andar à pé ou de transporte público. Enforcar uma aula, faltar à academia, visitar um amigo que não vemos há tempo, nos banharmos com a mão não-dominante ou comer idem, assistir a filmes diferentes, ouvir músicas diferentes, dizer "não" a algumas "obrigações", ainda que isso seja de certo modo custoso ou danoso. Em suma, desligar o maldito "piloto automático" que tira de nossas mãos as rédeas de nossas próprias vidas. Do contrário, deixaremos de "ser" para apenas "estar".

Que esse pobre pai e essa pobre mãe, que devem estar com uma culpa de toneladas sobre as consciências, recobrem de fato suas próprias conciências e consigam superar-se da tragédia. É meu sincero desejo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Fracasso de quem?


A realidade das escolas públicas é sintomática. Alunos chegando a séries elevadas sem os requisitos mínimos de alfabetização e sem dominar conceitos científicos elementares. Em recente pesquisa do Ibope com a Fundação Victor Civita, intitulada "Perfil dos Diretores de Escola da Rede Pública", foram entrevistados 400 diretores de estabelecimentos públicos de 13 capitais. Dados alarmantes vieram à tona. Não se trata somente do desempenho dos alunos nos exames nacionais, posto esses lamentáveis indicadores já serem do conhecimento do público. Mas finalmente começa a ser estabelecida uma correlação entre o mau desempenho dos estudantes com a má gestão dos estabelecimentos.

Recomendo tirar as crianças da sala. Se você tem estômago fraco não leia o restante. Vamos aos dados:

  • 98% dos diretores não se vêem como responsáveis pelas notas de seu colégio;
  • 90% gastam a maior parte do tempo conferindo a merenda escolar;
  • 64% reconhecem-se não preparados para o ofício;
  • 36% desconhecem a nota de sua própria escola nas classificações oficiais;
  • 21% estão no cargo por indicação de políticos;
  • 50% está há menos de 2 anos no estabelecimento em questão;
  • 5% apenas, chegaram ao cargo por critérios técnicos.

O que esses números não falam de modo explícito é sobre a mentalidade miserável que os fundamenta. A questão do desempenho de uma escola, em linhas gerais, não deveria ser tratada de maneira tão distinta das empresas do universo capitalista. Se sob regime do capital o valor de uma empresa é medido pelo seu lucro, sua participação mercadológica e evolução patrimonial, a escola também pode ser avaliada, considerando que seu dividendo é o capital acumulado na aprendizagem de seus alunos. Isso também é mensurável. Se de fato o objetivo de uma escola é ensinar, não importa tanto qual é a matriz pedagógica adotada, mas sim se podemos avaliá-la através da medição científica da aprendizagem de seus alunos. Assim como uma empresa em declínio, na qual sua liquidez patrimonial desaba e seus passivos ficam a descoberto conduzindo-a à insolvência, também ocorre com a escola. Diferencia-se que o produto de seu trabalho defeituoso é uma multidão de alunos incapazes de ler com comprensão, resolver operações elementares ou demonstrar conhecimentos científicos básicos.

Neste ponto quero estabelecer outro paralelo do desempenho empresarial com o escolar: se na base de um fracasso empresarial podemos encontrar proprietários e gestores incapazes de conduzir os colaboradores ao sucesso econômico é quase certo que, legando alunos com mau desempenho, encontraremos equipes docentes que fracassaram, estas provavelmente (des)governadas por diretores e coordenadores incompetentes ou "apenas" descomprometidos. Infelizmente muitos de nós hão de conhecer coordenadores pedagógicos e diretores incapazes de fazer uma análise conjuntural da clientela de sua escola, desconhecedores dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e até incompetentes em grau suficiente a ponto de não saber elaborar um plano escolar adequado, com objetivos, metas e estratégias corretamente delineados.

Não pode ser bem sucedida uma navegação sem objetivo, sem metas e sem estratégias que são, respectivamente, o objetivo da empreitada, pontos de checagem e as ações operacionais. Escola sem plano parece-se bem com o dilema de Alice quando pergunta ao Mestre Gato qual o caminho a seguir, mas não sabe dizer aonde quer chegar. A resposta à pergunta mal formulada seria: "Nesse caso tanto faz, basta caminhar bastante." - como bem disse o gato -. Certamente é o que fazem esses diretores de escolas com mau desempenho. Não tendo objetivo, não há caminho, tampouco resultado decente.

Um bom dirigente nomeado para uma dessas escolas precisa compreender politicamente onde é que ela se situa, quais são as características da clientela de seu estabelecimento e o contexto social da comunidade. Tem que buscar a compreensão dos modelos e matrizes escolares que estão na mente de cada docente, para depois provocá-los com indagações a respeito do trabalho e finalidades da escola. Esse dirigente vai repautar e discutir o papel da escola e da docência com suas equipes, embasado pelos PCNs. Tanto melhor será se ele convocar todo o corpo escolar - incluindo docentes, funcionários da infraestrutura, pais e alunos - para debater o problema e traçar planos estratégicos imediatos, que se entrelacem com metas e, por último, com os objetivos cada vez mais amplos. Por fim, precisará avaliar as dificuldades de cada profissional e instrumentalizá-los propondo-lhe acesso a conhecimentos, estudos em grupo e atividades permanentes de formação, recheadas com bons mestres da educação e conhecimentos complementares, nas áreas da Didática, Psicologia e mesmo temas transversais da atualidade. Não é preciso dizer que tudo isso dá trabalho. Bastante.

Só é possível conseguir sucesso em uma empreitada conciliando-se objetivos claros, metas mensuráveis, atividades-meio, recursos materiais e o mais importante: profissionais convictos, orientados e capazes. Claro que uma postura ativa dessas em uma escola pública encadeará outras demandas mais amplas, no âmbito das reivindicações junto ao Estado. E como não dizer que isso também é papel do dirigente educacional?

domingo, 1 de novembro de 2009

Não perca por esperar

O tio não é vingativo. Jamais. Sou apenas um escorpiano que acredita que as leis da Natureza e os ciclos do deus Chronos colocam as pessoas em situações semelhantes, de tempos em tempos. É nesse intevalo que os seres mais preparados e iluminados do Universo são capazes de criar condições para reverter situações, a fim de revid... (ops!) digamos assim, retribuir gentilmente o que recebemos das pessoas, entende? Nada de vingança, nada de rancor. Apenas é uma característica dos escorpianos ter uma memória privilegiada. Explico:

Uma década e pouco atrás, a assistente do tio recebeu um telefonema de um dono de empresa interessado em um sistema de gestão empresarial. Justamente o que comercializo há mais de quinze anos ininterruptos. Dados anotados e data agendada pela eficaz colega, lá vai o tio encontrar-se com o suposto empresário. Não explicitarei aqui características étnicas ou religiosas do dito cujo, pois isso poderá servir para me acusarem de anti-qualquer-coisa, o que seria inverídico. Sou agnóstico, pluralista, estudioso da Filosofia e sei bem que comportamentos humanos têm pouco a ver com essas características de massa, mas são fruto de algo que chamo de pedigree humano. Um misto de qualidades advindas da linhagem familiar, tanto de modo inato quanto por socialização. Alguns conseguem superar parte das sinas de seus ascendentes, mas talvez não era o caso do bípede em questão.

Lá chegando, deparei-me com um sujeito de aparência e modos rudimentares. Era o dono de uma fábrica de velas que refletia exatamente a imagem dele. Me senti no século XIX e ao ver a precariedade das condições dos operários quase telefonei para Bakunin, mas o conceito de tempo me voltou à mente e desisti. A pergunta que me ocorreu foi: Será que, considerando o anacronismo deste lugar, esse sujeito compraria um bom sistema informatizado para gerir os seus negócios? À aparência negativa, tratei de todo o tempo manter-me teatralmente crente na hipótese positiva, apesar de a fabriqueta demonstrar que há centenas de anos nem um centavo fora investido em equipamentos, métodos, muito menos em condições de segurança operacional. Era aquilo que chamamos popularmente de moquifo.

Fiz uma demonstração com o meu notebook - na época um Toshiba de 200Kg! - porque nenhum dos computadores dele tinha condições mínimas para rodar o instalador do meu sistema. Todo tempo os comentários do "empresário" eram de que não precisava disto, essa outra função não era importante e coisas assim. Saquei de longe que a intenção era minimizar a relevância do produto, achando que com aquilo faríamos uma doação filantrópica para ele. Embora minha vontade fosse de me retirar eu toquei a reunião até o fim, quando ele me perguntou o preço. Não sei estabelecer a relação desse preço hoje, mas lembro era algo confortável para uma pequena empresa pois em outras empresas do mesmo porte meu sucesso era significativo. Dei-lhe uma tabela de preços e, sem delongar, fingi não ter ouvido seus comentários medíocres de que era caro, etc.. Zarpei e, como de costume, anotei um acompanhamento por telefone para os próximos dias.

Passada uma semana, a competente colega de trabalho telefonou para o cidadão. Qual não foi minha indignação ao saber que ela fora receptora de uma dezena de vocábulos impublicáveis neste seleto espaço. Pra você ter uma idéia, um dos palavrões que ele proferiu para a mulher incluía o nome popular do orifício sito ao final do reto. Segundo o nobre empresário, era um absurdo que um "programinha de computador" - palavras dele - custassem tanto e, enfim, a lista de impropérios torpes foi imensa. A coleguinha apenas desligou e deu a oportunidade de venda como encerrada. Ao fim da tarde, quando ela me contou eu cheguei a pensar em ligar para ele, mas fui demovido pela dama que já dava por demais ela ter ouvido o que ouviu. Disse que bastava sepultarmos a ficha daquele ser desprovido de qualitativos. Colega de nobreza. Assim, o assunto morreu.

Dois ou três anos depois o tio já estava trabalhando em outra empresa. Maior, de tecnologia mais sofisticada e de certo garbo, que incluíam um escritório na Av. Paulista e uma clientela onde constavam multinacionais renomadas. A secretária do departamento, desta vez era a adorável baiana "Nil" também competente. Certa feita ela encaminhou um agendamento para mim. Adivinha de onde e de quem era? Imagine então minha cara de espanto ao ver na ficha o nome daquele sujeito, da espelunca de sua propriedade, telefone e endereço tais e quais. Bem, well, seguindo as premissas do primeiro parágrafo, chegara a hora. Ri e pedi no ato que a colega ligasse para o hominídeo, mas que permanecesse na escuta para testemunhar e registrar os fatos. Ela o fez, inicialmente sem entender. Começa o diálogo:

- Alô, Sr. Schlebovitch*?

- É ele (sic!).

- Boa tarde, sou o Tio Xavier, da Acme Software Inc.* e o senhor ligou para nossa empresa procurando um sistema de gestão, correto?

- É. A moça falou que vai vim um cara aqui (sic). É você que vai vim (sic)?

- Não senhor.

- Então quem vai ser?

- Nem eu e nem ninguém desta empresa, sabia Schleb*?

- Como assim? Quem é você? Posso saber por quê?

- Como assim, é? O senhor por acaso ainda usa um programinha feito em Cobol há uns nove anos, certo?

- Uso, mas que é que você tem com isso? Quem é você?

- O que é que tenho? É que por acaso, em 1997, você recebeu a visita de um profissional da Acme Technologies Corp.*. Fui eu. Fiz-lhe uma simples oferta comercial e, não querendo, bastava-lhe rejeitar. Mas não. Ao receber a ligação da minha assistente dias depois você demonstrou uma baixeza inigualável. Falou uma série de palavrões para a moça, mostrando que não tem um pingo de educação básica, nem gabarito para possuir um computador. Quanto menos uma fábrica. Aliás, não tem pré-requisito nem para viver em sociedade. Por isso é que essa espelunca que você chama de empresa parece um porão escuro, é um nojo e você continuará para sempre usando a mesma porcaria de programa que usava nos seus micros 286. Você nunca vai evoluir e, por isso, a sua fabriqueta também não vai. Ela é seu reflexo.

Após uns trinta segundos mudo, certamente pego desprevenido ele recuperou-se:

- Quem é você? Eu quero falar com seu chefe agora!

- Quem tem chefe são grupos tribais pré-civilizados, compreende? Aqui tem diretores e um presidente. Mas eles jamais vão atender a um ser tão desprovido de espírito como você. Se quiser, ligue novamente no PABX e tente a sorte. O nome do presidente da nossa empresa é Frank Schulzenstein*. Mas ele só atende a pessoas socializadas e elevadas.

- Você vai ver com quem está falando! Eu vou aí nesse troço falar com alguma autoridade.

- Eu sei com quem falo. Sinto muito mas não sei o que é "troço". Aqui é uma renomada empresa e você sequer vai conseguir entrar com sua camiseta ensebada neste edifício. Pode tentar vestir uma roupa apresentável, mas seus modos mostrarão ao porteiro que não é do tipo de gente bem vinda aqui. Passar muito bem.

- Você vai ver se eu não apareço aí.

Por um instante achei até que ele tentaria. Esperei por mais um ano. Na verdade eu pagaria para que ele conseguisse entrar e chamássemos os seguranças para defenestrá-lo. Mas ele jamais foi.

Por que lembrei dessa história agora? Porque acessei a base de contatos recentes do site da empresa onde trabalho atualmente. Curiosamente, lá estava um pedido de informações de um tal Schlebovitch*. Isso mesmo: o dono da fabriqueta de velas, com o mesmo nome e endereço. Apenas fiz um comunicado à nossa telefonista, para que jamais dê atenção a um telefonema dele. Afinal, como novamente trabalho com uma empresa distinta e próspera, é meu dever selecionar a clientela. Certo, Schlebão?

O próximo, por favor.