SARCASMO, OPINIÃO E TALVEZ ALGUM HUMOR
*** AVISO: Se você ler esse blog e for conhecido do Tio Xavier™, poderá se identificar com algum personagem das situações narradas. Esta não é uma obra de ficção. Portanto não terá sido mera coincidência. Tio Xavier™ está pouco se lixando para o que você vai achar. ***
Sábado, dez e meia da madrugada. O tio ia saindo com a cria para ir ao colégio onde somos voluntários na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Eu já estava destrancando a porta quando a campainha tocou. A propósito eu odeio campainha, sabem? Em mais de uma residência eu cheguei a adaptar um botão para desabilitar a campainha. Que saco! Se você for à minha casa, suponho que telefonará previamente e combinará, certo? Assim estarei esperando. Então para que serve campainha? Para chatos, pedintes e toda sorte de pessoas que não deviam estar consumindo recursos naturais tocarem e torrar minha paciência. Mas voltemos aos visitantes matinais do sábado.
Eram testemunhas de Jeová. Mais chato do que receber a estes na porta, só mesmo vendedores de carnê do Sílvio Santos. Uma jovem, de aparentes vinte e poucos anos (e 140Kg) acompanhada de seu pai. Este um tiozinho com cara de boa gente, mais um pobre bebê no carrinho, com menos de 1 ano a acompanhar a árdua missão de pentelh..., digo, transformar o mundo em testemunhas do tal Jeová. Abri a porta rápido, já fazendo questão de demonstrar a pressa de sair. Essa é uma técnica razoável de dizer "cacete, que saco, vocês aqui?". E já começou a funcionar, pois o simpático pai da hipop... - melhor dizendo, jovem - disse algo que demonstrou sua aguçada percepção. Eis a moça:
- Bom dia senhor, vou ser rápida. Não é sobre religião. É só um folheto sobre a Bíblia, o senhor aceita?
- Aceitar aceito, mas a Bíblia não trata de assunto religioso?
- Bem... ahn... bom... Não é de uma religião específica: é de todas.
- Todas? Espera aí. A Bíblia é dos judeus e dos cristãos, que são religiões específicas, certo?
- Não moço! Todas as religiões seguem a Bíblia.
- Nananana... alto lá! Eu estive com um cliente nessa semana e ele me deu um livro chamado Bhagavad Gita. E ele me disse que são as escrituras dos hindus me garantindo que não segue a Bíblia de vocês.
- Ah é? - olhando para o pai a pedir socorro - Eu não sabia.
- Então é bom saber. E tenho um amigo que é muçulmano. Ele me mostrou "um tal" de Alcorão. Achei bacana também. Ele disse que segue o Alcorão.
- Ah, moço, não sei não. Mas a Bíblia é um livro sagrado, né?
- Eles me disseram o mesmo. O que me deu o Bhagavad Gita pediu que eu tratasse o livro com carinho e respeito, porque eles consideram escritos sagrados. Aliás, o amigo do Alcorão nem deixou eu tocar o livro. Do que presumo que há vários livros considerados sagrados pela humanidade.
A moça, mais perdida do que cachorro em dia de mudança, olhou para o pai, olhou pra mim e esticou o folheto:
- O senhor aceita este folheto?
- Claro. Obrigado.
Eu já ia abrindo o portão para tirar o carro e os dois se despediram desejando-me um bom passeio. Era o que restava, depois de perceberem que precisavam voltar às lições da escolinha das testemunhas.
Eu sidivirtu. Nada como a boa e velha maiêutica para dar conta desses chatos.
A redação do Sem Sentido presta um serviço a você, que não tem tempo de ler longas reportagens. Aí vai um clipping das principais chamadas e comentários exclusivos do tio.
DIRETO DO ESTADÃO
Ibope: Mesmo com crise, Dilma mantém 51%; Serra tem 25%
"Mesmo com crise", nesse caso, se refere a quem? Com 25% das preferências...
Comissão de Ética só agora pune Erenice por esconder parentes
Como punição, ela terá agora que conviver com eles.
Mineiros presos em jazida registram entrada de perfuradora
Buttman e Brasileirinhas disputam os direitos da filmagem.
Goleiro Bruno teria tentado se matar 'várias vezes' na prisão, diz Macarrão
Ele jamais conseguirá se matar "várias vezes". Se conseguir, será uma só.
OAB-SP pede retirada de obra polêmica da Bienal
Nos desenhos, o autor aparece assassinando FHC e Lula. Advogados acham que os presidentes são feios demais e assustam visitantes.
DIRETO DA FOLHA
Marta e Netinho continuam na liderança pelo Senado em SP
O destino prega peças: a Oscar Freire e a Cohab de Carapicuíba juntinhos.
Nasa apresenta mapa completo de crateras lunares
Isso é fácil. Quero ver eles documentarem as crateras das ruas paulistanas.
Mineiros presos no Chile ajudarão em seu próprio resgate
Uau! Quando tudo indicava que eles nem estivessem interessados no assunto.
Ban Ki-moon aposta em ajuda inteligente para erradicar pobreza
Inteligência pra quê? Pobreza se erradica com trabalho remunerado, comida e moradia.
Yom Kippur deixa ruas de Israel vazias em dia sagrado para o judaísmo
Judeus estão com medo de encontrar seus devedores, justo no dia do perdão.
Sri Lanka reduz a 25 número de mortos em explosão acidental
Expectativa é de que até o fim das apurações não haja mais nenhum morto.
Bento XVI admite "vergonha e a humilhação" em relação às vítimas de padres pedófilos
Padres pedófilos teriam reclamado que as vítimas xingam quando os vêem nas ruas.
Kevin Costner fará show com sua banda no interior de São Paulo em novembro
Eu preciso disso. Doravante não me será mais possível viver sem isso. Não sei como o mundo funcionou antes sem isso e não imagino mais como hei de continuar a carregar toneladas de livros e apostilas na mochila, prejudicando minha velha coluna vertebral, já que inventaram isso.
Por favor, a quem possa interessar ganhar pontos no céu com o God: Compre um exemplar e presenteie o Tio Xavier. Está sendo vendido na Amazon.com. Saiba que o Senhor não te abandonará nunca.
Dia desses uma amiga muito querida me telefonou. Dizia estar na sacada externa da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, situada ao lado da praça da Sé, em São Paulo. Lembrou-me das tantas vezes em que nós, nas sacadas internas, confidenciávamos nossas angústias, descobertas e reflexões. Éramos jovens e sonhadores estudantes da faculdade Nossa Senhora da Assunção - ligada à atual UNIFAI - cujo curso noturno, bacharelado em Filosofia e Teologia, funcionava nas salas anexas cedidas.
Naquele tempo saltava-nos aos olhos o requinte do estilo daquela igreja. Construção estilosa, algo entre o barroco e o arcaico, a obra é do séc. XVIII e guarda verdadeiros tesouros históricos. Entre eles uma cripta subterrânea, onde eram sepultados membros notáveis da ordem. Lamentavelmente, entre outras desgraças, no meio do século passado o espaço foi invadido por ladrões, que saquearam os túmulos. Deixaram as ossadas em tal anarquia, de sorte que aquelas que não foram reclamadas por descendentes e herdeiros, foram amontoadas pela zeladoria em uma urna comum, ao centro da cripta. História violada, espalhada e, pior: abandonada por alguns que não foram lá dar conta dos próprios ascendentes.
De volta ao templo, um enorme afresco se insinuava no teto côncavo, preciosidade esta que foi revelada durante uma das restaurações. E pensar que aquelas estátuas, a linguagem subliminar dos contornos, o próprio piso e, por fim, o afresco no teto haviam sido para gerações uma fonte de mensagens, quase como o que é hoje o cinema. Nesse tipo de arte, nada era fruto do acaso, mas tinha objetivo de transmitir mensagens, com formas e cores meticulosamente pensadas.
Contudo, essas lembranças que eu trouxe aqui são recheadas de tristeza. Minha amiga, naquele telefonema, me disse que tudo estava novamente despencando. Madeiras carcomidas por cupins, rachaduras e infiltrações por toda parte, de tal modo que o prédio encontrava-se mais uma vez interditado, como fora por tantas vezes. Na narrativa da amiga professora, a relíquia arquitetônica e cultural tombada pelo Estado parecia pedir socorro, em nome de sua própria história, em nome da história dos escravos que a erigiram, em nome da história de cada um que por lá passou, inclusive a dela e a minha. Meus olhos se encheram de lágrimas, inclusive agora quando escrevo isto. Mas o ser humano, entorpecido pelas maravilhas consumíveis do mundo moderno, pouca importância dá à História. E, ao ignorarmos esta, seguimos cambaleantes para lugares e tempos que ninguém sabe onde e como serão.
Pobre povo que não preserva sua história. Sem passado, vive sem identidade e sem identidade tem futuro incerto.
A Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo foi tombada pelo IPHAN, em 04/12/92.
A indústria da Informática é proficiente na criação, produção em escala e no esforço por entupir nossas casas de apetrechos eletrônicos "essenciais". O problema residual é que esses lançamentos vão esvaziando nossos bolsos e enchendo os abarrotados lixões de mimos descartados, por sua planejada obsolescência.
Pensando nas questões educacionais, que hoje passam pela disseminação das tecnologias da informação e comunicação (TICs), vira e mexe eu procuro saber de projetos e lançamentos a respeito de computadores populares. Não que a informática vá resolver a educação, longe disso. Mas defendo com unhas e dentes que não é mais possível praticar a educação sem utilizar também o suporte digital. E tenho dito!
Pois vejam o brinquedinho que encontrei esses dias. O Pandora parece um híbrido (adjetivo carinhoso para Frankestein), composto de carroceria de Nintendo DS, turbinada com teclado qwerty de 43 teclas, alguns parcos recursos de netbook, rodando uma versão enxuta (mas gráfica!) do sistema operacional Linux. Mas tem Wi-Fi®, navegador web, Bluetooth® e USB. Gostchei!
Já pensou isso na sala de aula usando o Google Docs?
O último status do projeto, em maio deste ano, era de que o envio aos clientes das primeiras unidades produzidas já teria iniciado. No site, os empreendedores avisam claramente que o pagamento é antecipado, obviamente porque nenhum capitalista os está patrocinando. Já entrei em contato com a rapaziada aí ao lado e estou aguardando informações. Quem sabe não será o sonhado computador de U$100 para colocarmos nas mãos dos alunos?
Todo mundo que dirige, alguma vez já vez uma barbeiragem: ralou o carro no muro de casa, na garagem do prédio, no portão, em outro carro e até coisas mais graves. Enfim é para isso que o carro tem lata e as montadoras aperfeiçoam os itens de sobrevivência. E tem um lado social: os pintores e restauradores não perdem seus empregos.
Para você não ficar aí se culpando e se martirizando por esses pequenos danos, inerentes à responsabilidade de dirigir, veja o que essa pessoa conseguiu fazer no vilarejo de Liguria, norte da Itália:
Esclareço, para efeito estatístico, que foi uma mulher de 34 anos.
Pessoal, a selecinha perdeu, o Dunga e seus anões estão cantando "♫eu vou, eu vou♫, pra casa agora eu vou♫" só que eles estão com as contas pagas e a barriga cheia. Apenas ganharão um pouco menos de milhares de dólares. Até Das Kapital está defecando para os canarinhos, os bacalhauzinhos ou os negrões de Gana. Patrocinadores bilionários hão de achar outros filões para exporem suas marcas e os tontos saírem correndo a comprar seus produtos caríssimos, só porque são "renomados" (pelos seus próprios donos, claro). Há um mundo bem melhor, eu sempre digo.
Porém, enquanto isso, aqui mesmo em Pindorama, nossos irmãos estão escavando lamaçais em ruínas de armazéns à procura de qualquer alimento ou água engarrafada que seja possível salvar da sujeira, da tifo e da leptospirose, sabe pessoal? Seres humanos que até há poucas semanas tinham casa, fogão e cama para dormir estão no relento, sem teto, sem proteção e sem higiene alguma.
Vamos manter (ou recolocar) as bandeiras brasileiras nos carros, mas desta vez para levar alimentos, roupas, remédios e produtos de higiene nos postos de arrecadação? Vamos lá, gente! Essa o Brasil pode ganhar fácil.
A esperança deles geralmente morre por último: pobre povo.
EM TEMPO: CONVERSANDO COM A DEFESA CIVIL HOJE (03/07) RECEBI A RECOMENDAÇÃO DE QUE SEJAM DOADOS ALIMENTOS DURÁVEIS E CONSUMÍVEIS DE IMEDIATO (ENLATADOS, BISCOITOS), MATERIAIS DE HIGIENE BÁSICOS (SABONETES, CREME DENTAL e ESCOVAS, PAPEL HIGIÊNICO, FRALDAS DESCARTÁVEIS) E PROFILÁTICOS DE USO EXTERNO (CURATIVOS, MERTHIOLATE, ÁGUA OXIGENADA, ALGODÃO).
Esse é mais um mimo da minha lista de coisas essenciais e vitais, das quais eu não sabia a existência até há poucos segundos. Eu quero, eu preciso, eu não posso viver sem um.
Com vocês, senhoras e senhores, o CARRO-AVIÃO. Em 30 segundos o bólido abre as asas e o motorista pode ganhar os céus. E o mais legal: lá em cima não tem radar fotográfico da CET.
Poucas coisas atestam tanta incompetência e falta de criatividade quanto copiar estratégias de outrem sem questioná-las. Já faz tempo que parte dos membros da Igreja Católica demonstram estar sem rumo e perplexos diante do esvaziamento de algumas atividades, enquanto "as concorrentes" abrem filiais imensas, quase que por semana.
Após o sufocamento do movimento da Teologia da Libertação há duas décadas, movimento este que propunha uma prática de fé mais politizada e engajada na transformação social, o que ocorreu foi o reflorescimento de movimentos direitistas, incluindo até um tal de Arautos do Evangelho, sabidamente viúvas da TFP de Plínio Correia de Oliveira, o suprassumo do facismo cristianizado no Brasil. Sem falar que outros, dos quais nem ouvíamos notícias mais, como a Opus Dei mas, gradualmente, vão dando os ares na base de fiéis.
Em rota distinta, porém mantendo crescimento, vê-se a Renovação Carismática Católica (RCC), movimento neopentecostalista que hoje comanda um pequeno império de comunicação, do qual o empreendimento "Rede Canção Nova" aglutina emissoras de TV, concessões de rádio e um sem-número de editoras e publicações. A RCC, se não conta com a simpatia extrema do Cardeal Ratzinger, atual papa, também não é execrada por este, parte pelo poder econômico e político que ela possui no meio católico e, por outro lado porque não é tão questionadora das estruturas hierárquicas, como foi a Teologia da Libertação.
Quem sabe esse assunto nem seja mais da minha conta, posto que deixei de ser católico há tempos. Mas me entristece ver que seres humanos de boa vontade e índole valiosa podem estar sendo orientados por gente que não tem nada a dizer e, em última análise, almejam somente a preservação de seu status. Deve ser a respeito desses que Jesus teria falado sobre os guias cegos.
O mais bizarro de tudo isso é a penetração que a linguagem neopentecostalista da RCC tem realizado entre os católicos. O cartaz ao lado parece ter sido arrancado de alguma porta da Igreja Universal de Edir Macedo. Mas eu fotografei na porta de uma paróquia católica na capital paulista. Se a seita de Edir Macedo chega aos limites do grotesco pelos descarregos, desobsessões, sessões e campanhas diárias contra os demônios, a respeito dos quais alegam quase a onipresença, pior ainda é quando a falta de linha pastoral faz com que comunidades religiosas sérias copiem esse tipo de marketing religioso embusteiro e paupérrimo. Podiam ao menos estudar um pouco de Teologia e mesmo de História para tentar fazer obras mais embasadas e, quem sabe até, menos ridículas.
Que me desculpem aqueles que se sentirem ofendidos pelo exposto. Não é minha intenção a ofensa jamais. Mas a Igreja Católica é um meio social onde tenho muitos amigos e pessoas estimadas que, porém, estão sendo conduzidas ao abismo da alienação por guias cegos. Contra fotos não há argumentos, parafraseio sem medo...
Ontem foi uma noite singular nos meus três anos mais recentes. Foi o último dia de comparecimento em minha graduação em Pedagogia. Foi uma dádiva da darling que, tendo acesso a duas bolsas de graduação, adiantou-se em ceder uma para mim e outra para meu sorrateiro e sábio enteado. Podendo escolher qualquer curso da universidade, exceto Medicina (para a qual não tenho a menor vocação), optei pela Pedagogia. Em parte, devido a um voluntariado na Educação de Jovens e Adultos (EJA), na qual eu militava pouco antes, e para o qual senti que devia me capacitar melhor. Mas o curso acabou me reavivando das cinzas a fênix de um projeto antigo, do qual eu me esquivara há duas décadas, que era uma possível carreira acadêmica. Agora, picado novamente pelo mosquito do estudo, tratarei de me matricular no lato sensu para o próximo semestre, aproveitando o movimento inercial. Concluo meu curso satisfeito. Se não fiz mais nele foi por absoluta impossibilidade, já que meus papéis sociais somados me exigem um desdobramento inimaginável. Mas fiz sim o meu melhor que, sem falsa modéstia, foi melhor em absoluto do que a maioria dos meus contemporâneos de lá.
Embora eu cursasse sem pagar mensalidades, a empreitada me custou muito alto: tanto em dinheiro direto - mensalidade é apenas parte dos gastos em um curso universitário - quanto em capital pessoal. Do alto dos meus quarenta e tantos anos tenho a percepção de que o tempo é nosso bem mais escasso e que nossa dedicação a algo nos consome esse tempo que nunca mais recuperamos. Por isso nunca consegui disfarçar minha irritação em todas as vezes nas quais foi dificultoso o simples ato de ouvir a fala de um professor (cerca de 90% do tempo), dado o desinteresse e desrespeito coletivo das moçoilas da turma a tagarelar, de modo estridente, sobre qualquer assunto alheio à aula. Continua incompreensível para mim que pessoas saiam de suas casas ou trabalhos, enfrentem congestionamentos ou conduções lotadas, submetam seus estômagos à junk food dos arredores e subtraiam preciosas horas do convívio familiar ou do lazer, para passar de qualquer maneira por um curso universitário.
Penso que um curso superior, ainda mais em educação, seja algo tão importante quanto incompatível com comportamentos desrespeitosos dentro de uma sala de aula, que foi o que mais presenciei. Tendo frequentado outrora dois outros cursos superiores, foi neste último que encontrei as posturas mais inadequadas, considerando que as pessoas que lá se graduaram foram licenciadas para o ensino. Sem falar em plágio, trabalhos comprados ou tomados de terceiros e toda sorte de subterfúgios apenas para não fazer o mais razoável, que seria estudar e se capacitar. Perdoe-me a minoria que de fato tenha levado a sério. Mas cabe ressaltar que é minoria mesmo, não passando muito de um décimo da turma. Surpreendeu-se? Eu não mais.
Voltando a ontem, na última sala ocupada pela turma - a de nº 304 do prédio - havia festinha com comes, bebes e uma alegria incontida. As moças e jovens senhoras concluintes fantasiaram-se, tocaram cornetas e apitos corredor afora e tiraram centenas de fotos que já devem estar nos perfis do Orkut. Mostravam em suas faces uma sensação de alívio invejável. Pena que esse alívio não tenha sido uma explosão de realização por um trabalho dedicado e extenuante. No fundo foi alívio por ter acesso a um diploma e não ter mais que ir àquelas “porcarias de aulas”, não ter mais que fazer as “porcarias de trabalhos”, não ter mais que ler as “porcarias de textos” e, enfim, não ter mais que fazer o mínimo paupérrimo que a maioria delas fez, apenas para obter conceitos mínimos para aprovação e um mero pedaço de papel. Infelizmente este papel teoricamente as credencia a pleitear um cargo de... professora! Mas o que terá para ensinar alguém que não tem prazer em aprender? Como poderão ensinar a estudar, sendo isto algo que pouco ou mal fizeram? O que terão para dizer às crianças, adolescentes e jovens, sobre o bem intrínseco do conhecimento, pessoas que não o descobriram ou até rejeitam-no?
Essas são as professoras que poderão estar em escolas públicas e particulares fingindo educar. Volto a dizer que essa minha observação não se aplica à totalidade dos que lá estiveram, posto haver meia dúzia contada de colegas que realmente se dedicaram, buscando se tornar pessoas melhores. Mas em uma sala com quase sessenta alunos... e o “resto”? Bem, o “resto”, meus caros três ou quatro leitores, perpetuará a geração média, mediana e medíocre que está aí. Tanto as que conseguirem vagas como “professorinhas” - ou então “tias” - como aquelas que pendurarão os diplomas em cima dos seus fogões domésticos ou nas baias de seus subempregos, apenas para engordar as estatísticas de diplomados incapazes do que consta em seus diplomas. Uma pena...
Foi por tudo isso a minha falta de sorriso, fuga das máquinas fotográficas e minha visível recusa em participar da animada festa. De pouquíssimos de lá levarei boas recordações. São Paulo Freire rogai por nós!
Não bastavam as chatices dos Politicamente Corretos e as farsas dos Ecologicamente Corretos. Agora com vocês, senhoras e senhores... os Espiritualmente Corretos.
Este último selo quem é que ratifica? Yahweh? Budha? Alah? Jesus? Khrishna? O Dalai-Lama? O papa Bentão? Ou os babalorixás da Bahia?
Créditos da foto: Profª Eloísa Meneses / Editora Plus
Há poucos dias o Governo definiu uma nova redução de orçamento, sendo que o Ministério da Educação foi o mais afetado: R$ 1,28 bilhão a menos em 2010. Essa questão do corte de gastos sociais já é antiga. Está na linha de destruição do "Estado do Bem-Estar Social" (Welfaire State - WS). O WS foi, no século passado, motor político e econômico internacional para tirar o Capitalismo da crise de 29 e, sobretudo, fomentar a mão-de-obra fabril da indústria crescente. A política do WS durou até meados dos anos 70, cujo reflexo aqui no Brasil foi o chamado "milagre econômico". Daí para diante o que vemos cá e lá é a paulatina destruição do WS. Então, meus caros, não se espantem. Para aumentar os lucros dos bancos e dos grandes conglomerados tudo vale: redução de salários, subtração de garantias trabalhistas e sucateamento dos serviços públicos. O processo de ataque inclui também o encolhimento destes ainda que, paradoxalmente, mantenha-se o inchamento de algumas máquinas estatais, claro que por apadrinhados da burguesia dirigente.
Sem ligar para isso tudo, a professora de Língua Portuguesa Eloísa Meneses, da periferia pobre de Porto Alegre (RS), cansou-se de ver o reflexo da violência local invadir a sala de aula sob a forma de indisciplina, ofensas, brigas e bullying. O cenário onde trabalha reflete o fim do WS: lousa velha e ruim, carteiras idem, tudo dentro de uma escola pública com instalações que remetem ao século passado, e ainda deteriorada pelo tempo de uso. Quem sabe ótimos pretextos para um professor pensar que não há nada a fazer.
Mas a professora Eloísa apostou no inusitado: convocou seus alunos para escrever um livro. Colocar suas identidades em algo que pudessem produzir refletindo sobre si mesmos. Pensando na diminuição da violência escolar concluiu que podia ensinar os alunos a usar a voz, a escrita e os sentidos para fazer algo de bom. Assim que tomou conhecimento do projeto Faça um E-book na Escola da Editora Plus, inscreveu a turma e organizou os alunos para a empreitada. Montou com sua turma uma coletânea de textos, desenhos e fotos dentro de um trabalho cooperativo, no qual as crianças colocaram em prática o ato de refletir e realizar, coisas que deveriam ser comuns em qualquer escola. O resultado, além do resgate do ambiente escolar, foi o livro Brincando Com Os Sentidos e pode ser baixado gratuitamente. Leia AQUI os detalhes da obra. Os incrédulos que me desculpem, mas a práxis educativa refletida pelo professor é capaz de remover montanhas.
Saiba a professora Eloísa ou não (tenho quase certeza que sabe), foi Paulo Freire quem sistematizou as premissas desse tipo de trabalho, no qual ninguém ensina a ninguém mas todos se auxiliam na reflexão e elaboração do conhecimento. Não é sonho: é prática educativa pensada, planejada e com objetivos. Quando o educando, em qualquer nível educacional, se torna protagonista do ato de aprender, coloca em movimento o que é mais peculiar na aprendizagem: a reflexão. Não dá mais para conceber, ainda mais hoje com tantas fontes de informação, que um professor se poste diante de uma turma e discurse ininterrupta e enfadonhamente. O trabalho educativo implica em pensar novas práticas que envolvam a TODOS na elaboração de conhecimentos. O professor passa a ser aquele que desafia os alunos a fazer e estes, construindo seus próprio conhecimentos, passam à construção de si mesmos como cidadãos conscientes. Agora chegou no ponto onde eu queria chegar...
A professora Eloísa pode nem ter intenções tão politizadas mas, ao voltar o olhar dos alunos para si mesmos, lança as bases para uma educação política. Educar não é senão um ato político, onde não há vez para neutralidade, como o próprio Freire nos esclareceu. Somente pessoas pensantes e conscientes são capazes de entender os mecanismos macabros e egoístas que movem a politicagem da camarilha que subtrai as verbas da educação e dos demais serviços públicos. O bom trabalho educacional implica TAMBÉM em desmascarar os que exploram, os que roubam do bem público, os que ludibriam o eleitor, os que favorecem aos bancos e conglomerados capitalistas em detrimento dos trabalhadores. A propósito, depois desse belo exemplo dessa professora Eloísa, o Governo Federal bem que podia diminuir alguns reais do corte nos gastos e enviar uns computadores para a Escola Estadual Almirante Álvaro Alberto da Motta e Silva, onde ela leciona, não é mesmo senhores Lula e Guido Mantega? Enquanto isso não ocorre, vamos lá professor e professora, mãos à obra! Botem suas crianças para trabalhar de verdade. Mas aproveitem para mostrar a eles quem são esses senhores que estão na política.
As passeatas recém-realizadas para pleitear a liberação da maconha chamam à pauta um velho assunto, talvez mais antigo do que a própria civilização. De fato é preciso discutir na sociedade a questão dos aluncinógenos e entorpecentes, mas com profundidade, sem simplificações ou generalizações infundadas.
As primeiras formações sociais, clãs e tribos, já utilizavam alucinógenos retirados da natureza, sobretudo para rituais espiritualistas e alívio de dores. No Oriente Médio e na China, por exemplo, a papoula é um cultivo comum de alguns grupos, chegando a ser sua principal fonte econômica. É dela que se extrai, entre outras coisas, o ópio. Entre os indígenas sulamericanos, diversas tribos utilizam o ayahuaska há centenas de gerações, a título de alcançar o êxtase mental e, por suposto, comunicar-se com entidades espirituais. A coca, por sua vez, é um vegetal considerado sagrado desde os Incas, a ponto de denominarem-na K'ócah, sinônimo de "sagrado". Sua utilização remonta à cultura de períodos bem anteriores, sendo sua folha utilizada em chás com efeito analgésico, anestésico e de combate à náusea. No Peru é comum e habitual qualquer hotel ter folhas de coca na recepção, à disposição dos visitantes. Elas são mascadas e minimizam nos visitantes o mal-estar causado pelo estranhamento da baixa pressão atmosférica e baixos índices de oxigênio.
O curioso e semelhante a todos esses vegetais - alucinógenos, entorpecentes ou apenas terapêuticos nos seus contextos de origem - é que o isolamento e potencialização de suas piores propriedades ocorre justamente fora do seu âmbito original. É por volta do século XVII e XVIII na Europa que a maioria dessas plantas torna-se objeto de produção do que se pode chamar de "drogas", no sentido mais amplo da palavra. Não é preciso ser sociólogo para observar que é no capitalismo que a droga vira mercadoria, se multiplica e passa a ser produzida em escala, se tornando um dos grandes problemas do presente. Para ficar em um único exemplo, a coca, natural e sagrada há milênios para os indígenas sulamericanos, vai se transformar na potente cocaína somente nos idos do século XIX pelas mãos de dois alemães - Albert Neiman e Friedrich Gaedecke - e do italiano Paolo Manteguzza. Nas mãos dos europeus e dentro do ambiente capitalista substâncias psicotrópicas são isoladas e tomam a característica de produto. Portanto, se o que eram extratos naturais, xamânicos e ritualísticos se tornaram drogas pesadas, produzidas em escala industrial e causadoras das piores tragédias sociais contemporâneas, não terá sido por culpa dos indígenas. Nem do sindicato dos cocaleros, nem de Evo, por quem não nutro simpatias políticas.
Posteriormente, fingindo vistas grossas à Antropologia e às questões culturais, surge o moralismo pós-moderno ocidental a culpar os cocaleros peruanos, clãs muçulmanas e tribos pelas mazelas das drogas em consumo massivo. Já na metade do século passado, a ONU decretou que mascar a folha da coca era "vício em droga" e os EUA proibiram o comércio internacional da planta. Claro que "uns são mais iguais que os outros", como vaticinou Orwell pois, para a Coca-Cola - emblema do sistema capitalista estadunidense - é mantida até hoje a única concessão para livre importação da folha. Curioso, não é?
Hoje a grande mídia burguesa procura capitalizar antipatia aos povos ameríndios, particularmente, a Evo Morales e ao sindicato dos cocaleros, utilizando-se de acusações no mínimo hipócritas. Recorro a este adjetivo, pois os grandes veículos de comunicação pertencem a círculos de gente abastada e festeira e, quem quer que tenha ido a uma só dessas festas particulares, há de ter presenciado bandejas requintadas transitando com cocaína, drogas sintéticas e cigarros artesanais da "demoníaca" canabis sativa, tudo circulando livremente, para deleite dos convivas. Sem falar no próprio álcool e no tabaco, este então com suas "mais de 4.000 substâncias cancerígenas", de acordo com o descrito nos maços de cigarro. Mas estas duas drogas são "boas", pois geram altos impostos de modo que, na regra do estado burguês, estão liberadas.
Entendo que o ser humano deva se manter em estado de vigília e consciência, para, alerta, tornar-se capaz de realizar o melhor para si e para a sociedade. Do mesmo modo, que devamos evitar a ingestão de substâncias nocivas à saúde ou que nos subtraiam, ainda que temporariamente, a plena consciência. Rogo a todos que, ao verem seus amigos enfiando os narizes em pó (e pulverizando suas vidas) ou tomado psicotrópicos, não lhes sejam coniventes. Mas tampouco caiam no conto de crucificar àqueles para quem o cultivo e uso da coca, papoula ou da canabis representa, antes de tudo, identidade cultural, religiosidade ou sobrevivência econômica. Há outros culpados pelos males do mundo. Muitos se escondem atrás de posições sociais nobres, gravatas caras, pautas de noticiários e outros anteparos que não posso nem descrever aqui... Que tal problematizar e discutir o assunto sem paixões?
Ontem à noite fui prestigiar alguns shows da Virada Cultural SP. A propósito do evento, aconselho aos que nunca foram a procurar com antecedência informações no próximo ano. É uma oportunidade sui generis de assistir aos espetáculos mais diversos, que vão do punk rock à música sacra, a poucos passos de distância. Fica aqui o meu registro honroso para os velhinhos remanescentes da banda cubana Buena Vista. Os velhinhos mostraram uma forma invejável com performance musical de música latina da mais alta qualidade.
* * *
Mas meu olhar de pensador não se limitou à festa. Tendo ido de transporte público, os primeiros locais por onde passei à pé, a caminho da praça Júlio Prestes, foram as travessas do complexo conhecido como Cracolândia. Meu olfato indefectível logo indicou o uso generalizado de crack, mal chegada a noite. Ao passar pela rua Mauá, pude ver crianças e pré-adolescentes literalmente jogados sob marquises, onde uns cheiravam cola em sacos plásticos e outros pitavam seus cachimbos com a droga mortífera. Senti-me um impotente ao ver algumas zanzando atônitas e fora de si, como zumbis. Seus corpos já semimortos eram animados apenas pelos espíritos malignos da fumaça que os cachimbos exalavam. Seus olhos sem brilho procuravam qualquer coisa que pudessem roubar, inclusive de mim. Em meio à paisagem que mesclava lixo, ratos, prédios deteriorados e essas crianças abandonadas ao próprio azar, tudo era triste e em tons de cinza. Que raio de sociedade é esta que mantemos, que deixa à míngua seus filhos, a ponto de sentirmos medo deles?
Após juntar-me a alguns amigos no show do Buena Vista, findo este, fomos bater pernas até o Vale do Anhangabaú. Evitamos as travessas menores da Cracolândia por questões de segurança. Tagarelávamos e ríamos matando as saudades mas, lá pelo Largo do Paissandu, vi um pequeno grupo de crianças negras catando latinhas de alumínio e colocando-as em sacos. Provavelmente venderiam-nas a um ferro-velho. Por sorte ou azar social, maus cidadãos que bebiam nos arredores jogavam-nas sem cerimônia pelo chão. Num mundo onde a desgraça e a benesse se misturam, pensei: e se não houvessem cidadãos imundos a jogar as latas, seria melhor? E os moleques coletariam o quê? É difícil chegar a uma boa conclusão em um cenário desses. Enquanto isso, defronte a igreja da praça, a estátua da Mãe-Preta apenas olhava seus filhos largados, sem nada poder fazer.
Por fim, quando decidimos jantar em um shopping no Viaduto do Chá, vi um minicarro de coleta de lixo, desses elétricos, passando com o motorista e um coletor. Do nada surgiram dois meninos bem miúdos, descalços, mal-agasalhados e sujos, mas ainda saudáveis o suficiente para correr. Perseguiam o carro, gargalhando como só eles. Ao alcançarem o veículo, atiraram-se na caçamba, agarrando-se como puderam. Naquele único parque de diversões possível a eles, seguiram de carona furtiva, sob as vistas grossas dos funcionários da limpeza. Essa é a lembrança que mais mareja meus olhos enquanto escrevo. Lembrei-me na hora da cena de que eles, acima de tudo, são crianças. Vi neles o desejo de felicidade marota e pueril, o desejo de brincar, de aprontar peripécias e de simplesmente terem uma infância, coisa que lhes é subtraída diariamente.
Se ninguém ou o Estado abrigarem a esses dois, logo estarão em companhia daquela dezena de outros da Cracolândia. Ou serão explorados sexualmente por adultos degenerados. Mas o pior de tudo é que já estarão sem o espírito de criança, que lhes terá sido arrebatado. Seus corpos estarão animados e movidos apenas pelos espíritos demoníacos do crack, fornecido também por adultos degenerados. Não mais correrão, mas arrastarão os pés com olhos esbugalhados a procurar qualquer coisa roubável de um transeunte. O furto ou roubo será convertido em drogas, com as quais serão liquidados aos poucos. Suas gargalhadas não serão mais ouvidas atrás do carrinho de coleta. Terão se tornado crianças invisíveis, semimortas, graças à cegueira voluntária de nossa sociedade.
O Google é tão simpático que até quando ele erra feio a gente fica sem jeito de xingar. Estava eu editando uma apresentação de slides no Google Docs quando fui fazer o download para finalizá-lo no meu desktop e recebi isto: Espero que não signifique que a palestra que ministrarei AMANHÃ tenha se perdido para sempre... Ou vocês terão notícias do meu suicídio.
Quem quer que já tenha lecionado, ou ao menos frequentado uma sala de aula de ensino regular, já ouviu essa pergunta. Talvez a tenha feito, como eu mesmo fiz a dezenas de professores durante minha infância e adolescência.
A reação mais comum entre os professores é a de irritação. Afinal, como um aprendiz ousa desafiar o mestre com tal bravata? Ou então o professor responde com a indiferença e frieza de um algoz, que precisa ajustar o nó da forca e apenas puxar a alavanca do alçapão, materializando a sentença: "Porque está no currículo", "Porque cai no vestibular", "Porque cai na prova". Não sei qual é a resposta pior, mas o fato é que grande parte dos professores não refletem sobre a contextualidade, utilidade, aplicabilidade e significância do que ensina.
No ano passado um conhecido meu, professor de Matemática, desabafou comigo sobre o desinteresse dos seus alunos do Ensino Fundamental II. Naqueles meses o assunto era Geometria plana. Segundo ele, ninguém queria nada com nada a respeito dos seus formosos polígonos, arcos, ângulos e triângulos. Restava-lhe dar o conteúdo - verbo este que contesto, já que ele recebe dinheiro pelo trabalho - e após as provas constatar que ninguém aprendeu coisa alguma. Nenhuma novidade nisso, mas tampouco providência. Afinal meu amigo "fez a parte dele" (sob seu limitado ponto de vista) e foi o aluno que não cumpriu com sua cota-parte que, na mesma ótica, significa abrir sua própria caixa craniana para que a escola e o professor despejem os saberes no recipiente supostamente vazio.
Indaguei-o se não haveria outras maneiras de tornar o mesmo conteúdo mais interessante e mais real. Por exemplo - arrisquei - se ao invés de calcularem abstratamente arcos e cossenos, não poderiam fazer uma oficina de pipas, das mais simples às mais complexas, aplicando concretamente as teorias da Geometria. O mais legal depois seria testar na prática se o voo dos brinquedos dava bom resultado ou se deveriam voltar à prancheta. Ele disse ter achado interessante e até fez cara de surpreso, mas não me pareceu convencido. Depois disso ainda não falei com ele, mas temo que não tenha sequer testado minha despretensiosa sugestão e neste ano esteja repetindo as mesmas aulas, diante do mesmo apático quadro-negro para, daqui a uns meses, amargar as mesmas frustrações.
Um sobrinho meu, aluno de uma escola particular, manifesta algumas dificuldades de aprendizagem. Há prognósticos, a serem confirmados, de que ele seria disléxico em algum grau. No último ano letivo, após duas progressões anteriores quase forçadas pelo conselho de classe, decidiram em conjunto com os pais que ele deveria refazer o ano. Seu aproveitamento estava muito abaixo do esperado e não foram constatados progressos em seu desempenho individual. Lá está o garoto, às expensas suadas dos pais, refazendo o ano. O assunto foi bem conversado com ele, tanto dos porquês da decisão quanto das oportunidades que a repetição propiciaria. Porém, todos notam que ele tem um nível de criatividade e esperteza pronunciados em determinados contextos. É rápido e interessado em trabalhos manuais, construções de foguetes com bicarbonato de sódio, testes com produtos químicos e, aos doze anos, já se arrisca aos primeiros experimentos culinários mais simples, como preparar arroz. Opa! Então podemos concluir que ele não seja incapaz de aprender, mas ser possível que o quê tentam ensinar-lhe, da forma como o fazem, é que lhe sejam desinteressantes.
No colégio onde estuda - até por ser privado - há uma certa preocupação em manter a clientela e como incentivo neste ano meu sobrinho foi inscrito em um curso paralelo de Robótica. Foi o que você leu: o garoto repetente, de aparente indolência, que não se dá bem com as fórmulas da Física e da Química (ok, nem com o restante do currículo), está frequentando aulas especiais ao lado daqueles que almejam trabalhar na indústria aeroespacial ou quiçá na NASA. Achou absurdo? Agora perguntem sobre o estado de ânimo do garoto. Nesta semana, segundo minha irmã, o menino chegou em casa radiante. Disse que montou um protótipo de carro de corrida e que nas próximas aulas o professor vai explicar como motorizá-lo e estabelecer as regras e princípios necessários para movimentá-lo e dirigi-lo. Pelo menos nessa aula o menino não é mais o mesmo do ano passado, que ia e voltava do colégio arrastando os pés, a mochila e a alma carente. Está irreconhecível ao menos com relação à aula de Robótica.
O que quero dizer com tudo isso é que já passa da hora de ficarmos dando murro em ponta de faca querendo que nossas crianças de hoje achem as aulas compostas por giz e saliva algo interessante. Para mim, que na idade de meu sobrinho estava nos meados dos anos 70, as explanações monocórdias dos meus professores até podiam ser interessantes. Seus aventais de cores discretas e seus gizes de quatro ou cinco variedades de cores ainda eram mais atraentes do que nossa pálida TV e jornais em preto e branco. Mas hoje, sejamos sinceros, em tempos de Avatar 3D, internet, multimídia, DVD, com kits de física e química acessíveis e tanta coisa a explorar, qual é o aluno que não vai bocejar diante de um monólogo sobre capitanias hereditárias, sem sequer discutir o significado disso e sua herança sobre os dias de hoje? Até eu, meu caro amigo professor. Mas preste bem atenção: não estou falando de fazer as mesmas coisas do mesmo modo, usando roupagem diferente. De nada adiantam computadores, softwares de apresentação e projetores LCD se não envolverem os alunos com o lado concreto, realizador e prático do que está se tentando ensinar. É fazer diferente de fato.
É preciso repensar a contextualização e concretude dos conteúdos escolares. Claro que o questionamento estende-se à seleção do que se ensina na escola e esse "buraco" fica mais em cima, lá no MEC. Mas dentro do papel do professor, que às vezes é mesmo o de mero executor, pode-se fazer muita coisa de modo diferente e atraente. Aceite o desafio de tornar a aprendizagem mais significativa fazendo o ensino de maneiras mais interativas. Ouse! Pesquise, faça um projeto e o apresente à direção. Ninguém há de perder se os alunos forem mais estimulados e, por conseguinte, tiverem melhor desempenho. Pelo contrário: ganha o aluno, ganha o professor, ganha a escola.
Ganha mais ainda a sociedade, com pessoas mais críticas, mais capazes, mais éticas e mais realizadoras. Por ora ouçam a respeito as bordoadas poéticas de meu ídolo, Gabriel o Pensador. Aperte o play.
Por alguma razão sináptico-mnemônica, ontem à noite me lembrei de uma das mais bonitas canções de Taiguara. Por favor, antes de prosseguir, caso você esteja pensando se Taiguara é algum ser improdutivo que participou do BBB, faça um favor intelectual a si: leia aqui antes.
Não se culpe. Ocorre que a mídia conseguiu piorar a qualidade de modo vertiginoso e quem tem menos de trinta anos pode não ter tido muitas oportunidades de conhecê-lo. Podiam ter exibido a obra dele, ao invés desses programas inúteis e entorpecentes das consciências. Mas o homem se foi, porém sua obra permanece. Aproveite e pesquise.
Os versos dos quais lembrei foram esses:
"E que as crianças cantem livres sobre os muros e ensinem o sonho a quem não soube amar sem dor. E que o passado abra os presentes pro futuro que não dormiu e preparou o amanhecer."
Lindo, não? Assista também a uma antiquíssima apresentação dele. Tio Xavier também é curtura.
Decidi que a partir de amanhã vou deixar meu carro em casa. De agora em diante só de metrô. Que outro sistema de transporte no mundo oferece um programa chamado "Embarque melhor, com conforto e segurança" ? Só o metrô de São Paulo. Nunca antes na história deste país houve outro igual!
Só de ver a foto percebi que meu MP3, ar-condicionado e bancos anatômicos do meu carrinho popular são um pseudo-luxo, perto dessa beleza que é o transporte público paulistano. Vamos lá gente, de metrô! Sigam-me os bons!