Ir a Long Beach City, quando eu era molecão, já foi sinônimo de lazer. Com uma turma que incluía minha namorada, alugar uma kitchenete, pegar o busão na rodoviária, botar a mochila nas costas e para passar fins de semana no litoral paulista compunham uma boa estratégia para fugir da estressante soma trabalho + faculdade + militância política.
Não sei dizer ao certo qual era o maior atrativo da brincadeira. Mas penso que era uma combinação de ficar longe da casa dos pais, próximo de amigos e amigas queridas e, principalmente, ter a namorada ao lado para tomar banho, trepar e dormir junto sem pudores, não necessariamente nessa ordem. No cotidiano esse aconchego não era tão facilmente realizável. Mas nesses fins de semana construíamos uma área de proteção, sem tutela dos familiares, principalmente os das meninas, claro. Era um quase-amor-livre, embora monogâmico. Tudo bem, um beijo lá outro cá em outra amiga, que não era a namorada era até tolerado. Revezávamos entre o apartamento e a praia, dando prioridade absoluta para esta, onde salgávamos a pele bebíamos cerveja e caminhávamos falando besteira. Em suma, foi bom.
Mas como tudo passa e até a uva passa, hoje em dia não consigo achar graça em praia lotada e sol escaldante. A praia é a mesma, o Atlântico é o mesmo, o público é o mesmo. Tenho clareza de que a única variável que se alterou fui eu. Primeiro que nunca suportei de fato o sol. Sou branco como um esquimó e tenho olhos claros. Por isso a única forma de eu permanecer algum tempo em lugares ensolarados é justamente minimizar os efeitos do astro-rei sobre mim: protetor fator 290, óculos escuros, camiseta e guarda-sol. As águas agitadas e salgadas do mar, não me possibilitam nadar e me exercitar. As muvuca na praia, com profusão de barracas, vendedores que nos abordam sem parar, gente fazendo batucada e aparelhos sonoros tocando música de mau gosto também não me apetece. Em se tratando das praias mais popularescas sobrou alguma coisa? Não, né? Quem está sobrando sou eu e sei o que significa "retirada estratégica".
Na próxima vez em que a darling insistir em ir à praia, valendo-nos de nossa maturidade conjugal, combinaremos que ela e a cria vão e eu fico. Na categoria de lazer aquático, uma piscina, de preferência coberta, faz mais minha cabeça. Se for à noite então, melhor ainda!
SARCASMO, OPINIÃO E TALVEZ ALGUM HUMOR *** AVISO: Se você ler esse blog e for conhecido do Tio Xavier™, poderá se identificar com algum personagem das situações narradas. Esta não é uma obra de ficção. Portanto não terá sido mera coincidência. Tio Xavier™ está pouco se lixando para o que você vai achar. ***
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
sábado, 22 de janeiro de 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Prefeito Kassab libera atividade de gondoleiros
Devido ao estado de emergência da cidade de São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab decidiu liberar temporariamente a atividade de gondoleiros venezianos. "Não podemos dispensar nenhum tipo de alternativa de transporte durante essas calamidades" - disse o prefeito em recente entrevista.Muitos gondoleiros, estão recém-chegados em São Paulo devido à crise econômica que assola a Europa e viram como uma ótima oportunidade de garantir uns trocados, enquanto não conseguem emprego formal. Giuseppe Benatti (foto acima) não perdeu tempo e transportou vários paulistanos que acharam interessante.
A SPTrans já cogita credenciar os gondoleiros para linhas especiais no Jardim Romano (foto ao lado), bairro situado na zona leste da capital paulista, que tem muitas semelhanças com Veneza, na Itália.Por enquanto, de acordo com informações obtidas na Secretaria Municipal de Transportes, não há definição de tarifa para esse tipo de transporte, que deve ficar entre R$5 e R$7, pois parte do valor corresponde ao couvert artístico do gondoleiro já que eles costumam cantar durante o trajeto.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Isso diz alguma coisa?
Bilhetes como esse abaixo são vistos nas portas das casas de trabalhadores residentes no Complexo do Alemão, RJ. Para saber mais, leia em: http://migre.me/3x6aQ
Poucas coisas me parecem tão patéticas quanto o alvoroço e desespero que toma conta da maioria da população durante o mês de dezembro. Os centros comerciais transformam-se em verdadeiros infernos, isto é, para quem não gosta de multidão, nem de ser mal atendido e menos ainda do barulho a níveis condenáveis pela OMS. Está bem, eu admito: sou um tiozão chato mesmo! Ou apenas sinto que o desfrute do que há de melhor na vida não combina necessariamente com balbúrdia, mas está nas coisas mais singelas e, muitas vezes, no silêncio dos ollhares de pessoas que se amam. Voltando ao assunto inicial é conversando com as pessoas verificamos um jargão repetido, tão natural quanto irracionalmente: “Ah, é a correria de fim de ano!”. Correria? De onde diabos surgiu essa correria?
O ano civil está terminando. Por questões fiscais e contábeis, muitas empresas precisam calcular fechamentos e emitir balanços, relatórios e afins. Mas essas atividades normalmente se dão no foro fechado dos escritórios. Nada têm a ver com a multidão se trombando grosseiramente pelas ruas, com vias congestionadas e carros conduzidos por motoristas sem educação, que fazem da buzina sua válvula de escape para neuroses. Então, se não são os encerramentos contábeis, serão o menino Jesus e o Papai-Noel os culpados pela muvuca? Não, minha gente. O que faz as pessoas ficarem correndo feito idiotas pelas ruas não tem nada a ver com Jesus, nem com natal, nem com o velho Noel. É apenas uma conveniência criada pelo sistema de mercado capitalista. Ele apossou-se simbolicamente de diversas festividades e, mediante a propaganda de massa, passou a ditar normas para sua “correta” comemoração.
Portanto, o natal de Jesus e do velho bispo Nicolau, não tem nada a ver com amigo secreto da empresa, presentes caríssimos para as crianças, trocas de mimos ostensivos, compras para si, menos ainda com roupas exuberantes, panetones, perus ou banquetes dionísicos. Isso tudo constituem formas que o sistema de mercado e o capitalismo criaram para as pessoas torrarem o dinheiro que possuem e que não possuem para realizar a alegria. De quem? Dos empresários industriais, comerciais e, sobretudo, multiplicar a acumulação de capital dos banqueiros. Vou concluir meu raciocínio com uma opinião, que espero que minha caçula não venha a saber por enquanto: eu me lixo para os significados artificiais atribuídos ao dia 25 de dezembro! Não vejo sentido comemorar com tanto pieguismo o nascimento de Jesus nesta data, se foi apenas uma adaptação grosseira da efeméride romana do Sol Invictus, somada aos equívocos astronômicos e conveniências do calendário gregoriano. Pronto, falei. Mesmo assim, sem crise. Digamos que adotemos isso por conveniência. Será então que um casal de humildes migrantes palestinos, mal acomodados em um casebre, estábulo ou semelhante, cuidando de uma criança especial 2000 anos atrás, tem relação com shoppings entupidos, carros buzinando e pessoas arrastando sacolas e dívidas maiores do que elas próprias? Creio que não. Certamente a memória do nascimento de Jesus de Nazaré combinaria mais com uma pequena e também humilde reunião de família, no seu menor núcleo, para reflexão de como tem sido a vida e o que possa ser feito de bom no porvir. Quem sabe aos que tem fé, no sentido religioso, caiba também uma singela prece de agradecimento pela vida. Isso sim me pareceria natal. Sem buzinas, sem endividamento com os bancos, sem lojas lotadas, sem se entupir de gordura e carboidratos, sem encher a cara de álcool e falar merda (perdão pela palavra) para os convivas. Enfim, penso que o amor verdadeiro não faça alarde.
Mas paciência, nada podemos. Deixemos os ignorantes e alienados seguirem seu curso, como gado, entupindo as ruas comerciais, se endividando, buscando felicidade no artifício dos presentes cheios de pompa, mas vazios de sentido. Aviso aos navegantes: a família Xavier está saindo de fininho dessa, em especial, neste ano. Bom natal a todos! Cada um à sua moda.
domingo, 5 de dezembro de 2010
sábado, 4 de dezembro de 2010
SESC BELENZINHO: Acessibilidade social e ao deficiente
Para quem é da classe proletária, aprecia opções de lazer, cuidados com a saúde e cultura a preços simbólicos (ou grátis) e ainda mora na Zona Leste de Sampa - eu me enquadro em todas essas categorias -, a inauguração do SESC Belenzinho ocorrida hoje é uma notícia excelente.
Situado próximo da estação Belém do Metrô essa nova unidade do SESC mantém o atendimento ótimo que o caracteriza, mas também surpreende a cada passo pela evolução nas instalações. Se você quiser saber o que há nessa unidade, CLIQUE AQUI.
Entretanto, o que faço questão de ressaltar é a crescente atenção para com os deficientes. Comento aqui a questão dos deficientes visuais. Além da acessibilidade e legendas em código braille em quase todas as dependências, destaco aqui a biblioteca. É nela que as pessoas BV e as sem nenhuma visão encontrarão não só livros transcritos como essas lindas engenhocas abaixo:
Este é um equipamento ampliador. Pessoas com baixa visão conseguem aumentar a imagem e percorrer páginas de jornais, livros e revistas até proporções enormes, mediante um conjunto de controles com legendas tácteis, em alto relevo. Veja na foto que brinquedão espetacular! É fundamental para que pessoas com baixa acuracidade visual e que são alfabetizadas possam ler páginas em tinta, com o mesmo conforto que os videntes em geral.
Esse outro é mais arrojado. Não sei o nome mas até onde fucei constatei que é um scanner que faz dupla transliteração. Ele reconhece a escrita em tinta por tecnologia OCR e comunica o texto, tanto com um sintetizador de voz como em código braille, mediante um "monitor táctil" de uma linha, com pontos móveis. Esse monitor possibilita ao cego alfabetizado ler o texto em pontos braille. Sei que posso estar exigindo muito mas, conversando com uma funcionária, citei o fato de haver uma impressora braille no SESC Santana, sugerindo a ela que requisitasse uma, já que a instituição demonstra atitude inclusiva.
De qualquer maneira, só por esses dois itens que vi eu concedo ao SESC Belenzinho a honraria do "Certificado Xavier de Qualidade em Acessibilidade". Um belo exemplo para muitos outros estabelecimentos, inclusive para universidades, viu senhores reitores?
Situado próximo da estação Belém do Metrô essa nova unidade do SESC mantém o atendimento ótimo que o caracteriza, mas também surpreende a cada passo pela evolução nas instalações. Se você quiser saber o que há nessa unidade, CLIQUE AQUI.
Entretanto, o que faço questão de ressaltar é a crescente atenção para com os deficientes. Comento aqui a questão dos deficientes visuais. Além da acessibilidade e legendas em código braille em quase todas as dependências, destaco aqui a biblioteca. É nela que as pessoas BV e as sem nenhuma visão encontrarão não só livros transcritos como essas lindas engenhocas abaixo:
Este é um equipamento ampliador. Pessoas com baixa visão conseguem aumentar a imagem e percorrer páginas de jornais, livros e revistas até proporções enormes, mediante um conjunto de controles com legendas tácteis, em alto relevo. Veja na foto que brinquedão espetacular! É fundamental para que pessoas com baixa acuracidade visual e que são alfabetizadas possam ler páginas em tinta, com o mesmo conforto que os videntes em geral.
Esse outro é mais arrojado. Não sei o nome mas até onde fucei constatei que é um scanner que faz dupla transliteração. Ele reconhece a escrita em tinta por tecnologia OCR e comunica o texto, tanto com um sintetizador de voz como em código braille, mediante um "monitor táctil" de uma linha, com pontos móveis. Esse monitor possibilita ao cego alfabetizado ler o texto em pontos braille. Sei que posso estar exigindo muito mas, conversando com uma funcionária, citei o fato de haver uma impressora braille no SESC Santana, sugerindo a ela que requisitasse uma, já que a instituição demonstra atitude inclusiva.De qualquer maneira, só por esses dois itens que vi eu concedo ao SESC Belenzinho a honraria do "Certificado Xavier de Qualidade em Acessibilidade". Um belo exemplo para muitos outros estabelecimentos, inclusive para universidades, viu senhores reitores?
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Living without you - versão 2010
Oi senhor William! Sou eu de novo, lembra? Estou aqui para dizer que acabei de comprar um netbook da Acer. Pois é, da mesma marca de sempre. É que o custo-benefício faz deste um bom aparelho. Pode ser que, se eu tivesse mais grana, comprasse um Vaio, ou quem sabe um HP. Mas isso não vem ao caso. A Acer resolve bem as minhas necessidades e cobra pouco.
O que eu quero dizer pro senhor é que, como já era de se esperar, neste equipamento o sistema da sua empresa nem passou perto. Como ele veio sem sistema operacional fui direto instalando nele o Ubuntu 10.04. Rapaz, é show! A cada nova versão que instalo, fico mais surpreso com a compatibilidade e, sobretudo, a simplicidade para instalar. Afinal não sou técnico. Talvez eu seja só um pouco mais que um fuçador. Mas estou supersatisfeito. Tudo foi reconhecido de primeira sem que eu fizesse nenhuma intervenção: áudio, vídeo, teclas de funções especiais, touchpad, enfim um arraso!
Sinceramente, seu William, se o pessoal da sua empresa experimentar o Ubuntu 10.x, que além de ser ótimo é gratuito, creio que o senhor precisará muito mais do que bons cargos e salários para manter a fidelidade deles. Muitos, talvez, tornem-se técnicos autônomos e juntem-se ao projeto daquele doido do Linus Torvalds. Ou montem empresas para construir aplicativos para Linux.
Dos seus clientes, seu Gates, melhor nem falar que pode dar azar! Sei não. Se cuida, viu? Melhor o senhor ir lá ajudar as crianças pobres. Um abração pro senhor e pra família!
O que eu quero dizer pro senhor é que, como já era de se esperar, neste equipamento o sistema da sua empresa nem passou perto. Como ele veio sem sistema operacional fui direto instalando nele o Ubuntu 10.04. Rapaz, é show! A cada nova versão que instalo, fico mais surpreso com a compatibilidade e, sobretudo, a simplicidade para instalar. Afinal não sou técnico. Talvez eu seja só um pouco mais que um fuçador. Mas estou supersatisfeito. Tudo foi reconhecido de primeira sem que eu fizesse nenhuma intervenção: áudio, vídeo, teclas de funções especiais, touchpad, enfim um arraso!
Sinceramente, seu William, se o pessoal da sua empresa experimentar o Ubuntu 10.x, que além de ser ótimo é gratuito, creio que o senhor precisará muito mais do que bons cargos e salários para manter a fidelidade deles. Muitos, talvez, tornem-se técnicos autônomos e juntem-se ao projeto daquele doido do Linus Torvalds. Ou montem empresas para construir aplicativos para Linux.
Dos seus clientes, seu Gates, melhor nem falar que pode dar azar! Sei não. Se cuida, viu? Melhor o senhor ir lá ajudar as crianças pobres. Um abração pro senhor e pra família!
terça-feira, 2 de novembro de 2010
DE ONDE VOCÊ VÊ O MUNDO?
Se esta última eleição teve um palco novo este terá sido a internet. Na proporção em que ocorreram manifestações, em prol e contra candidatos, foi perceptível que as redes sociais tornaram-se veículos massivos e massificantes. Elas foram largamente utilizadas, tanto pelos quartéis dos candidatos quanto pelos eleitores. As tags #Dilma e #Serra inundaram os posts do microblog Twitter, o que não deixa de ser um bom sinal.
É diferente olhar o mundo do terreno onde as coisas acontecem, construindo uma leitura de mundo própria. Participar de comissões de fábrica, grupos de moradores, movimentos de reivindicação, sindicatos, comunidades de base e diretórios de partidos políticos propicia uma percepção diferente da sociedade e da política, distinta daquela de quem fica plantado diante da TV e do computador. Através das mídias de massas bebe-se de opinião alheia, tomando ideias de outrem para si. Nesta última perspectiva, o que vi na internet foram pessoas defendendo um e outro candidato tendo obtido suas opções do mesmo modo como se vai ao supermercado e escolhe entre o sabão A ou B. Isso não constroi consciências. Antes habitua a mente ao preguiçoso processo da repetição daquilo que é pasteurizado por máquinas de terceiros, como o copiar e colar, largamente utilizado na internet.
Mas essa espontaneidade e participação, independente dos candidatos em questão, careceu de uma certa concretude. Observando os posts viam-se pessoas aguerridas no teclado mas que, sabidamente, só terão conhecido na vida esse tipo de participação. Atribuo a culpa ao atual processo eleitoral, marcado pela alienação. As eleições eletrônicas, do modo como são feitas hoje, tiraram do cidadão o direito mais amplo e legítimo de manifestar sua indignação. Limitou o descontentamento aos estéreis votos branco, nulo e à abstenção. Quem quer tenha participado da apuração das saudosas cédulas de papel, constatou que o eleitor podia substituir seu voto por impropérios de toda sorte: contra o Governo, contra candidatos e contra o que bem entendesse. Era coisa corriqueira, em uma época em que o anonimato da cédula garantia que o manifestante não sofreria retaliação.
Por trás do avanço tecnológico, a higienização eleitoral também teve outras medidas que tiraram o debate das ruas. Um exemplo foi a proibição da boca-de-urna. A pretexto inclusive da sujeira de papel que fazia - e isso lá é verdade! - uma aguerrida militância foi subtraída das ruas nos dias de eleição. A boca-de-urna tradicionalmente era dividida em dois grupos: de um lado militantes voluntários, que geralmente participavam de organizações de oposição ao regime; de outro os cabos eleitorais pagos, movidos pela necessidade de levar um dinheiro extra para casa. Era uma tremenda oportunidade de dialogar com o eleitor e até mesmo de cooptar pessoas politicamente. Saudável mesmo que às vezes algum tipo de confusão mais acalorada ocorresse. Em dia de eleição não era raro ver, após o horário de almoço, boqueiros pagos abandonarem seus postos em prol de candidatos em que acreditavam, trocando de panfleto a distribuir, a despeito e para desespero dos seus coordenadores, também pagos.
É diferente olhar o mundo do terreno onde as coisas acontecem, construindo uma leitura de mundo própria. Participar de comissões de fábrica, grupos de moradores, movimentos de reivindicação, sindicatos, comunidades de base e diretórios de partidos políticos propicia uma percepção diferente da sociedade e da política, distinta daquela de quem fica plantado diante da TV e do computador. Através das mídias de massas bebe-se de opinião alheia, tomando ideias de outrem para si. Nesta última perspectiva, o que vi na internet foram pessoas defendendo um e outro candidato tendo obtido suas opções do mesmo modo como se vai ao supermercado e escolhe entre o sabão A ou B. Isso não constroi consciências. Antes habitua a mente ao preguiçoso processo da repetição daquilo que é pasteurizado por máquinas de terceiros, como o copiar e colar, largamente utilizado na internet. A alienação política de hoje se dá em uma dinâmica na qual o eleitor é chamado apenas a referendar o que um reduzido número de protagonistas determina. Lamento dizer, mas não tem sentido nem valor em si se alguémpensa estar participando de algo, quando está apenas passando procuração. Se você quiser tomar parte, vá a um movimento social ver o que ocorre; auxilie um serviço assistencial e aprenda quais são as suas dificuldades estruturais; experimente visitar um acampamento de pessoas sem moradia ou então acompanhar um movimento de greve por melhores condições de trabalho e salário. Você vai perceber rapidamente que na política não há anjos puros nem demônios absolutos, de nenhum dos lados. Mas também perceberá por quais opções políticas a população organizada pode avançar, em prol de melhores condições de vida, sobretudo para aqueles que mais necessitam, e também quais caminhos propiciam mais justiça social e distribuição de renda.
domingo, 31 de outubro de 2010
O tempo que se chama hoje
Imagens falam mais que as palavras. Cai a ditadura assassina e vendilhona, apodrecida e decrépita: nasce um novo tempo.
É com muito orgulho que digo que estive lá.
Aperte o play sem medo: som na caixa, DJ!
Aperte o play sem medo: som na caixa, DJ!
domingo, 24 de outubro de 2010
Missionários da Torre de Vigia
Sábado, dez e meia da madrugada. O tio ia saindo com a cria para ir ao colégio onde somos voluntários na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Eu já estava destrancando a porta quando a campainha tocou. A propósito eu odeio campainha, sabem? Em mais de uma residência eu cheguei a adaptar um botão para desabilitar a campainha. Que saco! Se você for à minha casa, suponho que telefonará previamente e combinará, certo? Assim estarei esperando. Então para que serve campainha? Para chatos, pedintes e toda sorte de pessoas que não deviam estar consumindo recursos naturais tocarem e torrar minha paciência. Mas voltemos aos visitantes matinais do sábado.
A moça, mais perdida do que cachorro em dia de mudança, olhou para o pai, olhou pra mim e esticou o folheto:
Eram testemunhas de Jeová. Mais chato do que receber a estes na porta, só mesmo vendedores de carnê do Sílvio Santos. Uma jovem, de aparentes vinte e poucos anos (e 140Kg) acompanhada de seu pai. Este um tiozinho com cara de boa gente, mais um pobre bebê no carrinho, com menos de 1 ano a acompanhar a árdua missão de pentelh..., digo, transformar o mundo em testemunhas do tal Jeová. Abri a porta rápido, já fazendo questão de demonstrar a pressa de sair. Essa é uma técnica razoável de dizer "cacete, que saco, vocês aqui?". E já começou a funcionar, pois o simpático pai da hipop... - melhor dizendo, jovem - disse algo que demonstrou sua aguçada percepção. Eis a moça:
- Bom dia senhor, vou ser rápida. Não é sobre religião. É só um folheto sobre a Bíblia, o senhor aceita?
- Aceitar aceito, mas a Bíblia não trata de assunto religioso?
- Bem... ahn... bom... Não é de uma religião específica: é de todas.
- Todas? Espera aí. A Bíblia é dos judeus e dos cristãos, que são religiões específicas, certo?
- Não moço! Todas as religiões seguem a Bíblia.
- Nananana... alto lá! Eu estive com um cliente nessa semana e ele me deu um livro chamado Bhagavad Gita. E ele me disse que são as escrituras dos hindus me garantindo que não segue a Bíblia de vocês.
- Ah é? - olhando para o pai a pedir socorro - Eu não sabia.
- Então é bom saber. E tenho um amigo que é muçulmano. Ele me mostrou "um tal" de Alcorão. Achei bacana também. Ele disse que segue o Alcorão.
- Ah, moço, não sei não. Mas a Bíblia é um livro sagrado, né?
- Eles me disseram o mesmo. O que me deu o Bhagavad Gita pediu que eu tratasse o livro com carinho e respeito, porque eles consideram escritos sagrados. Aliás, o amigo do Alcorão nem deixou eu tocar o livro. Do que presumo que há vários livros considerados sagrados pela humanidade.
A moça, mais perdida do que cachorro em dia de mudança, olhou para o pai, olhou pra mim e esticou o folheto:
- O senhor aceita este folheto?
- Claro. Obrigado.
Eu já ia abrindo o portão para tirar o carro e os dois se despediram desejando-me um bom passeio. Era o que restava, depois de perceberem que precisavam voltar às lições da escolinha das testemunhas.
Eu sidivirtu. Nada como a boa e velha maiêutica para dar conta desses chatos.
sábado, 18 de setembro de 2010
Notícias de última hora
A redação do Sem Sentido presta um serviço a você, que não tem tempo de ler longas reportagens. Aí vai um clipping das principais chamadas e comentários exclusivos do tio.
Ibope: Mesmo com crise, Dilma mantém 51%; Serra tem 25%
DIRETO DO ESTADÃO
Ibope: Mesmo com crise, Dilma mantém 51%; Serra tem 25%
"Mesmo com crise", nesse caso, se refere a quem? Com 25% das preferências...
Comissão de Ética só agora pune Erenice por esconder parentes
Marta e Netinho continuam na liderança pelo Senado em SP
Comissão de Ética só agora pune Erenice por esconder parentes
Como punição, ela terá agora que conviver com eles.
Mineiros presos em jazida registram entrada de perfuradora
Buttman e Brasileirinhas disputam os direitos da filmagem.
Goleiro Bruno teria tentado se matar 'várias vezes' na prisão, diz Macarrão
Ele jamais conseguirá se matar "várias vezes". Se conseguir, será uma só.
OAB-SP pede retirada de obra polêmica da Bienal
Nos desenhos, o autor aparece assassinando FHC e Lula. Advogados acham que os presidentes são feios demais e assustam visitantes.
DIRETO DA FOLHA
O destino prega peças: a Oscar Freire e a Cohab de Carapicuíba juntinhos.
Nasa apresenta mapa completo de crateras lunares
Isso é fácil. Quero ver eles documentarem as crateras das ruas paulistanas.
Mineiros presos no Chile ajudarão em seu próprio resgate
Uau! Quando tudo indicava que eles nem estivessem interessados no assunto.
Ban Ki-moon aposta em ajuda inteligente para erradicar pobreza
Inteligência pra quê? Pobreza se erradica com trabalho remunerado, comida e moradia.
Yom Kippur deixa ruas de Israel vazias em dia sagrado para o judaísmo
Judeus estão com medo de encontrar seus devedores, justo no dia do perdão.
Sri Lanka reduz a 25 número de mortos em explosão acidental
Expectativa é de que até o fim das apurações não haja mais nenhum morto.
Bento XVI admite "vergonha e a humilhação" em relação às vítimas de padres pedófilos
Padres pedófilos teriam reclamado que as vítimas xingam quando os vêem nas ruas.
Kevin Costner fará show com sua banda no interior de São Paulo em novembro
Espero sinceramente que seja a 500Km da capital.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Apelo ao público
Eu preciso disso. Doravante não me será mais possível viver sem isso. Não sei como o mundo funcionou antes sem isso e não imagino mais como hei de continuar a carregar toneladas de livros e apostilas na mochila, prejudicando minha velha coluna vertebral, já que inventaram isso.
Por favor, a quem possa interessar ganhar pontos no céu com o God: Compre um exemplar e presenteie o Tio Xavier. Está sendo vendido na Amazon.com. Saiba que o Senhor não te abandonará nunca.
Por favor, a quem possa interessar ganhar pontos no céu com o God: Compre um exemplar e presenteie o Tio Xavier. Está sendo vendido na Amazon.com. Saiba que o Senhor não te abandonará nunca.
Obrigado desde já à alma caridosa que o fizer.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Sem memória, sem história

Dia desses uma amiga muito querida me telefonou. Dizia estar na sacada externa da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, situada ao lado da praça da Sé, em São Paulo. Lembrou-me das tantas vezes em que nós, nas sacadas internas, confidenciávamos nossas angústias, descobertas e reflexões. Éramos jovens e sonhadores estudantes da faculdade Nossa Senhora da Assunção - ligada à atual UNIFAI - cujo curso noturno, bacharelado em Filosofia e Teologia, funcionava nas salas anexas cedidas.
Naquele tempo saltava-nos aos olhos o requinte do estilo daquela igreja. Construção estilosa, algo entre o barroco e o arcaico, a obra é do séc. XVIII e guarda verdadeiros tesouros históricos. Entre eles uma cripta subterrânea, onde eram sepultados membros notáveis da ordem. Lamentavelmente, entre outras desgraças, no meio do século passado o espaço foi invadido por ladrões, que saquearam os túmulos. Deixaram as ossadas em tal anarquia, de sorte que aquelas que não foram reclamadas por descendentes e herdeiros, foram amontoadas pela zeladoria em uma urna comum, ao centro da cripta. História violada, espalhada e, pior: abandonada por alguns que não foram lá dar conta dos próprios ascendentes.
De volta ao templo, um enorme afresco se insinuava no teto côncavo, preciosidade esta que foi revelada durante uma das restaurações. E pensar que aquelas estátuas, a linguagem subliminar dos contornos, o próprio piso e, por fim, o afresco no teto haviam sido para gerações uma fonte de mensagens, quase como o que é hoje o cinema. Nesse tipo de arte, nada era fruto do acaso, mas tinha objetivo de transmitir mensagens, com formas e cores meticulosamente pensadas.
Contudo, essas lembranças que eu trouxe aqui são recheadas de tristeza. Minha amiga, naquele telefonema, me disse que tudo estava novamente despencando. Madeiras carcomidas por cupins, rachaduras e infiltrações por toda parte, de tal modo que o prédio encontrava-se mais uma vez interditado, como fora por tantas vezes. Na narrativa da amiga professora, a relíquia arquitetônica e cultural tombada pelo Estado parecia pedir socorro, em nome de sua própria história, em nome da história dos escravos que a erigiram, em nome da história de cada um que por lá passou, inclusive a dela e a minha. Meus olhos se encheram de lágrimas, inclusive agora quando escrevo isto. Mas o ser humano, entorpecido pelas maravilhas consumíveis do mundo moderno, pouca importância dá à História. E, ao ignorarmos esta, seguimos cambaleantes para lugares e tempos que ninguém sabe onde e como serão. Pobre povo que não preserva sua história. Sem passado, vive sem identidade e sem identidade tem futuro incerto.
A Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo foi tombada pelo IPHAN, em 04/12/92.
sábado, 14 de agosto de 2010
Pandora (não é o filme)
A indústria da Informática é proficiente na criação, produção em escala e no esforço por entupir nossas casas de apetrechos eletrônicos "essenciais". O problema residual é que esses lançamentos vão esvaziando nossos bolsos e enchendo os abarrotados lixões de mimos descartados, por sua planejada obsolescência.
Pensando nas questões educacionais, que hoje passam pela disseminação das tecnologias da informação e comunicação (TICs), vira e mexe eu procuro saber de projetos e lançamentos a respeito de computadores populares. Não que a informática vá resolver a educação, longe disso. Mas defendo com unhas e dentes que não é mais possível praticar a educação sem utilizar também o suporte digital. E tenho dito!
Pois vejam o brinquedinho que encontrei esses dias. O Pandora parece um híbrido (adjetivo carinhoso para Frankestein), composto de carroceria de Nintendo DS, turbinada com teclado qwerty de 43 teclas, alguns parcos recursos de netbook, rodando uma versão enxuta (mas gráfica!) do sistema operacional Linux. Mas tem Wi-Fi®, navegador web, Bluetooth® e USB. Gostchei!

Já pensou isso na sala de aula usando o Google Docs?

O último status do projeto, em maio deste ano, era de que o envio aos clientes das primeiras unidades produzidas já teria iniciado. No site, os empreendedores avisam claramente que o pagamento é antecipado, obviamente porque nenhum capitalista os está patrocinando. Já entrei em contato com a rapaziada aí ao lado e estou aguardando informações. Quem sabe não será o sonhado computador de U$100 para colocarmos nas mãos dos alunos?
Para saber mais: http://www.openpandora.org/ (em Inglês)
sábado, 24 de julho de 2010
Não se culpe mais
Todo mundo que dirige, alguma vez já vez uma barbeiragem: ralou o carro no muro de casa, na garagem do prédio, no portão, em outro carro e até coisas mais graves. Enfim é para isso que o carro tem lata e as montadoras aperfeiçoam os itens de sobrevivência. E tem um lado social: os pintores e restauradores não perdem seus empregos.
Para você não ficar aí se culpando e se martirizando por esses pequenos danos, inerentes à responsabilidade de dirigir, veja o que essa pessoa conseguiu fazer no vilarejo de Liguria, norte da Itália:

Esclareço, para efeito estatístico, que foi uma mulher de 34 anos.
sábado, 3 de julho de 2010
Agora que a copa acabou...

Pessoal, a selecinha perdeu, o Dunga e seus anões estão cantando "♫eu vou, eu vou♫, pra casa agora eu vou♫" só que eles estão com as contas pagas e a barriga cheia. Apenas ganharão um pouco menos de milhares de dólares. Até Das Kapital está defecando para os canarinhos, os bacalhauzinhos ou os negrões de Gana. Patrocinadores bilionários hão de achar outros filões para exporem suas marcas e os tontos saírem correndo a comprar seus produtos caríssimos, só porque são "renomados" (pelos seus próprios donos, claro). Há um mundo bem melhor, eu sempre digo.
Porém, enquanto isso, aqui mesmo em Pindorama, nossos irmãos estão escavando lamaçais em ruínas de armazéns à procura de qualquer alimento ou água engarrafada que seja possível salvar da sujeira, da tifo e da leptospirose, sabe pessoal? Seres humanos que até há poucas semanas tinham casa, fogão e cama para dormir estão no relento, sem teto, sem proteção e sem higiene alguma.

Vamos manter (ou recolocar) as bandeiras brasileiras nos carros, mas desta vez para levar alimentos, roupas, remédios e produtos de higiene nos postos de arrecadação? Vamos lá, gente! Essa o Brasil pode ganhar fácil.




A esperança deles geralmente morre por último: pobre povo.
EM TEMPO: CONVERSANDO COM A DEFESA CIVIL HOJE (03/07) RECEBI A RECOMENDAÇÃO DE QUE SEJAM DOADOS ALIMENTOS DURÁVEIS E CONSUMÍVEIS DE IMEDIATO (ENLATADOS, BISCOITOS), MATERIAIS DE HIGIENE BÁSICOS (SABONETES, CREME DENTAL e ESCOVAS, PAPEL HIGIÊNICO, FRALDAS DESCARTÁVEIS) E PROFILÁTICOS DE USO EXTERNO (CURATIVOS, MERTHIOLATE, ÁGUA OXIGENADA, ALGODÃO).
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Eu quero um
Esse é mais um mimo da minha lista de coisas essenciais e vitais, das quais eu não sabia a existência até há poucos segundos. Eu quero, eu preciso, eu não posso viver sem um.
Com vocês, senhoras e senhores, o CARRO-AVIÃO. Em 30 segundos o bólido abre as asas e o motorista pode ganhar os céus. E o mais legal: lá em cima não tem radar fotográfico da CET.
Esses americanos...
Foto: Terrafugia / Último Segundo - IG

Só não dá pra bobear com o combustível, ok?
domingo, 27 de junho de 2010
No terreiro da concorrência
Poucas coisas atestam tanta incompetência e falta de criatividade quanto copiar estratégias de outrem sem questioná-las. Já faz tempo que parte dos membros da Igreja Católica demonstram estar sem rumo e perplexos diante do esvaziamento de algumas atividades, enquanto "as concorrentes" abrem filiais imensas, quase que por semana.
Após o sufocamento do movimento da Teologia da Libertação há duas décadas, movimento este que propunha uma prática de fé mais politizada e engajada na transformação social, o que ocorreu foi o reflorescimento de movimentos direitistas, incluindo até um tal de Arautos do Evangelho, sabidamente viúvas da TFP de Plínio Correia de Oliveira, o suprassumo do facismo cristianizado no Brasil. Sem falar que outros, dos quais nem ouvíamos notícias mais, como a Opus Dei mas, gradualmente, vão dando os ares na base de fiéis.
Em rota distinta, porém mantendo crescimento, vê-se a Renovação Carismática Católica (RCC), movimento neopentecostalista que hoje comanda um pequeno império de comunicação, do qual o empreendimento "Rede Canção Nova" aglutina emissoras de TV, concessões de rádio e um sem-número de editoras e publicações. A RCC, se não conta com a simpatia extrema do Cardeal Ratzinger, atual papa, também não é execrada por este, parte pelo poder econômico e político que ela possui no meio católico e, por outro lado porque não é tão questionadora das estruturas hierárquicas, como foi a Teologia da Libertação.
Quem sabe esse assunto nem seja mais da minha conta, posto que deixei de ser católico há tempos. Mas me entristece ver que seres humanos de boa vontade e índole valiosa podem estar sendo orientados por gente que não tem nada a dizer e, em última análise, almejam somente a preservação de seu status. Deve ser a respeito desses que Jesus teria falado sobre os guias cegos.
O mais bizarro de tudo isso é a penetração que a linguagem neopentecostalista da RCC tem realizado entre os católicos. O cartaz ao lado parece ter sido arrancado de alguma porta da Igreja Universal de Edir Macedo. Mas eu fotografei na porta de uma paróquia católica na capital paulista. Se a seita de Edir Macedo chega aos limites do grotesco pelos descarregos, desobsessões, sessões e campanhas diárias contra os demônios, a respeito dos quais alegam quase a onipresença, pior ainda é quando a falta de linha pastoral faz com que comunidades religiosas sérias copiem esse tipo de marketing religioso embusteiro e paupérrimo. Podiam ao menos estudar um pouco de Teologia e mesmo de História para tentar fazer obras mais embasadas e, quem sabe até, menos ridículas.
Que me desculpem aqueles que se sentirem ofendidos pelo exposto. Não é minha intenção a ofensa jamais. Mas a Igreja Católica é um meio social onde tenho muitos amigos e pessoas estimadas que, porém, estão sendo conduzidas ao abismo da alienação por guias cegos. Contra fotos não há argumentos, parafraseio sem medo...
sábado, 19 de junho de 2010
Sala 304
Ontem foi uma noite singular nos meus três anos mais recentes. Foi o último dia de comparecimento em minha graduação em Pedagogia. Foi uma dádiva da darling que, tendo acesso a duas bolsas de graduação, adiantou-se em ceder uma para mim e outra para meu sorrateiro e sábio enteado. Podendo escolher qualquer curso da universidade, exceto Medicina (para a qual não tenho a menor vocação), optei pela Pedagogia. Em parte, devido a um voluntariado na Educação de Jovens e Adultos (EJA), na qual eu militava pouco antes, e para o qual senti que devia me capacitar melhor. Mas o curso acabou me reavivando das cinzas a fênix de um projeto antigo, do qual eu me esquivara há duas décadas, que era uma possível carreira acadêmica. Agora, picado novamente pelo mosquito do estudo, tratarei de me matricular no lato sensu para o próximo semestre, aproveitando o movimento inercial. Concluo meu curso satisfeito. Se não fiz mais nele foi por absoluta impossibilidade, já que meus papéis sociais somados me exigem um desdobramento inimaginável. Mas fiz sim o meu melhor que, sem falsa modéstia, foi melhor em absoluto do que a maioria dos meus contemporâneos de lá.

Embora eu cursasse sem pagar mensalidades, a empreitada me custou muito alto: tanto em dinheiro direto - mensalidade é apenas parte dos gastos em um curso universitário - quanto em capital pessoal. Do alto dos meus quarenta e tantos anos tenho a percepção de que o tempo é nosso bem mais escasso e que nossa dedicação a algo nos consome esse tempo que nunca mais recuperamos. Por isso nunca consegui disfarçar minha irritação em todas as vezes nas quais foi dificultoso o simples ato de ouvir a fala de um professor (cerca de 90% do tempo), dado o desinteresse e desrespeito coletivo das moçoilas da turma a tagarelar, de modo estridente, sobre qualquer assunto alheio à aula. Continua incompreensível para mim que pessoas saiam de suas casas ou trabalhos, enfrentem congestionamentos ou conduções lotadas, submetam seus estômagos à junk food dos arredores e subtraiam preciosas horas do convívio familiar ou do lazer, para passar de qualquer maneira por um curso universitário.
Penso que um curso superior, ainda mais em educação, seja algo tão importante quanto incompatível com comportamentos desrespeitosos dentro de uma sala de aula, que foi o que mais presenciei. Tendo frequentado outrora dois outros cursos superiores, foi neste último que encontrei as posturas mais inadequadas, considerando que as pessoas que lá se graduaram foram licenciadas para o ensino. Sem falar em plágio, trabalhos comprados ou tomados de terceiros e toda sorte de subterfúgios apenas para não fazer o mais razoável, que seria estudar e se capacitar. Perdoe-me a minoria que de fato tenha levado a sério. Mas cabe ressaltar que é minoria mesmo, não passando muito de um décimo da turma. Surpreendeu-se? Eu não mais.
Voltando a ontem, na última sala ocupada pela turma - a de nº 304 do prédio - havia festinha com comes, bebes e uma alegria incontida. As moças e jovens senhoras concluintes fantasiaram-se, tocaram cornetas e apitos corredor afora e tiraram centenas de fotos que já devem estar nos perfis do Orkut. Mostravam em suas faces uma sensação de alívio invejável. Pena que esse alívio não tenha sido uma explosão de realização por um trabalho dedicado e extenuante. No fundo foi alívio por ter acesso a um diploma e não ter mais que ir àquelas “porcarias de aulas”, não ter mais que fazer as “porcarias de trabalhos”, não ter mais que ler as “porcarias de textos” e, enfim, não ter mais que fazer o mínimo paupérrimo que a maioria delas fez, apenas para obter conceitos mínimos para aprovação e um mero pedaço de papel. Infelizmente este papel teoricamente as credencia a pleitear um cargo de... professora! Mas o que terá para ensinar alguém que não tem prazer em aprender? Como poderão ensinar a estudar, sendo isto algo que pouco ou mal fizeram? O que terão para dizer às crianças, adolescentes e jovens, sobre o bem intrínseco do conhecimento, pessoas que não o descobriram ou até rejeitam-no?

Essas são as professoras que poderão estar em escolas públicas e particulares fingindo educar. Volto a dizer que essa minha observação não se aplica à totalidade dos que lá estiveram, posto haver meia dúzia contada de colegas que realmente se dedicaram, buscando se tornar pessoas melhores. Mas em uma sala com quase sessenta alunos... e o “resto”? Bem, o “resto”, meus caros três ou quatro leitores, perpetuará a geração média, mediana e medíocre que está aí. Tanto as que conseguirem vagas como “professorinhas” - ou então “tias” - como aquelas que pendurarão os diplomas em cima dos seus fogões domésticos ou nas baias de seus subempregos, apenas para engordar as estatísticas de diplomados incapazes do que consta em seus diplomas. Uma pena...
Foi por tudo isso a minha falta de sorriso, fuga das máquinas fotográficas e minha visível recusa em participar da animada festa. De pouquíssimos de lá levarei boas recordações. São Paulo Freire rogai por nós!
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