sábado, 29 de setembro de 2007

O futuro da Educação - Parte II

Hoje tive uma conversa virtual via chat com um professor que sequer conheço e nem sei se o conhecerei. Nada espantoso, a não ser pelo fato de ele ser um dos atuais professores do tio. Ocorre que a universidade onde o tio estuda, para algumas matérias, aderiu ao novo modal de ensino: o Ensino à Distância - EAD - como é chamado lá. A regra é clara - já diria Arnaldo César Coelho - e reza que o aluno deve acessar periodicamente uma tal plataforma de estudos pela internet. E rachar de estudar, no melhor da auto-didática. Uma lenda conta que os acessos ao tal ambiente virtual são computados, para validar freqüência do aluno. Cabe também ao aluno copiar ou ler as matérias e posteriormente entregar, via plataforma, os trabalhos solicitados pelo professor através de uma lista de tarefas e prazos. Coisas da mudérrnidade. Até o momento, nessas matérias em formato EAD, só as provas são presenciais. Minha vidência tecnológica prevê que é só uma questão de tempo para que os exames passem a ser à distância, monitorados por webcam e os chats digitados sejam substituídos por visualizações ao vivo entre professores e alunos, com direito à voz e até acesso remoto mútuo entre os computadores. Não há de demorar.

O encontro virtual de hoje era obrigatório para toda a turma. O objetivo era bem simples: o professor iria tirar as dúvidas do aluno (tio) e das alunas, acerca de quatro dos textos que estavam à disposição há semanas. Consideremos que, por tirar dúvidas entendo algo assim: 1) o conteúdo é de conhecimento prévio das partes; 2) ao docente virtual cabe responder às perguntas formuladas pelos alunos, que já teriam lido o texto. Correto? Há controvérsias. Para contextualizar o assunto de hoje, a matéria é Antropologia Cultural. Abaixo tentarei reproduzir algumas questões, posto que não consegui em tempo copiar e salvar todo o encontro. Junto de cada uma pus o comentário que mereceria em tempo real.

* * * /openchat

[Professor Fulano]:
- Boa tarde pessoal. Bem vindos ao nosso encontro. Podem começar a expôr as dúvidas.

[Aluna 349830843098]:
- Pro, o que é Antropologia?

É um troço que você deveria ter lido há quatro semanas e consultado no dicionário, isto é, se não fosse analfabeta.

[Aluna 879793497974]:
- Aproveitando o gancho da colega, o que é Cultural, pro?

É um aspecto que não existe em sua formação de fã de axé e telespectadora do Gugu Liberato.

[Professor Fulano]:
- Ok gente (...) - quase pude ouvir um suspiro dele - Antropologia é o estudo de... blá blá blá blá blá...

[Aluna 632632992377]:
- Pro, uma colega tá ligando pra mim falando que não consegue entrar na plataforma. O que eu digo pra ela fazer?

Pega o mouse e enf... (deixa pra lá).

[Professor Fulano]:
- Rezar.

[Aluna 632632992377]:
- Rezar? - pausa para cair a ficha - Ahahahahahaha agora entendi ahahahahahahah. Ê pro...

Surpreende neste caso a capacidade de sinapse, ainda que com efeito retardado.

[Aluna 349830843098]:
- Então Antropologia é 'tipo assim' uma ideologia?

Deve ser. Desde que você me explique o que é uma ideologia, sua jumenta.

[Professor Fulano]:
- Absolutamente não.

[Aluna 349830843098]:
- Não? Então é o que?

Leia o texto vinte vezes e não me encha o saco com perguntas tão básicas.

[Aluna 728347329404]:
- Pro, pra quê que a gente tem que estudar Antropologia, se a gente não vai lecionar pra índios?

Pra entender como é que uma família iletrada como a sua envia uma anta como você à universidade.

* * * /closechat

Esta última o professor certamente fingiu não ler, talvez enquanto rezava - ele sim - para que o encontro terminasse logo. Houve gente que chegou a comentar que as aulas EAD deveriam ser em sala de aula. Putz, então não seria EAD. Uma outra falou que é muito difícil estudar sozinha, que ela não tem paciência de ler. Que cazzo de professora vai se formar, já assumindo que não gosta de ler? Outra colega disse no chat que é difícil ficar clicando e lendo as matérias online. Detalhe à parte é que a ditinha tem perfil no Orkut e, pelo que pude investigar, é ativa e assídua freqüentadora do site de relacionamento, onde posta e lê com afinco.

Me recuso a transcrever mais do besteirol que rolou no chat. Foram eternos sessenta minutos com aberrações ortográficas e desconstruções gramaticais que a meninada escrevia. Confundiam a plataforma da universidade com o bate-papo da candinha.com, tais eram a informalidade e os vícios do new-idioma internetês. Se após os primeiros cinco minutos eu já anseava pelo término, fico imaginando o pobre e decepcionado professor. É assustador saber que algumas universitárias sequer sabem redigir uma pergunta objetiva. Quanto menos respostas tais.

E assim caminha a Humanidade. Rezem para suas divindades para que elas iluminem as mentes dessas pessoas, antes de elas se habilitarem ao Ensino.

Enquanto isso, Paulo Freire dá cambalhotas no túmulo.

O futuro da Educação - Parte I

É a primeira vez, acho, que escrevo um texto e já o intitulo como "Parte I" antes de conceber a segunda parte. O que me motivou a esta audaciosa iniciativa literária nunca antes vista, foi a sucessão de fatos que observei esta semana na turma acadêmica do tio. Daria até para escrever uma nova versão do Febeapá.

Primeiro, recordemos que o tio é um recente universitário de Pedagogia. Tardio talvez, mas aí é outro assunto. Relembro a todos também que a minha turma é composta de setenta e duas mulheres e o tio. Dito isso, vamos aos fatos.

Na sala de aula existe um aparelho de TV que fica fixo acima da lousa. Serve obviamente para apresentações de multimídia e audiovisuais. Mas em nenhum lugar está escrito que deva servir só para isso. Por essa razão, o tio tratou de descobrir os meandros necessários para ligar o aparelho. E em alguns minutos, poucos antes da aula, lá estava o SPTV sendo exibido diante da turma. Ingenuamente julguei que a turma apreciaria assistir a um noticiário antes dos estudos.

Mas surge o problema principal: seria possível ouvir algo se as setenta e duas matracas ao menos abaixassem o tom de voz. Deus do céu, onde é que as mulheres arranjam tanto assunto? E por que falam tão alto? Se não consegue abstrair a ordem de grandeza do absurdo volume da fala feminina em minha sala, isso pode ser expresso pela equação abaixo.

Onde:
CTF = Capacidade Total de Fala
FI = Fala Individual (em dB)
ETS = Espaço Total da Sala (em m³)

Considere uma variável generosa de 3dB para FI. Mas lembre que uma mulher, na verdade, produz cerca de 10dB (se estiver calma). Para calcular a área da sala, multiplique A x L x C em metros lineares. A do tio deve ter aproximadamente 3,5m x 10m x 15m, o que dá 510m³. A CTF da turma nesse caso é de 3 multiplicado por 10 elevado à 72ª potência, divididos por 510. Eu bem que tentei fazer isso na planilha de cálculo mas estourou. E se os números estouram as células, imaginem o que aquelas vozes esganiçadas fazem com os refinados tímpanos do tio. Para os ruins de cálculo dou outro exemplo mais direto: um pregão de bolsa de valores dominado por fêmeas. Em suma, um horror.

O Carlos Tramontina da Globo anunciava as matérias do noticiário. Com um esforço inédito de leitura labial e interpretação de imagens, identifiquei que as três principais reportagens estavam relacionadas de algum modo com o Ensino. A primeira sobre um vazamento de gás em uma escola. A segunda de uma garota que teria esfaqueado a colega dentro da sala de aula. A terceira acerca da greve dos professores municipais de Sampa. Eureka, pensei. Já sei como hei de obter silêncio.

- Aí meninas: vejam o que as espera. Viram a violência na sala de aula? Olha lá greve dos professores municipais - meu tom e minha expressão eram as de um pregoeiro público - .

Diante dos olhares de interrogação, apontei a TV. E deu certo. Silêncio. Só que eu gostaria que o silêncio durasse mais do que os dez segundos que durou. No décimo-primeiro segundo lá estavam de novo as sete dezenas de tagarelas falando sobre o último lançamento da Natura®, a nova fio-dental da De Millus® e que fulana da turma de Letras, tinha ido pro motel com beltrano de Comércio Exterior. Toca o pobre tio tentar ler os lábios das pessoas do telejornal, praticamente em vão. Até que chegou a professora e desliguei o aparelho. Agora vem a cena dois.

Nove horas da noite - habitual horário do intervalo - e uma colega inspirada pela iniciativa do tio corre ligar a TV. Hora da novela. Essa da Globo, que acabou ontem ou hoje. Adivinhem se havia algum som de voz além obviamente das vozes dos atores da novela. Não fosse o som do televisor poderíamos identificar o sexo de uma mosca pela freqüência do bater das asas.

Vejam que tipo de professoras estão se formando lá. E o que o pobre tio tem que agüentar. Daqui a alguns anos elas estarão se candidatando a postos de professoras nas escolas públicas e particulares da cidade. Espero que eu não me depare com nenhuma, onde algum de meus filhos vá estudar.

Mas não pára por aí. Tem mais.

Ps.: Santo Expedito aceita devolução?

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Clique aqui, anda logo

É espantoso descobrirmos por quanto tempo os usuários da Informática estiveram na caverna, acorrentados e assistindo às sombras em lugar da vida.

Não perderei tempo explicando o mais novo recurso do Google Docs. Agora prepare sua mente e seus olhos.

Preparado? Então clique AQUI.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Sacaneando com a Telefônica

O Fernando, um cliente muito gente boa, me mandou uma seleção de tiradinhas - e colocadinhas - que todos podem fazer quando estiverem com saco cheio dessa empresa escrota que é a Telefônica. Não requer prática nem tampouco habilidade. Qualquer um pode fazer de sua própria casa ou até do trabalho. Dentre as tantas, esta foi eleita pelo tio a the best.

Ps.: Este blog requer um mínimo de cultura para ser lido.
Se você não assistiu a "Cidade de Deus" não faça perguntas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Como melhorar a umidade do seu ambiente

A umidade relativa do ar está em percentuais alarmantemente baixos. A CETESB anda falando em 11% aqui em Sampa, o que é absurdo e tem conseqüências respiratórias funestas. O tio mesmo andava mal, com uma tosse chatérrima aos finais de tarde. Fora os lindos olhos azuis-esverdeados do tio, que lacrimejavam como cachoeiras ao simples ler de uma página escrita.

Mas meus problemas acabaram-se. Após exaustivos estudos técnicos e uma extensa pesquisa científica, na última segunda-feira cheguei ao protótipo final de um experimento revolucionário e de baixíssimo custo, que modificará para sempre a qualidade do ar no cubículo 2m x 1,5m que abriga a multinacional do tio. Faça você mesmo.

Lista de materiais:

1 botija cerâmica, dessas que o povo do interior ainda usa para armazenar água. Você há de achá-la por vinte reais em qualquer casa de quinquilharias. Se é que não tenha uma no seu sótão ou na casa da sua avó para você afanar.

1 aquecedor elétrico para aquários (recomendável de 10W). Encontrável em qualquer petshop por menos de dez reais.

Modo de fazer:

Siga estreita e minuciosamente esses procedimentos, sob pena de o artefato não funcionar e você continuar com seus problemas respiratórios. WMO*, de Goiânia, não o fez corretamente e foi acometido de gravíssimos problemas pulmonares, tendo ido à óbito na semana retrasada. MMS* de Belo Horizonte, cometeu alguns erros e a sogra dela veio morar definitivamente em sua casa. Por isso avalie cada passo dessas complicadas instruções.

1) Encha a botija com água até o gargalo.

2) Coloque a botija em um canto, o mais próximo possível de uma tomada elétrica.

3) Insira com cuidado o aquecedor dentro do recipiente, deixando chegar até o fundo e obviamente o fio elétrico para fora.

4) Verifique a voltagem do aquecedor e da tomada em questão; só ligue se forem compatíveis.

5) Após ligar, feche as janelas e portas do recinto, para que ocorra uma primeira umidificação no ambiente. Uma boa idéia é fazer isso à noite.

6) Esse processo inicial pode durar umas oito horas e depois disso você já notará a diferença na qualidade do ar. Já poderá abrir a janela normalmente.

7) Procure não deixar a porta e a janela abertas simultaneamente pois a ventilação poderá drenar a umidade criada com tanto trabalho. Ou um ou outro.

8) Verifique com freqüência o nível da botija e mantenha-a cheia até o máximo possível. Evite que a água desça até o nível do aquecedor, pois este poderá se danificar irremediavelmente.

Ps.: Deixe o recipiente sempre destampado. Senão como o vapor há de sair de lá de dentro? Dãããããã.

Registros técnicos:

A evaporação, para a relação 10W de aquecimento x 1,5 litros de água é de aproximadamente 200ml por dia, segundo apontamentos do tio. Ou seja, você terá que repor um copo de água por dia, para manter a botija cheia. Se me lembro um pouco das aulas de Física do ginásio, o volume gerado calcula-se: 0,200 x 10³ = 200 m³ de vapor. Não sei o que significa isso em percentual de umidade aqui no cubículo, mas o ar está deveras agradável graças também à porta ser mantida fechada.

Até então, torço para que o fumante da sala da frente mude-se em breve para o Haiti ou Soweto, ou mesmo faleça de asfixia nas próximas semanas.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Leiden: você ainda não conhece?

Na faixa litorânea da Holanda, com Amsterdã ao norte e Roterdã ao sul, existe um pequeno pedaço de céu na terra, incrivelmente sob tutela do que chamam de civilização humana. Trata-se de Leiden, uma pequena localidade onde mora uma amiga virtual do tio.

Els Vink é uma vovozinha agora com seus sessenta e cinco anos. O tio conheceu há uns três anos, em um dia de ócio, usando o compartilhador de músicas online. Na época era o WinMx, que consta estar extinto. Veja só as inusitadas oportunidades que a internet nos propicia. Ao detectar um usuário "puxando" uma música dentre as compartilhadas do tio, iniciou-se um bate-papo despretensioso, com ambos querendo saber quem está do outro lado do universo cibernético. Demorados alguns minutos, dado domínio escasso do idioma inglês de ambos, conseguimos nos identificar. Do lado de cá, o tio. Lá na Holanda, em uma casa linda, florida e sutil em cada detalhe de arrumação e zelo, estava a senhora Els, que vagava na internet após o almoço. Tocamos os msn´s e passamos a nos comunicar com certa freqüência.

Dessa troca de músicas - sinceramente as músicas holandesas me parecem estranhas - e de conversas à toa pelo Msn, surgiu uma interessante amizade virtual. A tia de lá mora com o marido aposentado e tem uma vidinha hiperpacata. Digna de inveja por nós, que vivemos em meio à violência, à custa do estresse, das horas pouco e mal dormidas e dos inúmeros sacrifícios que fazemos em busca de um lugar ao sol. Sol este que bate durante o dia todo, durante a primavera e o verão na casa de Els. Aí está um dos tantos lados bons da internet: acrescentei uns pontos a mais nos meus miseráveis conhecimentos de Geografia e a tia Els aprendeu que na MPB tem muito mais do que "The girl of Ipanema", até então a única canção brasileira da qual ela me disse ter ouvido falar. Se querem saber, depois da amizade com o tio até Ed Mota e Jorge Benjor a tia Els está curtindo.

Finalmente conheça um pouco desse pedaço do Éden encravado na Holanda. Veja essas fotos que tia Els me enviou no fim-de-semana. E faço um desafio: ache uma garrafa pet boiando no riacho, uma lata de cerveja no chão, uma sacola de supermercado ao vento ou mesmo o carro de um idiota, com porta-malas aberto tocando funk no último volume. Quem achar ganha um vale-brinde.

Leiden - Holland

Ps.: A tia Els podia me adotar. Vou checar essa possibilidade.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Independence day

Um sábio professor do tio disse uma coisa que, se na ocasião deixou-me incomodado, hoje se me ressente como uma facada de verdade no fígado. Ele disse que uma das razões de o Brasil ser esta mesmice burra é o fato de o processo de descolonização de Portugal ter sido feito sem uma gota de sangue. Fato é que, dentro da sua perspectiva extrativista e predadora, Portugal já havia praticamente esgotado seu divertimento aqui em Pindorama, quando ocorreu a tal "independência" (aspas propositais).

O que foi a proclamação da independência senão uma reunião de barões burocratas, com um jovem fidalgo nada chegado às obrigações da realeza? Jovem esse - vale dizer - muito mais chegado aos tragos nas bodegas e aos agrados das senhoritas gentis, do que aos deveres de um dirigente político. Não houve mais nada, senhores. O pomposo afresco de Pedro Américo que ilustra o seu xará no alto de um morro, erguendo a espada e cercado de cavaleiros autonomistas, nada tem a ver com o conchavão de elite que afastou a família real do Brasil. A verdade é que os portugas da corôa lusa jamais gostaram desta terra selvagem, quente e povoada por silvícolas peladões. É de se concluir facilmente que, dentre os nobres que para cá vinham, a maioria tenha sido composta de estafetas reais falidos, endividados e desapropriados de suas moradias, cujos destinos e cargos destinados se originavam de castigo real. É mais ou menos como hoje ser nomeado para um posto de secretário adjunto de assuntos diplomáticos no Acre, para ganhar mil reais e trabalhar na divisa com a Bolívia, sem ar-condicionado, sem parabólica, sem internet e sem repelente de mosquitos.

Por isso entre as histórias bizarras que se contam dos nobres portugas acá aportados, sobram narrativas de mulheres de muitos homens, fidalgos efeminados e gente com pouca sanidade ou nenhuma clareza intelectual. Se houve um retrato realista desse período, terá sido sim o pintado por Walcyr Carrasco na novela Xica da Silva. Condes falidos, condessas endividadas e libidinosas e capatazes do terceiro escalão, que vinham fazer pavão aqui desfilando de liteira. Alguns até arrecadavam fundos para supostas obras de caridade, que na verdade tinham por únicos beneficiários a si próprios. Mais real do que Walcyr Carrasco, só mesmo o rei.

Mas voltando à independência do Brasil, enquanto se ressalta a maravilha de o brasileiro ser um povo pacífico, do bem e que não aprecia contendas, eu lamento exatamente pelas mesmas características. Posso traduzir pacífico como acomodado e do bem como vassalo. Aqui as divindades do Olimpo são bem diferentes das imaginadas pelos gregos. Passividade é filha de Comodismo, Pacifismo casado com a Preguiça e Benevolência irmã de Desestima. Tudo é bem-vindo, tudo está bom, tudo fica bem. As poucas histórias de bravura que aqui ocorreram, se não foram deveras provincianas como Canudos ou específicas demais como as greves no ABC paulista, foram atos impetuosos de indivíduos que raramente conseguiram arrastar massas. Ou de mártires que se negaram ao confronto e foram assassinados covardemente. As massas preferem mesmo os botecos, onde enchem a cara ou as igrejas onde clamam para que Deus dê hoje o pedaço de pão com bromato e o leite tipo C que lhes cabe. Muito pouco para um país tão grande, tão rico em natureza, tão fértil e tão abençoado em sua geografia exuberante. Penso que esta beleza toda da Terra Brasilis seja mais digna de um povo mais ativo, mais convicto e mais impetuoso do que os acomodados brazucas. Quem sabe os muçulmanos do Oriente Médio ou os vietinamitas?

sábado, 1 de setembro de 2007

Profissões em extinção

Há um tempo atrás eu bloguei sobre o Dimas, a quem considero um personagem interessante, do mundo dos técnicos em aparelhos eletrônicos. Você que não leu ou não lembra, clique aqui antes de ler o restante deste tópico. (Pausa...) Já leu? Então vamos em frente.

Há três ou quatro semanas entreguei aos cuidados do Dimas um aparelho de som. Trata-se de um quatro-em-um da Philips, modelo AS465, bem antigo mesmo. Deve ter uns quinze anos de concepção. O AS465 já é contemporâneo do CD e possui uma unidade para tal, só que também preserva duas funcionalidades que me inclinaram a comprá-lo há uns onze anos: o sonoro possui um toca-discos e dois tape-decks.

Aos leitores mais jovens explico que toca-discos é um aparato capaz de ler discos de vinil de cinco ou doze polegadas de diâmetro, cuja música vem gravada em sulcos espirais. O disco de vinil é análogo ao CD, só que é antepassado dele e usa uma agulha de leitura, ao invés de feixe de laser. Sem saudosismo, há características de fidelidade e amplitude na reprodução sonora do vinil, que até agora não foram conseguidas pelos seus sucessores digitais. Mas isso é uma longa discussão. A respeito dos tape-decks não me alongarei, até porque nunca achei aquilo fantástico em qualidade. Meu AS465 é cuidadosamente preservado e reparado, quando necessário, sobretudo porque eu o uso como tocador quando vou digitalizar gravações analógicas.

Voltando ao Dimas, eu havia pedido que ele trocasse a cápsula do toca-discos, que era meio chinfrim, por uma magnética, que eu mesmo forneci. Dimas, já cansado e sem a destreza dos tempos passados, atualmente costuma demorar muitos dias para fazer certas coisas, que antes fazia de um dia para outro. Mas esse não é de longe seu maior problema hoje. Eu havia pedido também que comprasse uma agulha diamantada decente para instalar na cápsula. E quem disse que ele conseguiu achar a dita? De jeito algum. Quando eu fui buscar o aparelho, ele todo sem jeito pediu-me desculpas pelo insucesso parcial, avisando que não iria cobrar o serviço. Declinei à oferta dele de não cobrar e no fim ele aceitou receber ao menos a metade do valor. Visivelmente chateado, mostrou-me uma pilha enorme de aparelhos que incluíam televisores, CD players, rádios e outros tantos, todos nem tão antigos. De cada um ele sabe o defeito exato e o componente que é necessário trocar. Mas não consegue concluir seus feitos, porque o mercado não tem mais peças. Trabalho perdido, pois ele não se permite cobrar serviços incompletos. Nem mesmo a tal "taxa de orçamento", que alguns praticam no mercado. Ele acha que é desonestidade.

O fato é que Dimas dá mostras de que as suas dificuldades financeiras se avolumam, proporcionais à pilha de serviços não concluídos por inexistência de peças. Implacável, o aluguel da garagem que ocupa não leva isso em conta e idem com a necessidade de alimentar a si e à mulher. Segundo me disse, ele pressente que está na hora de encerrar a carreira. E sabe-se lá viver do quê. Dimas é dos últimos de uma competente geração de profissionais. Mas a idade avançada, a saúde não tão viçosa e algumas manobras não feitas no passado o impediram de reinventar sua profissão. Isso mesmo: reinventar-se é necessário. A Natureza nos ensina isso com a adaptação as espécies. Pobres de nós quando não o conseguimos. Pobre Dimas, que não adaptou sua profissão aos novos tempos. Torço por ele para que ainda tenha forças para tentar e consiga. E para que não tarde a fazê-lo.

E você, já reinventou sua profissão hoje? Fique esperto.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Dia de faxina

A questão de qual é o melhor dia para faxina no barraco do tio já rendeu discussões dignas de um concílio romano. Divergências de percepção. Penso que, já que mal ficamos em casa nos dias úteis, a faxina devesse ser feita na segunda-feira garantindo uma casa arrumada e limpa por toda a semana. A darling acha que quanto mais próximo do fim-de-semana melhor. Controvérsias à parte, minha bronca é que sábados e domingos são os dias de maior uso da casa, recepção de visitas, etc., de forma que o resultado da faxina mal dura o fim-de-semana. E somos obrigado a dar retoques. Mas o celeuma doméstico já me dura dez anos e não me custa tentar mais dez. Hei de vencer.

O que me surpreende mesmo - acho até que já falei disso aqui - é o constante absenteísmo das faxineiras. Lembremos que a maioria delas é diarista e autônoma. Então a relação é muito simples: não trabalhou não recebe. Mesmo assim hoje, por exemplo, o tio recebeu um telefonema e ouviu da dita-cuja algo como: "óia, hoje eu num vô pudê í, purque morreu o Josvaldilço, que é primo-irmão do meu marido e nóis vamu nu velóriu". Duas semanas atrás morreu a Wandysneide, filha do ex-padrasto da cunhada da prima. Da outra vez foi a Diocrezilda, que era comadre da irmã dela. Nesses WO´s que ela dá o nosso inconveniente é que na véspera da esperada limpeza semanal, lhe deixamos comida extra na geladeira, guardamos todas as peças de roupa espalhadas, batemos roupa na máquina pra passar, usamos a secadora pra acelerar o processo. Tudo isso para nada. Nem ela pra limpar, nem a irmã dela que passa nossas roupas comparece.

Andei fazendo estatísticas desses falecimentos em massa e concluí que nada explica o crescimento populacional da categoria diarista e dos seus pares (os pedreiros, alétissistas e encanadores). Só mesmo a altíssima taxa de natalidade. Fiz uma lista dos falecidos dela do ano passado até a metade deste. Concluí que ela, o marido e os filhos, estão praticamente órfãos de qualquer tipo de parente. Todos morrem em série a cada semana. No quintal onde ela mora, que outrora reunia dez moradias com irmãos, irmãs, seus cônjuges e filhos, podem ser vistas bolas de feno rolando e janelas batendo sempre que venta. Uma verdadeira cidade fantasma de faroeste.

Quero ir para um hotel fazenda. Mas que aceite cheque pré.

Momento junk food

Porta de faculdade é um paraíso da informalidade e da livre-iniciativa do setor alimentício. Onde estou estudando, quando se chega a uma quadra e meia de distância, tem-se a sensação de andar por uma feira em Xangai ou na Chinatown do filme Blade Runner. Só que sem o charme hollywoodiano e no lugar dos neons há lampiões de gás e lâmpadas incandescentes. Tá bom e eu não sou nenhum Harrison Ford. São carrinhos, barracas, vans, carros de passeio com porta-malas adaptados, tudo dando mostras de criatividade sem-limite, quando o assunto é obter um sustento honesto, de carona na fome dos estudantes.

As opções gastronômicas são inúmeras. Vão dos tradicionais sanduíches, passando por pastéis, mini-pizzas, tapiocas e chega até a pratos elaborados como yakissoba e macarronada tradicional. Tudo pode ser levado para viagem ou ser consumido no local, seja em pé, seja nos banquinhos plásticos que abarrotam as calçadas. Essa balbúrdia toda não me parece algo ruim por si só, pois na minha passagem anterior pela mesma faculdade há uns oito ou nove anos, não havia quase nada disponível para interromper o ronco do estômago. Só uns poucos pioneiros dos quais enjoávamos na terceira semana de aula.

Hoje como a oferta é abundante em quantidade e diversidade, os empreendedores dos mata-fome curvam-se às leis do mercado e procuram diferenciais para atrair e fidelizar a clientela rotativa. Aí é que a coisa começa ficar apavorante. Ontem parei em um dos pontos de venda e vi que se tratava de um comerciante de cachorro-quente. Li um cartaz que era um cardápio-tabela e não acreditei. Jamais imaginei ser possível fazer vinte e duas variações de um simples pão com salsicha. Você não tem idéia da diversidade: com uma ou duas salsichas e com molho ou sem molho eram os triviais. Mas as combinações possíveis incluíam até quatro-queijos, adição de "calabresa processada" (tenho medo de imaginar o que significa) e saladas das mais diversas, além dos diferentes tipos de pães. Enfastiado pela múltipla escolha decidi pedir um simples, tradicional e objetivo cheeseburguer. Um hambúrguer com queijo, no meio de um pãozinho e nada mais. De preferência pão francês porque esses pães industrializados esfarelentos não me atraem. Simples, certo? Não lá.

- Certo tio, um xisburgui. Ou superdoguiburgui?

- Super o quê?

- É uma novidade da casa (sic). Um rotidógui com tudo que tem direito e no meio ainda vai um hambugui picadinho espalhado. No capricho tio.

Faço um esforço pra disfarçar a náusea e reforço o pedido:

- Por favor. Um cheeseburguer o mais simples possível no pão francês.

Enquanto o cara fritava o meu hambúrguer eu tentava esquecer a gororoba ofertada por ele. Um hambúrguer estraçalhado no meio de um pão com salsicha, coberto por outros cento e trinta ingredientes definitivamente não me parece algo apetecedor.

Algo está me dizendo para eu trazer uma marmitinha extra de casa e jantar no escritório antes de ir pra aula.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

O Ministério da Saúde adverte

Cerca de um ano atrás, na sala da frente de minha choupana comercial, ocorreu um fato pra lá de bizarro. Eu estava de porta fechada e trabalhando quietinho, quando ouvi uma intensa discussão que vinha da sala da frente. Pelas vozes, tratava-se de um certo ser que é senhorio deste inquilino, juntamente com o advogado que ocupa a outra sala. Depois de um certo desenrolar, adicionou-se ao furdunço o pai do tal proprietário. A discussão, que já começara pesada se incendiou graças ao teor etílico em que o ator principal se encontrava.

Tudo me faz crer que no início se tratavam de negócios mal resolvidos. Ambos os debatedores são advogados e têm uma estranha sociedade que nunca entendi muito bem, nem me interesso em tal. O cachaçado-mór goza de meros quarenta e dois anos de vida. Já o segundo se me parece estar na casa dos sessenta ou bem próximo. Só que afetado também pelos vícios é o que chamaríamos de "sessenta com carinha de noventa".

Logo após o princípio da discussão, comecei a ouvir barulho de móveis sendo quebrados, estante de livros indo para o chão, monitor de computador se espatifando e coisinhas básicas assim, enquanto o protagonista do quebra-quebra grunhia têrmos ininteligíveis em tom de ofensa. Em seguida chega o terceiro personagem, este com seus setenta e três anos. Pelo tom de voz e poucas coisas compreensíveis no meio da gritaria, o velho parecia tentar demover o filho de agredir o outro advogado. E em algum momento percebi que o pacificador estava se convertendo na segunda vítima, ou prestes a tornar-se. Aí não deu mais para continuar a fingir-me de surdo. O imperativo ético tomou conta de mim. Levantei-me e corri até o cenário do pampeiro.

Mal abri a porta do recinto e vi que já se parecia com escombros do Iraque, e por pouco não conseguia reter uma cadeira que seria atirada nos dois corôas. O mais velho tentava ser escudo-vivo de modo que viraria alvo do objeto. Mas interrompi a empreitada antes de a cadeira ser levantada o suficiente. Puxada a cadeira, o agressor também foi ao chão, tal era o teôr alcoólico. Tentou uma segunda vez, ao mesmo tempo em que fazia menção de me afastar da cena, dizendo ainda que eu não tinha nada com aquilo e blá, blá, blás com a língua enrolada pela bebida.

Diante do absurdo disparate de um cara de quarenta anos prestes a agredir o próprio pai e outro idoso, falei com voz firme e em tom baixo que na minha presença aquilo não havia de se concretizar. O bebum insistiu para que eu me afastasse e ouviu de mim que não agredisse o próprio pai e que antes de machucar dois idosos teria que me enfrentar.

A presepada não durou pouco. Mas finalmente ainda estonteado o dito-cujo desceu as escadas vomitando impropérios indecifráveis - talvez até contra mim - mas se mandou. Dos sobreviventes, mandei o mais velho pra casa e o menos velho aproveitar o vácuo pra tirar uns dias de folga.

Só dei de cara com o pinguço quebrador de móveis dias depois. Cumprimentei-o e ele retribuiu, agindo como se nada tivesse acontecido. Agora o que não consigo entender é o pai do sujeito. O tiozinho nunca mais falou comigo. Não que eu queira agradecimentos, jamais. Fi-lo apenas pela minha consciência. Mas daí a ele me encontrar na rua e fingir que não me viu, sinceramente é um mistério.

Coisas dos seres humanos. Não sei como fui consentir me reencarnar nessa espécie maluca. Quero voltar pro meu planeta de origem.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Agradeço a Santo Expedito

Resolvi retomar um antigo projeto pessoal. Somei com uma chance de ouro que pintou e voltei à faculdade. Desta vez, dane-se concluir a Administração. Só ia me servir pra botar no currículo e pedir emprego para algum crápula capitalista que me usurparia a mais-valia. Isso faço eu. Vão à merda. Já descobri formas de ganhar dinheiro honesto e legal, sem ter chefe. E não pretendo retroceder.

Como se trata de uma segunda carreira optei por Pedagogia. As questões do Ensino e da Educação me atraem de longa data. Isso foi reforçado por um trabalho de educação de jovens e adultos onde eu estive voluntariando como instrutor de Informática. Não tenho ao certo onde essa formação me conduzirá, mas como não estou na dependência dela, isso não está em minhas preocupações. Só farei de tudo para que não me leve a uma sala-de-aula, mal remunerado diante de filhos alheios mal-educados. Enfim, serei um Pedagogo e, como eu já disse, é algo pessoal. Mas não é esse o ponto da discussão. Tenho planos nisso tudo, mas não são da vossa conta.

Ontem, primeira noite de aula, entrei discreto e silencioso na sala, mais preocupado em demarcar meu assento do que qualquer outra coisa. Sentei-me e abri um livro que estou lendo, sem tomar o menor conhecimento do ruidoso entôrno. Foi quando me apareceu uma jovenzinha muito da graciosa e, digamos assim, de compleição física bastante saudável e agradável aos olhos masculinos, se é que me entendem. Pára diante de mim, junto com uma outra, com traços e porte diferentes, mas igualmente bonita:

- Você é o tio Xavier?

- Sou, mas como você sabe?

- Somos do comitê de boas-vindas.

- Uau, e agora tem isso por aqui? Mas primeiro você me conta como sabe que eu sou o tio?

- Como?

As duas riem que só elas. E a segunda moçoila continua:

- Bem-vindo ao seu harém, tio!

- Harém? Como assim?

- Ué, você é o único homem da sala. Só tem você pra toda essa mulherada - e segue um aplauso da turma que deve ter sido ensaiado - .

Fiquei vermelho, verde, roxo e cor-de-abóbora. Mas não perdi a estribeira:

- Puxa vida, eu não sabia. Então ele existe.

- Ele quem?

- Deus. E eu não sabia que ele gostava tanto de mim.

Seguiram-se mais risadas femininas em profusão.

Enfim, lá estou eu. São setenta e uma mulheres e o tio. Por um momento posso me sentir o mais sexy, o mais atraente, o mais bonito e mais cobiçável tio da sala. Começo a ver os monopólios com outros olhos.

Agradeço a Santo Expedito pela graça alcançada. Hei de passar os meus três melhores anos de estudo na vida. Aliás, com licença que preciso fechar o escritório e ir para a facu.

domingo, 12 de agosto de 2007

Filhão

Dia dos pais e recebo telefonema de um dos meus filhos, que mora em outro município. Garoto, com doze anos, durante um longo papo me conta as novidades e coisinhas do cotidiano. Entre uma e outra eu aproveito pra exortar o menino sobre coisas que eu acho que lhe ajudarão no futuro:

- Então filho, aproveita e estuda bastante, viu?

- Eu tô estudando sim, pai.

- Que bom, filho. Mas sabe o que mais você pode fazer?

- O quê?

- Você pode ajudar os colegas com dificuldades. E cada vez que você ajuda um colega, você na verdade está aprendendo mais ainda.

- Ah, mas isso eu já faço pai.

- Que legal, filhão. E como tá sendo?

- Tô ganhando uma grana.

- Grana? Como assim?

- É pai. Já tenho dois clientes.

- Clientes?

- É pai. Olha só: eu ajudo eles. Mas eu cobro, manja? É tipo um negócio, que eu montei lá na escola.

- Claro que entendi. Que meninão inteligente você é, filhote. Bela idéia.

Esse faz juz ao sobrenome.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Elton John defende o fim da internet

Em entrevista ao tablóide londrino The Sun, o cantor inglês Elton Pretensioso John pediu o fechamento da internet, pois a rede estaria acabando com a indústria musical. Notícia original AQUI.

Não obstante o tiozão ainda conclama: "Saiamos às ruas, marchemos e façamos protestos, em vez de nos sentarmos em casa e entrarmos em blogs".

O último disco do músico, The Captain & The Kid, vendeu apenas 100 mil cópias. O músico culpa os downloads pelo mico comercial. Entenda que - na insuspeita opinião dele - não é porque as músicas dele estão um pé-no-saco, mas sim por culpa da internet. Do alto de sua modéstia, ele deve imaginar que outros quinze milhões de cópias foram baixados pela galera na internet. Só que eu mesmo não conheço ninguém que tenha baixado o álbum do chatonildo. Aliás, nem sabia que tinha álbum recente dele.

Então, caro amigo, você viu o que Sir John disse: feche agora esta janela e vá às ruas pedir o fim da internet. Ouvi dizer inclusive que ele contratou o João Dória prá organizar a passeata.

Tu já foi bem melhor, hein merrmão?

Azelite Inresponçáviu

Vejam que lindo. Essa é a gentalha rica em grana, pobre de espírito e paupérrima de respeito. Talvez seja a mesma que paga o João Dória para organizar passeatas ridículas no estilo "Basta", "Cansay", desfiles de cachorrinhos e coisas assim.

Este primeiro vídeo mostra o senhorito José Bonifácio de Oliveira (Boninho) divertindo-se a jogar ovos nos carros e transeuntes da avenida abaixo de sua suntuosa sacada.



Neste outro tem uma seqüência inqualificável. Primeiro a çossialáiti Narciza Vagabundeguy se orgulha dos feitos. É bem provável que esteja sob efeito das drogas que consome, importadas dos morros cheios da gentalha fedida e bandida, como ela deve pensar. Depois o Bruno Bichateaubriôco, declara ter jogado uma garrafa vazia e uma vassoura. Vai saber o que ele teria feito com ambos antes de jogar. O avô - paraibano e comedor - deve dar saltos mortais no caixão, por razões diversas. No elenco também Luíza Jobim e João Eduardo Brizola. Vejam vocês mesmos.



Sou mais a educação dos cinco filhos do vigilante da minha rua. Exemplares, por sinal.

sábado, 4 de agosto de 2007

Ófissina braziu

Essa eu não perdôo. Primeiro já explico de quem estou falando: as lojas da Oficina Brasil são umas que geralmente ficam em anexos nos estacionamentos do Carrefour e Extra. São reparadores de suspensão, alinhamento e balanceamento de veículos. Costumam se situar nesses supermercados mantendo convênio com os mesmos. Quando o cliente compra alguma peça no supermercado, principalmente pneus, ganha di grátis o alinhamento de direção e balanceamento das rodas. Excelente, a não ser pela postura desonesta de alguns, como da loja que fica no Carrefour da Vila Maria em Sampa. Mais pilantras hão de nascer.

O tio foi no dito supermercado e comprou uns pneus. E lá estava o cartaz enorme: "Compre pneus aqui e ganhe a montagem, o alinhamento e o balanceamento". Opa - pensei eu - boa porque os pneus Zimbutzkatz* estão em oferta. E economizarei uma graninha por conta dos serviços. Certo? Errado. Olhe bem o que ocorre quando se chega a loja e fique esperto.

Depois de o tio cliente decidir qual pneu ia pro estepe, que os novos iam na dianteira e tal, os caras foram lá pra montar os pneus nas rodas. Aí um gaiato chama o tio do lado do carro, ainda suspenso no elevador, e balança a roda da frente com a mão:

- Ó tio, tá vendo aqui?

- Hum.

- Então, quando a gente dá uma forçada, vê aí que o amortecedor e a mola se mexem.

- Tá.

- Cê viu, né?

- Vi.

Aí o caboclo vai lá pra montagem, chama o gerente da loja coçam a cabeça, anotam aqui e acolá. Um vai até o carro e volta pra rodinha de especialistas. Desta vez é o gerente da loja que vem até a mim:

- Então tio, o cara mostrou lá como tá a frente né? - e nem me deixa responder sacando um imenso orçamento - Amortecedor, mola, bucha, mancal, arruela, rebimboca*, parafuseta*, grampola* - a lista parecia sem fim - fica tudo em quatrocentos e tantos reais. Beleza?

- Beleza o quê?

- Pode fazer?

- Não.

- A gente parcela pro sinhô.

- Obrigado. Se precisasse eu teria dinheiro pra pagar à vista.

- À vista a gente dá um descontinho. Claro.

- Olha aqui mizinfio. Todo esse conjunto que você condenou tem pouco mais de três meses de uso. Todos originais e com garantia. Comprei com nota fiscal, em uma loja que tem mais de trinta anos. As peças foram trocadas na oficina do meu tio, que trabalhou em três montadoras. Então vamos ser práticos. Se é que tivesse algo a trocar, tudo estaria na garantia. Mas por ora acho melhor você providenciar a montagem e o alinhamento da direção.

- Mas não compensa fazer o alinhamento assim. Tá tudo desregulado. Se quiser a gente até alinha, mas vai descompensar tudo depois. Seus pneus vão comer torto, as borrachas vão rachar, etc., etc., e tal - ele só faltou falar que um vírus desconhecido até pela McAfee e a Microsoft iria infectar a central de comando do carro, meu rádio ia travar tocando axé no último volume e a buzina ia tocar la cucaracha sempre que eu passasse na frente de um hospital - .

Os pilantras montaram rapidinho e desceram o carro. Disseram que eu tinha trinta dias para voltar e fazer o alinhamento, assim que eu resolvesse os mil e quatrocentos problemas da suspensão dianteira.

Puto da vida com a cara de pau dos picaretas, disse que voltaria depois pra fazer o alinhamento e me mandei. Hoje cedo parei em um prestador do bairro onde o tio mora e o cara fez todo o serviço de regulagem: alinhamento, balanceamento, cambagem e cáster (correção do adiantamento de uma roda em relação à outra). Por quanto? Quanto? Quarenta reais. O carro tá redondinho e já dei um pinote com ele na expressa perto de casa. Resultado: solto as mãos do volante e zero de desvio e zero de trepidação.

Sabe quando que esses merdas dessa ófissina braziu vão botar as patas sujas na suspensão do carro do tio? Llamás. Safados.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Gosta quem quer

Vários amigos vivem a me enviar textos - autênticos e apócrifos - do Arnaldo Jabor. Se isso significar alguma indignação social da parte deles, acho até saudável. Eu também sou indignado, só que sempre procuro fazer algo para mudar o universo à minha volta. E não preciso dos textos negativistas do Jabor para isso. Muito pelo contrário. O Jabor é um chato de galocha. Deve passar o dia tentando explicar para si a razão preferir ficar aqui resmungando a ir morar no Canadá, na Europa ou em alguma ilha paradisíaca, se é que tem cacife para isso.

Gostaria mesmo de ver o Jabor usar a inteligência com propósitos mais positivos. Quem sabe em ação concreta em prol de alguma coisa boa. Esbravejar no ar-condicionado, em uma poltrona confortável e diante de câmeras é deveras cômodo. Oxalá um dia ouçamos dele alguma dica positiva. Coisa difícil para um cara negativo, que nada acrescenta ao xingar a tudo a torto e a direito, por mais razão que alguma vez ele venha a ter. Só que se xingamentos resultassem em algo positivo, estádios de futebol seriam paraísos. Pela postura confortável de indignadinho de estúdio, ele não passa mesmo é de um personagem caricato-carrancudo, que ganha uma boa-grana pra fazer a única coisa que sabe: ralhar. Sorte dele que há quem o compre.

Jabor sofre, e ao mesmo tempo é propagandista, do que Nelson Rodrigues chamou de "complexo de vira-latas". Ele acredita que o Brasil é o cocô do cavalo do bandido. E o povo brasileiro - sem ressalvas - é a larva do mosquito que nela pousa. No furor de sua verborragia negativa, Jabor talvez seja confundido com toda a merda que enxerga diante de si. Quem sabe uma larva de casta melhor, mais bem-remunerada e que conquistou um lugar privilegiado na imensa massa de cocô. Mesmo assim, uma larva no cocô e que se alimenta de parte do cocô. Nossa felicidade é que a lata de lixo da História está repleta de seres que em nada contribuíram para a evolução da Humanidade.

Mortos, reclamões acomodados e larvas não constroem a História.

sábado, 28 de julho de 2007

Anvs horoscopvs penis est

De vez em quando eu leio o horóscopo de alguma publicação que me cai às mãos. Do fundo do meu intelecto e de meu espírito, me recuso a tentar entender qual seria a conexão entre órbitas estelares e a vidinha medíocre que levamos aqui na espaçonave azul. O máximo que posso tentar pensar é que possam, talvez, haver características de personalidade influenciadas por sei-lá-o-quê conforme ciclos lunares e solares. Mesmo assim acho Astrologia e comportamentos dos signos não muito mais que um bom papo pra cantar a mulherada. Passatempo este que abandonei há mais de uma década - faço questão de ressaltar - .

Hoje eu estava a realizar minhas atividades orgânicas matinais, de dispensa de alimentos digeridos e não-aproveitados. Foi quando vi o exemplar de ontem de O Estadão, que o meu culto filho postiço assinou. Peguei logo o Caderno 2. Ao menos tem quadrinhos, diversão e dicas para lazer. O resto é chato demais e suja as mãos. A propósito, quando será vão inventar uma tinta e um papel que se fixem bem? Ô trocinho que suja as mãos é o jornal. Sem falar no formato desajeitado. Não sei também por que razão não adotam o tablóide, que é bem mais ajeitável. Mas voltemos ao tema astrológico.

Já ouviu falar que dá azar ler horóscopo atrasado? Muita gente diz isso. Mas o tio Xavier desmascara mais esse mito urbano. It´s easy: como alguns astrólogos arriscam-se no obscuro e espinhoso caminho das previsões, essa máxima foi elaborada pela própria AIAEG*. Imagine só se você lesse um horóscopo do ano passado e lá dissesse que você estava no período mais cagado na sua vida. Que se você gostar de mulher e chovesse Ana Hickman, cairia um Adilson Maguila em cima de você. Se você sonhasse com o Keanu Reaves, a Marlene Matos iria com um carro de loucuras de amor esgoelar que te ama, na porta da sua casa. Aí você pegaria a agenda do ano passado, só para lembrar das ocorrências. Descobriria que no exato dia em que o tapeador escreveu essa abobrinha, você conheceu a pessoa mais maravilhosa da sua vida, se formou, ou ainda arranjou um trampo decente e bem remunerado. Por análise post-mortem, a picaretagem seria desmascarada. Entendeu? É por isso que dizem por aí que não se deve ler horóscopo atrasado. Bobagem. Você não deve ler nem o atrasado, nem o do dia, nem nenhum. Mas há astrólogos mais incautos que dão previsões. Outros mais experientes e precavidos jogam bombas de fumaça.

Estadão de 27/07/2007, Caderno 2, página D4. Depois de um texto de preâmbulo, o famoso astrólogo Oscar Quiroga lista seus preceitos para cada um dos signos do Zodíaco. No signo atribuído ao tio reza-se o seguinte:
"As alianças não são estáveis, pois as pessoas andam confusas o suficiente para não conseguirem reconhecer o que, de verdade, seria melhor, não apenas para elas em particular, mas para todas em conjunto. Assim andam as coisas!" (O.Q.)
Conseguiu captar a profundidade e aplicabilidade do enunciado acima? Não? Nem eu. Vai escrever lero-lero assim com o ânus em Touro, Lua em Saturno e o Sol em Capricórnio. O cara ainda deve ganhar uma baita grana para isso. Além de prestar consultoria para gente célebre e endinheirada.

Eu é que sou um covarde mesmo. Preciso comprar meu turbante urgente.

* Associação Internacional dos Astrólogos e Embusteiros em Geral

Agradecimentos ao publicitário Carlos Romero, pela montagem fotográfica.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Fila é prá jacú - II: O Retorno

Poucas coisas são mais irritantes do que as filas. Sobretudo filas pra fazer algo pelo qual estamos pagando. Sinceramente penso que, uma vez que estamos pagando por algo, o prestador devia vir buscar o serviço em nossa mesa e trazer prontinho junto um café quente com pães-de-queijo.

Eu uso com muita freqüência os serviços dos Correios. É a empresa de Logística mais eficiente que há. Mas as filas nas agências me causam náusea. Agora inventaram a fila informatizada. Espalharam cadeiras por todo o salão, colocaram uma impressora de senhas na entrada e painéis que exibem os números de chamada. Então os resignados usuários pagantes - nós - nos sentamos nas cadeiras estofadas e até cochilamos nas demoras absurdas, que podem durar até cinqüenta minutos ou mais.

Recentemente, de saco cheio de gastar meus preciosos minutos com esse afazer e imbuído de um espírito totalmente sociológico, fiquei observando as filas, as chamadas e o comportamento das pessoas. Percebi que alguns números chamados não resultavam na ida de nenhum cliente ao guichê indicado. Analisei também que pessoas tiram números na maquininha e, depois de algum tempo, desistem da demora e se mandam. Portanto, quando chega a vez do dito cujo, o sistema de chamada indica a senha mas não tem cliente. Não tinha. Essa foi minha grande descoberta...

Observei que os caixa dos Correios não pegam os papeizinhos das senhas para conferência do número atendido. A oportunidade de ouro estava bem diante dos meus olhos. Bastaria perceber rapidamente quando o número chamado é de um desistente e tomar o lugar dele. Não é sacanagem. É uma espécie de doação póstuma de vaga. O doador não está lá, mas o atendente do balcão também não está preocupado com isso. Ele só tem que registrar que atendeu, para fins estatísticos de produtividade. E meu principal intuito nesse caso é colaborar com a produtividade dele.

Hoje, por exempo, eu estava com a senha D436. Olhei no painel e, para meu desolamento, estava no D399. Fora que tem três outras letras que são chamadas, com outras seqüências. Pois graças à minha perspicácia científica herdei o lugar do D405, que havia desistido de esperar. Levantei-me rapidamente e fui ao guichê indicado. Desse modo, em menos de cinco minutos garanti um lugar vip na fila. Não é sensacional?