quinta-feira, 23 de março de 2006

Técnicos e técnico

Poucos dias após o episódio do ténico de alarmes, tive a felicidade de receber um telefonema. Era o bom e velho Dimas, com o preço do conserto do meu CD player. Dimas é da velha guarda da Eletrônica. Do tempo em que comprávamos e sabíamos interpretar diagramas esquemáticos. Na rua Santa Ifigênia - espécie de padroeira paulistana da eletrônica - havia uma loja especializada em diagramas. Nós, os técnicos dessa geração, testávamos minuciosamente os resistores, capacitores, transistores e diodos, antes de decidirmos pela dessoldagem e troca de um desses componentes em placas de circuito onde havia dezenas ou até centenas deles.

Hoje, os ténicos trocadores de módulos são pródigos na condenação de todo um subconjunto. É comum ouvirmos dos ténicos frases como "A práca (sic) do áudio tá ruim viu, dotô? Tem que trocar a praquinha toda". E lá se vai uma boa leva de reais com a injusta condenação de um conjunto enorme, às vezes por causa de um mísero diodo, que custa menos de um real na "Santa". Os ténicos de hoje não sabem sequer testar um componente, ou dizer quantos μF (microfarath) possui um determinado capacitor nem quantos Ω (Ohms) tem um resistor. Códigos de cores? Aqueles risquinhos que têm nos resistores? Os ténicos trocadores de pracas sequer sabem que aquilo é um código. Pensam ser uma decoração coloridinha. Pobres ténicos que só trocam praquinhas e pobres de seus clientes.

Dimas me avisou que trocou um transistor que estava "bichado". Um desses componentes minúsculos vendidos por um real ou menos. Pela ressurreição do meu CD player, que sequer ligava, Dimas me cobrará "exorbitantes" trinta reais. É dessa forma que ele sustenta dignamente sua família há quarenta anos, mantendo uma portinha aberta para sua oficina a oitocentos metros de sua casa. O mundo será mais feliz enquanto existirem técnicos como Dimas.

2 comentários:

Bizarro disse...

O problema é que o mundo é dos espertos.
Eles conseguiram convencer a nós, clientes trouxas que não sabem nada de eletrônica, que precisa "trocá a praca". É mais fácil e dá mas dinheiro.
Ética? Moral? Bons costumes? Isso é coisa de otário, né merrmo?

Anônimo disse...

Sou técnico em eletrônica, e esta profissão está ficando inviável, pois os aparelhos vão sendo fabricados com peças a cada dia menores, as placas hoje com peças soldadas nos dois lados e sem serigrafia de identificação das mesmas na placa, a não ser dos circuitos integrados. Hoje em dia tem placas até com três faces (risos). A terceira face é o recheio do sanduíche interligando pontos internos). Um capacitor SMD não vem com nenhuma marcação nem nele mesmo. Não dá para saber se está com o valor alterado. Os aparelhos a cada dia mais sofisticados, com um maior processamento de sinais digitais, onde se um sinal some o aparelho todo entra em standby. Peças cada vez mais específicas, fabricadas apenas para aquele aparelho, e as lojas como da rua Santa Ifigênia vão gradativamente se definhando, migrando para venda de acessórios. Sempre fui contra orçamentos desonestos, mas como o preço dos eletrônicos diminuindo e as contas na contra mão, já penso duas vezes antes de condenar um chefe de família que precisa sustentar o lar.
Celso Dias.
Juiz de Fora - MG