domingo, 5 de novembro de 2006

Wal-Mart: fale com o presidente

A atenção ao consumidor por parte das grandes empresas reserva surpresas. Além da involuntária rima, o fato que me ocorreu com uma mega-rede foi bastante interessante e frutífero.

Na tarde do dia 27/10 último, entregaram na porta do meu escritório um folheto promocional do Wal-Mart. Ao pegá-lo, folheei o dito com uma desinteressada rapidez pronto para jogá-lo fora. Ocorre que na última página havia uma oferta de um toca-cd portátil. Não me teria chamado a atenção pois a marca era desconhecida e tenho um semelhante há alguns anos. Mas dois detalhes me saltaram aos olhos: primeiramente o preço (R$98,00) e segundamente o destaque para MP3. Há um tempão que eu queria um treco desses portátil com MP3 e só os achava próximos dos trezentos reais. Como bom sovina eu jamais daria "trezentão" em um brinquedo desses. Mas esse era bem barato. Verifiquei a vigência da promoção e constatei que iniciava-se naquele dia e iria até 31/10. Faltando quatro dias para o meu aniversário, nada melhor do que um auto-presente daquele.

Ao final do expediente fui à loja. Qual não foi a minha decepção ao percorrer a seção dos eletroeletrônicos e constatar que não havia nem sinal do mimo. Procurei os vendedores - que felizmente lá existiam - e fui informado de que não havia mais. Imagine: o folheto mal sai do prelo, vou à loja duas horas depois de receber a oferta para ouvir essa estranha notícia. A vendedora ainda simulou alguma atenção anotando meu telefone em um pedaço de papel qualquer, o que não me serviu de consolo. Saí da loja puto e me sentindo o típico idiota. Não sou nenhum acéfalo. Era fato que os departamentos de Logística e de Marketing do Wal-Mart que estavam divorciados.

Na manhã seguinte fucei no site do Wal-Mart ainda na vã esperança de encontrar informações sobre outra loja, onde eu pudesse achar o meu brinquedo. Quem procurar informação no site do Wal-Mart há de achá-lo um lixo. Zero informação relevante. Apelei para o telefone 0800 deles e expliquei meu problema para a atendente gerundista. Ela explicou que não tinha como estar consultando o estoque das lojas para estar verificando onde poderia estar tendo para estar me passando". Dispensei a dita antes que eu pudesse estar mandando ela estar tomando em algum lugar escuso, sem que ela tivesse alguma culpa. Então vi um link no site chamado Fale com o Presidente. Cliquei e andei um e-mail curto e objetivo, narrando os ocorridos.

Para minha grata surpresa, dois dias depois eu recebi um e-mail de uma simpática senhorita. Entre um pedido de desculpas e outro ela informou que o gerente da loja visitada entraria em contato comigo e solucionaria o imbróglio (em conjulgação de futuro simples). No dia seguinte não é que o tal gerente me ligou mesmo? Todo desculposo, perguntou como os vendedores haviam me atendido e coisas assim. No final me disse o que eu precisava ouvir: que o aparelho solicitado estava reservado e eu poderia buscá-lo pelo exato preço da oferta de outrora.

Fui à loja no início da noite e tudo estava de fato como prometido. O aparelho (que nas prateleiras já estava a custar R$218) foi adquirido por este pobre tio por míseros R$98. Mas não é só isso: além de MP3 o dito ainda toca WMA, tem display digital que exibe os nomes das músicas, som com potência e qualidade respeitáveis para o tamanho e o design é bem bonito.


Moral da história:
reclame sempre que tiver razão. Alguém há de atendê-lo.

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Zé Ruela

Depois de terem achado o verdadeiro Email, acharam agora este outro:

Não me perguntem de onde isto foi extraído porque não sei.

Vote no tio Xavier

Em um mero intervalo de seis horas e meia:

Da próxima vez que algum fdp candidato a governador
apresentar imagens das rodovias paulistas
como sendo um grande feito dele, não tenha dúvida:
Mande-o tomar naquele lugar!

Na verdade quem mantém aquelas rodovias,
lindas e maravilhosas é idiota do tio Xavier.

domingo, 29 de outubro de 2006

Não tem tu, vai tu mesmo

Um pouco de história de bastidores. Nem tanto bastidores. Parte do assunto é de conhecimento de milhares de militantes do então Partido dos Trabalhadores. Mas a coisa requer um bocado de compreensão sociológica, política e filosófica. Talvez por isso tenha passado debaixo do nariz desses milhares de militantes sem a devida percepção. Conhecimento histórico e teoria política ainda são artigos de luxo em um país que transitou aos trancos de uma recente ditadura militar para o barranco de uma democracia esteticamente confusa e politicamente questionável. É o que chama-se classicamente de democracia burguesa, já que ainda é feita nos moldes da revolução francesa promovida pela burguesia. Por favor, se tiver alguma dúvida sobre esta premissa, vá estudar um pouco ou simplesmente não leia este post.

Desde a época da abertura política, com a extinção do AI5, a posterior liberação dos partidos políticos e eleição - ainda indireta - do primeiro governo não-militar após o malôgro de 64, a grande estrela que começou a diferenciar-se no cenário político foi então o PT. Surgido a partir de estruturas de militância social com o pé no chão e sonhos nas nuvens como os sindicatos, movimentos populares urbanos e movimentos pró-reforma agrária, o PT trazia no seu núcleo um ideário político que tinha bem menos a ver com calendário eleitoral do que com as preocupações cotidianas dos trabalhadores e suas famílias. Era fortemente centrado em bandeiras como o questionamento da dívida externa, a luta pela reforma agrária, as batalhas salariais contra a inflação e orbitava uma idéia de greve geral por tempo indeterminado, ainda que os objetivos desta fossem deveras confusos e distintos entre as correntes internas do PT. No campo internacional a militância discutia e a interferência política dos países ricos sobre a América Latina, a solidariedade internacional pela causa palestina, o apoio ao sindicato Solidariedade na Polônia contra a burocracia soviética, as campanhas de apoio aos estudantes chineses contra a burocracia chinesa, enfim tudo o que se identificava com as mais legítimas aspirações populares. O calendário eleitoral vinha à reboque de tudo isso. Não que eleger parlamentares e concorrer a cargos majoritários não tivesse importância. Mas o condutor era a conscientização política.

Todavia, quando as tendências majoritárias, compostas por dirigentes de índole duvidosa e de perfis divididos entre stalinistas e democratas-burgueses, foram tomando mais e mais força dentro do PT, uma nova faceta foi sendo consolidada. Um forte vetor dessa mudança ocorreu pela participação crescente de contribuições financeiras nas finanças partidárias que se originavam do salário dos parlamentares eleitos. Pela regra universal do Capitalismo, manda mais quem põe mais grana. Logo os parlamentares e majoritários eleitos foram progressivamente dando o tom das discussões e impondo suas pautas políticas. O que a militância não questionou em tempo hábil foi a absorção dos políticos eleitos pelo PT pela estrutura dos aparelhos políticos do Estado Burguês. As prioridades, regras, limitações, leis e mesmo conceitos da democracia burguesa foram tomando o lugar das aspirações populares que tinham originado o PT. Nesse ponto está a confusa linha divisória que desviou o foco do partido das reivindicações e aspirações populares para uma versão praticamente acomodada à democracia eleitoral.

O PT que está aí e o governo constituído são resultados dessa descaracterização. As regras dos parlamentos da democracia burguesa são alicerçadas pelos conchavos, pelas negociatas, pelos mensalões, pelas liberações orçamentárias para emendas parlamentares, pelos favorecimentos às empresas e trustes de investidores. Menos pelos anseios e necessidades das famílias de trabalhadores. Em termos de pragmática não tem muito pra onde correr. Ética e decência em ambientes como esse tendem à morte ou pelo menos ao ostracismo. O que esperar de um governo como esse? Nada, do ponto de vista das origens do partido que ele representava. Absolutamente nada. As regras e o tom da orquestra já são mais que dadas pela Contituição e pela estrutura de poder - poder de fato - representadas na sociedade. No máximo um programinha assistencialista ali, outro acolá, uma campanhazinha contra a fome em alguma região, algum projeto de otimização de empregos. Mas nenhuma mudança estrutural como tal. Tudo mais ou menos como antes, talvez com um pouco de retardo na putrefação social e econômica do Capitalismo. Menos ruim que os outros apenas. Mas ruim e perfurado pelas brocas da corrupção e do fisiologismo que caracterizam a forma de representação política do Congresso, do Senado e dos Executivos nas três esferas. Como os outros.

Hoje será o dia mais duro de apertar o 13 em toda a minha vida. Quem me viu e quem me vê. Quem os viu e quem os vê...

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Pelo interfone again

O comitê eleitoreiro do andar embaixo do escritório do tio se foi. Com o fim das eleições e a perspectiva nula de a legendinha de aluguel em questão eleger sequer um síndico de prédio, a operação política se desmantelou logo na segunda-feira bem cedo após as eleições, para alívio do tio. A jovem sumidade intelectual que estava empregada no local estava com os olhos vermelhos indicando chôro. Pobrezinha, acho que acreditava em eleger um deputado estadual distribuindo santinhos em clubinhos de futsal e portas de colégio de um único bairro de Sampa. Eu já não agüentava mais gente bizarra tocando o meu interfone, achando que a diretoria do comitê ficasse no andar de cima. E toda essa encheção de saco foi para o tal candidato obter 1.906 votos.

Apesar de ninguém mais tocar meu interfone perguntando se o prefeito está comigo, as bizarrices estão longe de terminar. É que sala vizinha à minha é ocupada por um advogado trabalhista. Você não têm a menor idéia de o que é ser vizinho de um. À cada dezoito minutos aparece um exemplar da craçe trabaiadora para "pô nu pau" o ex-patrão. O interfone fica no hall comum às duas salas e o tal profissional do Direito não é alguém que permaneça muito no escritório. Quando não está em audiência está torrando os honorários em cachaça ou cartelas de bingo. E nessas horas sobra o interfone pro tio dispensar as figuras que lá aparecem. Como essa de ontem:


- Pois não?
- Jozivaldu - pronúncia literal.
- Quer falar com quem?
- Jozivaldu.
- Desculpe não tem ninguém com esse nome aqui.
- Eeeeeu sou o Jozivaldu.
- Tá bom. E daí?
- O dotô.
- Você quer falar com O advogado?
- É. O dévogadu.
- Acho que ele não está. A sala dele está fechada.
- E como eu faço?
- Como você faz o que?
- Pra falar com o dotô dévogadu.
- Eu não faço idéia.
- Ah, tá bão - pelo silêncio imagino que ele já se foi.

Meia-hora depois ouço a porta do advogado abrir. Da minha mesa me estico para ver se ele tinha chegado. Mas espere: Eu não ouvi a porta de baixo abrir. Para minha surpresa, de dentro da sala sai o portador de OAB. A cara amassada e inchada, com clara aparência de quem tinha tomado uns aguardentes de cana e se trancara para uma soneca básica, em plena tarde de terça-feira. Ele vai até a porta do tio e pergunta, na maior cara-de-pau:
- Eu ouvi o interfone, tio. Era pra mim?
- Sim.
- Era o Josevaldo?
- Josevaldo, Jozivaldo, José Valdo, sei lá... acho que era esse nome sim.
- Ótimo. Acho que eu vou lá na casa dele. Temos uns assuntos a resolver.
- ...

Nesse momento eu só me pergunto: Que merda eu tenho a ver com isso? Eu mereço? É um carma?

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Santa ignorância

Ligue as caixas de som e ouça isso:

Momentos juntos

O momento em que estamos juntos parece interminável.
De tão unidos nossos corpos, sinto as batidas do seu coração.
Nosso ar se confunde como uma só respiração: o ar que respiro vem de você.
Nossas mãos se trombam procurando sôfregas por algo que nos sustente.
Nossos movimentos em ritmo embalam nossos corpos como um só.
Paramos por alguns segundos e tentamos em vão nos separar.
E à cada pausa, uma força ainda maior nos une.
Nossos suores fluem a se misturar.
Um enorme calor sobe por nossas faces.
Nos perguntamos: por que estamos ali tão juntos?
E, quando parece que vamos desmaiar, ouvimos uma voz que nos alivia:

- Estação Sé, desembarque pelo lado esquerdo do trem.

Ufa!

sábado, 21 de outubro de 2006

Felicidade... ou irrealidade?

- Alô, tio?
Reconheci imediatamente a voz de uma conhecida e respondi surpreso:
- Oi menina! Que bons ventos a fazem ligar pro tio?
- Ah tio! Eu tenho uma novidade. Você é o primeiro para quem eu to ligando. To tããããão feliz! Adivinha vai.
- Que bom! Deixe-me ver... Passou na enfermagem da USP?
- Não.
- Então foi promovida no hospital?
- Nããão.
- Hum... o inventariante do seu pai achou uma fazenda dele no Mato Grosso?
- Ah, vai tio! É sério!
- Desisto.
- Vou ser mamãe de novo!
- Ahn... - tomo fôlego - jura?
- Sério, to tããããão feliz - repete a interlocutora.
- Puxa, que legal! - meu tom de voz certamente denunciou meu desconcerto - Então mas... quem... você sabe... quem?
- É do Josivaldo*.
- O segurança?
- Sim.

Não consigo esconder a minha ausência de palavras e paro de escrever alguns minutos.

Janaína*, é uma conhecida da natação. Conheci-a há um ano no clube. A moça tem vinte e cinco anos e é mãe solteira de uma pequena de cinco. Mora com a mãe e parece que se relaciona às turras com o pai da filha, por questões previsíveis. Nunca cohabitara com ele, nem com outro. Ou seja: é mais uma mãe que não tem a menor noção do que é constituir uma família ou administrar um lar. Até da própria maternidade ela não pode se dizer uma militante efetiva. Trabalha fora e sua cria é revezada entre escola infantil e cuidados da avó.

Josivaldo é ex-guarda municipal e estava trabalhando em uma empresa de segurança, alocado no clube. Pai solteiro de outra menina, tem vinte e três anos e já havia morado com a mãe dela, mas "não deu certo" segundo me contou. Não faço a menor idéia de com quem more. Simpático e assediado pela mulherada no clube parece já ter saído com umas duas dúzias e meia das sócias, entre dezoito e cinqüenta anos e que oscilam entre quarenta e cem quilos, sem muito critério seletivo. É de se esperar que Janaína seja apenas mais uma delas. E até onde sei, é.

Dias depois estava eu no msn teclando com a saltitante-futura-mãe-solteira-repetente, quando notei o Josivaldo online. Puxei um papo à toa com ele e fiquei me alternando entre as telas, com a devida discrição. Eu não sabia se naquele instante ele e a Janaína também teclavam entre si. Perguntei à jovem como o futuro-papai-solteiro-fresco-repetente havia recebido a notícia.
J> Ele ficou superfeliz tio, acredita?
T> Acredito. Você contou a ele quando?
J> Semana retrasada, quando eu te liguei eu já tinha falado com ele.
T> Que bom!
J> Pois é, tio. Ele falou que vai dar a maior força.
T> Mesmo? Ainda bem né? Tem falado com ele esses dias?
J> Então, nessa semana ainda não. Ele não tá podendo atender celular no trabalho e não tem conseguido entrar no msn. É que ele foi transferido para outra unidade, tadinho.
T> Que pena! - deduzi o fato óbvio de que o cidadão tinha bloqueado ela.

Resolvo ir à outra tela continuar o papo com o Josivaldo:
T> Mas e aí mano? Alguma novidade?
J> Putz, nem te conto. Cê não tá sabendo?
T> Eu nunca sei de nada. Conte-me tudo. Não esconda nada do titio.
J> Cara, cê não vai acreditar. Sabe aquela magricela alta lá do clube, a 'girafona'?
T> Você quer dizer a Janaína?
J> Pode crer, tio. Cara, ce não sabe a merda. Acredita que ela tá grávida?
T> Sério? Outra vez? Ela já tem uma filha né?
J> Pois é, véio! Agora adivinha o papo que ela veio pra mim?
T> Minha bola de cristal está na assistência técnica.
J> Cara, ela veio me falar que o filho é meu.
T> Bem, até onde eu sabia as chances de sê-lo são reais né? O senhorito era um comparecedor assíduo com ela.
J> Meu, se liga na furada!
T> Furada né? Pois é, você estava 'furando' faz tempo, até onde sei. E agora doutor, o que você vai fazer?
J> Já fiz, chegado. Já fiz. Pedi transferência e tô dando um perdidaço nela. Tô fora! Puta mina louca.
T> Ah, você foi transferido?
J> Só. Tô no Jabaquara. A mina tá louca que eu vou ficar posando de maridinho com dela e com filho no colo. Na hora que ela me contou eu dei uma assim tipo: pô, legal... Mas foi só prá ela baixar a guarda e não colar na minha. Se ela acha que eu vou atrás, tá enganada. Ela que vá na Justiça. Nem me viu.
T> Entendi. Essas coisas são complicadas.
J> Tio, vou sair fora agora porque tá acabando meu horário de almoço, beleza?
T> Na boa.
J> E ó, tio: se você encontrar com aquela louca, não comenta nada que falou comigo não, tá?
T> Eu falei com você? Quem é você? Porque estamos teclando? Te conheço? - ironizei.
J> Firmeza. Fui - e nesse momento ficou offline - .

Voltei para a tela da Janaína:
T> Alô? Tá aí ainda?
J> O tio, tô sim. Cê tinha saído?
T> Fui ao banheiro rapidinho. Mas então, que coisa!
J> Pois é tio. Não vejo a hora de fazer o ultrassom e ver o coraçãozinho do bebê. Que delícia, né? Quando eu agendar vou chamar o Josivaldo. Ele vai adorar ir comigo.
T> Com certeza. Chama sim. (...) Olha, o tio tá indo nessa, que têm umas coisas pra eu fazer.
J> Tchau tio. Um beijo.
T> Tchau. Fui.

Não sei o que comentar. Comente você.

V de vingança

Tempos atrás, estava eu no meu escritório, quando lembrei de uma chamada telefônica que tinha que fazer. Lembrando o número anotei em um post-it, colei no monitor e disquei. Atendeu-me um cara mal humorado como nunca vi:
- Que é? - estranhei porque ela morava sozinha.
- Bom dia! Poderia falar com a fulana?
O cara bufou e desligou. Como pode haver alguém tão grosso? Então procurei na minha agenda o número correto da amiga e liguei. Eu tinha invertido os dois últimos algarismos. Depois de falar com minha amiga, vi o número errado. Decidi ligar de novo. Quando a mesma pessoa atendeu eu falei:
- Você é um filho da puta, viu?
Desliguei imediatamente, destaquei o post-it e anotei ao lado do número as iniciais: FDP. Colei de novo no monitor e o elegi meu desafogo de raiva. Toda vez que eu estava estressado, ligava pra ele e xingava. Isso me fazia sentir realmente muito melhor. Ocorre que na época a Telefônica estava lançando o serviço "Detecta" de identificação de chamadas. Achei que teria mesmo que parar de ligar para o filho da puta. Então, tive uma idéia. Liguei para ele, mudei o tom de voz e disse:
- Boa tarde, aqui é da Telefônica. Estou ligando para saber se o senhor conhece o nosso serviço "Detecta".
- Não interessa! - disse o grosso, desligando na minha cara. O cara era mesmo mal-educado. Rapidamente, disquei novamente:
- Alô!
- É por isso que você é um filho da puta! - e desliguei rapidinho rindo que só eu.
Aqui vale até uma sugestão: se existe algo que realmente está lhe incomodando, você sempre pode fazer alguma coisa para se sentir melhor: eleja uma vítima e diga para ele o que ele realmente é. E pronucie filho da puta com a boca bem cheia. Faz um bem danado.

Dias depois fui ao shopping. Estacionamento lotado como sempre. Vi um carro com a luz de ré acesa e parei para ocupar a vaga. Era uma tiazinha de uns 128 anos e fez quatrocentas manobras para tirar o carro da vaga. Depois das intermináveis balizas ela saiu e engrenei para manobrar meu carro. Do nada, apareceu um Vectra preto vindo na mão oposta e entrou com tudo na vaga que eu estava esperando. Comecei a tocar a buzina e a gritei:
- Ô meu chapa! Eu estava aqui primeiro!
Em vão. O fulano do Vectra simplesmente desceu do carro, fechou a porta, ativou o alarme e caminhou no sentido do shopping, se fazendo de surdo. Comecei a olhar se haviam câmeras de vigilância, planejando a depredação do carro dele. Foi aí que percebi que o carro tinha um aviso de vende-se no vidro, com um número de telefone fixo. Então, respirei fundo, anotei o número e fui embora do shopping.

Dias depois o tio estava sentado no escritório. Acabava de desligar o telefone, após ligar para meu amigo filho da puta, como fazia todos os dias. Eis que lembrei do telefone do Vectra. Adivinhe o que fiz?
- Alô?
- Por favor, é daí que estão vendendo um Vectra preto?
- Sim.
- Eu anotei o telefone no trânsito e gostaria de marcar para ver de perto.
O desavisado devia estar desesperado pra vender e lascou o endereço da casa:
- Sim amigo, eu moro na Rua Bzvitchz 527, na Lapa. É uma casa amarela.
- Legal! Qual é o seu nome amigão?
- Meu nome é Rzvotznicks Schwartz*.
- Em que hora é melhor eu marcar contigo?
- Dia de semana à noite. Nos finais de semana eu quase não saio. Quer vir amanhã?
- É o seguinte Rzvotznicks, posso te dizer uma coisa?
- Claro, amigo.
- Rzvotznicks, você é um grande filho da puta. Filho da puta mesmo! Viado! Corno! - e bati o telefone às gargalhadas, quase vingado.
Anotei cuidadosamente o telefone de minha nova vítima. Agora eu tinha dois filhos da puta para ligar. Só que após mais algumas ligações alternadas aos dois filhos da puta, a coisa foi perdendo a graça. Fiquei pensando em como incrementar a sacanagem e tive uma idéia. Liguei para o filho da puta 1. O cara, mal-educado como sempre, atendeu:
- Alô!
- Você é um Filho da puta - mas desta vez não desliguei.
- Ainda está aí, desgraçado? Não vai desligar seu cuzão?
- Siiimmmmmmmm, amorrrrrr!!! - respondi rindo.
- Liga pra puta da sua mãe - disse ele, irritadíssimo.
- Nããããão filho-da-putinha queridoooooo.
- Fala teu nome, lazarento! - berrou ele, descontrolado!
Eu, com voz séria de quem também está bravo, respondi:
- É o seguinte xará: meu nome é Rzvotznicks Schwartz*, seu filho da puta. Por que? Vai me pegar?
- Fala onde você mora se for homem, que eu vou aí te pegar, desgraçado! - esbravejou.
- Você acha que eu tenho medo de um filho da puta? Anota aí viado: Rua Bzvitchz 527, na Lapa quer que eu repita? Rua Bzvitchz 527, na Lapa. Uma casa amarela. Tem um Vectra preto na garagem, seu palhaço filho da puta. E agora, vai fazer o quê seu trouxa?
- Eu vou até aí agora mesmo, cara. Começa a rezar, porque você tá morto seu puto!
- Uuiii! É mesmo? Ai que meda! Seu bosta! Vou te esperar na porta - e desliguei o telefone na cara dele.
Aí liguei para o filho da puta 2. Ele mesmo atendeu:
- Alô?
- Olá, grande filho da puta - sou eu de novo, lembra?
- Cara, se eu te encontrar vou...
- Vai o quê? O que você vai fazer, sua bicha arrombada?
- Vou chutar a sua boca até estourar todos os seus dentes!
- Acha que eu tenho medo de você, filho da puta? Vou te dar uma grande oportunidade de tentar chutar minha boca, pois estou indo para tua casa agora! Vou arrebentar sua cara e pôr fogo nessa merda de Vectra. E depois vou pôr fogo nessa casa amarelinha de bicha. Me espera na porta, seu trouxa.
Aí eu saí rapidinho e fui até um orelhão. Liguei pro 190. Falei com uma voz afetada e chorosa, que estava indo pra casa do meu namorado Rua Bzvitchz 527, na Lapa e ia matar ele porque me traiu, que eu odiava ele e mais duas ou três bobagens. Desliguei rapidinho antes que me localizassem. Liguei em seguida pro jornal Notícias Populares - que já não existe mais - e fiz um drama, avisando que tinha um babadaço de duas bichas se matando na minha vizinhança, na Rua Bzvitchz 527, na Lapa. Peguei meu carro e zarpei pra lá também.

Foi a coisa mais divertida que já fiz em toda minha vida. Ver dois marmanjos se esmurrando e indo presos enquanto o fotógrafo do Notícias Populares se esbaldava com a cena. Melhor ainda foi abrir o jornaleco no dia seguinte e ver a notícia no alto da página com uma chamada enorme: "Bichas ciumentas quase se matam na Lapa" e as fotos dos dois trouxas algemados com as caras estouradas.

Moral da história: Sei lá... Não sacaneie com o tio Xavier.

* Essa história e todos os demais dados citados são fictícios e adaptados de outras que já recebi algumas vezes. O tio Xavier não tem um pingo de tempo pra ficar azarando no telefone com quem quer que seja. Mas que seria divertido, seria. Aliás... eu tenho o telefone de um filho da puta que bem que merece. Boa idéia.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Menção honrosa

Meu amigo havia passado um certo desaforo tempos atrás, por conta do alarme do carro dele, conforme eu narrei neste post. E como sabem os que leram este outro post, fazia um bocado de tempo que o tio Xavier estava sem musiquinha no carro. Então um dia desses o tio resolveu comprar um rádio toca-fitas usado no bom e velho Mercado Livre. Foi isso que você leu: toca-fitas. A esperança que nunca morre do tio é que desistam de me roubar o som do carro, ao menos pela obsolescência do artefato. Custou-me meros oitenta reais. Doravante esse belo exemplar da Sony® fará parte do meu acervo sonoro.

Por sugestão minha eu e meu amigo fomos em uma oficina especializada em som e acessórios. É dessas instaladoras de quinquilharias bombadas, que os amantes de tunning adoram. O tio já havia instalado som e também filme nos vidros por mais de uma vez no estabelecimento e sempre gostou da qualidade do serviço.

Chegando ao local, encostamos os dois carros e procuramos o gerente. Cortês como sempre, este nos atendeu e explicamos as necessidades. A minha de instalar a maravilha tecnológica e o do meu amigo dar o tal reset no alarme para reativá-lo.

O serviço todo foi executado em cerca de quarenta e cinco minutos. Eles não pediram manual, nem esquema de ligação e muito menos que lhe indicássemos onde estava um micro-switch ou coisa parecida. E atenção para o total da fatura: R$20,00. Foi que você leu: vinte reais. A instalação do som ficou ótima e o alarme do amigo está funcionando perfeitamente, como era para ser.

Aqui vai a menção honrosa: SUNNY SOUND: Som, acessórios e filme para os vidros. Loja espaçosa, com sala de tv para o cliente, tudo limpo, técnicos rápidos e competentes. Precisando e sendo-lhe possível ir à Z. Leste de Sampa, não hesite. Vale à pena.

domingo, 15 de outubro de 2006

Um weekend com você

Um conhecido meu apaixonado por veleiros uma vez me disse algo que me marcou bastante. Que passar algumas semanas em um barco, juntando duas famílias era um teste de amizade bastante severo para qualquer um. Amante da privacidade familiar que sou, entendi perfeitamente o que ele quis dizer. Como eu jamais seria capaz de passar semanas em um barco, sozinho ou acompanhado de quem quer que fosse, comparo a uma hipotética estadia em um imóvel litorâneo em um feriadão.

Sabe quando aquele amigo ou parente arranja um super fim-de-semana na praia e gentilmente convida a sua família? Então você topa e com mapa na mão, porta-malas cheio de pertences, criança(s) no banco de trás, lá vai ao encontro do endereço passado pelo e-mail. Arrisco-me na previsão de alguns episódios memoráveis e prováveis, dessa longa odisséia que poderá durar três ou quatro dias.

A chegada: o clima invariavelmente será de excitação. A família anfitriã mostrará a casa, pedirá desculpas por algum detalhe imaginavelmente desconfortável. Tomara que se trate de gente a quem você conheça razoavelmente bem, até mesmo para equilibrar as expectativas. Nesse instante, as crianças de ambas as famílias estarão a suar adrenalina pelos poros. Começará a correria e gritaria infantil, já que para criança tudo é festa. Vocês ajeitarão as bagagens, acomodar-se-ão no recinto apropriado e tentarão encaixar-se na nova e temporária rotina em comum. As mulheres providenciarão o preparo da alimentação e os homens abrirão sucessivas latas de cerveja, enquanto se amontoarão em frente ao aparelho de tv à caça de futebol. Tomara que você seja adepto de algum desses afazeres, pois o pior estará por vir.

A primeira refeição: será quando você sentirá que todo o esforço pela educação do(s) seu(s) filho(s) poderá ir pelo ralo em segundos. Você, que tanto prima pelo mínimo de qualidade na alimentação, verá os filhos dos outros acessando livremente todo tipo de bugigangas, tomando refrigerante no lugar de água, desprezando impunes as refeições regulares e sequer sentando-se à mesa. E seu filho sentir-se-á atraído pela anarquia alimentícia. Começará a hora do pânico.

O prédio: você terá se hospedado em um apartamento. Por alguma razão desconhecida, os pais das outras crianças não se importarão em ver seus pequenos de sete anos e sem nenhum discernimento subirem e descerem de elevador sozinhos. Será a hora do pânico II: o resgate.

A praia: impressionante como pais maiores de trinta anos e com formação universitária, podem se mostrar relapsos no zêlo com os pequerruchos. Continuo não conseguindo conceber o que pode haver de normal em crianças pequenas ficarem brincando sozinhas no mar, sem nenhuma supervisão adulta. Estou sendo terrorista em supor que os pequenos não têm nenhuma noção dos perigos que o oceano oferece? Só pode ser, porque prevejo que os tais pais e mães permanecerão com cara de alheios, sem nenhum interesse pela profundidade, nem local onde os pequenos estarão. Será a hora do pânico III: o naufrágio.

A hora de dormir: Entende que, para o bem da saúde infantil, les petits devem dormir em um horário razoável. Digamos que conciliando o horário de silêncio do condomínio com um mínimo de flexibilidade, por ser fim-de-semana, 23h poderá ser uma boa sugestão. Mas nada que se pareça com algazarras, gritarias e correrias próximas da meia-noite será compreensível, ok? Estou delirando novamente? Mas a postura de estátua dos outros pais indicará que sim. Será a hora do pânico IV: o desespero.

O churrasco: Se escolherem fazê-lo em algum almoço, procure não ficar na praia enchendo a cara até as 17h. Caso contrário todos voltarão falando dialetos estranhos e só então começarão a acender o carvão. Almoços por volta das 14 horas seriam razoáveis. Caso desconheça o local e equipamentos disponíveis o melhor é checar antes para garantir os apetrechos mínimos e sua limpeza. Principalmente uma boa faca de corte. O risco será perceber tardiamente que a única faca disponível é uma de serra e de eficiência criminosa e, quando você tentar cortar a picanha, produzirá fatias esfoladas e hemorrágicas. O resultado será um pseudo-churrasco, tardio, mal-feito, assado em grelha suja, desidratado e duro. Será a hora do pânico V: a fuga.

Nesse momento todo o cenário indicará que:
1) A bebedeira não terá fim.
2) Os arremedos de refeição doravante terão sua qualidade e paz comprometidos.
3) O jogo de dominó irá até a 798ª eliminatória e será tão ruidoso quanto truco, independente do horário.
4) Que o zêlo pela ordem infantil cairá a índices bem abaixo dos recomendados pelo Unicef.
5) Que o seu esforço educativo pelas suas crias levará semanas para ser restaurado.
6) Que será hora de lembrar ao seu cônjuge de que há inúmeros afazeres em casa e vocês têm que subir mais cedo. E você deverá fazê-lo com urgência.

Mas tudo isso são situações absolutamente hipotéticas e fictícias. Claro que jamais acontecerão.

Sem medo de ser (in)feliz.

Sinceramente não agüento a pobreza espiritual de nossa classe média decadente e endividada que insiste em posar de elite. Eles argumentam com os mesmos malhados e repetitivos (pré)conceitos com que tratam o pintor, o pedreiro e a diarista de suas casas. Encarnam um nazi-facismo na sua pior versão tupiniquim. Gente que compra home teather e tv de plasma em cem prestações e os usa para assistir Faustão e Gugu. Gente que aluga buffets caros para fazer suas festas e as pagam com o limite do cheque especial. Gente que se pinta de culta e, sem o menor critério, toca e dança "Atoladinha" e podridões similares em suas festas. Gente que não perde o Jornal Nacional, assina a Veja ou a Istoé em doze prestações e acha serem o supra-sumo da informação. Gente que compra Johnny Walker Black Lable no cartão de crédito rolado e, uma vez embriagada é capaz de tantas baixarias quanto qualquer serviçal, cachaçado com 51. A pobreza espiritual universaliza e homogeniza as pessoas pela pior faceta do ser humano. Independente de possuir um cartão de crédito ou cheque especial e, vale dizer, cujas faturas destes somam meses de rolagem de dívida com pagamento mínimo. Um mundo de cascas sem conteúdo intelectual, nem sustentação material. Essa desesperada gente me causa medo.

Seguindo a mesma linha, vemos os milhares de filhos dessa classe média assustada. São matriculados em instituições de ensino superior que variam, conforme a possibilidade de financiamento de seus pais. Só que a esmagadora maioria desses filhos, uma vez longe dos olhos dos pais, passa a maior parte do tempo não nas carteiras nem nas bibliotecas das universidades, mas bebendo e fumando nos botequins nos arredores, onde planejam meticulosamente onde será a próxima balada e farreando com os sonoros porta-malas com três mil watts, de seus carros comprados em sessenta prestações. Pena que fiquem a ouvir as mesmas coisas de gosto duvidoso que tocam em suas festas nos buffets. E basta dar uma volta nos arredores de qualquer instituição mesmo em pleno horário de aula para vê-los: corados, bombados, sorridentes, embriagados e alienados. Contudo, após três, quatro ou cinco anos de suposta freqüência, eles conseguem - sabe lá Deus como - concluir a pontuação e créditos necessários. Passam a ser corados, sorridentes, embriagados e alienados portadores de diplomas. E, doravante, passam a se enxergar como seres superiores, no pedestal de seu confuso limiar entre a autocrítica ariana, a incapacidade de realizações e falta de direcionamento social. Tão somente e repetitivamente engrossam o côro dos que acham que um não-portador de diploma jamais deve alçar qualquer posição de liderança. Quanto menos - e ponha menos nisso - ser o representante-mór de uma nação.

Aí aparece um ex-operário e, do alto do seu "self made" - têrmo que os norte-americanos adoram - e após quase trinta anos de ininterrupta e turbulenta atividade política, torna-se presidente da República, veja que absurdo. Lamentavelmente ele sequer cursou ensino superior, fala errado, coça o saco, bebe cachaça, palita os dentes, descompõe celebridades e diplomatas e às vezes embriagado esquece o que era pra ser dito, repondo com alguma asneira ou impropério gramatical. Nisso parece-se com um elemento inusitado, quase folclórico. Sobretudo inesperado pelas famílias endividadas de classe média e por seus filhos, descritos acima.

O tal presidente ex-operário, no campo da política, faz tantas ou mais merdas quanto qualquer outro. Ancora-se em tantos ou mais assessores de índole duvidosa como qualquer outro. Para quem não sabe todos os presidentes eleitos são obrigados a assinar a contratação direta de cerca de cinco mil cargos de confiança. Eu juro que gostaria de ter cinco pessoas de minha absoluta confiança. Ele viaja tanto quanto qualquer outro, se é que um presidente tenha que ficar olhando o próprio umbigo do país. E mais uma vez, como qualquer outro, faz opções e elege prioridades. O mapa de votação deixa claro que ele não priorizou os já corados e sorridentes citados acima. Nem os portadores de cartão de crédito que rolam dívidas ou teria baixado estes juros. Nem os bolsões pseudo-emergentes dentro das grandes capitais, talvez porque estes tenham suficientes meios para dar seus pulos. O mapa eleitoral dá conta sim de que ele deve ter feito algo, seja o que for, em prol de famílias sem estudo, com filhos raquíticos e amarelados, que andam quilômetros à pé para buscar um balde de água quase potável e que não têm a menor noção do que é uma academia de ginástica, nem um boteco próximo de uma universidade, muito menos o que é esta última. Apesar de socialmente não-escolhidos, eles também fazem suas escolhas. Às vezes movidos por um par de botas, às vezes pela admiração de seu dominante, às vezes em retribuição de um simples programa social.

De fato, se o sujeito está, como denotam as urnas e pesquisas da eleição, usando a nossa pesada carga de impostos para reduzir o custo do cimento, insumo básico da moradia, distribuir de forma certa ou errada a renda auferida desses impostos, viabilizando condições mínimas de vidas nos bolsões mais pobres de Pindorama, eu fico com a reeleição dele. Até porque é o único com credibilidade e base política. Traduzo BASE como: assento e referência no meio operário e popular não-alienado. O sapo barbudo é o único que faz parte de um partido que AINDA tem participação popular e militância de base engajada. Estes que podem mudar a sociedade. Os corados dos botecos jamais o farão, primeiro por incompetência. No máximo, quando a água bater-lhe nos traseiros, tentarão perpetuar a divisão que os permite freqüentar a faculdade, andar de carro e beber álcool.

Com o tal ex-operário - e pelo cardápio eleitoral somente com ele - ainda será possível inverter a pirâmide de prioridades de uma sociedade baseada em não-valores, em não-cultura, em não-divisão de renda e em não-promoção social. Mudar arraigados conceitos de perpetuação de estruturas de propriedade, de posse, de sobrenomes e heranças. Senão, que ao menos a pitoresca presença dele na cadeira do planalto continue servindo de tapa na cara dos nossos nazi-facistas tupiniquins de almanaque.

Tomara o tapa cause dor no rosto de nossas classes dominantes e nos de suas caricaturas pobres, compostas pela classe média endividada e alienada. O "espelho espelho meu" acusa que vosso trono de beleza está por um fio.

sábado, 7 de outubro de 2006

A importância do limbo para a humanidade

Apesar de não poder mais ser considerado um ser humano religioso, o tio Xavier teve uma consistente e profunda formação filosófica e teológica, durante sua juventude até o início da idade adulta. Foi um período rico em experiências de reflexão sobre o Universo, a existência humana, o divino, a mística e sobre a espiritualidade no sentido mais amplo da palavra, de ação concreta e participação social. O grande diferencial da escola teológica que então eu abraçara era justamente a prática da fé. Não estou falando de nada ritualístico tampouco litúrgico embora esses aspectos façam parte. Mas sim de como a fé nos impulsiona no ambiente social.

“Que proveito há, meus irmãos se alguém disser que tem fé e não tiver obras? Porventura essa fé pode salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e tiverem falta de mantimento cotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito há nisso? Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma.” (Tiago 2:14-17)


[modo pregação on] O alcance social da verdadeira "obra da fé" é extenso. De nada adianta a piedade espiritual, se não materializar-se socialmente no maior âmbito possível. Se diante da injustiça social, da corrupção, do lôgro, da exploração e da enganação a fé não se manifestar no ambiente social, ela será tão ou mais ineficaz quanto a moeda que se dá no semáforo, para o pedinte. Perceba que a esmola, por si só, também não se enquadra bem no conceito de obra da fé, embora não haja mal absoluto nela. Só que ela não provoca alteração do cenário. Possivelmente e até mesmo por causa da moeda, amanhã o pedinte novamente estará lá.

Pense nisso com profundidade e perceba que também a SUA participação política, a SUA relação com a categoria profissional, a SUA relação com grupos por melhoria dos serviços públicos e coisas assim são ambientes que propiciam manifestações concretas de fé. Exigem ações, no sentido mais religioso da palavra, de reintegração do indivíduo de fé com o mundo à sua volta. Uma espiritualidade piedosa e ritualística divorciada de ações sociais concretas é tão inócua, superficial e falsa quanto egoísta. A fé pode alimentar-se das práticas ritualísticas, mas se manifestará de fato na relação com o outro. O lado endógeno da fé só tem sentido enquanto sustenta e impulsiona as ações do bem social. Fora disso é um grande sino barulhento, vistoso... e oco. Agora, de posse desta reflexão, releia a citação bíblica acima e perceba a implicação social dela. [/modo pregação off]

Entrementes o senhor Joseph Ratzinger, do alto da pompa e circunstância de seu trono - que dizem herdado de Pedro - preocupa-se com a volatilidade da alma e como e onde ela flutuará, caso não tenha cumprindo rituais religiosos prescritos. Estão discutindo ISTO, enquanto uma nova tensão bélica nuclear se aproxima com ações invasivas de potências econômico-militares e de países discordantes da hegemonia. Os cardeais articulam uma preocupação com o destino das almas dos não-batizados, ao mesmo tempo em que centenas de seres inocentes são massacrados no Iraque invadido. Concentram-se em definir se o limbo é um lugar ou não, enquanto a maior parte da África torna-se cada vez mais um não-lugar, sem sua fatia de participação e dividendo na nova economia mundial. Eu diria que isto é semelhante a passarmos pela rua, vermos alguém espancando uma vovozinha de oitenta anos e darmos de ombro, dizendo o conhecido "não é comigo". Imparcialidade não existe.

Tire suas próprias conclusões.

Uma venda se faz com quatro "P"

Estava certinho: Promoção no lugar certo, Produto de interesse e Preço competitivo, de forma que os "Pês" definidos por Kotler estavam quase completos. Só que ele definiu também um quarto "P" e o problema estava justamente neste, criando uma quase venda. O último "P" de Ponto de Venda, na hora em que o tio clicou em "comprar" deu nisso:

Foi como entrar em uma loja e encontrar vendedores com cara feia ou mesmo as portas fechadas. E não teve jeito. Daí prá diante, não consegui mais manipular meu cadastro nem sequer criar outro, já que o sistema de e-commerce da Blockbuster é chaveado pelo CPF.

Foi mal, hein? Comprarei em outro lugar.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

Bom é o deles

O tal Joe Sharkey, idiota por opção e jornalista do NYT por profissão, em entrevista ao Today Show - uma espécie de Jô Soares Onze e Meia da NBC - agora deu de criticar o sistema de rastreamento aéreo do Brasil. Disse literalmente que "o controle do tráfego aéreo brasileiro é péssimo" e "os pilotos americanos correm risco no Brasil".

Não se preocupe, amigo Joe! Eles não correm risco mais. O Ministério da Aeronáutica não há de lhes dar autorização de vôo em nosso espaço aéreo tão cedo.

O gênio deve achar que sistema de rastreamento aéreo bão mesmo é o dos americanos, né? O Osama também acha!

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Vote no Cacareco!

Não adianta esses analistas políticos tentarem me convencer com teorias sobre 'voto de protesto' e coisas assim. A eleição de cacarecos como Clodovil Hernandes, Frank Aguiar e Enééééias, mostra uma realidade funesta: a de que as eleições de um modo geral estão cada vez mais despolitizadas. Incautos e alienados dão o tom nas urnas, ao contrário do esperado. Senão como explicar que figuras exóticas e folclóricas, como os três citados acima, tenham tido votação esmagadora em detrimento de tantos outros que possam possuir algum conteúdo, bom ou mau? O desastre de enviar esse tipo de emissário para lugares que deveriam primar por um mínimo de seriedade, como as câmaras legislativas, pode ser avaliado na passagem abaixo, que é verídica.

Um sindicalista amigo do tio Xavier estava em uma dessas câmaras, fazendo uma verdadeira via-crucis de gabinete em gabinete. Ele discutia um importante ante-projeto de interesse dos funcionários públicos. Com a calma e paciência monásticas que lhe são características, ia com um calhamaço de papel embaixo do braço conversar com os parlamentares, a defender o seu ponto de vista de sua categoria pedindo determinado voto em plenário. Eis que ele bate à porta de um certo deputado-cantor conhecidíssimo, sobretudo de nossas mães. Vale ressaltar que é um cantor de voz maviosa. Mas lá ele era um deputado e ponto final. Mal o sindicalista começou a declinar as questões e foi rapidamente interrompido pelo dito:

- Olha menino, eu não entendo nadas dessas leis e nem de votação em plenário! Eu sei é de cantar, que é o que eu faço há mais de quarenta anos, viu menino? Escuta só: "Na galeria do amor é assim, um lugar de emoções diferentes..."
.

Complicado né? E saber que figuraças como essa aparecem entre os mais votados.

Well, como tudo - tirando os LP´s do Wando - tem um lado bom, com o "Cãozinho dos Teclados" e o Clodovil no Congresso, quem sabe fiquemos livres deles na mídia?

Pelo menos isso.

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Vamos ao quadro de presidenciáveis:

1) O que já está lá.
Ele não viu nada, os fins (dele) justificam os meios (dele). Segue a cartilha do sistema e usa parte para assistência social. Não joga cavalaria, nem urutus quando manifestantes de qualquer time ou gênero vão às suas portas protestar. Não raro até sai para recebê-los. Dólar a R$2 e pouco, bolsas com resultados de investimento. Do impetuoso oposicionista de esquerda quase nada sobrou. Quiçá, uma versão proletária e iletrada de padre Cícero Romão. O PTanic assusta. Já está com ares de terra arrasada e "vamo que vamo".

2) O privatizador profissional.
Ele também não vê nada, nem as fotos dele com os capangas das ambulâncias. Seu partido entregou o transporte público de Sampa nas mãos do PCC (você não sabe? tente tirar uma licença de microônibus na SPTrans). Seu plano: ainda há muito a privatizar! Inclusive os 30% de funcionários remanescentes da CPTM, porque o resto já é da empresa que é da banda Lila Covas & PSDBoys. Segue a cartilha do sistema também, mas com mais afinco.

3) O professor utopista.
Foi um bom ministro da Educação, admitamos. Mas está reunido com uma corja medonha, sob uma legenda que já abrigou gente como Brizola, Alceu Colares e lança gente como Luiz Antônio Medeiros, o rei do peleguismo. Seria sim novamente um ótimo professor, um excelentente reitor, um bom ministro e, quem sabe, um respeitável senador. Para um desses cargos creio mesmo que ele mereça nosso voto.

4) A esbravejante.
Inteligente, coerente e sem dúvida séria e honesta. Depois da arbitrária e injusta expulsão do ex-partido, saiba que um grupo de amigos do partido convidou-a a se filiar novamente (descobriram que não havia nenhum empecilho estatutário), mas ela não quis sequer ouvir. Saída em turbilhão, com partido novo formado às pressas virou um saco de gatos em miniatura. Igrejeiros, trotskistas, stalinistas, social-democratas de esquerda, sem uma linha de programa político visível. Pobrezinha atira pra todo lado, inclusive dando as mãos inadvertidamente a outros não tão confiáveis.

5) O resto.
Nem merece comentário.

SOCORRO!!! Que a segunda-feira chegue logo!

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Mundo imundo (por Alexandre Pelegi)

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso perdeu muitos votos em 1985 por conta da pecha de ateu. Em resposta a uma pergunta de Boris Casoy se acreditava em Deus, o então candidato a prefeito de São Paulo engasgou, tergiversou na resposta e deu margem a que seus adversários lhe imputassem o rótulo de descrente. O resto a história conta: FHC perdeu uma eleição quase ganha por uma sucessão de erros políticos como este. Pois agora, quem um dia foi ateu dá aulas de religiosidade. Depois do presidente Lula comparar-se a Cristo, FHC ensinou: “Lula errou, porque Cristo nunca foi beijar Judas, nunca foi chamar Judas de meu companheiro.”

São as futricas de campanha. Homens públicos apelam para símbolos populares e religiosos para explicar o inexplicável. Homens que deveriam representar o respeito à coisa pública desfilam uma infinidade de asneiras, distorcendo fatos, entortando personagens, mascarando posturas. FHC compara Lula ao diabo. Lula se diz traído...

Na terra do sol da política, Deus e o Diabo não travam duelos há muito tempo. Para quem fica confuso nesse debate profano, o resumo é simples: Brasília não é paraíso, políticos não são anjos, e partidos não promovem o bem sem ver a quem desde que o mundo é imundo...

Texto de autoria do caro amigo jornalista Alexandre Pelegi, extraído do site www.primeiroprograma.com.br, sem a devida autorização prévia.

O FIQUE POR DENTRO vai ao ar todas as manhãs pela Rede Transamérica (100,1 Fm em SP).

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Ele acreditou!

- Alo, tio?
- Sim, sou eu. Quem está a falar?
- Oi sou o John Webster*, da Parts Company*, lembra?
- Com certeza!. Em que posso ser útil?
- Sabe aquela impressora térmica que você nos vendeu?
- Sim, já faz uns três anos ou mais né?
- É, pois então acho que ela está com problemas.
- Certo, que tipo de problema?
- Ela não dá mais aquele salto para destacarmos a etiqueta, quando termina a impressão.
- E você mudaram alguma coisa no ambiente?
- Só o software de gestão.
- Ahn... só? Puxa, pensei que vocês tivessem mudado algo significativo.
- Então, mas tem algo esquisito tio.
- O que?
- A gente ainda tem o outro software funcionando. Quando a gente imprime por ele, ela faz tudo direitinho. Ela só dá problemas no software novo.
- Hum, isso não lhe sugere alguma coisa?
- Não sei.
- Nem desconfia?
- Desconfio de quem?
- Não é de quem, é do quê!
- Ahn... desconfiar do quê?
- (...)
- Ah, viu tio: e eu imprimo pelo Word, por exemplo e ela faz direito também.
- Então que lhe parece?
- Então o quê tio?
- Amigo, seu sistema novo não está mandando o script de comandos certo para ela.
- E como eu faço para mandar os comandos certos?
- Programando direito no seu software.
- E quais são esses comandos?
- Olha, esse trabalho é feito por um analista nosso, que agenda uma visita para orientação das configurações, comandos, etc., para que o seu programador coloque as instruções certas.
- E isso tem custo?
- Não, imagina! Os meus analistas são militantes de uma sociedade beneficente chamada FPW: Free Programmers of the World.
- E eles não cobram nada?
(Ai meu Deus!)
- Quando podem vir aqui?
- Você só vai ter que ouvir uma palestra, depois que um deles lhe prestar o serviço gratuito.
- Palestra sobre o que?
(Eu quero morrer!)
- O tema é "Como viver de luz, sem necessidade de alimentos".
- Eu nunca tinha ouvido falar sobre isso, tio!
- E também eles são naturistas. Andam pelados o tempo todo.
- Credo!
- E mais: Eles só andam à pé. Por isso, qualquer um deles demorará dois ou três dias para chegar na sua empresa.
- Tio, cê tá zuando?
- Que isso, amigo, jamais!
- Ah bom. E quando dá pra vir um cara?
(Desliguei o telefone na cara dele)

Eu preciso mesmo lidar com esse tipo de gente?

sábado, 16 de setembro de 2006

Maridos

Depois de ter acordado às seis da manhã (sem a menor necessidade) e constatar que aquele barulho que perturbou meus sonhos vinha das três ventoinhas do computador do meu quarto (que meu caro enteado prometera desligar pelo console remoto), resolvi descer e preparar um cafezinho. A tia darling teria que entrar no trabalho às sete em pleno sábado. Sem sono e sem compromisso até a hora do almoço, resolvi ligar a tv da sala e sentar-me à mesinha junto deste meu prestativo notebook.

Nada como a internet! O paraíso da anarquia verborrágica, do conhecimento descomprometido com a Ciência, das confissões inconfessáveis e do entretenimento interativo! Recentemente localizei este blog. É de uma simpaticíssima, aparentemente bonita e agradável cidadã fluminense. Tendo-o salvo nos "favoritos" há uns dias, resolvi que hoje iria lê-lo de fio à pavio. Uma boa oportunidade de conhecer melhor a jovem mulher com quem brinco e sacaneio com certa freqüência, pois ambos participamos ativamente de uma comunidade do Orkut. Li e gostei. É líquido e certo que há uma pessoa interessantíssima por trás daquelas linhas.

Entre um post e outro encontrei este. Ele me fez mais uma vez pensar sobre o papel do homem no núcleo familiar, seja como pai, padrasto ou marido. Os escritos dela e as opiniões de uma série de outras mulheres com quem travo conversas divertidas, me causam uma quase-pena dos homens medianos. O homo-brasileirus típico deve ser uma criatura muito ruim, a crer pelas colocações da mulherada em geral. Senão, as passagens que ouço serão delírios pré-menstruais.

Em uma noite de quarta-feira qualquer fui filar o jantar no apartamento de uma amiga recém-separada. Está morando com a empregada e o filho de três anos. A pedido, eu corrigia alguma coisa no micro dela e jogávamos conversa fora. Foi quando na tv uma irritante e conhecida vinheta global seguida de uma irritante e conhecida voz galvano-buenista anunciaram mais um cláááááássico de futebol. A discreta empregada, em um dos raros chistes de intromissão, brincou com a patroa:

- Faço pipoca?

Diante da minha estranheza, a amiga explicou: o ex-marido transformava o apartamento onde moravam em uma sucursal do Pacaembú, nas noites de quarta-feira. Até onde soube, ele se tornava o único e ruidoso expectador na confortável arquibancada de couro. De posse de um barril de pipoca, vibrava, pulava e gritava, como se estivesse no meio da Gaviões da Fiel. Sei que a então mulher dele não se importaria se ele tivesse a mesma euforia para se divertir em outras ocasiões com a família ou simplesmente para dar atenção à ela e ao filho. Notem a condicional: se ele tivesse. Mas consta que o dito fã das quadras, gramados e de todas as variações futebolísticas, seria capaz de trocar o aniversário do filho pelo esporte bretão, fosse como protagonista, fosse como torcedor.

Já outra amiga minha, também recém-separada, confessou à mim e à tia darling que o ex demonstrou seu desapreço pela intimidade conjugal logo na primeira noite de casados. Ao chegarem à nova morada ele teria resistido impávido ao canto do acasalamento. Ele ignorou os chamados dela para a hidromassagem - sim, ela tem uma em casa! - . Dispensou-se do affair de alcova, mantendo-se absorto pela tv, com uma cerveja em uma mão e o controle-remoto na outra. Nenhuma insinuação dela, mesmo vestida com a lingerie especialmente reservada, surtiu algum efeito. Embora seja irrelevante para o contexto, faço questão de ressaltar que a dita amiga ainda hoje é esteticamente de tal graciosidade, que "compensa o crime", como dizemos na borracharia. E os fatos já distam quase dez anos. Mesmo assim, acreditem, ele deixou a singela e delicada criatura dormir sozinha, enquanto se esbaldou na tv madrugada adentro, em uma das piores fotografias do estereótipo de marido. Em plena noite de núpcias não houve beijos, nem afagos, nem o bom e velho sexo com afeto. É certo que ambos já se conheciam - no sentido bíblico da expressão - e que todos temos nossa noite de indisposição. Mas daí para dar W.O. no leito conjugal na prima notte, parece mesmo estranho. E o fim do casamento denunciou que doravante tudo continuou errado.

Por que será que é tão difícil para o marido mediano manter um envolvimento de qualidade com a cônjuge e com a prole? Por que será que a administração e manutenção do lar parecem coisas tão distantes e alieníginas para os homens em geral? O que os desinteressa tanto, quando os assuntos são dar um simples banho no filho, preparar uma mamadeira, acompanhar tarefas escolares, empenhar-se no preparo de uma refeição em família ou apenas e tão somente demonstrar afeto pela parceira? Perguntas que não querem calar. E assunto pra mais de metro.

São Freud, rogai por nós.

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

O aerolula - Parte XVIII

Hoje na hora do almoço, na calçada e já a trancar a porta de fora, ouvi uma criatura digna de pena proferir a 84.946.016ª bobagem sobre o famigerado "avião do Lula". Claro que a pobre sequer merece ser admoestada, pois trata-se de um ser limitado e desprovido de qualquer conhecimento sócio-político-econômico. Apesar disso a criatura trabalha para um candidato. Mas quanto ao trabalho todos precisamos de nos sustentar e a coitada nada faz de errado. Apenas é inapta politicamente para o trabalho, mas não menos do que o candidato para quem trabalha.

Será mesmo que todos esses pobres seres, infelizmente portadores de título de eleitor, não têm mesmo capacidade de entender que:

1) O Lula-Molusco não receberá o avião como verba rescisória, quando encerrar seu mandato e não poderá levá-lo para sua garagem em S. Bernardo do Campo?

2) Que a encomenda do avião já havia sido feita há um tempão - e corretamente pelo FHC - porque o sucatão presidencial anterior estava podre e não tinha autonomia de vôo para mais de duas horas?

3) Que o FHC somente retardou a entrega, para não ter que assinar o cheque e levar essa pecha nas costas?

4) Que um presidente da república, ainda que seja do Congo ou do Zimbabwe, não deve viajar de avião de carreira, fazer check-in no balcão e nem sentar-se na classe econômica?

Estou delirando?

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Filé de peixe ao molho de tomate

Ah, o mar... Quantas delícias ele propicia, muito além do banho de sete ondas na virada do ano-novo! A fauna marinha é inimaginável em diversidade. E tio Xavier, como um ser predador nato, que se alimenta pura e simplesmente de outras criaturas não haveria de dispensar os moradores dos oceanos. Só dos oceanos, porque peixe de água doce costuma ter gosto de terra. Mas, vamos ao que interessa e o prato de hoje é muito simples, totalmente adequado à praticidade do cheff Xavier.

Ingredientes:

1Kg de filés de tilápia congelados, comprados na conveniência mais próxima. Aliás, conveniência é um lugar maravilhoso para comprar comida. O nome já diz tudo.
2 tomates médios
1 caixinha (520g) de polpa de tomate
1 cebola média
4 dentes de alho grandes
Azeite
Sal
Pimenta do reino
Molho de alho
Molho Shoyu
Acho que é só.

Modo de preparo:

Coloque os filés em uma panela com certa profundidade, ajeitando-os para cobrir bem o fundo e serem espalhados de forma homogênea.
Em seguida molhe os filés com molho shoyu. Deixe-os descansar alguns minutos no molho no shoyu, inclusive para descongelarem um pouco
Amasse os dentes de alho, corte a cebola em rodelas e coloque-os sobre o peixe
Corte os tomates em fatias finas (lave antes de preferência, certo?) e ajeite-as sobre o peixe distribuindo de forma equilibrada
A seguir, despeje a polpa toda sobre ele
Adicione um pouco de sal (cuidado porque o shoyu já é salgado)
Polvilhe levemente a pimenta do reino
Regue com azeite
Coloque uma colher de sopa de molho de alho
Tampe e coloque no fogo baixo
PQP! Tem que ser comigo! Aos 15 minutos do primeiro tempo, o gás acabou e não tenho reserva!

Plano B: (Tive que logo partir para este, porque só tenho quinze "réau" no bolso).

Mas nada está acabado, para quem tem microondas!
Tire tudo delicadamente da panela, tomando cuidado para não despedaçar o peixe, que já deve estar amolecendo por causa do descongelamento.
Troque a panela por um refratário e tente recompor tudo como acima nele. Vai ser um saco, porque já está tudo molhado, os tomates amoleceram, enfim, não sairá perfeito mesmo.
Coloque o refratário no microondas e ligue por... sei lá, eu coloquei inicialmente 20 minutos na potência alta, vamos ver no que é que dá... (vou na cozinha e já volto)

***

Olha, o cheiro até que está bom. Espero que o peixe não tenha virado borracha, como a maioria das coisas que colocamos no microondas. Na dúvida estou colocando no modo "grill combinado" por 17 minutos. Por que 17? Sei lá!. O seu microondas não tem grill? Claro, você deve ser um mão-de-vaca e não comprou com grill, prá economizar cinqüenta reais. Também eu não sei qual será o resultado com o grill, apenas espero simular da melhor forma o forno convencional. Tá lá rodando... (já volto)

***

O tomate e os pedaços de cebola que ficaram pra fora do molho estão queimadinhos. Vê a diferença de ter grill no microondas? Se você não tem o seu não vai ficar tostadinho, há há há há há. (vou lá ver se terminou)

***

Acabei de comer um pedaço. Não tá ruim não, pelo contrário. Falou um pouquinho mais de sal, mas nada que uma espirradinha de shoyu no prato não acrescente. Só estou estranhando um sabor lá no fundo, que me parece aquele gostinho de terra que falei acima. Será que comprei peixe errado? Vou pesquisar "tilápia" na internet...

***

PQP! Segundo consta aqui esse diabo habita os rios brasileiros, depois de ter sido trazido sei lá de onde. Enfim é de água doce mesmo. Bem, como não tem outra coisa vai esse mesmo.

Atenção, se não quiser executar esse receita, dane-se. Come pizza de novo. Acho que era o que eu devia ter feito...

O peixinho feio hein?

A sabedoria humana me comove

Recentemente, eu recebi um texto em formato .pdf. O que mais me espantou foi ler no rodapé do dito os seguintes dizeres:

"Caso você não consiga visualizar este documento clique aqui para obter gratuitamente o Adobe Acrobat Reader®"

Me preocupa muito a possibilidade de o autor disso possuir título de eleitor.

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Muito estranho (e não é a música do Dalto)

Imagine uma situação hipotética: você é candidato(a) a deputado e a pouco mais de dois meses das eleições você é seqüestrado por bandidos. Eles levam você a um cativeiro, onde você tem acesso a TV, pode ver noticiários e tem acesso a chuveiro. Os bandidos ficam todo o tempo encapuzados, mas ao fingir estar dormindo você os ouve conversar assuntos "sigilosos" da operação e afins. Inclusive podem até comentar sobre a possibilidade de "apagá-lo", pois o seqüestro e sua finalidade não estão dando certo.

Imagine também que você ouve que os caras querem três milhões de reais em grana pela sua soltura e que depois te levam para outro cativeiro, porque o de então está prestes a ser estourado. Enfim, quase no quadragésimo dia e sem receber o resgate, os caras resolvem te soltar em um acostamento a a menos de três quilômetros do local onde você fora apanhado. Vamos dizer que até aqui tudo bem.

Pense agora em você voltando para casa, doze quilos mais magro, abatido e assustado. Mas já desanda a dar entrevistas para jornalecos do bairro, com broche da sua campanha no peito e tudo. Pense na possibilidade de, uma semana após ser solto sua desenvoltura eleitoreira ser normal, inclusive sua publicidade nos mesmos tais jornalecos. Agora imagine a reportagem pegando o gancho no ocorrido e lançando questões sobre pena de morte e prisão perpétua para o crime de seqüestro e que possa constar algo a seu respeito como: "... mas fulano(a), candidato(a) a deputado(a) estadual promete ir fundo na questão". Digamos ainda que - coincidentemente - sua família ande na rabeira de um certo político que já foi prefeito de São Paulo e que exerceu mandato de governador biônico nos velhos tempos da ditadura e da repressão policial.

Não pareceria uma história estranha? Sei lá, entende? Perguntar não ofende.

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Vá ao Cabral... Mas não me chame.

Bem, depois de ter adiado por diversas vezes a ida a uma festa do programa Energia na Véia, o tio criou vergonha e comprou com um dia de antecedência os ingressos necessários. Para quem não conhece, o programa radiofônico vai ao ar todas as manhãs em Sampa City pela rádio 97,7Fm. Como o nome sugere, a programação é de flashbacks dançantes, particularmente dos anos 70, 80 e 90. Sendo um tio, aprecio deveras o programa e o ouço praticamente todas as manhãs. E, volta e meia, eles inventam uma festa "revival-alguma-coisa".

O calvário do casal de tios começou quando fizemos um reconhecimento dos arredores para verificar a existência de estacionamentos. Nada feito. Na porta do Cabral ostentavam o tradicional e estelionatário luminoso Vallet Park. Por meros dez reais prometiam estacionar os carros "com seguro" (entre aspas mesmo). Detalhe: o pseudo-estacionamento era uma rua erma situada entre casa e um cemitério. Os carros eram estacionados em cima das calçadas. Haviam dois estacionamentos de fato mas eram minúsculos pátios oriundos de lojas de carros desativadas. Claramente não eram capazes de amontoar mais do que cinqüenta carros cada uma. A relativa proximidade da casa com o Metrô Tatuapé, somada à ausência de estacionamentos no local, sugere que de fato seja mais freqüentada por pessoas sem carro.

Como a festa em questão parece ter mobilizado um público fartamente motorizado, em pouco tempo os carros lotaram tanto a rua de trás, quanto os minúsculos arremedos de estacionamento. Os canteiros ajardinados passaram a ser vendidos pelos flanelinhas por déirreau, no dialeto flanelês. Para os trouxas que se dispuseram a aceitar a extorsão e ainda cometer a infração de estacionar sobre o canteiro (vide o art 182, VI do Código de Trânsito), havia uma surpresa em papel amarelo, em cada um dos párabrisas distribuída panfletada pela CET. De brinde, na saída policiais armaram um bloqueio e fiscalizaram os documentos dos infratores, de modo que a apreensão deve ter sido praticada no atacado. O tio se resignou a estacionar corretamente do lado oposto da enorme avenida Salim Maluf, atravessando à pé e fora da faixa as dez ou mais pistas semi-expressas, mas sobreviveu incólume. Pela vaga na praça, cedi a um achaque menos agressivo resolvido com meros três reais (adiantados) pela "olhada" do flanelinha. Traduza-se "olhada" como não-depredação do meu veículo, pois é claro que o meliante não estava lá quando busquei o carro.

Desta vez o tema era Toco, Contramão e Overnight Revival, na onda dos malhados revivals atuais. Os dj´s convidados foram outrora residentes das respectivas casas. Tenho particular admiração por Iraí Campos, que discotecou nos anos 80 e 90 na Toco, na zona leste da capital paulista. Freqüentei a Toco e algumas correlatas com assiduidade religiosa e aprendi a curtir os gêneros funk* e house bem como os programas de rádio, nos quais Iraí esbanja seus flashbacks até hoje. Infelizmente, como nada é como a gente quer, justamente o Iraí discotecou das 21 às 00h30 e o casal tio e tia chegou após isso. Perdemos.

Mas vamos ao tema. O Cabral não é nem de longe o que podemos chamar de uma fantástica casa noturna. Reza uma lenda inca que teria surgido pelas mãos empreendedoras de Luciano Huck (geralmente com dinheiro alheio) e que, mal a casa bombou, ele vendeu sua cotinha e zarpou. A decoração e iluminação sugerem algo bem legal, mas talvez esta estivesse sendo mal operada. Mantinham uma intensa claridade, que minimizava o efeito dos piscantes e canhões. A sinalização interna também deixa a desejar e transforma a tour em uma aventura rumo ao desconhecido. Aparentemente há uma única chapelaria que ainda acha-se no direito de cobrar cinco reais por objeto. Talvez até guardássemos algum, não fosse a fila de trezentas pessoas. O ar condicionado é tão mal distribuído que uma caminhada de dois metros pode variar a temperatura entre uma sauna a vapor e um túnel de congelamento frigorífico. Muito ruim mesmo. Os serviços de bar não foram testados porque com a casa lotada mal dava pra saber onde ficavam os ditos. Dos banheiros também passamos longe.

A única coisa mais ostensiva e eficaz me pareceu ser a segurança interna. Os leões de chácara de 2,2m com 132Kg cada um eram numerosos e ficavam de antena ligada, se bem que não vi nenhum indício de confusão aparente. Não sei se isso é da mesma forma nos habituais eventos axesísticos, funkeiros e pagodísticos da casa, embora eu desconfie que não, por razões sociológicas.

Na pista de 70´s e 80´s, durante o tempo em que ficamos lá, o dj fez uma salada musical que soou meio estranha. Não creio que Katia Flavia de Fausto Fawcett e Planet Rock de Soul Sonic Force façam um bom par no mesmo set e muito menos que possam ser seguidas por "Twist and shout". Já na pista de 90´s o som e as viradas eram melhorzinhos mas por volta de duas da manhã um dj bastante apegado ao seu gosto se orientou pela parada de sucessos pessoal, em detrimento de músicas realmente conhecidas. O resultado se percebeu na redução visível do chacoalhamento de esqueletos. Enfim, por volta das três e pouco da madrugada, o tio e a tia darling resolveram dar linha na pipa.

Well, pelo conjunto da obra, 0 Cabral não me pareceu digno de bis. Ao menos para o meu senso mínimo de qualidade.

* Atenção: o funk a que me refiro de modo algum tem a ver com o lixo podre e pornográfico desenvolvido nos morros cariocas. Para saber mais leia ISTO AQUI na Wikipedia.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Brasileiras e brasileiros: Isso não ocorreu na China!

Agora não falta mais nada! O nobre acadêmico imortal e maranhense senhor José Sarney, ex-presidente e candidato a senador pelo Amapá (gozado, ele não é do Maranhão?), conseguiu da Justiça Eleitoral do Amapá nada mais, nada menos, do que a censura ao blog da jornalista Alcinéia Cavalcante.


EM TEMPO: O atual endereço do blog da moça é
http://alcineacavalcante.blogspot.com/

sábado, 2 de setembro de 2006

Frango assado com beringela e batatas au Xavier®

Todos aqueles mortais que têm o privilégio de não precisar ir para as senzalas remuneradas do Capitalismo aos sábados, por outro lado deparam-se com a zona da casa, roupas para colocar na máquina de lavar, guardar calçados e casacos, enfim com um verdadeiro inferno. Chega a dar saudades da empresa.

Agora junte a isso a necessidade de preparar um almocinho prático, gostoso e que não zoneie mais ainda a casa. Parece difícil não é? Mas não para o Cheff Xavier®, que utilizará mais uma vez este espaço para um receitinha impecável: frango assado com beringela e batatas au Xavier®. Tome nota:

Ingredientes:
1 frango médio (1,5kg)
1 beringela grande
4 batatas grandes
1 cebola grande
5 dentes de alho generosos
sal e temperos da sua preferência

Procedimentos:
Coloque o frango sobre a pia ao lado da beringela, das batatas, da cebola e do alho. Olhe fixamente para eles, especialmente para o frango. Planeje bem como terá que lavar o frango, tirar eventuais impurezas e resíduos de miúdos de dentro dele. Olhe para a beringela, as batatas, a cebola e o alho. Note que você terá que descascá-los, lavá-los cortá-los em cubos, etc.. Não adianta, pois é trabalhoso mesmo.

Agora fala sério: você não acha que já tem muito o que fazer e que sábado não é dia de ir para o fogão? Já chega ter que pôr ordem na casa, cuidar do visual para dar um rolê à noite, ouvir uma musiquinha... Ah, o frango que vá se tratar sozinho!

Guarde tudo de volta: batatas na cesta de legumes, beringela na geladeira e frango no freezer. Dirija-se o mais rápido que puder à padaria ou ao mercadinho mais próximo. Compre um frango assado prontinho, daqueles que ficam rodando na máquina. Os melhores lugares servem junto porções de batata assada e farofa também. No bairro onde o tio mora, por exemplo, esse lugar é o mercadinho que fornece um delicioso frango com batatas assadas.

Mas falta a beringela né? Você não vai acreditar como o tio Xavier é sortudo. A irmã dele, além de morar pertinho, havia feito uma deliciosa salada de beringela e o chamou para buscar uma porçãozinha, veja isso! Foi só passar lá que essa parte do almoço foi também resolvida de forma prática e limpa. Não sei como você vai se virar quanto às beringelas, mas isso não é problema meu.

Chegando em casa decore a mesa com o frango, as batatas e a beringela. Não é necessário servir arroz, porque as batatas já têm carboidrato suficiente.

It´s wonderful. Eu amo isso!

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

E por falar em setembro...

Nem só de ácido se faz um blog

Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou
(Juntos outra vez)
Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
(Que venha nos trazer)
Sol de Primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
(Que venha trazer)
Sol de Primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender

"Sol de primavera" ©Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1979.

domingo, 27 de agosto de 2006

Vigilantes do humor alheio

Um dia desses fiquei sabendo, através de minha irmã, que uma suposta amiga em comum desfiou para ela um rosário e alguns litros de saliva peçonhenta a criticar meu humor. Não fiquei decerto surpreso, nem ao menos decepcionado. É fato que tenho sinceras divergências com a dita, que vão desde educação infantil até questões culturais. Sobretudo acerca do hediondo método cultivado por ela de criticar os ausentes, identificado pelo verbo fofocar. Só que tenho meu lado contemporizador e finjo não ver algumas coisas, a fim de manter o mínimo de convívio social, já que não sinto vocação para eremita.

A sujeita reclamava ter me visto em algumas ocasiões com "cara de bunda", no sublime e paupérrimo Português que ela sabe declinar, com sua deficitária formação cultural. Lamentavelmente, em uma ou duas raras ocasiões, eu compareci a eventos da dita ou de familiares dela e apenas não estava com o melhor dos humores, ora bolas! Mas no repertório a meu respeito consta que a boca maldita tenha proferido algo como: “Se for para ir assim, melhor não ir”. Se em alguma ocasião que lhe diga respeito optei por comparecer, foi por absoluta consideração. Com a singela observação da dita, sinto-me dispensado das obrigações correspondentes e agradeço aliviado. Já sigo à risca e sei que a pessoa começou a perceber.

Sou consciente do fato de ser um pobre-diabo igual a tantos outros. Há dias em que estou alegre, há dias em que estou triste, ou às vezes tão e somente introspectivo. Quem nunca ouviu a expressão: "O que você tem hoje?". Basta estarmos silenciosos, capisbaixos, pensativos ou mesmo visivelmente mau-humorados, que algum bastião da alegria de micareta vem nos questionar. Não vejo maiores problemas na preocupação. Na maior parte das vezes é possível que o questionador tenha boas intenções. Mas por trás disso está algo peculiar: a rejeição a determinados sentimentos. É como se só pudéssemos sentir amor, carinho, alegria, euforia e seus opostos como raiva, repulsa, tristeza e desânimo fossem proibidos. Sentimentos "errados", que não devem sequer ser sentidos. Até a educação religiosa é pródiga na condenação de alguns sentimentos. Dentre os chamados pecados capitais ensinados pela Igreja Católica encontramos até a ira e a preguiça como sentimentos banidos e malditos.

Será que há sentimentos bons e maus? Poderão os sentimentos ser classificados de forma tão maniqueísta? Será que ficarmos pensativos, introspectivos e mesmo chateados com alguma coisa é tão insalubre assim? Desconfio que sentimentos são sentimentos e ponto. De certo modo são involuntários, vem e se vão. A questão maior e mais importante é se reagimos a determinados sentimentos e como reagimos. Posso estar eufórico com a vitória do meu time e fazer uma arruaça destrutiva, como certos delinqüentes sãopaulinos fizeram na avenida Paulista meses atrás. Posso estar irado com a política e tirar como conseqüência que preciso exercer minha cidadania por mudanças. Postura é o que conta. Ou melhor: "atitude", no melhor sentido da palavra.

Sentimentos banidos. Questione-se sobre isso na próxima vez em que lhe ocorrer ficar cobrando alguém, só porque ele não manifesta uma alegria contagiante. E a propósito: Cara de bunda tem a profissional do sexo, parturiente de quem proferiu isso.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Roteiro gastronômico do submundo II - Revisão

Puxa vida, não se pode elogiar. Bastou eu colocar este post e ir ao estabelecimento ontem à noite para perceber uma mudança sutil, mas criminosa no aspecto gastronômico. No lugar do tradicional azeite Gallo® - que se não é a excelência no segmento não faz feio em um local popular - encontrei outro tipo de produto sorrateiramente substituindo-o.

A lata deste era desenhada de forma pomposa e com layout bastante copiado dos azeites de qualidade. Mas as letras em fonte arial 4 no rodapé compunham os temíveis dizeres "óleo composto de soja 85% e oliva 15%". Eca!

Após perguntar ao balconista se não havia azeite de verdade ao invés daquele lubrificante de dobradiças, vi-o chacoalhar os ombros com uma expressão facial que pode ser traduzida como "só sei que nada sei".

Well, passando por lá, dispense o óleo 20 camuflado de azeite. Coma apenas as esfihas. Pela demissão do Gallo® caíram 3 pontos na minha tolerante escala.

Não se pode elogiar mesmo.

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Quero um nariz vermelho em forma de bola

Aproximadamente três da tarde e o otário do tio estava a voltar dos Correios, onde postou uma carta e pagou duas contas de consumo atrasadas. Para quem não sabe, os Correios recebem contas, depósitos do Bradesco - camuflado como "Banco Postal" - vendem Tele-Sena, Carnê do Abravanel e uma infinidade de porcarias equivalentes. Além de - por enquanto - entregarem nossas cartas.

Na volta, antes de entrar aqui, me dirijo ao estabelecimento do andar de baixo, onde compartilho a geladeira e vou pegar uma de minhas garrafas de água mineral. Esparramado no sofá da recepção do local estava um policial militar. Ele é parceiro de patrulha de um tal candidato de quem já falei aqui. Após me cumprimentar vai me abordando:

- Ei tio, me dá seu nome completo.
- Meu nome? O que eu fiz dessa vez? Juro que não fui eu - brinquei -.
- É sério: to com o saco na lua hoje e ainda não fiz porra nenhuma.
- E o que eu tenho com isso?
- Você vai me ajudar. Não posso entregar minha planilha de serviço em branco. Então vou colocar aqui que te abordei no seu carro, ok?
- Ahn...
- Então, é tio Xavier do que?
- Hum... tio Xavier Bnackzevicz - disse a ele omitindo um de meus sobrenomes -.
- Legal! E qual seu RG?
- Vinte, dois meia nove, zero setenta e um - nem a pau que dou meu RG real prum porra desses -.
- Opa, beleza! Seu carro é um schultznevers hatchback né?
- ...
- Beleza! Já to anotando - e vi claramente ele copiar a placa de outro similar, só que de outro dono e de outra cor -.
- Valeu, tio! Mais duas ocorrências e eu fiz minha parte por hoje.

Subi para o meu escritório. Neste momento estou em minha mesa. Olho para as duas contas que paguei há pouco, mais a nota fiscal da sandália que comprei para meu sobrinho. O total de ICMS dos três passa de oitenta reais.

Somos ou não somos um bando de trouxas?

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Curtas eleitoreiras

O candidato do andar de baixo:
O cara acha-se mesmo no páreo. A empolgação na arregimentação de terceiros demonstra sua total ignorância da perversa economia eleitoral. Que, para eleger alguém, é necessário de fato gastar "X" reais por voto, em material e veiculação. A parte mais lamentável fica por conta do slogan que vi colado nos carros dos adesistas do dito: "Juntos somos mais forte" (sic!). Detalhe que o candidato é universitário. Será que ensino de Língua Portuguesa faz parte da plataforma dele?

O Gerard Walkman:
Digam para mim que não vi nem ouvi aquilo. Ontem no Bom Dia Brasil da Rede Glóbulo vi o candidato a segundo colocado (alguém tem dúvida de que o primeiro esteja definido?) esbravejando com ar de severidade algo como: "Diante do cenário de violência o governo não pode ficar omisso". Perguntar não ofende: O governo quem, cara pálida?

O molusco:
Parece que houve um ensaio de debate na TV. O tio não viu mesmo porque anda distante da tv como o ateu da igreja. Pelo que me disseram o Lula-Molusco não compareceu. Eu também não iria se eu fosse o primeiro colocado. Dar ibope pros outros pra quê? Quem tem... tem medo

Tudo a ver:
Um dia desses o tio estava a caminhar na hora do almoço pela avenida principal do bairro e tomei um baita susto ao ouvir um xote de raiz, vindo de uma perua kombi. Ela tinha algo próximo de uma Itaipú de potência sonora. Era um carro de campanha do Aloísio Comerciante e do senhor Edward Suplício, ambos do PT. E tome xote! Campanha eleitoreira é mesmo um vale-tudo. Eu pagava pra ver o Aloísio e o Edward dançando xote. Tudo a ver com as origens de ambos no agreste nordestino.

MSB - Movimento dos sem-barba:
Hilário mesmo foi o senhor 56, que parece não estar concorrendo a uma vaga majoritária neste pleito. Depois de explicar a ausência da formosa barba, em razão de um suposto tratamento médico, o dito disparou: "Com barba ou sem-barba, meu nome é Enééééias". Só rindo pra não chorar.

Por fim, o PCO:
Logo no primeiro programa de rádio, o horário reservado aos ex-petistas do PCO - Partido da Causa Operária - ficou em branco. Foi preenchido pela locutora da Radiobras que repetiu duzentas vezes: "Horário reservado para o PCO". O tio Xavier sabe exatamente o que aconteceu: Todos os revolucionários filiados do PCO (aproximadamente uns 48) estavam reunidos em plenárias locais para decidirem quem serão os delegados revolucionários do encontro nacional. Estes, entre outras coisas, elegerão o comitê revolucionário de ação eleitoral. O comitê fará reuniões intermináveis para discutir a pauta da campanha revolucionária e destacar quem serão os camaradas relatores dos textos - também revolucionários - que serão veiculados no rádio. Depois disso, serão eleitos os camaradas do comitê revolucionário de produção de áudio que farão a locução, edição de áudio e entrega das mídias revolucionárias para o TRE e o TSE. Até tudo isso ficar pronto, já será dezembro. Muito provavelmente a revolução terá que ser adiada até a próxima eleição.

Tio Xavier, direto da AEN (Agência Eleitoreira de Notícias) para o Sem Sentido.