sábado, 13 de março de 2010

Nota de esclarecimento à população

Com alguma frequência tenho sido questionado por pessoas, devido a comportamentos sociais considerados inconvenientes ou ao menos distoantes da maioria. É fato que, com o passar do tempo, cada vez mais vou dando "lhufas" para opiniões alheias a esse respeito, desde que não me afete financeiramente, nem atente contra meu bem-estar ou integridade física. Mesmo assim me resta uma boa dose de hipocrisia social, refletida e estratégica, sempre que consigo ponderá-la, o que não me isenta de incoerências. Posso afirmar que boa parte de minhas posturas são profundamente pensadas, calculadas e conscientes. Por isso, esclareço algumas abaixo ao menos para os seres pensantes, embora eu creia que os meus questionadores não estejam entre eles. Vamos lá:

Comportamento em rituais religiosos:


Como moramos em um país que se pensa predominantemente católico - crença que podemos refutar pelo quesito da qualidade - é comum em ambientes não-religiosos como ONGs, trabalhos voluntários e até mesmo em ambientes escolares confessionais as pessoas invocarem bênçãos, preces e coisas semelhantes. No fundo acho isso um desrespeito com a pluralidade, posto que não há a menor possibilidade de conjunção teológica entre as diversas manifestações religiosas existentes, assunto deveras complexo para eu explanar aqui.

Nessas ocasiões, incluindo celebrações de casamento, batizados e afins, independente do credo, o tio permanece e sempre permanecerá apenas em silêncio respeitoso. Não ajoelho, não faço sinal de cruz, não faço gestos de salam-aleikam, nem dou cumprimentos de saravá ou axé, nem agradeço a Alah, Yahweh ou a quem quer que seja. Apenas silencio, aguardando que os fieis respectivos terminem suas piedades. Assim o faço, assim o farei sempre, ok?

Hino Nacional Brasileiro e civismos assemelhados:

O tio não cultiva civismos baratos e sentimentos piegas por um falso conceito de pátria, que não tem nada a ver com nação ou identidade cultural. Os símbolos nacionais vigentes, a saber: hino nacional, banderia nacional e afins, não contém as concepções que julgo libertadoras, mas antes expressam a cultura do positivismo e outras questões que não vem ao caso agora.

Por essa razão, em manifestações do tipo o tio permanece em silêncio e, dependendo da circunstância, pode até manter-se sentado como forma de protesto. Então peço encarecidamente que, se você não for capaz de entender, não me perturbe com gestinhos e cochichos como "Vai, levanta!" sob o risco de ser mandado para algum lugar ou a fazer algo desagradável. Exceção: pode ser que eu encene o civismo diante de alunos jovens em um estabelecimento escolar, mas pela mera compreensão de que seja muito cedo para eles desconstruírem as mentiras cívicas. Será uma concessão à hipocrisia com fins pedagógico-estratégicos.

Filminhos de retrospectiva:

A vaidade humana excede os limites do que seria razoável. Aliás, o ser humano não é razoável mesmo. Faz as coisas movido pela mente reativa e sentimentos que sequer consegue identificar, muito menos compreender. Recentemente estive em uma festa de aniversário, a prestigiar uma família de conhecidos e presentear a criatura primaveril com um mimo. Pois acreditam que na hora da tal retrospectiva um pobre bobo-da-corte, digo, animador de festinha tentou me coagir dizendo que eu tinha que ir assistir ao besteirol? Claro que ele correu o risco de tomar uma botinada chucknorriana na boca, mas o tio possui temperança e apenas sorriu ao desinfeliz, enquanto continuava a tuitar, voltando a ignorar a tão desprezível e desavisada presença.

Para ficar bem claro: eu não tenho o menor saco, acho uma idiotice vaidosa, perda de tempo e ocupação neural infrutífera produzir e assistir a esse tipo de porcaria. Pouco me importo se o(a) aniversariante ou os nubentes nasceram em uma maternidade ou em uma estrebaria, se frequentaram a escola X ou cresceram na completa ignorância científica, se venderam chicletes no semáforo ou se cresceram servidos por súditos. Importa que a pessoa está ali viva e eu optei por comparecer, como forma de agrado ao anfitrião. Quem sabe não foi apenas para não fazer janta em casa e comer guloseimas, mas isso é de foro íntimo. Não me chame para assistir e se insistir não estranhe as consequências.

Apresentações de trabalhos em sala de aula:

Não tenho a menor dificuldade em me apresentar em público, palestrar, ministrar uma aula ou treinamento. É natural de minha pessoa. Uma vez que me comprometo com algo do tipo, não há nada de sobrenatural que eu tenha me empenhado por fazer algo decente, consistente, talvez atraente ou ao menos dentro do requisitado. Portanto não faço a menor questão de aplausos. Não tenho banda, não sou cantor, nem trata-se de comédia stand-up. Posso até aplaudir a palestrantes por educação e como devolutiva pelo fato de o sujeito estar lá. No máximo.

Você nunca me ouvirá gritar da primeira fila coisas como "Bravo! Bravo!" porque acho uma bestialidade esfuziante e festiva demais. É por essa razão que eu não aplaudo a colegas de faculdade quando apresentam o que quer que seja lá no patamar. Teve que apresentar algo? Não fez mais do que a obrigação. Foi ótimo? Ok. Foi uma merda? Nunca o saberá por mim, exceto nos casos abaixo. Bastará olhar o boletim, caso o avaliador tenha o mínimo de critério e tremei se o dito for este que vos escreve. Além do mais aplausos consomem tempo, a fila anda e tem mais gente para apresentar.

Opinião sobre trabalhos de qualquer natureza:

Quando você pergunta para alguém "O que você achou do que fiz?" você está querendo um elogio barato ou uma crítica sincera e fundamentada? Se sua opção for a primeira então não o faça comigo. Sou sincero. Se o seu trabalho se me parecer como um arremedo feito por amador, de má vontade, sujo, mal escrito, mal acabado ou sem base nenhuma "Está uma porcaria" é o que você ouvirá de mim. Poderei explicar minha opinião e você terá a chance de melhorá-lo, melhorar a si mesmo e evoluir. Portanto não vá dizer "Ai tio, noooofa!" quando eu disser algo como "Está muito ruim". Do contrário vá perguntar a um bajulador e não gaste meu precioso tempo.

Feitos esses esclarecimentos, espero que não venham me questionar obviedades. Se você for disléxico ou analfabeto funcional, terei prazer em auxiliá-lo neste entendimento mediante desenhos ou atividades concretas.

Por ser verdade, subscrevo a presente.

Tio Xavier

3 comentários:

Marisa disse...

Marcio, esse seu texto está muitcho bom!!! Você não toma jeito, né, menino? Sempre tão cáustico e tão brilhante! Adorei. Sobretudo porque já recebi alguns elogios de você e, suponho, foram sinceros. Essa questão de dizer "é bom" ou é "está uma porcaria" é mesmo complicada. Dá-lhe, Tio Xavier! Abraços da Marisa Bueloni

Anônimo disse...

noooofaa...
quanta amargura neste teu coração zinho...
deixa de ser rabugento, vai!

disse...

Amém !