terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Cadê a Fraternité?

Um excelente professor com quem tive aulas, disse certa vez que “dos dois filhotes da revolução francesa, o capitalismo concentrou-se apenas na liberté, o socialismo na egalité, mas a palavra de ordem mais importante - a fraternité - fora abandonada”. Nunca me esqueci dessa fala. Sistemas formam mentes, pois são as estruturas (o mundo concreto) que condicionam as superestruturas - o imaginário de símbolos e valores - e não o contrário. Com essa constatação, o legado marxista propiciou ao pensamento humano a ruptura efetiva com o idealismo. Ponto para o tio Marx!

Definidas essas premissas, analiso um fenômeno recente. Não é por acaso que justamente agora, Marine Le Pen, líder do partido francês de ultradireita “Frente Nacional”, apareça na liderança de uma pesquisa para a eleição presidencial de 2012, à frente do atual presidente (de direita) Nicolas Sarkozy e da provável candidata socialista, Martine Aubry. Marine não é de “qualquer direita”. Ela defende coisas como retorno à pena de morte, repatriamento de imigrantes e sobre o Islamismo tem posições nada conciliadoras.

Ocorre na França que sobrevieram sobre os trabalhadores carências com as quais a maioria estava desabituada, após a recuperação pós 2ª guerra. Situações semelhantes se dão em praticamente todo o continente. Não é por acaso que, em todos os países considerados de “capitalismo avançado”, desemprego, quebra de empresas, inadimplência, escassez de crédito, queda no consumo, inflação, enfim, todos componentes típicos de uma crise do processo de acumulação do capital desandam.

Quem paga a conta? Acertou quem disse “os trabalhadores”. Banqueiros, burocratas de alto escalão estatal, acionistas de empresas de topo, especuladores, agiotas, contrabandistas e toda sorte de parasitas sociais continuam contando seus quinhões ainda que, talvez, um pouco diminuídos. Some-se que com a queda de transações no mercado oficial, caem também as arrecadações tributárias de modo que, os outrora “Estados do Bem Estar Social” (Welfaire States), danam a cortar a assistência à população justo quando ela se torna mais necessária.

Cheguei à consequência: com recursos e empregos escassos, desassistência estatal e inflação, o bem estar para todos dá lugar ao bem estar apenas para uma minoria. Às massas a penúria. Estão dadas as condições objetivas para que as pessoas mostrem suas piores facetas. Os mitos de povos plurais, calorosos, cultos, educados e receptivos, apregoados nas democracias, dão lugar à crueldade dos seres humanos que se revelam egoístas, sexistas, racistas e xeonófobos. Estendam esse fenômeno às demais “democracias”: Grécia, Itália, EUA, Espanha, Portugal... e por aí vai. As fotos são muito parecidas pois, em todos esses lugares, negros, estrangeiros, homossexuais, asiáticos e qualquer um que tenha cara de “o outro” passaram a ser alvo de repulsa. Na onda, candidatos reacionários da pior estirpe começam a se projetar nas pesquisas. Vale recordarmos um passado recente, no qual Hitler não foi imposto: foi eleito, ante uma crise econômica desgraçada.

O cenário devolve nossa espécie ao seu devido lugar: somos criaturas tão irracionais como ratos de experiências comportamentais de laboratório. Reagimos de modo tão semelhante, que alguns princípios de Psicologia podem ser aferidos mediante esse tipo de experimento. Apenas dominamos o fogo antes dos demais animais, o que nos fez mais poderosos, mas não necessariamente melhores.

Vem a pergunta final: onde ficam os valores “superiores”: liberdade, igualdade e fraternidade? Afinal de contas nossa espécie se julga tão superior às outras que arroga para si a virtude de ser semelhante às divindades que lhe teriam criado e soprado o espírito. Essas concepções fantasiosas só subsistem nos gabinetes dos escritores românticos pequeno-burgueses. Tirem-lhes a pena, o teto e a comida e vejamos quais de suas virtudes subsistem. Pessimista, eu? Jamais! Realista sim.

Se não lutarmos para expropriar dos acumuladores o que é direito coletivo caminharemos para a barbárie. Como ratos em caixas de experiências. Podem apostar nisso.

(Texto publicado originalmente no site: http://www.primeiroprograma.com.br)


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Epifania às avessas

Não sou apóstata por profissão, nem tenho pretensões de sê-lo. Penso cada um deva dar-se a crer ou descrer no que quer que tenha escolhido. Ou pelo que "seja escolhido", como podem preferir alguns fiéis mais fervorosos. Observo com distanciamento às interpretações mistificadas que as pessoas crentes fazem dos acontecimentos banais do cotidiano. Nisso reside a fé: em observar nos acontecimentos tidos como comuns, as tais epifanias, experiências de fé, manifestações do divino e por aí vai. Cheguei a escrever um artigo na pós-graduação a esse respeito, descendo ao lugar que entendo como devido, de que a fé não é mais do que a real força motriz que faz ao fiel ver o sobrenatural no natural e não o contrário. Qualquer hora posso procurá-lo e postar aqui, para os que tiverem saco de ler.

Minha antiepifania, se posso usar o neologismo, é, assim como as epifanias crentes, também baseada em um fato crucial de minha vida. Me fez resolver a tomar um entre dois caminhos: ou entender que existe um Deus extremamente sarcástico ou que, de fato, não existe e eu devesse parar de procurar o extraordinário, contentando-me com minha vidinha medíocre de ser humano no meu lugar. Foi esta a minha opção, embora eu tenha estudado Filosofia e Teologia por cinco anos, em dois institutos católicos e tenha tido um período de vida de fé sincera.

Eu estava pelos meus 27 ou 28 anos quando nasceu o segundo filho de meu primeiro casamento. Eduardo Augusto. Esperado com ansiedade, como haveria de ser a um filho desejado, Eduardo nasceu na cidade de Sorocaba, sob circunstâncias absolutamente tranquilas. Atendida em tempo em um hospital local, pouco tempo depois da internação a parturiente dava à luz o garoto, para minha alegria. De lá, assim que dada a alta fomos para casa com o pequerrucho para quem até os cães doberman da casa fizeram festinha ao serem apresentados. Berço pronto, enxoval idem, Eduardo ganhava peso e tinha as rotinas normais de qualquer criança saudável.

Até que numa noite o pequeno começa a chorar desesperadamente e a arder de febre. Profiláticos de emergência dados, corremos para o hospital para saber do que se tratava. Não me perguntem o que fora, mas o médico não escondeu a cara de desesperado ao me solicitar internação imediata. UTI. Disse que alguma infecção havia tomado conta dele, num piscar de olhos e que a reversão do quadro não se daria sem sequelas.

Pois bem, com o que me restava de fé, nos três dias que se seguiram, tudo o que eu não tinha era orgulho próprio e mais de uma vez entrei em uma igreja em silêncio e sozinho para, ajoelhado, implorar para que Deus salvasse meu pequeno tão esperado. Nada prometi, como nunca cri em barganhas e comércio com Deus, pois penso que não se há de fazer isso. Só supliquei, com as últimas forças e lágrimas que me restavam. Deus não haveria de desamparar a um desesperado. Qual pai não haveria de atender ao pedido de um filho pela saúde de outro filho? Qual? A resposta antiepifânica me veio na terceira manhã, com um telefonema do hospital pedindo meu comparecimento urgente.

Como o leitor já compreendeu, Eduardo havia falecido, sem resistir à avassaladora e fulminante infecção. Lá fui eu, cuidar de féretro de filho, a pior desgraça que há de suceder a um pai ou a uma mãe. No cemitério, já quase sem forças, quando do sepultamento, tomei a pá do funcionário funerário e comecei eu mesmo a dar com as primeiras levas de terra. Um filho. Um sonho que eu mesmo entendi que devia sepultar. E também que devia voltar para minha casa naquele mesmo dia, a despeito das ofertas confortantes de hospedagem feitas por amigos e parentes, alguns dos quais haviam se abalado de São Paulo até lá para me acudir.

E na solidão, cercado por gente, terminei o que se havia de fazer: fui para casa com a mãe do filho perdido, tratar de desmontar berço, encaixotar roupas e dar um fim imediato, mergulhados no luto, como quem sabe que não há outro dia para fazê-lo e não há como fugir da amargura. Nas semanas subsequentes, minha fé que já ia abalada, foi tomando novos contornos. E entendi que não há ninguém olhando por nós. Ou haveria de ser alguém tão sarcástico a olhar do céu, sem ter movido uma palha e após ignorar súplicas de todos os familiares? Alguém dirá que fora desígnios misteriosos de Deus. Bah! Explicações tão pobres e simplistas quanto crer. Que tal acordar?

Caso haja algum deus, por favor, não quero ser apresentado! Prefiro mesmo crer que simplesmente não exista. O que há são somente as mazelas da vida, tão naturais quando as alegrias e vitórias. Uma para cada dia. É só. Simples e objetivo assim.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ano novo: além da simples cronologia

atas comemorativas têm lá sua graça se pensarmos nos festejos, na comilança, bebidas e como desculpa para nos reunirmos com pessoas queridas (algumas nem tanto assim). Mas a demarcação cronológica dos anos faz cada vez menos sentido na vida das populações urbanas. Nossos ciclos de vida tomaram uma dinâmica que nada tem a ver com a sucessão de dias e meses e, de fato, pouco importa. Exceto por alguns impostos, cobrados em janeiro, como o IPVA e o IPTU, quase nada muda com as tais passagens de ano novo. Já existem inclusive vários cursos universitários e de pós-graduação que não se pautam mais em períodos letivos tradicionais e iniciam-se em qualquer mês do ano. Talvez seja por isso que vejo o decréscimo da importância das festas de virada de ano. Se algo muda e renova, há de ser em nossas vidas, como resultado de decisões, ações de mudança e conquistas.

Dentro de minha maneira peculiar de ver as coisas, acabei adotando uma "festa de fim de ano" com parte de meu círculo familiar mais próximo - os que moram em Sampa -, agora acrescido de minha querida nora. Do jeito que dá, arranjamos uma noite qualquer, no meio da semana mesmo, e vamos a um restaurante jantar juntos, coisa que praticamente não fazemos no restante do ano. No jantar comemoramos e brindamos às pequenas conquistas de cada um, mudanças que conseguimos imprimir em nossas vidas simples, mas que têm significado de renovação, muito mais do que os dígitos do calendário esvaziado.

Às vezes ocorre de algum de nós não trazer nada à mesa como marco na vida, mas isso não importa e fazê-lo não se trata de obrigatoriedade, senão para consigo mesmo. Nesse caso pode ser que a própria reunião sirva individualmente, quando deixamos um longo período passar liso e não inserimos nenhuma medida nova na vida, valendo então como questionamento. Se servir para isso, a reunião acabará por ser boa, mesmo para quem não declara nada. Dali para diante abre-se a chance de rever-se e reinventar-se, coisa que todos precisamos fazer, a todo e qualquer tempo.

Neste ano, entre outras coisas, celebramos minha certificação da pós-graduação, o término do ciclo I do ensino fundamental da caçula (vale dizer que com excelentes notas), uma promoção da nora, da qual ainda não sabemos bem as re$ultante$ e outra que, em minha opinião, foi a mais audaciosa de todas: a darling se matricular em um curso de licenciatura. Às vésperas de se aposentar de sua carreira administrativa, momento em que a maioria pensa em mofar em casa e sobreviver de minguado pecúlio, minha voluntariosa companheira enseja uma segunda carreira. Essa é minha companheira!

Ano novo de fato é isso minha gente! E podemos começá-lo em janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho... 

sábado, 10 de dezembro de 2011

O mundo não é para os fracos

Família pobre. O pai operário, com baixa qualificação e de empregos inconstantes por muito tempo, o que exigia mudanças igualmente frequentes de residência da família, que morava de aluguel. Assim não era possível que o menino cultivasse amizades duradouras, circunstância que o afetava um bocado. A mãe, muito simples e que mal frequentara três anos incompletos de escola, cuidava do lar fazendo malabarismo para dar conta de alimentar a si, dois filhos e o marido, com os parcos recursos obtidos por este. Para os filhos, nada de materiais escolares abundantes e de boa qualidade, roupas de marca ou calçados vistosos. Tudo sempre do mais simplório, mas sem nada faltar. Lenta e tardiamente é que alguns pequenos confortos foram adentrando a casa da família, incluindo a televisão e a geladeira, pontos de honra para uma família da classe trabalhadora que via o The American Way of Life como modelo nunca alcançado. Essa na verdade é minha origem.

O que pode servir de pretexto para os letárgicos conformados pode servir de motivação para os afrontadores como me considero. De vez em quando tenho notícias de alguns que frequentaram os mesmos bancos escolares comigo e me decepciono. Considerando que em renda familiar e em benesses decorrentes minha família ficara sempre no rodapé dos remediados, se a perpetuação fosse uma lei, eu encontraria aqueles meus contemporâneos em situação social muito melhor que a minha. Mas tal não se dá. Na média deparo-me com ex-colegas sem profissão definida, muitos sem formação acadêmica e - em casos extremos - sujeitos com falta de dentes posteriores, o que considero caso de penúria e baixa autoestima alarmantes. Não por acaso é que intuitivamente me afasto destes, talvez mais por representarem o que poderia ser eu. Embora eu me sinta um pouco culpado por essa escolha, acho que me faria mais mal a proximidade deles. Só um bom terapeuta há de me ajudar a desvendar isto.

Também eu não sou lá grande coisa hoje. Mas me orgulho de minhas formações acadêmicas - algumas recentes e extemporâneas - assim como de minha múltipla formação profissional, que vão de lavar banheiro embosteado por patrão porco a já ter comandado programadores e analistas competentes, dialogando com (e arrancando grana de) empresários bem de vida. Formações ecléticas que me permitem dialogar com praticamente qualquer área de conhecimento sem manifestar ignorância plena ou, no caso de esta persistir, de demonstrá-la com a tranquilidade de quem já aprendeu que ninguém sabe tudo. Me orgulho de ser capaz de gerar recursos suficientes para manter um padrão de vida muito melhor do que daquele de onde vim, de jamais ter perdido a sede de saber e de estudar tudo o que consigo alcançar em uma estante, o que me fez investir muito do dinheiro que passou por minhas mãos em livros e cursos. E nestes últimos aspectos penso que resida o meu "sucesso sobrevivente", que nada tem a ver com esse sucesso pregado pelos embusteiros da cultura da autoajuda comportamental.

Ps.: Essa foto não é do colégio em que trabalho.
Creio que essas razões acima me fazem enxergar que os novos tempos de minha militância política hão de se dar na área educacional. É por isso que sinto tanta satisfação em colaborar com a educação de jovens e adultos, trabalho que hoje exerço ainda voluntariamente em um colégio em São Paulo. Nesta semana pude entregar, junto com outros professores, os certificados de conclusão de Ensino Fundamental I para alguns alunos que conseguiram passar nos exames de suplência. Não dá para esconder a emoção, ao constatar que esses tiveram sua autoestima elevada, sua dignidade resgatada e suas possibilidades de elevar o padrão de vida ampliadas. Esses já são vencedores ao romper com o continuísmo e o conformismo de que "sempre foi assim".

Esses são os meus. Aqueles que tiveram seu berço e suas chances, as desperdiçaram e hoje moram em casas precárias, andam com fala de dentes e desorientados profissionalmente, sinto muito. Por essas e tantas outras o meu tempo é dos que querem vencer!

sábado, 3 de dezembro de 2011

Ações e significados: fim do período letivo.

Fico pasmo toda vez que constato a falta de interpretação, que grande parte dos seres humanos demonstra sobre fatos do cotidiano. Toda ação tem um significado, por mais insensata que ela possa parecer. Ações traduzem formas de pensar e de sentir. Essa é minha premissa para a postagem de hoje.

Essa foto eu tirei ontem, na fachada da Escola Estadual Helena Lombardi Braga, na zona leste de São Paulo. O ano letivo foi dado como terminado e esse lixo são cadernos e livros rasgados, peripécia realizada pelos alunos. Todo ano o fato se repete em várias escolas e se perpetua, como um ritual. Do que se pode presumir que ninguém faça nada a respeito. Além do prejuízo urbano da sujeira, entupimento de bueiros e sobretrabalho da limpeza pública há outro lado nisso. Está na mensagem dos alunos a respeito das aulas e da escola como um todo.

A mensagem subliminar da ação porcalhona é clara: "Professores, diretora e pais, essa escola é uma merda, estudar é um saco e olha aqui o que nós fazemos com o lixo a que vocês nos obrigam". Simbolicamente todo o suado trabalho dos professores e da direção vão para a sarjeta. Está muito claro. Ok, ninguém é obrigado a reter conhecimentos, valorizar os estudos, tampouco guardar material que não será mesmo reutilizado (embora possamos discutir a questão dos livros, que são reaproveitáveis).

Rasgar todo material - diga-se de passagem distribuído gratuitamente e indistintamente aos alunos - representa o menosprezo e desídia com que os alunos veem o que chamamos de educação pública. Talvez essas famílias não se lembrem, mas há pouco mais de duas décadas não se distribuía material escolar, nem mochilas, tampouco uniformes e não havia necessariamente vagas em escolas públicas para todos, sobretudo no período noturno, para atender jovens que ingressavam no mercado de trabalho e que só podiam continuar a estudar à noite.

A poucos metros do colégio vi um catador de recicláveis suando a puxar sua carrocinha e me ocorreu: Por que não promover coleta organizada do material em um evento, de preferência com a presença de um ou mais catadores de recicláveis do bairro? Quanta pauta e quanto assunto isso renderia! Sei que isso não foi feito porque tenho contato com alunos desse colégio. Mas imagino que alguns professores - e talvez a direção -  possam alegar necessidade de cumprir o calendário, conteúdos e, enfim, reproduzir tudo o que já foi feito no ano passado. Portanto não há tempo pra fazer esse tipo de coisa. Só que aprendizagem sem contextualização é vã. A prova está na foto. Mas vamos lá aos PCN's, que mencionam fartamente cidadania e educação ambiental!

Tudo bem, não me intrometerei mais no trabalho alheio. Apenas digo que também trabalho em um colégio (particular), onde a reciclagem se tornou assunto do cotidiano e os alunos recolhem tudo o que não será reaproveitado para doação, inclusive livros. Se alguém quiser visitar, terei prazer em indicar aos interessados. Se a direção quiser, me disponho até a comparecer nesse colégio estadual, como voluntário, para falar com os alunos sobre isso. Seria até uma forma de eu devolver a boa educação que tive em escolas estaduais, onde não me lembro de presenciar cenas tão deprimentes.

Sem mais para o momento prometo que, nesta mesma época em 2012, postarei uma foto atualizada e torcerei para que a imagem não seja idêntica.

sábado, 19 de novembro de 2011

Quero mais saúde!

Sei que sou insistente sobre o assunto de serviços públicos. Sou mesmo. Nasci em uma classe de despossuídos: 25% do meu carro ainda pertencem a um banco, não possuo meios de produção senão meu fadigado intelecto, minha casa é hipotecada, não possuo poupança e nem investimentos no mercado financeiro. Enfim, eu e a darling dependemos unicamente de nossa capacidade de produzir mais-valia para a economia do país e nos virarmos nos 45 (nossos 30 já se foram há uma década e meia) para nos sustentarmos.

Estou impactado por reassistir a Sicko, do cineasta Michael Moore, justamente após uma reportagem ligada a um hospital de minha região, o Hospital Santa Marcelina, que por aqui é um dos únicos onde um cidadão consegue atendimento do SUS em questões complexas. Soube por uma reportagem na TV Cultura, entrevistando o ministro da saúde, que esse hospital vai receber ação do Ministério da Saúde para acolher mais e melhor às emergências da região (saiba mais aqui). Nada pode ser melhor.


Há cerca de um ano e pouco, tive duas ocasiões em que o SUS e o Hospital Santa Marcelina foram importantíssimos em minha vida. Tive crises renais, causadas por cálculos - as populares “pedras” - e eu estava sem convênio médico. Em ambas cheguei rastejando e gemendo, dada a dor insuportável, de sorte que tive prioridade no atendimento. O que me pediram lá depois de me colocaram em atendimento? O RG. E se eu não o tivesse em mãos eles teriam preenchido uma ficha incompleta mesmo, afinal o serviço é UNIVERSAL.
O atendimento é de fato abarrotado de gente. Não podia ser diferente. A cidade-dormitório em que consiste a região de Itaquera, na zona leste paulistana é imensa. Medicação imediata para a dor e uma espera imensa, entre uma passagem e outra pelo médico. Congestionado. Mesmo assim, em ambos os comparecimentos eu tive acesso a: consulta-médica, enfermagem, radiografia, ultrassonografia, hemogramas, exames de urina, tomografia e medicação no local. Em ambos os casos o cálculo era relativamente pequeno e o quadro infeccioso era de baixo risco, de modo que recebi alta e, de fato, as malditas pedrinhas se foram por meio escuso no dia seguinte. Mas fui bem atendido por médicos capazes, enfermeiros, técnicos e tive acesso a tecnologias que, se um colega de trabalho meu tivesse tido no convênio dele, talvez não teria morrido. O caso do meu colega, que já faz dois anos, exigia, entre outras coisas, uma simples tomografia que teria confirmado o câncer. Mas por meses a fio, o Hospital Albert Sabin e a Lam Saúde alegaram o aparelho estar quebrado. Outra hora eu conto alguns passos desse caso.
Duas décadas atrás uma querida amiga, a Inês, teve uma parada cardíaca. Ela era associada daqueles planos megaultravipblater da Golden Cross, há mais de dez anos. Talvez tenha usado em uma ou outra consulta oftalmológica ou algo assim. Eis que a demanda da crise foi por um marcapasso. Na época custava a “fortuna” de 7 ou 8 mil dólares. Bem, cliente há dez anos, ela conseguiu a autorização da Golden Cross, certo? ERRADO! Acontece que o acidente cardíaco foi atribuído a um problema de má formação congênita e blá-blá-blá-whiskas-sachê e, logo, a grande empresa multinacional de saúde não autorizava. Mais ou menos como se você tivesse ligado um aparelho de som no 220V e perdesse a garantia, entende? Simples assim. Afinal, para empresas de seguro, um coração ou um aparelho de som são bens e pagar consertos, bancar peças ou marcapassos traz prejuízos.
No caso de minha amiga Inês quem arcou com o marcapasso e, mais recentemente com a troca dele, foi o SERVIÇO PÚBLICO DE SAÚDE DO BRASIL. Sabe, esse serviço do qual a imprensa fica apontando fraudes, corrupção, desvios, o que, afinal de contas, qualquer ser pensante também abomina. Mas que nenhum cidadão consciente deveria proferir que devam ser extintos, principalmente em prol de corporações que só visam o lucro, ainda que, para que lucrem, danam-se que médicos ganhem pouco, que tratamentos vitais sejam negados, que gente vá parar na cova, contanto que mais “associados” entrem no plano e paguem suas mensalidades em dia.



Por essas e tantas outras, que vejo com louvor cada vez que um governante quebra patentes de medicamentos para distribuí-los no serviço público (viu Serra?), ou destina verbas para a saúde pública, encampa serviços malfeitos e, enfim, faz qualquer coisa para que em um hospital, QUALQUER PESSOA que esteja em solo brasileiro possa entrar, pedir socorro e ser atendida. Isso é muito importante.


Assim sendo, parem de cair no conto das revistas e emissoras de TV, cujos anunciantes são serviços privados de saúde. Pare de ficar papagueando pela privatização da saúde no Brasil. Assista a Sicko e veja como os trabalhadores estadunidenses estão sendo ROUBADOS, ENGANADOS e ASSASSINADOS pelos planos de saúde privados. Vejam como, na hora de tratar um sujeito que contribuiu com o seguro-saúde, esses crápulas não têm a menor piedade de jogar um doente na rua, porque ele não possui dinheiro ou bens para se endividar com os custos caríssimos de um tratamento.

sábado, 15 de outubro de 2011

Erradicar o analfabetismo é o melhor acúmulo tecnológico



uitos de nós discutimos nas redes e em outros fóruns sobre melhorias sociais, progresso econômico e inclusão. Enfim e de certo modo, a maioria de nós concordamos que é preciso acabar com a miséria e que não é concebível que, em um mesmo território, alguns tenham direito de possuir carros de cem mil dólares e outros não tenham um dólar por dia para se alimentar. Ainda que estejamos há mais de um século de 1888, chamo a estes últimos de cativos dos novos tempos. E como nos tempos escravagistas, há diversos níveis de cativeiro diferentes. Da senzala à cozinha da casa grande, o que temos hoje não são senão versões melhoradas do regime passado.

Contudo, há estruturas e superestruturas que garantem a permanência das coisas como estão. Quero chamar aqui a atenção para a educação. Dentro e fora da escolarização formal pairam ideologias que atribuem a pobreza à baixa escolaridade. Laudas, páginas e tomos inteiros dedicam-se a correlacionar a baixa renda com a baixa escolaridade. Basta visitar o site da UNESCO e conferir. Mas há algo mais engenhoso por trás dessa constatação questionável: a premissa de que o únicos conhecimentos válidos - nesse caso para ascensão social - são aqueles determinados pela escola formal. E, dentro desta, não será por acaso que algumas ciências são privilegiadas e outras praticamente abandonadas. Currículos oficiais são fruto de ações e decisões humanas, logo artificiais. Em última análise justificam a extratificação social. Assim é que torna-se "óbvio" que médicos, advogados e engenheiros "tenham que ganhar mais" do que lavradores, faxineiras, pedreiros e estivadores. Será tão óbvio assim?

Dirijo-me especialmente aos educadores: sei que é nosso papel transportar os estudantes, quer sejam sejam crianças, jovens ou adultos ao universo das ciências. Mas podemos fazê-lo de modo mais audacioso, colocando-lhes em permanente questionamento de que, por trás do status social que alguns conhecimentos têm por sobre outros, há um mercado de bens e serviços, intencionalmente construído, que valoriza umas coisas e desvaloriza outras. O que quero dizer com isso é que, em essência, não há conhecimentos "melhores" ou conhecimentos "piores". A estrofe de um cordel não é inferior a uma produção de Chico Buarque; os acordes sanfonados de um xote não são menos belos do que o dedilhado de João Gilberto; um grupo de maracatu ou teatro mambembe não é menos cultural do que uma apresentação (caríssima) do Circo de Soleil. As culturas têm valor intrínseco.

Colocadas as premissas acima, apelo a todos quantos possam: ajudem nossos trabalhadores menos favorecidos a conquistarem os códigos das letras e dos números, a se apossarem da parte das ciências que os ajudem a viver melhor, a não precisarem mais apresentar papeizinhos escritos por terceiros e perguntar para estranhos na rua onde fica tal endereço. A pior prisão, sem sombra de dúvida, é a treva da ignorância, pois aprisiona e domestica a consciência. Viver como um iletrado num mundo de regras letradas é ser um pária em seu próprio país. Não vamos conseguir construir sociedades melhores, porquanto persistir a segregação social, mediante artifícios tão sutis e perversos como o analfabetismo e as ideologias que sacramentam a inferiorização dos tais iletrados. Ensinar e conscientizar é preciso! 

Como militante da educação de jovens e adultos (EJA) convoco a todos quantos possam: aventurem-se a dedicar, ainda que umas horinhas de seu tempo, a essa urgente tarefa. Eu lhes asseguro: aprenderão com esses educandos tardios coisas com as quais se espantarão; descobrirão que esses supostos ignorantes graduaram-se desde sempre, na melhor e mais verdadeira escola que existe: a vida. Constatarão que eles já são vencedores, ao sobreviverem sem as letras em um mundo que só privilegia os letrados. Só lhes faltam as letras. E isto, nós, os letrados e privilegiados, podemos solidarizar com eles, ajudando-os a viver melhor e a conquistarem a dignidade em suas consciências.