domingo, 27 de janeiro de 2008

O mundo de Caras®

Fútil. Não acho palavra para definir melhor os trezentos ou quatrocentos gramas de papel couché em quatro cores, aplicado na confecção de Caras. É impressionante folhear qualquer exemplar e dar-se conta de que não há ali nada capaz de alimentar o intelecto. Nem mesmo uma ou outra receitinha culinária salvam-na da babaquice completa. Cheguei a essa conclusão da forma mais empírica possível. Como sempre rejeitei essa revista no salão onde corto o cabelo, foi apenas quando ela chegou em minha casa que pude fazer o exame detalhado. Durou os exatos cinco minutos em que permaneci sentado no vaso sanitário. Um bom lugar para folhear Caras, já que toda manhã eu... (pouparei o leitor dos detalhes).

Considerando a razoável formação cultural da minha família o leitor há de se perguntar: como chegou isso na casa do tio? É que os editores da Caras, ano passado, fizeram uma promoção tão idiota quanto a própria revista. Era aquela famosa "receba X edições grátis", que termina com um boleto bancário facultativo para renovação. Divulgada a farra no trabalho da darling, a mulherada em peso preencheu um formulário na internet, que não requeria nem mesmo o sobrenome do assinante virtual. Bastava dar o endereço, um primeiro nome e pronto. A darling usou do famoso "de graça até choque" e o fez. No final da palhaçada, todo mundo recebeu a enriquecedora publicação em suas casas. E digo mais, que elas não o fizeram só uma vez. Ao expirarem as edições gratuitas, preenchiam novamente dando outro nome para outras quatro edições também grátis. A brincadeira durou umas quatro rodadas. Dezesseis edições de Caras digrátis pra cada uma. E ninguém do grupo, em absoluto, se interessou pelo singelo boleto para perpetuar a assinatura.

A maioria dos exemplares da minha casa já foi repassada, com a embalagem ainda lacrada, pro tiozinho catador do bairro. Um ou outro acabou sendo aberto pela cria, pela própria darling ou por alguma visita muito culta que se espantava com a pilha de Caras sob a mesinha na sala. Depois do bota-fora uma ou duas sobreviveram como literatura sanitária, dividindo espaço com outras publicações ecléticas como revistas de Informática, um livro de auto-ajuda sobre alimentação e até duas edições de uma revista Zen-Budista.

Hoje durante meus afazeres orgânicos matinais, folheei a que estava na pilha ao lado. Na capa da edição de 16/11/2007, Ivete Sangalo sorria apaixonadíssima por um namorado bósnio. Paixão avassaladora esta que acabou há poucos dias, dentro do padrão de descartabilidade dos romances famosos. Talvez pela falta de redatores competentes, ou pela falta de conteúdo mesmo, o que predomina na revista são fotos. Fotos e mais fotos. O que pode ser também uma estratégia editorial, ligada à baixa capacidade de leitura e compreensão dos adeptos da revista. Como infelizmente grande parte dos periódicos impressos, Caras é apenas um suporte flácido e oco para veiculação de 348430834080 propagandas a cada edição. Pela vida de quase uma década e meia dessa pérola, é certo que existam anunciantes de sobra. E tontos que a compram.

Não é difícil entender as prováveis causas de Caras ser um sucesso editorial. Basta somar o baixíssimo nível cultural da população de todas as classes sociais à incapacidade crítica e reflexiva que cresce exponencialmente, mais o ideal consumista alimentado pela indústria e pela mídia e, por fim, o voyeurismo idiota das camadas mais pobres, ao almejar o mundo falsamente feliz das celebridades vazias enquadradas pelos fotógrafos.

As fotos conseguem como nenhuma outra coisa combinar a plástica de sorrisos artificiais com poses bizarras das mais variadas. Estou com preguiça de escanear pra botar aqui, mas tem cada uma de chorar de rir. O namorado da linda Luíza Brunet ajoelhado em pose de súplica, enquanto ela simula subir as escadinhas do casebre de um beco italiano é uma das tantas. Bem de frente a uma das torres do tal Castelo de Caras, um tal de Kiko Sobrino (?) e outro sujeito chamado Alessandro Jordão (?), de costas um pro outro encenando armas com os dedos em riste macaqueando um duelo. Mal-vestidos como só eles. Me desculpem mas independente de quantos cinco ou dez mil reais possam estar cobrindo-os, ambos não têm o menor senso para indumentárias. Bregas. Uma gal de Gigi Monteiro (?) mostra sua barriga da gravidez. Igual às rampeirinhas daqui da periferia. Só que é bem bonita e cosmeticamente tratada. Lamento apenas porque barrigas em formato de melancia não são algo esteticamente bonito e deveriam sempre ser ocultas. Já um casal de nome Carla Regina (?) e Malcolm (?) está sentado sobre a cama sob véus fazendo pose de apaixonados a olhar e sorrir um para o outro. Bela cena seria, não fosse resultado de encenação sob flashes e olhares de meia dúzia de profissionais, aboletados dentro do mesmo quarto. Em outra foto sensacional uma tal de Tatiana Santo Domingo (?) com seu parceiro Andrea Casiraghi (?) ostentam respectivamente um sorvete de casquinha e uma cerveja Kronenbeer (argh!). Karen Couto (?) compra biscoitos em uma loja na Itália, vejam que interessante. Maria Paula e João Suplicy - esses eu sei quem são - estão em uma loja de utilidades domésticas e enxovais fazendo compras. Em uma das fotos eles estão examinando panelas anti-aderentes, algo realmente engrandecedor. Não por acaso, em toda e qualquer foto ao ar livre figura um Fiat Punto, lançamento na época da edição. Belo carrinho, mas merchan paupérrimo em criatividade e sutileza.

E esse é o mundo de Caras. Fotos posadas, sorrisos de visível superficialidade, celebridades insignificantes para a evolução humana, romances rasos e fugazes, vestes onerosas e feias, falsos escritores, falsos pintores, premiações vazias e anúncios - claro - muitos anúncios.

Pobres diabos das classes remediadas e das classes pobres. Folheiam essas coisas e sonham, enquanto amargam pegar trânsito suando e bufando por seus salários miseráveis. À margem da riqueza material por contingência. Alheios à riqueza cultural e espiritual por arbítrio.

4 comentários:

Mary Poppins de TPM disse...

7 entre 10 pessoas que conheco tiveram o primeiro contato com esta publicacao durante os afazeres organicos. Alias, Caras deveria ser vendida em supermercado, na secao de papel higienico, pq e nessa hora que o que menos importa e refletir muito (as atencoes estao voltadas para outra regiao) e eh quando eu olho para as fotos e penso: Sua privada pode ter descarga banhada a ouro, mas nesta situacao, amigo, o seu fede tanto quanto o meu!!

JRP disse...

Mas vende muito essa merda, heim?

Anônimo disse...

chegeui a esse comentario, procurando informações sobre uma chef !!! culinária!!Karen Couto
estava pensando em ir jantar num certo hotel, onde ela vai ser a chef, e resolvi me informar.
pasmen, só encontrei o nome dela ai, e na caras!!!
ou ela já é uma celebridade ou é puro marketing.
diz na reportagem que ela é colaboradora de Ferran Adria, o espanhol famoso (das espuminhas).
essa informação me animou a jantar no tal hotel.
o que vem aser COLABORADORA em gastronomia?

Tio Xavier™ disse...

Caro anônimo:

Por me informar de quem se trata Karen Couto, a compradora de biscoitos na Itália, você já iluminou meu obscuro intelecto.

Esse cargo que você pergunta, deve ser uma nomeclatura tucanesa para "auxiliar de cozinha".

Abração!