sábado, 3 de fevereiro de 2007

Pesquisa política em MG

A estagiária de jornalismo está dando um duro danado em uma pesquisa de campo. Foi designada para uma pequena cidade do interior de Minas Gerais. Bate palmas à porta da primeira casa, da longa jornada do dia.

[clap clap clap clap]

Um matuto abre só a frestinha da porta, o suficiente pra pôr o olho.

- Bom dia senhor!
- Dia!
- Sou de um instituto de pesquisas e estou fazendo uma qualitativa de opinião. Este é meu crachá. Posso entrar?
- Uai, institu di quê?
- Pesquisa senhor.
- I tem pisquisá logu aqui?
- Não senhor. Vários bairros da cidade estão sendo pesquisados. Eu fui designada para este.
- I num há di tê otras casa?
- Todas vão ser pesquisadas. Comecei por aqui. Então, posso entrar?
- Sei não sinhora.
- Como não sabe, meu senhor? O senhor não é o dono da casa?
- Sô donu di nada não.
- Mas o senhor não mora aqui?
- Moru, mais di aluguel.
- Não importa. Por favor senhor, é um trabalho importante.
- Tindi. Fazê u quê? Intão entra, uai.

Contrariado, o mineiro abre a porta e a moça vai entrando.

- Com licença. A pesquisa é sobre política local.
- Xi. Lá vem cois...
- Qual seu nome, por favor?
- Nomi? Como assim?
- Nome, senhor, seu nome. Preciso preencher no formulário.
- Mais aí ocê vai fazê u quê cum meu nomi?
- Absolutamente nada, senhor. Os dados são sigilosos e não vão jamais ser divulgados, ok?
- Uai, si num vai divurgá intão num há di tê pricisão du meu nome, num é mes?
- Mas senhor...

Nesse momento a garota lembra que precisa visitar mais tantos lares naquele dia e resolve escrever qualquer nome no formulário.

- Muito bem senhor! Vou escrever aqui José da Silva, ok?
- Ocê qui tá dizênu.
- Bem, o senhor acompanha a política daqui da cidade, certo?
- Sei nadinha di pulítica não, môça.
- Como não? O senhor não é daqui?
- Sô não sinhora.
- De onde o senhor é?
- Di otra cidade.
- Sim, mas mora nesta casa há quanto tempo?
- Aqui?
- Sim.
- Nessa casa faiz sêis mêis.
- Então o senhor chegou há pouco tempo na cidade?
- Um tiquim.
- Quanto tempo?
- Uns quinzi anu, achu.
- Ora bolas, então onde o senhor morava antes desta casa?
- Na rua ditráis, uai.

A pesquisadora começa a suar.

- Vamos lá: Em qual candidato o senhor votou para prefeito nas últimas eleições?
- Quandu é qui foi isso?
- Foi no final do ano passado. E o senhor já morava aqui, não é?
- Já disse qui não dona. Eu morava na rua di tráis.

A moça desiste da questão e assinala qualquer coisa.

- Entendo. Então vou para a questão dois. O que o senhor acha da prefeitura daqui?
- Nunca fui lá não.
- Estou perguntando da administração da cidade.
- Qui tem ela?
- Esta página da pesquisa é de satisfação. A administração é boa ou ruim?
- Ah... uns diz qui é boa... otros diz que é ruim.
- E o senhor?
- Qui tem eu?
- O que o senhor diz?
- Digo nada não, dona. Só vô iscutano as prosa dus ôtru.

A estagiária sonha com o dia em que trabalhará em uma redação.

- Pois bem senhor e os vereadores?
- Di ondi?
- Daqui, ora!
- Conteceu arguma coisa cum eles?
- Não, mas em qual vereador o senhor votou na última eleição?
- Sei não.
- Como não sabe? Na sua porta tem um cartaz de um candidato.
- É messss... Qui coisa, dona! Si a sinhora num fala eu num tinha vistu, sô. Vai vê tá aqui dêis di antis di eu mudá e num notei. Inda bem qui a sinhora aviso... Já vô inté mandá tirá... Ô fio, vem cá mais u pai fazê uma cois... Essas criança são fogo dona... Priguiços qui só... Ói um dia dess u minorzim deles, me aprontô uma...
...

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

O futuro que nos espera

"Que pena que ela vai morrer. Mas quem vive?" - Com essa frase rememorada pelo policial Deckard, protagonizado pelo impagável Harrison Ford, termina a Director´s Cut de Blade Runner. Sem dúvida um dos melhores filmes SCI-FI de Hollywood.

Depois de vê-lo no cinema mais de uma vez na época em que fora lançado, adquiri o vinil da trilha sonora, depois comprei as duas versões em CD (uma com a New American Orchestra e outra com o próprio Vangelis), eis que chega à coleção do tio Xavier o DVD do filme. De tanto procurá-lo em vão eu já cogitava mandar digitalizar meu conservadíssimo VHS, mas não foi preciso. Pela bagatela de vinte e cinco reais pude adquirir no Submarino uma cópia remasterizada de ótima qualidade. Entre tê-lo achado na internet, preencher o pedido e pagar o boleto, meu impulso de compra foi tal que fiz tudo em menos de cinco minutos. Acho que era medo de que o estoque acabasse.

A Los Angeles de 2019 pintada por Ridley Scott é soturna, chuvosa, poluída em todos os sentidos, superpopulosa, impessoal e fria. Saturada pela mão destrutiva da civilização, a Terra está inabitável. Grandes empreendedores imobiliários do futuro anunciam loteamentos em outros planetas colonizados. É o homem predador levando a cabo a missão que criou para si, de devastar todo o Universo à sua volta. A Engenharia Genética, através da Tyrrel Corp cria os replicantes, uma espécie de andróides semi-humanos, para servirem de escravos e guerreiros na nova conquista do Oeste, desta vez a rapinar terras muitos anos-luz distantes do Arizona, com espaçonaves no lugar de diligências. Os replicantes são planejados para não saber que o são e para durabilidade finita. Porém, um grupo deles toma consciência dos fatos e se amotina em busca do segredo para viver mais. O ex-policial Deckard é intimado a prestar serviços novamente no extermínio dos invasores. Um enredaço baseado no livro de Philip K. Dirk, Do Androids Dream of Electric Sheep? (Os andróides sonham com carneiros elétricos?).

Blade Runner é um filme profundíssimo, cuja fotografia e cenografia são labirintos de sutilezas. Como no instante em que Deckard tira o casaco e aparece por baixo uma camiseta que lembra uma camisa cowboy. Ele a qual despe - também simbolicamente - ao confrontar-se com estonteante replicante Rachael (Sean Young) por quem se apaixona. As questões existenciais clamadas pelo filme percorrem as dúvidas sobre os destinos da civilização. Escancara que, diante do sistema que levou o mundo ao caos da Los Angeles de 2019, andróides e humanos são difíceis de se diferenciar na multidão. Mais do que na aparência, no papel de cada um na manutenção silenciosa do sistema em que as multidões patéticas mais parecem reses abate. Como andróides? Durante uma das caçadas em que Deckard sai atirando e atropelando a multidão, vê-se um grupo de Hare-Khrishnas cantando a boa e velha Hare-Hare. Essa aparição sugere que a busca pelo divino e o transcendente talvez nunca morra, mesmo naquele futuro caótico e tenebroso.

É quase certo que em 2019 as metrópoles ainda não estarão como no retrato cinematográfico de Riddley Scott, ao menos no que diz respeito à tecnologia e ao visual. Porque essencialmente cada vez mais será difícil diferenciar os humanos dos andróides. Seremos todos criação da indústria genética para a manutenção do sistema? O que nos faz humanos? - são questões que, de modo cifrado, o replicante Roy (Rutger Hauer), tece no seu discurso de morte. Time to die, em suas últimas palavras.

* * * * *

Agora chega. Compre o seu e assista. De preferência dezenas de vezes, como o tio Xavier. Sinto que há mais a filosofar com essa pérola cinematográfica do que pode imaginar a nossa vã TV aberta (eca!).

Nota: O Submarino, a Warner, o Ridley Scott e o Harison Ford nada pagaram ao tio por essa babação de ovo. Mas não resisto. O filme é mesmo sensacional.

Comemorar?

Diferente do post sobre o aniversário de Sampa que fiz ano passado, neste ano um realismo pesaroso ronda minha mente. Eu já protagonizei o filho arrependido da parábola cristã. Isso ocorreu no início da década passada depois de tentar a vida em uma cidade do interior. Sampa me recebeu com ressalvas, mas depois me acertei com ela, ficamos de bem novamente e saboreei de cada oportunidade do cotidiano que ela oferece. Saí sem grana e desfrutei de atrações gratuitas, saí com o bolso cheio e me diverti em baladinhas e bares caros, já tive o carro roubado à mão armada, outro furtado em minha ausência, já arranjei empregos, namoradas - atividade que cessou na atual companheira - , vi temporais e a garagem do prédio encher-se de água naufragando meu fusca, mudei de casa, abri meu próprio escritório, reencontrei amigos antigos, perdi outros... isso não tem fim e renovo diariamente. Morar em Sampa é algo único.

Mas minha reflexão de hoje me remete a um recém-conhecido na cidade. O buraco da obra do metrô, filho mais novo desta metrópole. Tudo bem que eu também estou de saco cheio dele. Até mesmo minha caçula um dia desses desabafou, ao ver a milésima chamada de noticiário a respeito dele. Mas eu insisto que há mais para entender naquele buraco.

O que está por baixo daquele buraco além do entulho e - tomara que não - mais algum cadáver? Me perdôe pelo comentário mórbido, mas o buraco é o símbolo de nossa cova comum. Do pó vieste, ao pó voltareis, parece ser a voz que vem do fundo da vala. Ou decifra-me ou devoro-te diria o buraco se tivesse a formosura da esfinge egípcia. Mas o buraco é feio, decadente, escuro e úmido. Talvez seja mal-cheiroso também. Acima de tudo, a cratera conta uma história.

A história é de uma metrópole construída por barões do café, que por tanto e quanto tempo deram as cartas no que eles chamam de desenvolvimento. Não reclamarei da falsa pompa de outrora, quando gente bonita rica e bem trajada cruzava o Viaduto do Chá e lindas mansões ostentavam o impressionismo realista dos manda-chuvas. Na verdade nem meus pais viveram essa época (sim, sou um tio jovem). Mas falo de coisas e circunstâncias muito mais próximas de nós.

Falo do fim de um falso milagre econômico feito à custa de poupança de viúvas européias com juros quase simbólicos. Um sonho que morreu definitivamente no início da década de 80 também soterrado, mais tarde pela cratera-panacéia do Plano Cruzado. Falo de um descaso absurdo com os milhões de migrantes que até então foram intencionalmente atraídos para cá. Foram bons porquanto serviram de carregadores de tijolos e limpadores dos quintais das lindas mansões. Com o fim delas e das grandes obras governamentais, passaram à condição de seres errantes ciscando trabalhos temporários e se desqualificando moral e socialmente a cada dia, à cada geração, engolidos pela informalidade e pelos imensos camelódromos controlado por mafiosos ricos.

Falo de serviços antes públicos e reconhecidamente de responsabilidade dos Governos. Nada mais justo já que do sustento da maioria eles tiram as primeiras fatias do toucinho. São escolas podres, postos de saúde simbólicos, policiais mal-remunerados, transportes insuficientes para os fluxos humanos que vão dos bairros-dormitório, como Itaquera, até os suntuosos centros empresariais como a Berrini. Se você morar em um bairro de periferia, já deve estar cansado de saber que nós e nossos familiares são transportados em um serviço autônomo de vans controlado pelo PCC. Cadê a saudosa CMTC? Depois da privatização, foi esse o destino das linhas que os empresários foram rifando para as cooperativas de transporte auto-geridas. Nesse contexto o buraco desabado é somente o resultado de um Estado que se retirou até mesmo da supervisão e fiscalização das obras públicas, num belo exemplo da aplicação da privatização universal e sem critério.

São décadas de rodízio simbólico de partidos e arremedos de gestões populares, mas que se somam e resultam em uma deterioração visível a qualquer um. Enquanto isso a burguesia cafeeira depois de vender suas lindas mansões na Paulista para construtoras de prédios que esconderam os céus, agora ela própria se esconde em condomínios fortificados inclusive em municípios vizinhos, como Barueri. Criam suas fortalezas para passar seus dias imunes à tamanha cagada pseudo-gestora em que insistem prosseguir, pois o importante é levar vantagem em tudo, como profetizou a famigerada propaganda de cigarro.

E a população de Sampa continuará amanhecendo trabalhando e anoitecendo trabalhando. Ao menos enquanto o buraco da obra da deterioração social não se expandir e engolir a tudo. Mas acredite que de certo modo nós todos - tanto os protagonistas quanto os omissos - estamos lá debaixo do soterramento. Nossa cova coletiva, vala comum de nossa morte. Pena que nem os bombeiros nem as cadelas farejadoras parecem nos encontrar.

Ei senhores, onde vão? Voltem aqui!

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Sorte tem quem acredita nela

O tio não costuma jogar. Mais precisamente o tio odeia jogatina, inclusive loterias legais ou ilegais. Mesmo assim, no ano passado - não me faça perguntas - eu comprei esse bilhete acima, o qual ficou por meses esquecido até que hoje resolvi tirá-lo da carteira e conferir. Não sem antes ler as cláusulas no verso pelas quais descobri: os prêmios prescrevem em noventa dias.

Sim, meu caro leitor, se você comprar um bilhete, ele for premiado e não retirar a grana em noventa dias, ela vai-se embora para sempre, para algum fundo de habitação ou sei lá o quê.

Well, o tio resolveu conferir o dito no site da CEF. Pra começar que essa extração não constava mais no site e tive que fazer download de um arquivo com todas as 54069461460 extrações desde a década de 1960. Eis que achei a que me interessava. Adivinha?

Não meu caro amigo, não terei sequer o que reivindicar na Justiça, porque os números nem passaram perto. Por incrível e contraditório que isso possa parecer eu suspirei aliviado. Mas fique esperto: ao comprar um troço desses confira tão logo a extração saia. Coloque lembretes no monitor, alarmes no Google Agenda, anote na sua agenda de mão, no seu palmtop e no seu celular. Senão, lamente depois.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

A Sociologia das Filas

Hoje uma amiga me propiciou um momento de sinapse único e demarcador de uma nova etapa em minha vida. Ela me contou que foi ao Fórum Cível em Sampa e lá havia uma imensa fila para atendimento. Para entender melhor o meu artigo, leia antes AQUI. Mas as histórias possuem alcance muito maior do que as intencionadas pelos seus protagonistas e narradores. E foi lendo a narrativa dela que tive um instante de iluminação, subindo um degrau rumo ao Nirvana. A Sociologia das Filas é um ramo do estudo sociológico que até agora não havia sido explorado por nenhum outro estudioso. E a partir deste post, tio Xavier passará a ser uma referência acadêmica mundial no assunto.

Existe uma razão psicossocial para a existência das filas. Elas vão muito além das motivações aparentes. Entenda: quando você vê uma fila de banco não se trata de uma simples fila de banco. É na verdade um evento social construído pelo inconsciente coletivo das classes populares. Trata-se da oportunidade que o povão, o populacho, o proletariado - ou seja lá como você queira chamar a gentalha - cria para se relacionar, interagir e se reafirmar como sujeito social.

Veja a dona Francisca* do post mencionado no caput deste artigo. É bem possível que, depois de a Red´s ter se mandado da repartição pública, a dona Francisca tenha feito o mesmo. A fila para ela, enquanto terapia, já tinha cumprido sua função. Dona Francisca jamais ouvira falar em Freud e Jung e sequer teria grana para pagar um profissional da Psicologia. Mas o inconciente dela sabia que ela encontraria a Red´s na fila para ouvir as suas lamúrias bostiais. Nada mais. Dona Francisca foi embora aliviada e graças à função terapêutica da fila, conseguirá suportar o cheiro de fossa por mais alguns dias, sem esfaquear o vizinho imundo.

A fila e a afeição que o povo tem por ela remonta a períodos muito antigos da história da humanidade. O que teria sido o Êxodo senão uma grande fila de povão atrás de Moisés? Os hebreus sequer questionavam a escravidão em si e nisso os teólogos da libertação erraram feio. O povo não seguiu o fundador do judaísmo em busca de liberdade até porque a maioria nascera em cativeiro e nunca imaginara outro modo de vida. Seguiu porque Moisés conseguiu formar uma pequena fila. E os hebreus foram atrás dessa fila. A maioria sequer sabia o destino ou quem era o guia. Alguns questionaram e foi depois de muitos dias, por causa da falta de alimento.

Falando em alimento, é só olhar os supermercados. Todos sabem que há carne cortada, selecionada e pesada nas bandejinhas das gôndolas refrigeradas. Mas o povão faz questão de pegar a fila do açougue do mercado. Não é como todos pensam - para obter cortes privilegiados - mas pelo simples ato de fazer parte de uma fila. Senão como explicar que o povão lote os supermercados nos mesmos dias do mês e nos demais encontrarmos os caixas vazios com as operadoras quase dormindo? O argumento do dia do pagamento não cola, já que o povão compra sempre com cartão de crédito e o que vale é o vencimento da fatura. Algumas investigações revelam que o povão se reúne em confrarias secretas, para combinar quando é que vão assediar os locais com filas. Isso explica as oscilações entre vazios e filas quilométricas, de alguns locais.

Mas a fila não é privilégio das classes proletárias. A paixão pela fila conquista gentalha de classes mais abastadas. É só passar diante de uma balada-badalada, para ver que a fila também exerce ali seu papel de formadora de opinião pois em última análise ela indica os lugares in do momento. Você entraria em um restaurante que em pleno domingo não exibisse uma fila na porta? Não minta. Ou você acha que o Famiglia Mancini em Sampa recebe centenas de clientes aos domingos por causa das deliciosas pastas e suculentos molhos? Nada disso. Experimente tirar a fila da porta, que é onde as pessoas bebem, conversam, tomam o sol escaldante e ficam em pé durante horas, para ver quantos fins-de-semana resistirá o hit gastronômico deles.

A fila tem também um apelo religioso. A Eucaristia teria sido - segundo os evangelhos - instituída pelo próprio Jesus. Fora em uma mesa de refeição sentado junto com seus apóstolos e entes mais queridos. No entanto, o cristianismo de massa instituiu a missa com o povão sentado nos bancos. Mas é só o padre anunciar a distribuição da hóstia que o povo mais do que rápido forma uma imensa fila. As igrejas bem que tentaram instituir ministros auxiliares para levar o sacramento até onde o povo ficava sentado, mas não funcionou. O povo ignorava os ministros e insistia na fila. Assim também as romarias e procissões são expressões religiosas da predileção por filas que o povo tem. Aposto uma caixa de cerveja que a maioria dos romeiros não tem a menor idéia de quem é o santo ou a festividade de determinada procissão. Para os romeiros santa é a fila e isto basta.

Por fim, a fila possui sua expressão e faceta lúdico-infantil. As brincadeiras inocentes como balança-caixão e piuí-abacaxi são embriões do que as crianças almejam para a idade adulta: a fila. Mesmo a brincadeira de ciranda cirandinha exprime um simbolismo filosófico sobre a fila. A roda é nesse caso representa uma fila infinita, que submete as crianças a guinadas de trezentos e sessenta graus. As crianças terminam sempre no mesmo lugar, só apenas um pouco mais tontas e risonhas. Isso é importantíssimo na infância, pois as prepara para a vida adulta, de modo que entrem e saiam de filas em repartições e bancos com um pouco mais de humor.

O estágio mais elevado da fila já foi atingido pela humanidade. Ele está expresso pela criação das filas de sentados. São aqueles locais onde você retira um ticket numerado e fica olhando um painel para ver se seu número é chamado. O painel comprova de forma inquestionável que você não é nada mais do que um número. As cadeiras formam um confortável ambiente, que alude aos sofás das salas de visitas onde as pessoas sentam-se para conversar e contar causos. É como se nem existisse fila e todos estivessem em uma grande reunião de amigos. Por isso raramente se vê pessoas reclamando, já que estão confortalmente sentadas e o painel universaliza a espera.

Eu tenho revelações inéditas sobre a relação do cotidiano com as filas. Só para adiantar uma, o movimento Diretas Já foi uma campanha não pelo direito de voto em si, mas pelo direito de fazer filas imensas nos postos de votação. Quem quiser saber mais, pode contratar minha palestra Sociologia das Filas - Muito além de Marx e Engels ou aguardar o lançamento do meu livro. E você poderá fazer fila para receber meu autógrafo, claro.

Na próxima vez que avistar uma fila, não critique o serviço em questão. Pense nos milhares de freqüentadores que se sentem melhor dia-a-dia ao passar pelas filas.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Neologismo no buraco

"Acidentes como esse são improvisíveis" (sic)
José Tadeu da Silva - Engº Civil/CREA-SP, em entrevista à TV Gazeta.

domingo, 14 de janeiro de 2007

Só contaram para ele

Diante da imensa tragédia na obra do Metrô de Sampa, que até agora não sabemos a quantos vitimou, o governador sai com essa pérola:

"Quem estiver lá dentro, terá sido vítima"

Só uma pessoa muito perspicaz é capaz de uma conclusão dessas.

Mandem esse homem pra casa urgente e deixem os bombeiros trabalhar!

sábado, 13 de janeiro de 2007

Falando sério

Uma modelo que até o momento não demonstrou se seu talento vai além das passarelas, talvez na falta de outro lugar ou quiçá em busca de mais notoriedade, trepa com o - quem sabe - enésimo ficante amoroso da sua vida. Só que em plena praia pública e debaixo de sol-a-pino. Escancara os orifícios ao rapaz e a sublime cena aos fotógrafos e filmadores de gosto duvidoso, que trabalham para veículos compatíveis.

Doppo o tal vídeo vai parar em um site hospedado no exterior. Sabe-se lá se não fora por ação direta ou indireta dos próprios ciosos. Eis que meritíssimos, sábios e letrados juízes da 4ª Câmara do TJ/SP decidem: Nenhum internauta brazuca poderá doravante freqüentar o Youtube. Tudo por conta das cenas calientes e de um processo movido pela modêlo-apresentadora de voz anasalada e seu viril parceiro sexual.

Os meritíssimos, sábios e letrados juízes perdoem-me pela intromissão, posto ser eu uma ignóbia criatura acerca da Lei e do Direito. Mas poderão existir outras coisas dignas julgamento urgente, que não esse infame e medíocre episódio sexual litorâneo? Minha vã ignorância tenta-me a questionar se a nobreza da atividade judiciária não viria a ser incompatível com a paupérrima petição do casal sexualmente ávido. No mais, sempre ouço dizer que os tribunais estão abarrotados de processos e que alguns tramitam há anos e até há décadas. Talvez não seja verdade. Pois senão como é que poderia logo esse, de causa tão medíocre, circular tão rápido pelas mesas dos nossos atarefados magistrados? Ó Destino, porque me fizeste ser tão inapto ao juízo e tão desconhecedor da magnitude dos temas magistrais?

Por fim, bloqueio de acesso só existe na mente de seres desprovidos de conhecimentos elementares de navegação internética. Cliente de uma das empresas idiotas que acataram a decisão, apenas redirecionei meu servidor proxy para outro situado no exterior e naveguei normalmente. Há dezenas deles - e gratuitos - espalhados pelo mundo.

Bloqueio de site é pra jacú. Trepar na praia também. Julgar méritos, isto sim é para os magistrados. Cada qual, cada qual.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

O dia da marmota

nove horas

Na verdade foi um pouco mais tarde, pois cheguei atrasado só pra variar um pouco. Fico sabendo que a carga do meu cliente, que me esmerei para colocar no agente aéreo sábado de manhã sequer saiu de lá. Somente à tarde ela sairia para Congonhas, para - quem sabe - embarcar à noite para BH, seguindo no dia seguinte para Confins e, desta, em via terrestre para a cidade destino. Meu cliente terá trigêmeos.

dez horas

Toca meu telefone com um prefixo de MG. Não atendo. Não tenho nada para dizer para o cliente. Vou pôr a culpa na Varig?

dez horas mais 30 minutos

Chega um e-mail de outro cliente perguntando sobre a entrega de uma impressora. Não tenho o que dizer para este, porque a distribuidora fica no sul de Minas e foi inundada na sexta-feira. Deixo para respondê-lo amanhã quando eu conseguir dizer algo convincente.

onze horas

Ligo para uma distribuidora de peças para saber sobre quatro míseras pecinhas, essenciais para o conserto de equipamentos de outro cliente. São quatro míseras como eu disse. Tão simplórias que é uma vergonha que não sejam fabricadas no Brasil. Bem, a resposta é que terão que ser importadas e demorarão até quarenta e cinco dias para chegar. Não crio coragem de ligar para esse também.

meio-dia

O dia está um saco só. O extrato bancário da empresa acusa apenas doze reais. Doze reais e está certinho. O número não sai da minha cabeça. Olho o contas a receber e dou-me conta que o próximo recebimento significativo só ocorrerá daqui a dez dias. Penso em suicídio. Evito consultar as contas a pagar e saio para almoçar.

uma da tarde

Volto para minha sala, escovo os dentes e ligo a tevê no noticiário. Na verdade nem presto atenção no conteúdo. Pouco me interessa.

dez para as duas

Vou a um bairro próximo visitar uma empresa de onde me ligaram solicitando visita. Marcada para as 14 horas, chego britanicamente no horário e me anuncio. A recepcionista gerundista disse que estava avisando e a pessoa de contato já ia estar atendendo.

duas e meia

Jogo um cartão de visita na mesa da gerundista e me mando. Porra, se os desgraçados não podiam atender porque não falavam logo? Eu odeio esperar. Na volta passo no banco onde tenho conta pessoa física. Tiro uns trocados para pagar dois credores dos arredores, que não merecem esperar. Quem manda eu almoçar no boteco fiado e colocar o conserto do micro no prego?

três e meia

Depois dos pagamentos entro no escritório. Está uma zona. Não agüento mais aquela baderna. O calor me derrete e o circulador-de-ar-engana-trouxa parece rir de mim com sua ineficiência. Olho pro infinito. Tenho umas dez tarefas para fazer, pelo menos. Mas vontade nenhuma de fazê-las.

quatro da tarde

Abro o scanner e o que encontro nele? O boleto do seguro do carro. Agora me diz: que raios fazia o boleto dentro do scanner? Não tenho com quem brigar, pois trabalho sozinho e só eu mesmo podia ter feito aquela merda. Detalhe que o boleto não podia mais ser pago após 02/01/07. Ligo pro corretor e ele verifica que terei que fazer uma vistoria no carro, para ele obter outro boleto e revalidar meu seguro, que está bloqueado.

cinco da tarde

Fecho o escritório e de saco cheio me mando para passar no posto de vistoria e em seguida buscar minha filha na escola. Sim, ela está na escola em pleno janeiro. A escola infantil é integral e não temos com quem deixar a criança. Na frente do posto de vistoria vejo uma fila com uns dez carros. Odeio fila. Decido fazer a bosta da vistoria somente no dia seguinte.

seis da tarde

Desço a ponte do Tatuapé no acesso para a Marginal. Paro atrás de um carro que aguardava oportunidade para acessar a pista. Ouço um estrondo e meu caro chacoalha tanto que meu cérebro dá boot. Pelo retrovisor vejo a tampa do porta-malas aberta pelo impacto. Checo se minha filha está bem no banco de trás e noto que só está assustada, tanto quanto eu. Atordoado, desço do carro para entender o ocorrido. Só tenho tempo de escutar pneus cantando e um carro quase me atropelando se manda. Percebo que meu sedan virou um modelo hatch. Tarde demais. Não consegui sequer ver o modêlo e a cor do filho da puta. Quanto mais a placa.

seis da tarde mais três minutos

A tampa não fecha, o pára-choque está afundado, o chassi do carro idem. Amarro a tampa com uma cordinha que havia no porta-malas e rumo para a minha casa de onde não devia ter saído hoje. Amanhã verei a real dimensão dos prejuízos e pensarei como me virar para pagar o conserto.

seis da tarde mais vinte minutos

Tentando me refazer do susto, do tranco e da desilusão, pego o celular e ligo para meu primo Eduardo. Edu é funileiro (ou lanterneiro, em carioquês). Conto a desgraça toda e aviso que passarei no trabalho dele pela manhã, para ver o que fazer. Percebo que ele não está entendendo nada. Só então percebo que ao invés de meu primo, eu falava com um cunhado também Eduardo. Não é meu dia. Acho que vou tomar um banho e dormir. Não sem antes tomar uma cachaça. Tenho certeza que amanhã quando o despertador tocar, verei que foi tudo um sonho. E este post não existirá.

Não precisa dizer: eu sou o cocô do cavalo do bandido que foi assassinado pelo xerife.

sábado, 6 de janeiro de 2007

Da série "Questões que assolam a humanidade"

Para que raios serve o controle-remoto da TV, se na hora em que precisamos dele temos que levantar do sofá e procurá-lo por toda a sala?

Como se não bastasse, os aparelhos de hoje praticamente não possuem painel de comandos. Cadê a TV com comando de voz que ainda não inventaram?

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Concurso público: Técnico condutor de quadrúpedes

A Secretaria Municipal de Turismo da Prefeitura Municipal de Jaboarandim (PB) abriu inscrições para concurso público de técnico condutor de quadrúpedes. Sim, foi isso mesmo que você leu. O local de trabalho será na praia de Vivendas. Para quem não conhece, Vivendas é uma praia turística muito freqüentada em Jaboarandim e o ecoturismo lá é responsável por parte significativa do PIB municipal. Daí a importância de se criar o cargo.

Entre os requisitos, exige-se: curso primário completo (Ensino Fundamental-Ciclo I), disponibilidade física para auxiliar turistas a montar nos animais, suportar sol intenso e cumprir jornadas nos fins-de-semana durante temporadas turísticas. São apenas trinta vagas.

O salário é de trezentos e cinqüenta reais, mais auxílio-alimentação de quarenta reais e - acredite! - um protetor solar fator 50 por mês. As inscrições podem ser feitas em qualquer agência do BB e custam mil e quinhentos reais, junto com o caderno de estudos e a cópia do edital. Os exames serão realizados pela Fundação Joboarandinense de Ensino Superior (FJES), somente na própria cidade e as despesas correm por conta do candidato.

O tio Xavier decidiu que é hora de ser funcionário público. Vou sim prestar esse concurso. E se passar - acho que dever ser moleza - me mando pra lá de mala e cuia. Tudo bem que eu não gosto de praia, nem de calor. Mas clique AQUI para ver a foto do trabalho que enfrentarei.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Sai capeta

Um amigo meu taxista - o Elson - passou por uma situação hilária um dia desses. Não resisti e, autorizado pelo filho dele, partilharei a história.

Disse que chegou ao habitual ponto de táxi e viu estacionado o carro de um colega gente boa pacas, o Edinaldo, o velho Ed. Tendo estacionado, foi até carro do Ed, que estava com a porta aberta. Lá dentro, Ed estava a fazer alguns apontamentos em um caderno, aparentando cuidadosa organização. Elson disse não ter resistido e bisbilhotado as anotações. Eis o que o amigo anotava:

"Dia tal hora tal, corrida de D.Fulana. Valor R$100,00, a receber dia tal. Valor do Senhor R$10,00" e colocou dez reais em uma caixinha que estampava uma logomarca parecida com um coração, que não lhe era estranha. Meu amigo não se conteve e perguntou:

- O Ed, o que é esse valor do Senhor?
- De tudo o que eu ganho, dez porcento eu entrego ao Senhor.
- Como assim?
- Eu sou membro da Igreja Universal do Reino de Deus - disse exibindo a logomarca da igreja na caixinha - e não falto jamais com o dízimo do Senhor, pois ele não falta comigo.
- Mas como você dá essa grana pro Senhor?
- Ah, Elson, eu entrego pro pastor na igreja, ora.
- Epa, mas você nem recebeu da D.Fulana. Como pode repassar dízimo de uma féria que sequer recebeu?
- Eu sei que vou receber, porque o Senhor a tudo me provê.
- Pô Ed se liga. O Senhor precisa de grana? Você na verdade não está sustentando as mordomias dos pastores da IURD, pra eles ficarem andando de BMW, viajando para o exterior e morando em condomínios de luxo?

O tal Edinaldo abriu a porta quase em cima do pobre Elson. Ao contrário do cara amigo e pacato, Ed aparentava um certo furor, com os olhos arregalados. Elson ficou paralisado aguardando uma reação abrupta do convicto dizimista. E eis que o crente levanta uma das mãos coloca sobre a cabeça do colega de ponto, proferindo quase aos brados:

- Sai demônio sujo e imundo do corpo desse homem! Senhor Deus mostrai como disse o profeta Malaquias, que (...) - e seguiu-se um roteiro interminável de glorificações, maldições, clamores e até agradecimentos pelos abençoados pastores que dirigem a IURD - (...) isso eu te peço pelo poder do sangue do Teu Filho Jesus! Amém! Amém! Amém, Senhor!

Elson resignado e talvez arrependido pela perda de tempo, disse que deu de ombros e voltou para o seu carro a aguardar seu lugar na fila por passageiros.

Quem manda se meter no caderninho de dízimo alheio? O mundo tem malandros porque tem otários, ora bolas.

domingo, 31 de dezembro de 2006

Has gone

Essa bela imagem, embora desfocada e de iluminação ruim é supostamente do enforcamento do Saddam Hussein. Essa execução na verdade não acrescenta nada ao povo iraquiano. Seria diferente caso fosse oriunda de uma revolução popular do próprio povo iraquiano. O que ocorre é que o povo do Iraque está sendo subjugado à força por outro opressor. Diga-se de passagem que o atual trouxe consigo a anarquia, os estupros, a pilhagem dos lares, a derrocada econômica e as mortes gratuitas. Ao contrário do enforcado que ao menos mantinha o que eu chamo de "ordem de chicote" e "paz de cemitério".

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Under construction

O que pode ser mais frustrante para alguém sem programa noturno hoje?

Vem pra Caixa você também

Cena do cotidiano:

Um idiota vai à agência da CEF em Itaquera. Para quem não é de Sampa, Itaquera é um bairro longínquo, quase além da civilização. Lembra aqueles aqueles seriados americanos com fundamentalistas Quackers se organizando em fazendas e colônias. Isso é Itaquera. Já a CEF todos conhecem. Well, ao adentrar a agência o babaca aqui é quase impedido por uma estagiariazinha - bem graciosa, por sinal - mas com um velho roteiro para enganar os pobres analfabetos:

- Senhor, já fez o agendamento do serviço?
- Não queridinha, que agendamento?
- Para qualquer coisa que o senhor 'vá estar fazendo', precisa 'estar agendando' - aspas minhas para os insuportáveis gerúndios - para poderem 'estar chamando'. Só que para hoje não tem mais agenda.
- Sim, mas eu vou pagar a prestação da minha casa e o banco ainda está aberto. São quinze horas.
- Mas o senhor não pode 'estar entrando' porque não vai 'estar sendo atendido'.
- Olhe senhorita, me desculpe os têrmos, mas EU VOU 'ESTAR ENTRANDO' NESSA PORRA DE BANCO, PORQUE NÃO EXISTE CARALHO DE AGENDA NENHUMA. ISSO É PROIBIDO POR LEI. CASO TENTE 'ESTAR ME IMPEDINDO DE ESTAR ENTRANDO E ESTAR PAGANDO' MINHAS CONTAS, EU PODEREI 'ESTAR CHAMANDO' A POLÍCIA. Tudo bem? - arrematei com um sorriso cortês e cínico - .
- Bem, nesse caso o senhor pode entrar, mas não poderei 'estar agendando' aqui - persistiu a pobre criatura - .

Eu juro que pensei em 'estar mandando ela estar enfiando' a agenda em algum local discreto, mas a moça era tão bonitinha que me proibi de ser mal-educado com ela. Simplesmente entrei. Depois de checar o local, vi que a retaguarda da tal agenda era em uma mesinha ocupada por outro pobre estagiário.
- Por favor, coloque meu nome aí para me chamarem.
- Já está. O senhor não agendou lá na entrada?
- Não, a moça me disse que não tinha mais horário.
- Ah.. Sinto muito então porque...

Saí de perto do jovem para não ouvir o resto e liguei para o 190. Expliquei rapidamente e fui atendido pela policial do COPOM com mais espírito de serviço do que naquela bosta de banco. Ela ainda me perguntou se eu estava sendo coagido fisicamente ao que neguei. Então, a policial apenas me orientou a tentar resolver pacificamente. Mas me incentivou para que à menor tentativa de coação física ou moral, eu ligasse novamente, que eles enviariam soldados para garantir meus direitos.

Nesse momento senti-me como morador de um país onde as instituições funcionam. Eu sei que foi um lapso de pensamento. Mas as palavras da policial ao telefone me causaram vontade de cantar o Hino Nacional no meio da agência com a mão direita no peito. Passado o rápido devaneio, dirigi-me ao estagiário interno do departamento de agenda-pega-trouxa. Fiz uma cara de Jack Nicholson e falei pausadamente:
- O meu jovem querido, acabei de falar com o Comando da Polícia Militar. Me inclua nessa bosta de lista ou eles virão aqui. Será muito chato ver você sair algemado por causa de uma merda de banco, que nem lhe paga um salário decente. Sacou?

Fique surpreso com a prontidão do jovem. Essa juventude ainda vai fazer deste um grande país, sabe? Ele imediatamente incluiu meu nome, ainda que na 18474847ª posição da lista. Era a lanterna mesmo, mas que ao menos me garantiria o atendimento dentro da data corrente. Lá fiquei esperando quase feliz não fosse pela multidão à minha frente. Parecia que todos os figurantes de "Os Dez Mandamentos" tinham ido àquela agência receber o cachê.

Aí entre um devaneio e outro, resolvo sair de fino e subir umas escadas que davam em um mesanino. Lá parecia o atendimento vip da Tiffany´s. Internet, sofás, água gelada e o escambau. Em nada se parecia com aquele salão abarrotado proletários suados no andar de baixo. Não resisto e me dirijo a uma mesa onde duas jovens senhoras, portadoras de crachás de gerente, pareciam se afogar em meio aos papéis:
- Nossa, posso pôr fogo nessa papelada toda? Vocês parecem ter trabalho até 2.009 aqui.
- Você nos faria um imenso favor - respondeu uma delas rindo - mas não diga que eu autorizei.
- Pena que não posso ajudá-las, mas quem sabe vocês conseguem a mim, vejam só... blá blá blá blá blá... E eu ainda preciso chegar ao centro de S. Paulo antes das dezessete horas.
- Espera que vamos pedir para a menina lhe chamar - pega o interfone - alô, fulana? Estamos aqui com o tio Xavier, faz um favor pra gente? Põe o nome dele na frente da lista... é... ele vai fazer uns serviços no caixa... obrigada, viu fulana? Tio desça lá que já vão lhe chamar.
- Muito obrigado, viu? Vocês não sabem o quanto me ajudaram.
- Não tem de que, tio. Feliz Ano-Novo.
- Pra vocês um ótimo. Valeu hein? E vê se dão um fim nesses papéis.
- Bem que a gente queria.

Moral da história: Banco é uma merda.

domingo, 17 de dezembro de 2006

Retrospectiva 2007

Retrospectiva do ano que já passou é coisa de jacu. Todas as emissoras já fazem isso há décadas. É um saco e ninguém mais agüenta. Por isso, o tio Xavier, mestre em ciências ocultas e portador de dons sobrenaturais, lança um conceito totalmente novo: a Retrospectiva do Próximo Ano (RPA). Não se trata de previsão, que também é coisa batida e praticada por Mãe Dinah e outros picaretas que freqüentam o sofá da Luciana Gimenez. A RPA enquanto ciência consegue precisar nomes, datas e locais, de forma incrível. Chega de papo e vamos a ela:


JANEIRO/2007
A cerimônia de posse do presidente Lula teve menos pompa e circunstância do que a anterior. O cerimonial do Palácio do Planalto temeu que houvesse um esvaziamento de populares, o que não ocorreu, pois povinho bunda e baba-ovo é o que não falta neste país. O Rolls-Royce presidencial não falhou desta vez, pois o motorista foi advertido de que aquela gasosa da primeira posse, comprada a R$1,50 não devia ser muito boa. Neste ano o posto foi escolhido por técnicos bolivianos especializados.

FEVEREIRO/2007
Olha a Mangueira aí, geeeeente! O tumdumpararacundumdumdum é ensurdecedor. A LIES organizou magistralmente o carnaval carioca, provando que as únicas coisas organizadas neste país são o narcotráfico, o carnaval e a corrupção. Em São Paulo, a versão garoenta do carnaval nem foi tão pomposa. Dentinho, o presidente da Gaviões organizou um protesto do lado de fora do Sambódromo, conclamando os populares a não comprar ingressos, mas ninguém deu bola. Afinal quem vai dar bola pra um líder de torcida de um time que nem futebol tem mais?

MARÇO/2007
Depois de dois meses de vadiagem e com salário parlamentar dobrado, Brasília começa a funcionar. Ao invés de se alegrar, a população tem motivos para temer. É agora que a roubalheira pega embalo. Em Salvador, o Carnaval ainda está a todo vapor. Os trios elétricos ainda não conseguiram chegar na Castro Alves por causa dos milhões de foliões suados e bêbados, que não desocupam os arredores. Daniela Mercury, Ivete Sangalo e os insuportáveis do Chiclete com Banana estão há 30 dias sem banho. Uma equipe do Guiness Book foi destacada para garantir o recorde fedorento.

ABRIL/2007
O mês já começou com um feriadaço na Sexta-feira Santa. Melhor emendar mesmo. Em Brasília, Congresso e Senado vazios, pois com o ponto facultativo da quinta nenhum parlamentar saiu de sua cidade de origem pra roub... (ops!) trabalhar apenas um dia e meio. Foi melhor assim. Isso reduz a formação de quadrilhas. O deputado Clodovil em entrevista dada em sua casa, diz que isso é um absurdo.

MAIO/2007
O mês já começou com outro feriadaço do Dia do Trabalho. Melhor emendar mesmo. Em Brasília, Congresso e Senado vazios, pois com o ponto facultativo da segunda, nenhum parlamentar saiu de sua cidade de origem pra roub... (ops!) trabalhar apenas dois meios-dias. Foi melhor assim. Parlamentares são péssimos quando se juntam. O deputado Frank Aguiar aproveitou pra fazer um show patrocinado pela Petrobrás.

JUNHO/2007
O mês já começou com outro feriadaço do Corpus Christi. Melhor emendar mesmo. Em Brasília, Congresso e Senado vazios, pois às sextas-feiras nenhum parlamentar trabalha e nenhum saiu de sua cidade de origem pra roub... (ops!) trabalhar apenas um dia e meio. Foi melhor assim. Brasília fica bem sem os políticos. O deputado Enééééias defende o fim dos feriados religiosos e a produção da bomba-atômica brasileira.

JULHO/2007
Descoberto um esquema milionário de fraudes em Brasília, envolvendo deputados do PT, PMDB, PFL, PSDB, PPS, PTB, PCdoB, PRONA, PPS e outros dez partidos. O procurador-de-pêlo-em-ovo da
República, José Caxias Franco dos Santos, denunciou que os relatores de todas as CPI´s recebem propina para picaretar os relatórios e sumir com provas irrefutáveis. Instaura-se a CPI das CPI´s. Só que não conseguiram eleger o relator, porque o novo regimento exige que para isso o cara não pode ter sido ser citado como suspeito em outra CPI. Agora danou-se. A CPI das CPI´s não decola por falta de quórum.

AGOSTO/2007
Com o PIB calculado pela equação -b*b²-4ac, o Presidente Lula anunciou pela 8.511.938ª vez que tem um novo plano do Cebolinha para derrotar a Môn... (digo) miséria. Todos acreditam nele de novo, por falta de opção e porque o Lula conseguiu de fato acabar com a miséria de toda a família dele. Então o cara é bom mesmo. O povo decide deixá-lo falando sozinho na Radiobrás lá e ir pro trabalho, senão o patrão desconta o dia e o domingo.

SETEMBRO/2007
O mês já começou com outro feriadaço... (o resto você já sabe). Um dia a menos, um roubo a menos. O deputado Paulo Maluf decide ficar em Brasília. Estranho hein? Melhor ficar de olho nele.

OUTUBRO/2007
O Governo faz previsões funestas quanto ao PIB. Ficaremos abaixo do projetado, por causa do aperto fiscal, do câmbio, da embreagem e do freio-de-mão puxado da Economia. Enfim, somos uns lixos mesmo. O pior PIB da América Latina. Mas nem temos tempo pra pensar nisso, pois o despertador toca às seis da matina, o batente nos espera e já estamos fazendo coleção de "Avisos Importantes" em nossa caixa de correspondência.

NOVEMBRO/2007

Já no primeiro dia os comerciantes anunciam as liquidações de Natal. Está duro fazer o caixa pra pagar o 13º. Nos calçadões, os camelôs se fartam de vender brinquedos defeituosos e idiotas, todos movidos à pilha. Pilhas ruins que eles mesmos vendem, com marcas como Panabronik, Somy e Durabell. O insuportável Márcio Canuto percorre a 25 de Março entrevistando donas-de-casa desocupadas, que vão lá encher a sacola de inutilidades, comer churrasco-grego e abacaxis de barraquinha, achando que fazem uma puta economia com isso. A PF promete uma nova operação, para desmantelar os mafiosos chineses da Galeria Pagé. Prende dois suspeitos, iniciando uma investigação sigilosa. Os contrabandistas estão morrendo de meda.

DEZEMBRO/2007

O presidente Lula anuncia em cadeia nacional que "nunca este país viu um programa social como o bolsa-bolsa". É que de tantos programas sociais como bolsa-família, bolsa-escola, bolsa-moradia, bolsa-gás e bolsa-cachaça, o governo percebeu que os assistidos não estavam tendo como transportar tanto dinheiro. Então o bolsa-bolsa foi um programa idealizado para que os pobres tivessem onde transportar e guardar seu dinheirinho. Decretado o estado de calamidade, o governo firmou um convênio sem licitação com a Daslu, para distribuição de bolsas. O convênio foi sugestão da Marta Suplicy. O deputado Celso Russomano promete investigar se houve dano ao consumidor.

sábado, 16 de dezembro de 2006

Vai que é sua, Nerivan!

Como já comentei algumas vezes o tio não se dá ace$$o à TV por assinatura. Dessa forma resigna-se a ter em casa somente os canais abertos da maravilhosa TV brasileira. Embora a recusa em pagar possa ser confundida com avareza, esclareço que não é bem assim. O tio se sacrifica e paga por aquilo que preza usar, o que exclui previamente a TV. Meus gastos mensais com banda larga, equipamentos de informática e mesmo as aquisições de aparelhos sonoros superam de longe qualquer importância que eu quiçá cogitasse pagar pelas diversões televisivas. Enfim, TV para mim é algo quase dispensável. Já o computador, um vício.

Neste momento estou com meu notebook na sala de minha casa. Entre uma navegada e outra na internet ouço minha coleção em mp3 do saudoso grupo americano Shalamar. A TV está ligada na Gazeta. Porém tirei o som. As imagens que estou presenciando são de um programa de décima categoria. Há um ilustre desconhecido apresentando atrações musicais cujo visual é bizarro: mulatas e caboclas de cabelo mal-pintado de loiro rebolando, baianinhos bombados vestindo camisas babylook, cantando e rebolando tanto quanto aquelas e pseudo-músicos encenando o instrumental. O apresentador traja uma camisa branca que seria bem básica - até aí melhor assim - se não ostentasse um imenso logotipo dourado, de cerca de 20cm de diâmetro do lado direito do peito. Mais cafona impossível.

Cafona aliás é apelido para os programas da TV aberta. Engraçado é como mesmo alguns que tentam se disfarçar de sérios alternam suas entrevistas, depoimentos e cenas dramáticas com breaks para merchandising de poções mágicas emagrecedoras, acessórios de ginástica milagrosos e quinquilharias de todo tipo. Um hit é a famosa câmera filmadora, com seus infinitos 40MB de armazenamento, suficiente para guardar no máximo 2 minutos de vídeo dos incautos compradores. Normalmente esses apresentadores "C" alugam os horários ou racham a verba de publicidade com a emissoras, em troca do pedacinho da grade. Ou seja, jamais se terá algo de qualidade com esse modelo de alocação sustentado por merchan indiscriminado e jabá.

Assim cria-se um mundo das celebridades de quinta categoria. Entre os conscritos vemos tipos tão extraterrestres que não dá para acreditar. As sainhas plissadas de 10cm de altura, com os infalíveis saltos altos e batons vermelhos das supostas dançarinas formam um sustentáculo de vulgaridade para as proto-bandas, tanto quanto os refrões grudentos sobre obscenidades gratuitas, triângulos amorosos e dores-de-corno. E olhe, que são apenas 4 da tarde.

Nerivan Silva. Agora apareceu no prompt o nome do apresentador, composto por letras dentro de estrelas douradas. Putz, melhor colocar no canal AV1 e rodar meu VCD pirata dos Simpsons. Fui.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Vai jogar flores na casa do cacete

Gente, essa bosta que toca 4.198.406.541.064 vezes diariamente nas rádios deve pagar um jabá milionário. Não é possível. Se é que não estou sendo muito exigente, tente achar um conjunto de frases que forme um pensamento conciso no "texto" abaixo:

"Eu sei, tudo pode acontecer
Eu sei, nosso amor não vai morrer
Vou pedir ao céu, você aqui comigo
Vou jogar no mar, flores pra te encontrar

Não sei porque você disse adeus
Guardei, o beijo que você me deu
Vou pedir aos céus, você aqui comigo
Vou jogar no mar, flores pra te encontrar

You say good bye, and I say hello
You say good bye and I say hello
Ohohoh
Yeah yeah..."

(ainda bem que Lennon foi cremado, assim ele não virará de bruços)

Democracia cultural é isso mesmo. Se o populacho exige merda, dê merda. Aliás, venda a merda porque haverá quem pague.

Eu acabo de escutar Bye Bye Brasil, com o Chico Buarque, e uma pergunta não quer calar: ainda há vida inteligente sobre a terra?

Ps.: Vai jogar flores na pqp antes que eu me esqueça.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Entre contas e diplomas

O Tribunal de Contas da União (TCU) mantém até este momento a reprovação à prestação de contas da campanha 2006 do candidato Luiz Inácio Lula da Silva. O caso é um velho conhecido de todos os candidatos e partidos: operações com dinheiro de origem suspeita e coisinhas assim.

Com isso, a diplomação de Presidente da República marcada para o dia 14 próximo poderia até não rolar. Poderia, porque a própria assessoria de imprensa do Tribunal Superior Eleitoral já assegurou que a diplomação correrá de qualquer forma. Essas coisas de aprovação de contas de campanha, segundo os políticos apregoam, é mera tecnicalidade. Agora tente você, contribuinte do IR, dar um gato malfeito na sua declaração anual e verá que existem tecnicalidades e tecnicalidades.

Resumindo, Lula receberá o segundo diploma de sua vida de qualquer modo. Como todos podem ver, diploma neste país nunca foi um problema, quanto menos para ele. Aliás, para quê serve o diploma mesmo?

(Ps.: Dispenso respostas mal-educadas e gracinhas sobre o formato do canudo)

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Turistas: O filme

"Filme põe gringos em apuros no Brasil:

´Num país onde vale tudo, tudo pode acontecer´, diz o trailer de 'Turistas'.

SÃO PAULO - Seis jovens americanos bronzeados e malhados divertem-se numa praia brasileira paradisíaca. Bem à vontade, uma das meninas decide fazer topless. Os universitários bebem, jogam futebol e curtem amassos calorosos numa cachoeira. Assim começa o trailer do filme 'Turistas', o primeiro longa da Fox Atomic, divisão da Fox Films para o público de 17 a 24 anos, que será lançado nos Estados Unidos em 1º de dezembro.

Até aí, trata-se apenas de mais um ´filme americano cheio de estereótipos´, como admite a assistente de direção da película, a brasileira Dayse Amaral. Na continuação do trailer, no entanto, percebe-se que 'Turistas' vai um pouco além dos eternos lugares-comuns sobre o Brasil. ´Num país onde vale tudo, tudo pode acontecer´, diz o vídeo, enquanto imagens mostram os jovens sofrerem o golpe do ´Boa Noite Cinderela´ e serem feitos reféns numa casa na selva.

´É uma história de Terceiro Mundo´ , explica Dayse... " (a idiota prossegue mas truncarei a matéria por aqui)

FONTE: ESTADÃO, mas está cheio de links na internet.

***

Vamos à crítica cinematográfica do tio

As premissas: Fique claro como um dia de sol que o tio Xavier nasceu em Pindorama talvez por acaso, mas ama de paixão a terra onde cava seu sustento. O amor do tio nada tem a ver com os políticos que a governam ou com assistentes de direção de filmes trash, que fazem qualquer coisa por dinheiro. É apesar deles e é um amor irracional, como a maioria dos amores.

A quem acha que estou errado sugiro pegar as malas e sumir daqui, pois será um favor. Tente entrar clandestino em Portugal ou na Espanha e talvez se dê bem. Ainda mais, se achar que o tal filme está certo, sugiro ir para o México e tentar atravessar a muralha do Bush e dos fundamentalistas de merda que o apoiam. Vá com os mais sinceros desejos do tio de que seja mal-sucedido(a), morra de insolação ou desidratação, ou ainda quem sabe de um tiro de fuzil, ao tentar cruzar a fronteira. Os coiotes (os do reino animal) e abutres apreciarão deveras.

Sobre o filme: Na minha imodesta opinião, os americanos podem enfiar seus turistas e películas cinematográficas nos respectivos orifícios anais. Não me consta que o Brasil seja um país fértil em receita advinda do turismo, sobretudo porque explora-se muito mal os recursos naturais para isso e carece-se de mão-de-obra capacitada. Mas esse problema é do Sindicato dos Hotéis e da Embratur. Vão treinar seus funcionários.

Agora, relativamente aos turistas do tipo ilustrado no filme, não vi problema nenhum no enredo. A maioria desse tipo vem aqui par fazer turismo sexual e inclusive pedofilia. Que mal há em se foderem? Logo, o objetivo fora atingido.

E tenho dito.

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Ali has gone

Embora eu o tivesse conhecido há bem pouco tempo, Ali J. Mohamed se tornara um amigo desses impagáveis. Posso dizer que, de um ano para cá, onde eu estava Ali quase sempre estava. Sua espontaneidade e bom-humor contantes contrastavam com a imagem que até então eu tinha dos adeptos da religião dele. Temos por idéia padronizada que o Islã de Maomé e de Alah não combina com alegria, com festividade e com piadas politicamente incorretas. Entre outras coisas, Ali mostrou-me na prática que essa idéia é totalmente errada.

Curiosamente também Ali cultivava gostos bem exóticos para um afegão. Música negra e artistas norte-americanos da Motown não são lá uma coisas muito comum, para um povo que tem quase por norma repudiar a tudo o que vem dos EUA. Mas Ali não era um cara comum. Nunca fora. E a troca de músicas em .mp3 de artistas como Marvin Gaye, Earth Wind & Fire, Barry White e até mesmo do The Jacksons fez-nos amigos. Nunca imaginei que um simples software P2P de compartilhamento de arquivos fosse capaz de originar amizades verdadeiras. Do mundo virtual para o mundo real.

A única coisa que sempre me intrigou foi Ali evitar sempre comentar seu passado e coisas de família. Ele demonstrava ser o mais reservado de todos os seres que conheci, quando eu perguntava sobre seu casamento anterior, sobre a sua relação com os filhos e sobre a cidade onde morou no interior de São Paulo, logo que veio para o Brasil. Praticamente nunca falou nada. Pelo pouco que sei, ele fora casado e fruto dessa relação, pai de um casal de filhos. Era nítido que o assunto o incomodava e não seria eu a perturbá-lo com isso, se preferia nada falar.

No mais o amigo era bom trabalhador, honesto, habilidoso e magnético no trato com o semelhante. Era também muito inclinado às ciências. Estudara em uma Universidade Islâmica no Afeganistão no final da década de 80 mas não concluíra os estudos, posto que fora cuidar dos negócios de comércio da família.

Infelizmente, na noite passada Ali ao chegar em casa, abriu seu Orkut e viu algo pelo qual não esperava. Uma dezena de familiares de sua ex-mulher o localizara no site de relacionamentos, não se sabe como. Ao ver em seu mural a série de recados com gracejos e frases engraçadinhas como: "Aí hein Ali, nunca falou que tinha perfil no Orkut" e pedidos de "Me add, tio" vindo de ex-parentes, que ainda se consideram sobrinhos, Ali enlouqueceu. Correu em desabalada carreira até a avenida próxima de sua casa e atirou-se sob um ônibus que descia velozmente rumo à Cidade Tiradentes. Quase tão rápido quanto um clique do mouse, Ali simplesmente deixou de existir para tornar-se apenas uma lembrança para os que os conheceram.

E assim, Ali nunca mais postará suas frases ácidas, nem irônicas, nem entediadas nas comunidades do Orkut, nem no Msn no qual passava horas a fio se entretendo com suas amigas e amigos.

Que o Alah, que ele tanto mencionava, o receba no harém celestial e lhe entregue as cem odaliscas prometidas. Sua expressão de debochado e suas tiradas de sarro ligeiras sempre ficarão em minha mente.

Fique bem, amigo Ali.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Drops VHS

Com a licença profissional do meu amigo Ricardo Lunghin, diretor de artes e crítico que escreve uma coluna sobre cinema, tio Xavier o parafraseou no pior estilo de crítico de botequim.

Se você quiser assistir a um filme bonito, bem feito e baseado em uma história verídica, De porta em porta (Door to door) é uma grande pedida. Não sei de quando exatamente é o filme, mas a fita originalzinha e legendada que me chegou às mãos está datada de 2003 pela Warner™. Foi uma amiga muito gente boa quem me recomendou e emprestou. Gostei tanto que já estou levando para um sujeito no bairro que converte de VHS para DVD, pois não achei o título em nenhum catálogo. Doravante a cópia digitalizada fará parte do acervo pessoal do tio para merecidas reprises domésticas.

O filme conta a história de Bill Porter, um sujeito com deficiências motoras provocadas por paralisia cerebral, decorrente de um parto malsucedido. Imagine que por si só um sujeito desses já tenha dificuldades de todo tipo. Quanto mais para conquistar um emprego e garantir sua autonomia econômica. É final da década 60 e, no interior dos EUA, o jovem Bill Porter sai a campo para cavar um posto de trabalho. Consegue uma vaga de vendedor na Watkins Co., empresa que faz venda domiciliar de produtos de consumo. Não sem resistência do gerente local. O emprego só é concedido porque Bill se propõe o desafio de assumir a zona de venda mais difícil da empresa, justamente aquela que ninguém queria. E venceu com honra.

O drama - volto a lembrar que é real - atravessa as mazelas do preconceito na busca da dignidade pessoal, mas é sobretudo uma história sobre amizade e solidariedade. Bill Porter tornou-se referência profissional na Watkins pelos resultados espetaculares de suas vendas. Mas, acima do trabalho, ele venceu na vida porque soube perscrutar o âmago dos clientes a quem atendeu, convivendo com cada ser-humano, em seus anseios e angústias. Bill sempre levava seu infalível bom humor e seu otimismo constante, além dos catálogos e produtos da empresa para quem trabalhava.

Bill Porter nos ensina que o que falta à maioria dos seres humanos é colocar a alma, de forma aberta e positiva no seu cotidiano. Se lhe faltavam atributos físicos, sobravam-lhe dignidade, honestidade e transparência de espírito. Aprendamos com Bill Porter.

Vale à pena procurar pelo filme e assistí-lo. Saiba mais sobre Bill Porter no site da Watkins.

FICHA TÉCNICA:
Título: "De Porta em Porta" (Door to door)
Roteiro: Willian H. Macy e Steven Schachter
Atores principais: Kyra Sedgwick e Helen Mirren
Distribuidora: Warner™ Home Video

Fala guerreiro

Recentemente atentei para uma expressão muito comum que se ouve por aí: "Fulano é guerreiro". Não sei onde ou de quem a ouvi recentemente, mas lembro que é muito freqüente. E não é só isso. Vejo alguns arrogarem o título para si. Então dediquei algumas saudáveis horas de ócio refletindo sobre o significado dessa palavra. O que é um guerreiro e o que significa atribuir a alguém esse substantivo-adjetivo?

Rememorando as situações em que ouvi alguém dizer isso, cheguei a uma pretensa definição genérica. Guerreiro é uma pessoa que batalha, sua, luta e dá sangue pela sua causa. No caso do guerreiro de fato é o que atua em guerras por causa do ideal, do país ou seja lá do que for que defenda ou almeje conquistar. Trazido para o mundo das das pessoas comuns, o têrmo costuma ser atribuído a pessoas que batalham, suam, lutam e dão o sangue, só que sustentar-se, manter a vida ou conseguir conquistar um bem. Até aí entendi a atribuição do nome para determinadas pessoas.

O que me causa mais indignação é que é fato comum que a maioria das pessoas se orgulhe de ser mencionado como o tal guerreiro. Daí porque muitos se auto intitulem-no o próprio. E enchem o peito dizendo: "Eu sou guerreiro mesmo". Como sou inimigo voraz do senso-comum - que geralmente orbita a mediocridade - fiquei pensando no que haveria de errado nesse raciocínio. E chegue à seguinte reflexão:

Quer dizer que é bonito se ralar, se ferrar, sangrar, perder unhas e cabelos, suar e o escambau para conseguir algo? À pqp, que as pessoas achem bonito neguinho acordar de madrugada, trabalhar como um escravo egípcio e fazer um sacrifício lascado para comprar um mísero carro popular, uma casa na periferia ou pagar uma faculdade de terceira. Sem essa. É bonito isso? Vá pro inferno se achar que sim.

O que pode haver de glamoroso e belo em alguém dar o melhor de seus anos para o trabalho árduo e conseguir tudo com dificuldade? Onde fica o desfrute da vida, os momentos bons e a recompensa? No céu? Os tontos adeptos do senso-comum chegam à aberração de dizer coisas idiotas como "Quando vem fácil parece não tem valor", "Quando a gente consegue com dificuldade é mais gostoso". Que gostoso o cacete! É ruim pra caramba ter dificuldade para conseguir algo. Só consigo imaginar que essas filosofias baratas e idiotas sejam disseminadas a mando dos banqueiros, dos grandes empresários e dos governantes, para a finalidade óbvia de manter o povinho tonto trabalhando como camelos e ainda feliz por isso. Só pode, por que senão a quem interessa esse discurso babaca?

O tio Xavier é honesto e gosta das coisas fáceis, sobretudo quando se trata de grana. As melhores lembranças de ganhos que tive foram em operações mamão-com-açúcar, com uma vez há uns dois anos, quando embolsei quase quinze paus de comissão em um só cheque. Foi simplesmente por ter levado o cara certo no cliente certo e na hora certa. Não há grana mais gostosinha que essa. Tive depois ainda outra feliz ocasião com importância maior que não vem ao caso contar agora.

Atenção: Faço questão de ressaltar que esses lances foram dinheiro honesto, limpo e advindo de atividades legais. Mas facinho, facinho. É disso que eu gosto. Tio Xavier tem uma tremenda vocação para buon-vivant.

Ps.: Se um dia você conseguir algo fácil e achar que não foi bom porque foi fácil, doe para o Tio Xavier. Eu quero é moleza. Vá guerrear você.

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Pedreiros

Os caras são na maioria seres bestiais, que insistem em circular nas comunidades humanas, beneficiados pela sua ilusória aparência de bípedes hominídeos. Isso nos induz ao erro de contratá-los.

Quem nunca passou agonias e tormentos com pedreiros - ou seus correlatos da obra civil - que atire o primeiro torrão de cimento. A não ser que resida em um trailler. Só pode. Porque o tio não conhece um só ser humano que não tenha uma boa e enervante ocorrência para contar a respeito deles. Tendo mudado de casa algumas centenas de vezes, tio Xavier coleciona motivos para sentir vocação para serial killer especializado em pedreiros. Quando estou diante de um pedreiro eu ouço vozes que ficam me repetindo "mate-o... ele é mau..."

Mas pretendo não discorrer sobre minha recente - e ainda corrente experiência - porque neste exato momento estou ouvindo as vozes. Nem sei se o dito tem algum nome, porque ele foi apresentado a mim como "Baxinho" (sem o i mesmo). Baxinho é um ser de estatura inferior à recomendada pela FAO/ONU, oriundo de algum país do nordeste brasileiro e é do tipo faz-tudo. Segundo seu auto-testemunho, que vale tanto quanto uma cédula de três reais, ele só não mexe com aletissidadi. Eu acho isso uma pena. Ao menos a eletricidade seria capaz de castigá-lo pela porquice do seu trabalho eletrocutando-o fatalmente e libertando a humanidade para sempre da existência dele. Como acabaram meus comprimidos de Magnésia Bisurada® falarei tão somente de aspectos gerais e universais desses bípedes.

O orçamento do serviço

Uma ocorrência comum a todos é na visita de orçamento. Todos eles, sem exceção, olham para o imóvel, fingem ouvir a descrição detalhada do objetivo do pobre contratante e chutam o preço. O preço não segue nenhuma lógica mensurável, como tempo de trabalho ou coisa assim. É que na verdade eles não olham para seu imóvel e sim para seus bens duráveis: carro, computador, dvd-player, microondas, secadora, aparelho de som, tudo para ter uma noção de quanto você é capaz de desembolsar. Não sem os habituais comentários de que os serviço é fácil, rápido, já fizeram mais de cem obras como a sua e não demorará mais do que X tempo. Muita atenção para esta variável (X). O que o pobre tomador de serviços não sabe nesse instante, é que a equação para cálculo do tempo real do célvisso pode ser representada matematicamente da seguinte forma:

TR = X³ x 10¹²
Onde:
TR = Tempo real; X é a variável de tempo prometida pelo desgraçado. E se chover no decorrer da obra, pode duplicar o expoente que dá certinho.

O material

Lembremos que a maioria esmagadora desses imbecis é composta de seres incapazes de ler ou escrever o próprio nome. Então lhe pergunto: como é que você confia nos números de necessidade de material proferidos por ele, se envolvem cálculos de metragens quadradas e cúbicas? Te peguei, né? É porque você é tão ou mais idiota do que ele. Então se resigna a aceitar os cálculos dos caras, precisos como um bombardeio da segunda guerra. Da lista de materiais fornecida pelo pedreiro, pode acreditar que:
1) Faltará piso ou azulejo. O montante recomendado não dará nem pro rodapé. E ao procurar comprar mais não achará do mesmo lote tendo que se contentar com tons diferentes.
2) Sobrará argamassa que dará para consertar Itaipú, se vier a rachar.
3) Os "recortezinhos" de piso inutilizarão 70% do material.
4) A pedra, o cimento e a areia excedentes entulharão sua garagem por décadas após a empreitada.
5) 90% das madeiras solicitadas para escoras, andaimes e enchimento de colunas não serão jamais utilizadas. Mas você nunca saberá, porque elas sempre estarão no chão e sujas.
6) O martelo que ele pediu também nunca será usado, porque ele baterá os pregos com seu melhor alicate.
7) As suas chaves de fenda, independente da marca, serão usadas como talhadeiras e ficarão irreconhecíveis.
8) Não acredite na bitola do conduíte que ele vai recomendar. Acredite no tio: em um conduíte de 1/2 polegada não é possível passar dezoito fios de 3mm de seção. Pense nisso.
9) Mesmo que ele alegue mexer com aletissidadi leia as embalagens dos fios e dos aparelhos elétricos que você pretende ligar. Você concluirá que ele entende de fios menos ainda do que de cálculo de piso. E no caso dos fios, o risco será o de incinerar toda a sua família.
10) Se você não tem capacidade para auditar essas merdas de chutes que ele dá no material solicitado, pague um engenheiro ou um arquiteto. Se não puder pagar, procure um amigo com formação técnica ou superior suficiente. Se não tiver nenhum é porque você está mal de amizades. Procure melhorar seu círculo social.

O decorrer da obra

Ele chegará no primeiro dia do trabalho com a cara vemelhona e um bafo de cachaça insuportável. Isto é, se ele comparecer. Imaginando que compareceu, ele lhe pedirá uma grana ao final do dia alegando que não tem para a condução. Procure não dar mais do que dez reais, porque ao menos ele beberá pouco. Quando der os dez reais, finja que não viu a cara feia do oportunista, que achava que ia receber metade do orçamento só pela avant-premiere dele na sua obra.

Se por ventura ele aparecer no segundo dia, não se engane. Ele zarpará, tão logo você saia pra trabalhar. E assim se sucederá por toda a eternidade a que ele condenará você e sua família, ao convívio com areia e cimento. Ao chegar à noite você terá sempre a impressão de que não houve progresso. Na dúvida fotografe logo cedo todos os dias, sempre do mesmo ângulo. Depois de 120 dias, tente fazer uma animação com a seqüência de fotos. O que você verá será uma desanimação. Nem o Macromedia® Flash será capaz de animar aquilo, já que avanços diários de 2cm de massa corrida não são nada comemoráveis. E no fim de cada dia vadiado, o merda sempre pedirá mais um adiantamentozinho. Uma razão muito comum para a ausência prolongada deles na sua obra é o alto índice de mortalidade nas famílias dos pedreiros. É quase certo que todos os dias morra um irmão, primo, pai ou mãe de pedreiro. Conheci um cuja mãe morreu mais de uma vez. Pelos meus cálculos e considerando os óbitos nas famílias dos pedreiros, já não era pra ter nenhum migrante em São Paulo. A não ser que eles estejam mentindo, hipótese que não considero.

Considerações finais

Minha última dica é comportamental. Procure praticar Yôga ou Meditação Zen. Todas as vezes em que chegar do trabalho faça o seguinte: fique ereto, baixe os olhos ao chão, respire fundo pelo nariz, solte o ar vagarosamente pela boca e ande pela casa olhando o infinito, sem firmar os olhos em nenhum ponto. Praticando esse tipo de desapego, você estará no caminho do Nirvana e evitará descarregar seu revólver na cara do filho da puta.

Quer um conselho sincero mesmo? Convença-se de que sua casa está ótima não faça nada nela. Pense assim e você amará mais sua casa, evitando dissabores oriundos das reformas.

Mas espero que o inferno seja bem grande e o Diabo seja bem acolhedor para com todos os pedreiros.

Profiles híbridos

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quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Parece mais uma do Joãozinho (mas não é)

Em exame oral do curso de Medicina, o professor pergunta:
- Quantos rins nós temos?
- Quatro - responde o aluno.
- Quatro? - replica o professor - . Este era daqueles tipos arrogantes, dos que se comprazem em tripudiar sobre o erro dos alunos.
- Traz um feixe de capim, pois temos um asno na sala de aula! - ordena o professor ao auxiliar.
- E para mim um cafezinho! - replicou o aluno.
Exasperou-se o professor, expulsando o aluno da sala.

O aluno era ninguém menos que o ainda jovem brasileiro Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (1895-1971), posteriormente mais conhecido como Barão de Itararé, título que se auto-concedeu para debochar da famosa batalha que não houve na Revolução de 1930. Fundador do semanário A Manha cujo nome satirizava com seu antigo patrão, o jornal A Manhã. Ao sair da sala, explicou a resposta ao furioso mestre:

- O senhor me perguntou quantos rins nós temos. Nós temos quatro: dois meus e dois teus. Tenha o senhor um bom apetite e delicia-te com o teu capim. Dispensarei o café.

Essa é uma das tantas que se conta de Apparício. E é suficente para nos perguntarmos: quantos talentos podem ser tolhidos diariamente por mestres idiotas e modelos educacionais idem? E o pior: quantos asnos será que prosperam e viram formadores de opinião? É para se pensar. Dia 27 próximo fará 35 anos do falecimento do brilhante jornalista e um dos pioneiros do jornalismo político brasileiro. De onde ele estiver, espero que possa interceder por nós, para não afundarmos o pais na futilidade e na burrice.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Intolerância e macumba judaica

JERUSALÉM - Uma corte suprema rabínica de uma comunidade ultra-ortodoxa judaica pode lançar uma maldição cabalística contra as vidas dos organizadores da "Parada Mundial do Orgulho Gay", prevista para acontecer na próxima sexta-feira em Jerusalém.

A maldição também pode ser lançada contra "os policiais que baterem em judeus ultra-ortodoxos" que se manifestarem contra a marcha. A parada provoca mal-estar entre os praticantes mais radicais do judaísmo, assim como entre representantes do cristianismo e do islamismo na Terra Santa.

"A corte rabínica realizou uma sessão especial e analisou o lançamento de uma ´Pulsa Denura´ (maldição cabalística) contra aqueles que participarem da organização da parada", disse o rabino Shmuel Pappenheim, diretor do semanário Ha´eidah, da comunidade ortodoxa "Eida Haredit". (Fonte: Folha Online)

* * *

A estupidez da humanidade me comove. Das causas de males sociais, guerras e fome penso que ela talvez seja a pior delas. Veja a foto do judeu ortodoxo se manifestando no meio da rua. Ele e sua comunidade são contra a passeata gay que se realizaria nas ruas em Tel-Aviv. Realizaria. Porque até o momento em que estou arrematando este post já é notícia que os organizadores do evento recuaram e direcionaram a manifestação para um estádio fechado. Ainda assim o efetivo policial para proteger os arredores é significativo.

Intolerância. Curiosíssimo é de onde vem as manifestações de repúdio, preconceito e condenação. Há algumas décadas, os judeus caminhavam rumo às fornalhas de incineração dos nazistas, acompanhados de ciganos, comunistas e... GAYS! Agora esses mesmos, que tanto repudiam os crimes nazistas do holocausto e sempre que podem se reivindicam vítimas da injustiça internacional, assumem o mais grotesco papel de intolerantes . Sim, porque agora eles têm "seu Estado" decretado pela ONU em 1948 , fato que não levou em conta inclusive a pré-existência de povos não-judaicos nos locais onde fora implantado. Pasme que os líderes judeus religiosos mais extremados até ameaçam de "macumba-judaica" os participantes e apoiadores do movimento gay. E não parecem estar sós: de acordo com a reportagem, a repulsa perpassa também aos grupos fundamentalistas cristãos e islâmicos existentes no local.

Perguntar não ofende: mas será que dentre esses senhores religiosos ortodoxos tão puros não haverá alguns que apreciem queimar a rosca e apenas estão enrustidos? Não leve a mal. É só uma pergunta.

domingo, 5 de novembro de 2006

Wal-Mart: fale com o presidente

A atenção ao consumidor por parte das grandes empresas reserva surpresas. Além da involuntária rima, o fato que me ocorreu com uma mega-rede foi bastante interessante e frutífero.

Na tarde do dia 27/10 último, entregaram na porta do meu escritório um folheto promocional do Wal-Mart. Ao pegá-lo, folheei o dito com uma desinteressada rapidez pronto para jogá-lo fora. Ocorre que na última página havia uma oferta de um toca-cd portátil. Não me teria chamado a atenção pois a marca era desconhecida e tenho um semelhante há alguns anos. Mas dois detalhes me saltaram aos olhos: primeiramente o preço (R$98,00) e segundamente o destaque para MP3. Há um tempão que eu queria um treco desses portátil com MP3 e só os achava próximos dos trezentos reais. Como bom sovina eu jamais daria "trezentão" em um brinquedo desses. Mas esse era bem barato. Verifiquei a vigência da promoção e constatei que iniciava-se naquele dia e iria até 31/10. Faltando quatro dias para o meu aniversário, nada melhor do que um auto-presente daquele.

Ao final do expediente fui à loja. Qual não foi a minha decepção ao percorrer a seção dos eletroeletrônicos e constatar que não havia nem sinal do mimo. Procurei os vendedores - que felizmente lá existiam - e fui informado de que não havia mais. Imagine: o folheto mal sai do prelo, vou à loja duas horas depois de receber a oferta para ouvir essa estranha notícia. A vendedora ainda simulou alguma atenção anotando meu telefone em um pedaço de papel qualquer, o que não me serviu de consolo. Saí da loja puto e me sentindo o típico idiota. Não sou nenhum acéfalo. Era fato que os departamentos de Logística e de Marketing do Wal-Mart que estavam divorciados.

Na manhã seguinte fucei no site do Wal-Mart ainda na vã esperança de encontrar informações sobre outra loja, onde eu pudesse achar o meu brinquedo. Quem procurar informação no site do Wal-Mart há de achá-lo um lixo. Zero informação relevante. Apelei para o telefone 0800 deles e expliquei meu problema para a atendente gerundista. Ela explicou que não tinha como estar consultando o estoque das lojas para estar verificando onde poderia estar tendo para estar me passando". Dispensei a dita antes que eu pudesse estar mandando ela estar tomando em algum lugar escuso, sem que ela tivesse alguma culpa. Então vi um link no site chamado Fale com o Presidente. Cliquei e andei um e-mail curto e objetivo, narrando os ocorridos.

Para minha grata surpresa, dois dias depois eu recebi um e-mail de uma simpática senhorita. Entre um pedido de desculpas e outro ela informou que o gerente da loja visitada entraria em contato comigo e solucionaria o imbróglio (em conjulgação de futuro simples). No dia seguinte não é que o tal gerente me ligou mesmo? Todo desculposo, perguntou como os vendedores haviam me atendido e coisas assim. No final me disse o que eu precisava ouvir: que o aparelho solicitado estava reservado e eu poderia buscá-lo pelo exato preço da oferta de outrora.

Fui à loja no início da noite e tudo estava de fato como prometido. O aparelho (que nas prateleiras já estava a custar R$218) foi adquirido por este pobre tio por míseros R$98. Mas não é só isso: além de MP3 o dito ainda toca WMA, tem display digital que exibe os nomes das músicas, som com potência e qualidade respeitáveis para o tamanho e o design é bem bonito.


Moral da história:
reclame sempre que tiver razão. Alguém há de atendê-lo.